sábado, 30 de novembro de 2013

É preciso recusar o que somos [1]



Talvez o objetivo hoje em dia não seja descobrir o que somos, mas recusar o que somos. Temos que imaginar e construir o que poderíamos ser.

Michel Foucault [2]


O discurso cristão tradicional está sob a mira de diversos movimentos sociais. Não é apenas o movimento de defesa dos direitos civis dos homossexuais que está em choque com o discurso de certas igrejas cristãs. Vários outros setores da sociedade também vêm manifestando resistência ao discurso religioso tradicional, especialmente no que diz respeito ao modo como certas identidades sociais são aí construídas e representadas.

O sujeito hegemônico e homogêneo construído pelo discurso cristão tradicional se vê cada vez mais confrontado por diversas alteridades conflitantes, que anteriormente eram facilmente negadas ou dominadas.

Muitas igrejas, comprometidas com os interesses de algumas identidades sociais dominantes (homem, heterossexual, branco, europeu, jovem etc.), vêm sentindo o efeito de uma série de mudanças sociais e discursivas que tem garantido aos sujeitos diferentes condições reais de resistência.  Diversas minorias sociais – entre elas a mulher, o homossexual, o negro, o velho – que anteriormente eram facilmente silenciadas por instituições hegemônicas conquistaram forças sociais e políticas suficientes para combater certas representações culturais que lhes são desfavoráveis.

É sabido que muitas instituições cristãs, dos mais variados segmentos, foram coniventes com a escravidão. Amparado por uma leitura ideologizada de Gênesis 9.20-27, o cristão branco europeu construiu uma representação identitária do negro como um sujeito amaldiçoado, designado pelo próprio Deus a ser subalterno. Essa representação deu legitimidade e sustentação não apenas para a escravidão, mas para várias outras injustiças sociais que persistem até os dias de hoje.

É importante dizer que não foi o discurso religioso que construiu sozinho essa representação negativa do negro. Ocorreu aí, na verdade, um coalisão de formações discursivas. Diversos setores da sociedade construíram conjuntamente a subalternidade do negro e se beneficiaram dela. O problema da instituição cristã é mais grave por causa da incoerência ética aí implicada.

Conceitos flagrantemente ideologizados como feiura, anormalidade, entre tantos outros, são frequentemente atribuídos a alteridades não hegemônicas. No domínio da religião tradicional, frequentemente se representam as práticas culturais dos sujeitos diferentes como estranhas, feias, anormais. Por exemplo, no meio cristão tradicional, as práticas culturais de matriz africana são frequentemente rotuladas como demoníacas, animistas, anormais, esquisitas.

No âmbito da moralidade, o sujeito que não se adequa ao padrão de comportamento normativo, hegemônico é visto como anormal e pecador. Nem é preciso esforço para notar que o discurso religioso tradicional está fundamentado muito mais no moralismo do que na ética. Em geral, a moralidade é usada como o principal instrumento para obstruir, segregar e oprimir as alteridades.

Como dito, uma série de mudanças sociais e discursivas recentes garantiu às alteridades o direito de se fazerem vistas, ouvidas, respeitadas e incluídas.  Nesse sentido, nossa geração tem o dever e o privilégio de desmontar uma série de perversidades que, por anos a fio, tem infernizado a vida da mulher, do homossexual, do negro, do velho e de tantas outras minorias.

Infelizmente, o discurso cristão tradicional tem se mantido irredutível em seu compromisso com a manutenção das assimetrias sociais. Infelizmente, alguns grupos religiosos têm recrudescido seu discurso de negação das alteridades e de negação de direitos humanos fundamentais, fazendo aumentar ainda mais as tensões sociais.

Mas há boas notícias. Esse discurso reacionário não está presente em todos os seguimentos religiosos. São muitas as igrejas, denominações e pessoas religiosas que veem a identidade do outro a partir da ética do amor e da aceitação incondicionais.  Por estarem inexoravelmente comprometidas com o fundamento anunciado e praticado por Jesus de Nazaré, muitas instituições e pessoas cristãs buscam reconhecer, respeitar e incluir as alteridades sem qualquer exigência ou violação.

Jesus jamais negou ou combateu os sujeitos diferentes. Pelo contrário. Em muitos momentos, deixou claro que sua missão consistia exatamente em dar acolhimento, voz e dignidade ao discriminado, ao excluído. Aliás, é importante assinalar, o próprio Jesus foi considerado um sujeito diferente, uma alteridade que causava desconforto. Pesou sobre ele tantas representações desfavoráveis, que as instituições hegemônicas encontraram pouca dificuldade para orquestrar sua morte.

