segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A informação nos adoece


Para ser coerente, devo começar dizendo que, caso você constate, já nas primeiras linhas, que este texto vai fazê-lo ficar irritado, seria melhor não ler. 

Meu conselho é: 

Seja forte, recuse a leitura de qualquer texto que não lhe fará bem. Grande parte de sua saúde depende disso. É claro que não estou falando de textos teóricos, acadêmicos e outros que são fundamentais para sua formação, vida profissional etc. Estou falando de textos casuais como este artigo, que você lê espontaneamente.

Lucidez, saúde emocional, coerência ética e serenidade dependem, em grande parte, de nossa capacidade de recusar informação. Isso não é fácil atualmente. Para todo lado, existe um texto ocupando nosso campo visual e nos constrangendo a lê-lo. A infamação não precisa mais ser procurada; ela invade nossos espaços. E informação invasiva, como qualquer outra coisa, viola a integridade, faz adoecer, mutila, embrutece.

Atualmente, os textos são/estão avassaladoramente onipresentes. Boa parte de nossas respostas emocionais, éticas e espirituais são determinadas por textos que, embora nada tenham a ver conosco, estão intimamente presentes em nossas vidas. São textos que violam nossa integridade e começam a ditar os rumos de nossos sentimentos, sem que nós os buscássemos. Quem consegue fazer uma boa leitura de suas emoções é capaz de notar que boa parte da raiva que sente está relacionada a textos e informações que poderiam ter sido recusados.

Num contexto em que há pouca restrição à informação, a busca pela saúde emocional, ética e espiritual passa certamente pela capacidade de renunciar deliberadamente a leitura e escuta de certos textos. Eu me pergunto: se um texto não vai contribuir para me tornar menos pior do que sou, por que lê-lo?

Penso que se a leitura de um texto vai me deixar indignado com quem o escreveu – por eu achar que o autor tem uma visão fundamentalista – não há razão plausível para eu lê-lo. Nesse caso, a atitude mais sensata seria não ler, não ouvir.

Foi por essa razão que decidi não ler uma linha sequer de qualquer texto que tentasse explicar a tragédia de #SantaMaria sob o prisma religioso. A leitura de um texto que buscasse racionalizar ou justificar a dor de quem perdeu (e todos nós perdemos) me faria muito mal. Se para mim, “justificar a dor do próximo é, sem dúvida, a fonte de toda imoralidade”, como diz Levinás, então, por que ler um texto cheio de imoralidade? Só para eu ficar com raiva? Por quê?

Preciso salvar minha alma. E, para isso, preciso mantê-la distante dos absurdos éticos que cercam as explicações religiosas que se dão para a dor e o sofrimento. Para mim, simplesmente não há justificativa ou explicação religiosa alguma para as feridas que, neste momento, estão dilacerando a vida de tanta gente no mundo.

Voltando ao tema principal deste artigo, finalizo chamando a atenção para um dos grandes males de nossa época: a dependência da informação. Nos tornamos uma geração de viciados em comunicação. Quanto mais, mais. E, como qualquer outro entorpecente, a informação só nos faz ficar cada vez mais doentes. Nosso vício, como qualquer outro, requer porções cada vez maiores para nos dar um mínimo de gratificação. A informação está nos adoecendo, nos embrutecendo.

De certo modo, admiro a fala (sincera) de quem, estando numa roda que comenta o assunto do dia, diz: “Não ouvi ou li nada a respeito, não sei do que se trata”. A desinformação não é de tudo ruim.

3 comentários:

  1. muito coerente e sincero seu texto...irretocável!!! Parabéns!!

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  2. ''Não consegui não ler risos, quis saber o porque iria me irritar, na verdade em seus textos só me encontro e na verdade é o colírio para visão da alma num mundo tão empobrecido pela desinformação, pelo desserviços, pela cultura do consumismo, teologias da prosperidade e por ai vai, deixa eu parar que comentário já esta nos fazendo mal. abraços.

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