domingo, 20 de janeiro de 2013

Deus e o Estado de Israel



No próximo dia 22, os israelenses vão às urnas eleger seu primeiro-ministro. Benjamin Netanyahu é o favorito, em grande parte, porque tem apoiado e executado políticas sionistas. Recentemente, em resposta a uma pergunta do jornal Maariv sobre a situação dos assentamentos judaicos em áreas de conflito, Netanyahu foi bastante enfático em dizer que não retrocederá nenhum passo em favor dos palestinos: “Os dias nos quais os buldôzeres retiravam os judeus formam parte do passado, e não do futuro”. Pelo que se vê, o projeto político de Netanyahu está sagazmente embasado no delírio sionista que mobiliza boa parte do eleitorado israelense.

Tomei a proximidade das eleições israelenses como ensejo para discutir uma questão político-religiosa bastante comum no meio evangélico brasileiro. Trata-se da paixão religiosa doentia que certos cristãos fundamentalistas cultivam pelo Estado de Israel.

Antes de entrar no assunto, abro parêntesis para dizer que falarei sobre o Estado de Israel, não sobre o povo Judeu. Sou simpático ao movimento antissionista, mas não sou, em hipótese alguma, antissemita. Para quem não sabe, explico a diferença entre antissionismo antissemitismo.

Ser antissionista é se posicionar contra qualquer política, ação e operação militar de Israel que intencione expandir seu território e/ou negar o direito legítimo dos palestinos de constituírem seu Estado pleno, o que inclui, é claro, o direito ao território. Sei que muitos judeus, talvez quase a metade, é contra as operações terroristas patrocinadas pelo primeiro ministro Benjamim Netanyahu. Isso quer dizer que há, entre os judeus, muitos que são antissionistas.

Ser antissemita é ser contra o povo judeu, considerado, sobretudo, em seu aspecto étnico e religioso. Não tenho nada contra a religião e/ou contra o povo judeu. Pelo contrário. Sou absolutamente empático ao sofrimento pelo qual passaram os judeus ao longo de quase dois mil anos de diáspora. Me posiciono contra todas as barbáries cometidas contra eles, muitas delas praticadas e/ou consentidas por nós cristãos. A perseguição nos séculos XVII-XVIII, sob a égide da inquisição, é uma página horrenda de nossa história. E o holocausto foi uma ignomínia sem correlatos na história, escrita diante dos olhos complacentes de muitos sacerdotes. Deploro todos os movimentos e ações antissemitas. Como cristão, tenho vergonha de ver o nome de Deus metido nisso.

Portanto, quando digo que uma grande parte dos cristãos nutre uma admiração doentia pelo Estado de Israel, me apresento como simpatizante do movimento antissionista, mas sem nenhuma simpatia por qualquer pensamento, ideologia e/ou ação antissemita.

Muitos cristãos evangélicos, ancorados na teologia dispensacional, uma vertente de interpretação literal e fundamentalista da bíblia, nutrem uma simpatia adoecida por tudo que diz respeito ao Estado de Israel. Algumas igrejas chegam ao ponto de manter a bandeira de Israel permanentemente hasteada ao lado da bandeira nacional. Há casos em que pode faltar a bandeira da Unidade da Federação e do Município, mas não a bandeira de Israel. Às vezes, o apego se estende a outros elementos da cultura de Israel relativos à música, vestuários e utensílios religiosos.

Toda essa obsessão por Israel passaria em branco, vista apenas como resultado de uma leitura bizarra, literalista e fundamentalista da bíblia, se por trás disso tudo não houvesse um apoio político quase irrestrito a qualquer ação militar de Israel – ainda que abertamente injusta, violenta, terrorista, arbitrária e capitalista – contra os palestinos (atualmente) e contra qualquer outro povo no futuro.

Segundo a teologia dispensacional, Deus tem um compromisso perene com o povo judeu e com o Estado de Israel. Os desdobramentos dessa teologia indicam que as ações genocidas de Israel para “defender” seu território são legítimas. Tais ações contam com a anuência e, em muitos casos, com a cooperação de Deus. Afinal, a terra de Canaã, toda a extensão que vai, em sentido vertical, da nascente do Jordão até o deserto da Judéia, e, em sentido horizontal, da margem leste do Jordão até o Mediterrâneo, foi prometida por Deus a Abraão e sua descendência. Logo, Israel está no direito de reivindicar essas terras a qualquer momento, usando para isso todo o tipo de força de que dispuser.

Há ainda, entre os dispensacionalistas, como são identificados os evangélicos que seguem a teologia das dispensações, a expectativa de um governo imperial universal, comandado por Israel. Aliás, esse é um dos pontos fundamentais de todas as escatologias milenaristas.