As palavras de Foucault, que servem de epígrafe a este artigo, soam como um autêntico apelo profético dirigido a todos os cristãos: “Talvez o objetivo hoje em dia não seja descobrir o que somos, mas recusar o que somos. Temos que imaginar e construir o que poderíamos ser”. Tomo a liberdade de pensar a recusa identitária proposta por Foucault em dois sentidos. Não importa se fazemos parte de identidades dominantes ou de identidades minoritárias, devemos renunciar o que somos sempre que a dignidade humana estiver sendo, de alguma forma, ameaçada, aviltada.

Como cristãos, devemos recusar qualquer prática identitária (pessoal ou institucional) que obstrua e/ou exclua as alteridades. Se somos o sujeito diferente, devemos recusar com vigor as representações negativas que pesam sobre nós.  Se somos o sujeito que exclui o diferente, devemos recusar com veemência o modo como representamos o outro.

O dever de recusar a própria identidade pesa muito mais sobre os cristãos que fazem parte de algum grupo dominante. Recai sobre nós a necessidade estabelecer a igualdade, a equidade e a justiça; recai sobre nós a responsabilidade de resgatar o mandamento do amor ao próximo, que nesse caso significa permitir que o sujeito diferente expresse sua existência dentro de seus próprios padrões socioculturais, sem qualquer tipo obstrução ou violação.

A premissa de Jesus nos constrange a não estabelecer o apagamento das alteridades como critério para amar. Não se pode chamar de amor o vínculo que exige que o outro se torne igual a mim ou que se torne meu subalterno para que eu o aceite. Isso não é amor. Isso é opressão disfarçada, uma ação estrategicamente montada para o aniquilamento do outro sem que ele se dê conta disso. Devemos nos opor a qualquer operação discursiva que negue e/ou desfigure o evangelho do amor.

Talvez não haja mesmo necessidade de vasculhar nossos porões para descobrir quem realmente somos. Parece muito mais urgente termos coragem de reconhecer que nós cristãos quase sempre estivemos propensos a demonizar as alteridades. Devemos recusar e combater veementemente a continuidade dessa prática. “Devemos imaginar e construir o que poderíamos ser”, diz Foucault. Ora, o reino de Deus consiste exatamente em fazer irromper um novo modo de existência humana, no qual as relações, as identidades e as práticas humanas sejam baseadas unicamente no amor.



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[1] Artigo publicado originalmente em: Lima, Sostenes. É preciso recusar o que somos. Diário da Manha, Goiânia, 25 nov. 2013. Opinião Pública, p. 5. Disponível em:
[2] Foucault, Michel. O sujeito e o poder. In: Dreyfus, Hubert; Rabinow, Paul. Michel Foucault, uma trajetória filosófica para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense, 1995. p. 239.

sábado, 26 de outubro de 2013

Por uma nova oração: “expressar” em lugar de “pedir”


por Andrés Torres Queiruga [1]


A questão não está, pois, em negar os valores escondidos na petição, mas em trazê-la à luz, libertando-os de seus contravalores. Convém proceder com a máxima delicadeza e respeito: tradicional e biograficamente, há muita vida associada a fórmulas muito queridas; há a experiência de encontros muito profundos com Deus, de confissões da própria indigência, e de confiante acudir ao Senhor. Se não se procede com cuidado – não só para com os outros, mas também para consigo mesmo –, pode-se dar a sensação de espoliação violenta, de violação da intimidade, de perda irreparável nas raízes mesmas do ser religioso. Como conservar e preservar tudo isso, se se deixa a oração de pedido? Pergunta importante, que só se pode escutar com profundo respeito.

E, todavia, em si mesma a resposta é simples e direta: conservando-o. Quero dizer: prescindindo de rodeios e trazendo-o diretamente à palavra. Porque é óbvio que, expressos por si mesmo, todos esses valores podem ser conservados e, olhando-se bem, de forma mais cristalina e intensa, justamente porque os livra conscientemente de aderências que não lhes são próprias. De modo mais técnico: não se trata de negar nada à dimensão expressiva, mas de conservá-la por si mesma, mantendo-a em sua função própria, mas sem que invada as outras, se queremos expressar nossa indigência, expressemo-la. Chamemos as coisas e os sentimentos por seus nomes. Alguém o disse magnificamente num grupo de reflexão sobre este ponto: diante de Deus estamos acostumados a nos queixarmos pedindo; temos que aprender a queixar-nos queixando-nos.

Exato. Observe-se que em todo o anterior não intervém o verbo “pedir”. O que indica que nada se perde, visto que se disse tudo. Mas ao mesmo tempo se ganhou muito, uma vez que se evita instrumentalizar o nome de Deus com conotações que objetivamente são injustas para com ele e subjetivamente nos prejudicam a nós. Com efeito, se me “compadeço” da fome da Etiópia e “peço” ao Senhor que “escute e tenha piedade”, o sentimento pode ser sincero, mas, ao expressá-lo deste modo, estou dizendo algo que em si é ofensivo a Deus. Imaginemos uma mãe sofrendo ao pé da cama de um filho com câncer e fazendo quanto pode para aliviá-lo; a quem ocorreria dizer: “Por favor, escuta teu filho e tem piedade dele?” Não é precisamente o que ela está fazendo? Mais ainda, se alguma coisa estivesse em nossa mão, não seria antes ela que nos pediria que o fizéssemos?

Seguindo com o exemplo da fome na Etiópia, imaginemos uma comunidade que orasse assim: “Senhor, dói-me a fome na Etiópia, fruto das inclemências naturais e do egoísmo humano; sabemos que te dói também a ti muito mais que a nós e que por isso teu Espírito nos está chamando e impulsionando a fazer quanto esteja em nossa mão. Por isso te dizemos: ‘pai, queremos acolher teu chamado e realizar o ter amor’”. Essa oração continua falando de compaixão e solidariedade, de desejo de soluções, de unir-se tentando fazer alguma coisa. Mas, por um lado, agora, reconhecemos a Deus a iniciativa; e, por outro, ao partir para a vida, não se terá a sensação de que já tudo ficou recomendado ao Senhor e que, portanto – de modo inconsciente – possamos desentender tranquilamente; pelo contrário, agora fica claro que é ele quem nos chama, acompanha e dinamiza, quem está encomendando a solução (possível) a nossa responsabilidade.

Não só não fica nada sem expressar, mas tudo se fez de modo mais expresso e consciente (inclusive no vocabulário). Não só não se deixam pairando no ar pressupostos injustos para com o amor de Deus, mas se proclama expressamente seu amor. Não só não se declina a própria responsabilidade, mas essa se vê avivada e recarregada de esperança. Imagina o leitor que excelente catequese se estaria fazendo assim cada domingo na oração dos fiéis?
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[1] Fragmento extraído de: Queiruga, Andrés Torres. Recuperar a criação: por uma religião humanizadora. São Paulo: Paulus, 1999. p. 317-318.

sábado, 19 de outubro de 2013

Deus nos livre de um deus moralista


O fundamentalismo evangélico tem uma queda visceral e doentia pelo recalque e pelo moralismo. Quem tiver o mínimo interesse em comprovar isso basta investigar os termos que os fundamentalistas mais usam para construir e representar seu universo moral.

Entre as palavras mais usadas estão certamente “pecado”, “desobediência”, “imundice”, “mundanismo”, “impiedade”, “fornicação”, “iniquidade”, “imoralidade” (entre as palavras negativa) e “santidade”, “retidão”, “pureza”, “pudor” etc. (entre as palavras positivas).

Por outro lado, são bastante raras expressões como “injustiça”, “desigualdade”, “suborno”, “indiferença”, “violência”, “concentração de renda”, “abandono”, “estelionato”  (entre os termos negativos) e “justiça”, “equidade”, “distribuição de renda”, “cuidado”, “amor” (entre os termos positivos).

O que isso revela?

Revela que o fundamentalismo evangélico não tem tempo e nem energia para se dedicar a causas sociais e humanitárias. Não lhe interessa o ser humano em sua dimensão social e histórica. O que importa mesmo é o indivíduo e sua suposta relação pessoal com deus. Não há problema algum se há vitimas de injustiça, de desigualdade, de violência, de concentração de renda etc. para todos os lados. O que interessa mesmo é pregar que deus abomina o pecado, a impureza sexual, a negligência às atividades da igreja, a falta de compromisso com a leitura da bíblia etc.

Pelo que se vê, o deus do fundamentalismo religioso é eticamente cínico e socialmente indiferente. Pouco se incomoda com o fato de muitos seres humanos (muitos deles crianças) estarem sendo, neste momento, vítimas de opressão política, de exploração do trabalho, de exploração sexual. Questões ligadas à justiça social e aos direitos humanos pouco lhe afetam. Em consequência disso, esse deus não exige que seus capatazes cooperadores no mundo se envolvam com isso.