Resumindo e simplificando ao máximo o que dizem os dispensacionalistas sobre os eventos futuros, temos o seguinte esquema:

Num dado momento da história, Israel, depois de um período de apostasia, se renderá novamente a Deus. Isso acontecerá no meio de uma grande guerra, quando Israel, em função de uma aliança militar errada, será traído e se verá diante da ameaça de aniquilamento. Nesse momento, os judeus clamarão a Deus, e Ele entrará na guerra, vencendo a grande batalha do Armagedom. Deus aniquilará todos os inimigos de Israel e restabelecerá a dinastia de Davi. Apenas as nações que tiverem sido aliadas de Israel serão preservadas. Então, de Jerusalém, o novo rei de Israel, um descendente de Davi, governará todo o mundo por um período de mil anos de grande paz mundial. No final desse período, as coisas vão bagunçar de novo... [1]

O grande problema da teologia dispensacional é que ela fornece razões teológicas para os cristãos, apesar das enormes incoerências que isso acarreta, apoiarem irrestritamente tudo que Israel faz. É importante dizer que há nos EUA – o maior parceiro militar e econômico de Israel, com quem forma, possivelmente, o maior mercado fornecedor e consumidor da indústria bélica – uma forte direita religiosa, que vê o conflito no Oriente Médio como um todo, com um olhar muito mais religioso que político. É verdade que a vitória de Obama pôs fim ao desvario fundamentalista e imperialista de Bush. Mas, apesar disso, essa grande direita fundamentalista ainda tem alguma influência política.

No Brasil, praticamente todo o movimento pentecostal e neopentecostal tem suas raízes no fundamentalismo norte-americano. Nas denominações históricas também circula uma visão um tanto fundamentalista sobre a identidade e papel geopolítico de Israel. Embora não descendam diretamente do movimento fundamentalista e nem sigam à risca a teologia dispensacional, os evangélicos históricos, em geral, também se mostram simpáticos aos crimes de guerra cometidos por Israel. Portanto, não é novidade o fato de que a maior parte dos cristãos evangélicos brasileiros veja a atual situação de guerra na Faixa de Gaza e Cisjordânia, como algo natural; uma defesa legítima de Israel, sancionada por Deus.

Portanto, no contexto evangélico, se posicionar contra Israel e pró Estado da Palestina significa assumir uma posição teológica heterodoxa, talvez até herética. Como disse no artigo Deus não é genocida, não me importo em ser heterodoxo. O que me importa é buscar uma orientação ética consistente, mesmo que para isso tenha de renunciar (algo que faço sem o menor constrangimento e culpa) certos dogmas.

 Não ligo para o dogma dispensacional. Sigo a orientação de que Deus não tem interesses nacionais. Deus se interessa por pessoas, não por uma instituição nacional.

Acho importante assinalar que os interesses de um Estado-Nação são, em grande parte, contrários aos interesses das pessoas. Isso é ainda muito mais visível atualmente, quando o Estado do bem-estar social só encolhe. Nenhum Estado é consistentemente humano. Os Estados, quando ameaçados, não têm ética ou qualquer sentimento humanitário. O Estado é, por assim dizer, um demônio que se alimenta de pessoas para manter o poder que beneficia um número restritíssimo de pessoas.

Não estou fazendo aqui uma campanha anárquica contra o Estado. Não tenho nada contra os Estados. Sou cidadão e procuro cumprir minhas obrigações para com o meu Estado, o Brasil, inclusive as militares. Minha questão aqui não é fazer um discurso contra o Estado, mas dizer que o Estado é um empreendimento político do ser humano. Deus não inventou, planejou ou criou Estado algum.

Para mim, Jesus deixou claro que as propostas políticas e sociais de Deus não se ajustam ao interesse de nenhum Estado. Só o Reino de Deus pode incorporar ideais políticos e sociais tão radicais como os que estão descritos no sermão do monte.

Jesus mostrou de uma vez por todas que Deus não chancela ação política de nenhum Estado nacional. Israel nunca foi e nunca será um Estado de Deus. Tudo que Israel fez e faz não tem nada a ver com os interesses de Deus. Tem a ver com os seus próprios interesses. Se Israel continua massacrando palestinos, como no passado massacrou tantos outros, está fazendo isso em seu próprio nome, não em nome de Deus.

Deus não é general de guerra; Deus é um servo sofredor, que foi violentamente executado por um exército bárbaro, em decorrência da ameaça que representava para a megaestrutura religiosa que oprimia e espoliava o povo de sua época. É desnecessário dizer que essa máquina de opressão tinha vários tentáculos ficados no poder político e econômico, algo muito parecido com o que acontece hoje, com a diferença de que as maquinas de hoje acumulam mais um poder: o midiático.



[1] No final do milênio há uma nova ebulição. Mas vou deixar esse capítulo para outra hora. Sugiro a quem ficou bastante curioso em saber como tudo (mas tudo mesmo) começa e termina, segundo a interpretação dispensacional, a leitura de: Pentecost, J. L. Manual de escatologia. 5. ed. São Paulo: Vida, 2006.

2 comentários:

  1. Souu fundamentalista e dispensacionalista, mas nem por isso sou obrigada a concordar com todas as barbaridades que Israel comete contra o povo palestino (atualmente). Esse assunto merece mais discussao. Parabens pela iniciativa.

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  2. Parabéns, Sóstenes. Mais uma reflexão corajosa e bem ponderada.
    Realmente, a imagem bélica do "general de guerra" não tem nada a ver com o Deus que Jesus apresentou como Pai amoroso e bom.
    É uma pena que essa visão sionista tem inspirado tantas pessoas ao longo dos séculos através de uma visão distorcida em torno de um Deus sanguinário e cruel.

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