Por outro lado, se tem uma coisa que deixa esse deus irado é a imoralidade. Ele fica possesso quando vê alguém pecando (leia-se: cometendo uma imoralidade sexual). Aliás, esse deus é muito encafifado com questões sexuais. Daí o extremo zelo e vigilância nessa área.

(Diz-se que, tempos atrás, temendo não conseguir fiscalizar as imoralidades humanas sozinho, esse deus ordenou que uma trupe de pastores construísse uma instituição inquisitória, disfarçadamente chamada de igreja, para vigiar, denunciar e punir os rebeldes).

Não é necessário muito esforço para se perceber que o fundamentalismo religioso propaga um deus bastante diferente daquele que percorreu aldeias e cidades da Palestina do primeiro século pregando amor e justiça social.

Aquele Deus, o Jesus de Nazaré, esteve em Jerusalém algumas vezes. Numa delas, denunciou asperamente o moralismo das elites político-religiosas judaicas, apesar do risco que isso envolvia.

O ódio que o deus do fundamentalismo evangélico sente pelos “impuros” se contrasta de modo desconcertante com o amor que o nazareno tinha por todos os tipos de pessoas.

Jesus não teve receio de se associar com as pessoas malfaladas de sua época. Ele sabia que o fato de se juntar a prostitutas, samaritanos, publicanos, leprosos, mulheres (entre outras minorias vítimas de discriminação social em sua época) constituiria uma afronta grave à moral dos fundamentalistas religiosos. Embora soubesse que isso poderia lhe custar a vida, manteve firme o propósito de revelar ao ser humano um Deus que não faz vista grossa ao apelo, ao direito e à dignidade da vítima, do fraco, do pobre, do oprimido, do carente.

Como se sabe, Jesus morreu por causa da intolerância religiosa. Foi levado à morte por uma organização inquisitória comandada por uma elite político-religiosa, que tinha como propósito proteger a honra de um deus irado.

Jesus morreu para fazer valer as exigências punitivas de um deus extremamente moralista.  Para se ter uma ideia do quanto esse deus era moralista, basta ver as razões que o faziam ficar indignado. Por exemplo, ele ficava muito bravo quando alguém comia sem lavar as mãos, quando alguém caminhava mais que 1000 metros no sábado, entre outras esquisitices.

Jesus foi vítima de um deus bastante parecido com o deus propagado por muitas organizações religiosas de nossos dias. Portanto, dar força politica a instituições que agem em nome de um deus moralista significa abrir caminho para a intolerância e violência. Não sabemos exatamente o que pode fazer um sujeito intolerante quando compra acumula poder. Por isso, digo, parafraseando Ricardo Gondim[1]: “Deus nos livre de um deus moralista”.

@Limasostenes
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[1] Gondim, Ricardo. Deus nos livre de um Brasil evangélico. Disponível em: http://www.ricardogondim.com.br/meditacoes/deus-nos-livre-de-um-brasil-evangelico/. Acesso em: 19 out. 2013.

sábado, 12 de outubro de 2013

Nem Deus nos torna plenos


Depois de tudo, fica um sentimento, às vezes escamoteado, de que nada é pleno. Na base de tudo há um vazio, que não se preenche com nada.

 “O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é”.
Albert Camus[1]

 “Eternidade é o tempo completo, esse tempo do qual a gente diz: ‘valeu a pena’”.
Rubem Alves[2]


A frase “Só Deus pode preencher o vazio da alma humana” é muita conhecida no meio cristão. Estou cansado de ouvi-la sem dizer nada. Resolvi escrever este artigo para afirmar exatamente o contrário: “Há no ser humano um vazio fundante que não se preenche com nada, nem mesmo com Deus”.  

Às vezes ouvimos no universo igrejeiro uma frase ainda mais ousada: “Todo sentimento de vazio é resultado da falta de Deus”. Alguns pregadores mais espertos pensam ter encerrado o debate, quando encontram, em grandes autores da literatura e filosofia universal, a suposta “validade acadêmica e científica” de suas ideias. Para dar aos seus sermões sobre o tema uma feição “erudita”, pregadores mais versados em clichês e frases de efeito recorrem frequentemente a Agostinho, Pascal e Dostoievski.

Entre as frases mais usadas, está certamente: “Existe no ser humano uma lacuna do tamanho de Deus”, e sua forma variante: “Existe no homem um vazio do tamanho de Deus”. Ambas são atribuídas tanto a Agostinho quanto a Pascal e Dostoievski. Um detalhe interessante é que ainda não encontrei essas frases nos escritos dos autores, embora sejam figurinhas carimbadas em fontes de falsa erudição sites de frases, como “Pensador”, do portal UOL, e “Frases”, do portal Globo[3].

(Abrindo um parêntese: como é fácil ser erudito em Dostoievski atualmente, hein! Basta fazer um busca no site “Pensador” e cabrum! Lá estão todas as frases de efeito que um falso erudito precisa para impressionar a patuleia. Encontrei, por exemplo, a suposta frase de Dostoievski num post de ninguém menos que o excêntrico – para não usar um adjetivo deselegante – Marco Feliciano).

Votando ao assunto. Na vida real, fora do mundo de fantasia pintado pelo fanatismo evangélico, parece ser difícil sustentar a possiblidade de uma vida plena. Ouço com frequência pessoas de variadas orientações religiosas se queixarem da angústia de existir, independentemente do quão são “cheias” de Deus. Me parece que, independentemente das convicções teológicas e das práticas espirituais, há no ser humano uma propensão à angústia existencial. Parece não haver recurso espiritual que apazigue a sensação de desamparo que nos ronda. A espiritualidade certamente mostra caminhos, ameniza a dor, mas não resolve o problema.

Confesso que viver para mim é, em alguns momentos, uma jornada carregada de angústia. Não há crença teológica ou mantra litúrgico que me faça viver continuamente em paz com a vida. Sinto uma falta que não é falta de Deus.

Algum amigo pentecostal, baseado nas frases de efeito do discurso igrejeiro, poderia me aconselhar: “Você não percebe, mas essa angústia vem exatamente da falta do Deus verdadeiro. Você está tão distante de Deus que não consegue senti-lo. O Deus no qual está firmada sua fé não pode mesmo satisfazê-lo. Quando você se encontrar com o Deus verdadeiro se sentirá definitivamente pleno. Busque encher-se do Espírito Santo que sua vida será outra”.

Simplesmente não consigo ver razoabilidade num conselho como esse. O modelo de experiência religiosa aí sugerido não me toca a alma. Logo, não há razão para buscá-lo.

Prefiro seguir outra trilha, mais complicada, eu sei. Prefiro me firmar na ideia de que o ser humano tem diversos vazios. Um deles certamente é preenchido por Deus, mas não todos. E há, ainda, um vazio mais fundante, que não é preenchido por ninguém e por nada, absolutamente nada, nem mesmo por Deus. O ser humano está condenado à incompletude. Nem Deus dá jeito nisso.

A meu ver, foi o próprio Deus que estabeleceu essa lógica da incompletude. Somente um ser incompleto encontra razões para continuar vivendo; somente um ser incompleto encontra razões para mudar o mundo. A existência de qualquer recurso – de natureza religiosa, social, política etc. – que fosse capaz de tornar o ser humano pleno seria uma verdadeira catástrofe à humanidade. As grandes narrativas ideológicas (religião, nacionalismo etc.) que prometeram isso logo se transformaram em redes de fundamentalismo e opressão. O fato é que nada pode ser suficiente para o ser humano.

Às vezes ouço pessoas sinceras dizerem ter encontrado a plenitude em Deus. Afirmam com honestidade que Deus lhes tornou plenos. Isso me intriga. Exemplos assim parecem contradizer o que estou discutindo.

Não quero, neste momento, argumentar que o sentimento de completude de muitas pessoas está fundado em contradições internas veladas e negadas, muitas das quais inconscientes.  O que posso dizer neste momento é que a consciência de incompletude exige certa capacidade de autoanálise e de leitura do mundo que nos rodeia.

Parece haver, em nós e à nossa volta, evidências suficientes de que não há nada que garanta plenitude consistente à vida. Sempre há vazios. Isso não quer dizer que estamos impedidos de experimentar um sentimento momentâneo – absolutamente fugaz – de satisfação plena. Esses momentos existem, mas duram muito pouco. Segundo Rubem Alves, são esses momentos que nos fazem encontrar com a eternidade[4].

Nossa alma suplica insaciavelmente por plenitude. Isso é um indicativo de transcendência, de desejo de imortalidade, da busca pelo eterno. Volto a dizer: diferentemente do que se diz nas interpretações religiosas mais convencionais, essa sede de plenitude não é uma contradição a Deus. É na verdade um rastro de Deus.

Nossa arquitetura não comporta a plenitude. O vazio é fundante, faz parte do design original, não pode ser desfeito por nada. Penso que o próprio Deus desenhou o ser humano com essa fenda secreta com dois propósitos. Em primeiro lugar, para que pudéssemos transcender o nosso mundo em direção a ele. Nosso vazio existe, não para ser saciado por Deus, mas para apontar para ele. E, em segundo lugar, para que pudéssemos conquistar a condição de humanos, frente a uma realidade carregada de fortes e constantes apelos à barbárie. Nosso vazio nos permite e nos impele a redesenhar constantemente nossa condição humana ou, conforme o termo de Heidegger, nossa condição de ser-no-mundo.

Por exemplo, a fala humana existe porque um vazio profundo nos compeliu a inventar um sistema simbólico que nos possibilita representar e (re)construir o mundo. A poesia existe porque há na alma humana uma lacuna que conduz à subversão da ordem das coisas e à construção de uma realidade diferente, a partir dos mais variados símbolos e elementos, tais como a palavra, o corpo, as cores, o som, as formas etc.

Enfim, somos inexoravelmente incompletos, inacabados, vazios. A incompletude humana é, a um só tempo, um destino trágico e um destino libertador. Nosso vazio é nossa condenação e nossa salvação. Somos destinados à angústia, e ela nos move em direção à liberdade criativa.





[1] Camus, Albert. O homem revoltado. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 1999. p. 22.
[2] Alves, Rubem. Concerto para o corpo e alma. 11. ed. Campinas: Papirus, 2003. p. 139.
[3] Ficarei grato se alguém souber as referências dessas frases e puder me informar.
[4] Na crônica Um único momento, Rubem Alves contrapõe o feitiço do tempo com o encanto da eternidade. No último parágrafo, ele apresenta um belo depoimento sobre a eternidade presente em pequenos fragmentos de tempo: “Compreendi que a vida não é uma sonata, que para realizar sua beleza, tem de ser tocada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de minissonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira” [Alves, Rubem. Concerto para o corpo e alma. 11. ed. Campinas: Papirus, 2003. p. 139].

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Carta aberta a Juan Delgado


Caro amigo Juan Delgado,

Manifestantes ligados ao Sindicato dos Médicos do Ceará realizam protesto durante a saída do grupo de 79 médicos cubanos de aula inaugural (Foto: Jarbas Oliveira/Folhapress)

Não sei quase nada sobre você. Sei apenas que você se chama Juan Delgado, que é médico, que decidiu vir trabalhar no Brasil e que tem enfrentado muita resistência.

Ver você sendo vaiado por um pequeno grupo de médicos brasileiros me causou dor. Não sei o tamanho do sofrimento que as vaias lhe causaram. Vi dor em seu olhar. Senti dor no meu olhar. Chorei ao ver sua dignidade sendo aviltantemente atacada. Sua foto me comoveu e me motivou a lhe escrever esta carta.

Eu gostaria de um dia poder ouvir sua história; gostaria de poder ouvir a razão por que você quis vir para o Brasil, e o que você sentiu quando chegou aqui. Não sei se algum dia isso será possível. De qualquer modo, enquanto a hora da nossa conversa não chega, envio esta carta aberta para lhe dizer algumas coisas importantes sobre sua vinda ao Brasil.

Em primeiro lugar quero dizer que você é muito bem-vindo ao nosso país. Estamos felizes porque pessoas como você se dispuseram a sair de seu país para nos ajudar. A presença de vocês fará diferença na vida de muitos brasileiros.

Sei que a recepção que alguns médicos brasileiros têm dado a vocês tem sido imoral e desumana. Sei que isso deve estar lhe causando algum tipo de dor e constrangimento. Peço que não considere esses poucos médicos como porta-vozes do povo brasileiro. Eles são minoria até mesmo dentro da classe médica. Eles não representam os brasileiros; são representantes de si mesmos e de seus interesses.

Imagino que você ainda não conhece bem nossa história. Por isso vou lhe explicar rapidamente o que está na base de todo esse circo de mau gosto que você presenciou em Fortaleza, quando saía de sua aula inaugural. Aqui no Brasil, por muitos anos – na verdade desde sempre –, o médico tem sido representado socialmente como um profissional que detém um saber xamânico, divino, inalcançável. Isso faz dele um ser humano superdotado e um profissional superior a todos os demais[1].

Ora, o raciocínio de quem acredita nessa representação e se beneficia dela se configura mais ou menos assim:

Eu e meus pares – e somente nós – temos condições intelectuais, éticas, sociais e políticas de decidir os rumos de nossa profissão, mesmo quando a vida de alguém – ou de muita gente – está em jogo. Como nossa profissão é de natureza divina, superior a todas as demais, temos o direito a uma remuneração que faça jus a isso. Assim, para manter a média salarial de nossa profissão num patamar justo, precisamos controlar o número de profissionais no mercado, de modo que sempre haja falta de médicos. Assim, a lei da oferta versus procura sempre pesará a nosso favor. Essa é a principal razão por que não podemos de forma alguma permitir a entrada de médicos estrangeiros no Brasil, mesmo que seja para atuar nos lugares para os quais não vamos. Eu e meus pares precisamos da carência de médico para manter nosso poder[2].

Pois é, meu amigo Juan, a atitude desse pequeno grupo que lhe recebeu com truculência, incitação ao preconceito e xenofobia – com bem descreveu o ministro da saúde, Alexandre Padilha – é nada mais do que uma reação descabida, desumana e imoral à perda gradual de uma condição de poder, de uma divisa social. Até agora, essa condição de poder que lhes garantia a ideia de serem profissionais intocáveis, imprescindíveis e insubstituíveis jamais tinha sido social ou politicamente confrontada. Ainda bem que os tempos mudam, e a civilização avança. Saiba que sua chegada aqui é resultado de uma mudança importante em nossa base social, cultural e política.

Juan, mais uma vez peço: releve a atitude dessa gente que vaiou você. Para mim, você é moralmente superior à maioria deles. E digo a razão: você não está se opondo à ida de médicos para lugares onde não há médico. Pelo contrário. Você está tendo coragem de enfrentar o corporativismo dessa gente para dedicar o seu saber profissional a pessoas que habitam os rincões do Brasil, lugares para onde nenhum médico brasileiro quer ir.  Logo, logo, você atenderá um paciente que dificilmente teria acesso a um médico, se você não estivesse aqui.

Caso seja muito importante para você saber o que os brasileiros acham de sua presença aqui, pergunte, em seu primeiro dia de trabalho, a um paciente e/ou à sua família o que eles acham do fato de o governo brasileiro ter decidido contratar um médico estrangeiro – já que nenhum médico brasileiro quis, é bom que se diga. É a opinião desse paciente e de sua família que importa.

Meu amigo, há muitas pessoas precisando de você no Brasil. Que bom que você veio. Faço votos de que sua estadia aqui lhe seja muito agradável e proveitosa. Lhe garanto que, para nós brasileiros, já está sendo muito bom ter você aqui. Não tenho dúvidas de que sua presença ajudará a salvar a vida de muitas pessoas. Obrigado por ter vindo.

Abraços,

Sostenes Lima
@Limasostenes

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[1] O uso da palavra doutor antes do nome de médicos e advogados mostra apenas a ponta do poder simbólico que esses profissionais detêm. Eliane Brum analisa brilhantemente, em "Doutor Advogado e Doutor Médico: Até quando?", o processo de construção histórica da representação social e das forças ideológicas que cerca o papel e atividade desses profissionais. Vale a pena ler.

[2] É importante dizer a maioria dos médicos não pensa assim. Isso está presente nas crenças e ações de alguns estudantes de medicina, de um pequeno número de médicos recém-formados e de médicos corporativistas.

sábado, 17 de agosto de 2013

O sangue é mais visível em luvas brancas


O sangue é mais visível em luvas brancas, diz o ditado. Temos aqui um alerta importante: a ostentação de pureza e justiça deve ser vista sempre com muita suspeita cautela. A ausência de manchas pode ser apenas o resultado de um método refinado de proteger as luvas enquanto se faz sangrar, para depois se exibi-las limpas, como prova de santidade.

A autopromoção moral foi acidamente denunciada por Jesus, quando chamou os fariseus de sepulcros caiados. Jesus os comparou a túmulos cuidadosamente pintados de branco por fora, mas carregados de restos apodrecidos por dentro. Jesus via com clareza o ilusionismo moral que os fariseus praticavam para manter o status quo de grupo religioso mais zeloso e mais devoto.

A religião é uma das instituições socioculturais mais propícias para o cultivo da autopromoção moral. O problema se agrava ainda mais quando a religião se fragmenta em seitas. Nestas, a moralidade geralmente constitui um instrumento importante de apadrinhamento, de punição e de exclusão.

Como ninguém que se sente parte de uma seita (ou se beneficia dela) quer sofrer sansões ou ser excluído – mesmo quando não consegue atender suas exigências morais mínimas – o jeito é encontrar um meio de fabricar e ostentar retidão. E quanto mais, melhor. Aqueles que têm mais poder e recursos para promover a própria moralidade costumam jamais ser questionados. Com isso, se sentem protegidos para prevaricar à vontade.

Moral da história: pessoas que enfatizam a própria retidão costumam esconder algo muito grave nos porões da alma, especialmente aquelas que acumulam poder.

A saudade


A saudade chega quando
palavras, cheiros, sons, lugares subitamente tocam os eus que fui.
Quando o eu que sou agora se esgota e se esmaece,
sou lançado para fora de mim.
Saio atrás de alguém que seja eu, mas que não se encontre em perigo.
Busco os eus que ficaram perdidos (ou guardados)
em casas já desmanchadas,
em cercas que viraram muros,
em bicicletas já corroídas pela ferrugem,
em piões, fincas e outros brinquedos que agora, desfigurados, são apenas peças de decoração,
em cheiros da terra e da água in natura,
em chuvas que surravam o telhado da casa e escorriam gostosamente pelas biqueiras, convidando a criançada para uma dança com a alegria.

A memória oferece muitas alternativas de visita,
o suficiente para me afastar de qualquer ameaça do presente.
Quando a chuva que hoje causa medo e hostiliza a cidade assusta,
corro para me encontrar com o eu que desejava a chuva da tarde
para por ela ser envolvido enquanto corria livremente à procura de pingos mais fortes.

A saudade me leva aos corredores silenciosos da memória.
Lá abro uma porta e dou de cara com uma lembrança inesperada.
Ela se aproxima de mim, me atrai, me faz entrar em seu recôndito e me dá garantia de vida.
Lá encontro outros eus vivos e imunes ao tempo.

Mas agora o eu que sou precisa voltar.
Então retorno, retomo o presente e continuo despedaçado.

A saudade nasce de um presente que caminha para morte.
A saudade é uma busca de vida no passado,
lá onde a morte, que agora ameaça, não tem poder.
Para não me deixar ser devorado pelo presente,
corro atrás dos eus fortes e jovens que moram em outras estações da vida.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Tuítes sobre a natureza da poética
















































terça-feira, 30 de julho de 2013

Sobre o direito à felicidade e ao sucesso


Duas buscas perturbam a vida de quase todo mundo hoje: a busca pela felicidade e a busca pelo sucesso. Pouca gente consegue viver sem estar fazendo alguma coisa para ser feliz e/ou para ter sucesso. Num movimento cíclico, ser feliz é colocado como condição para ter sucesso, e vice-versa. Assim, é feliz quem tem sucesso e tem sucesso quem é feliz.

O que pouca gente sabe é que essas duas buscas estão entre as principais causas da onda de infelicidade e fracasso que perturba a vida de tanta gente hoje em dia. É contraditório, mas absolutamente verdadeiro: a busca frenética pela felicidade leva as pessoas a uma infelicidade crônica e a busca desenfreada pelo sucesso tem feito surgir uma geração de fracassados.

Precisamos mesmo buscar a felicidade? Precisamos mesmo buscar o sucesso? Não. Não precisamos buscar uma coisa e nem outra.

Não precisamos buscar a felicidade porque ela não é algo que se busca, não é um destino. A felicidade real é um modo de viver, uma forma de encarar a vida, um estilo existencial e ético de experimentar o aqui e o agora. A felicidade que se busca em algum lugar, como meta, objeto ou destino, jamais poderá ser encontrada; não passa de um engodo existencial. Como está distante – no tempo e no espaço – jamais pode ser vivida aqui e agora. Em última instância, nada do que está no futuro pode ser realmente experimentado agora. Por isso, a felicidade como meta causa tanta infelicidade.

Também não precisamos buscar o sucesso porque ele não é absolutamente necessário para a vida, pelo menos não o tipo de sucesso que a maior parte de nós persegue atualmente. Tudo que hoje é definido como sucesso traz à vida mais desgaste que benefícios, mais buscas do que encontros, mais ansiedade que serenidade.

Temos visto muita gente abrir mão da vida para ser bem-sucedida. Há muita gente que é incapaz de usufruir os benefícios do sucesso porque não têm mais vida suficiente para apreciar, por exemplo, uma simples refeição com a família. Outros, talvez a maioria, não usufruem os benefícios do sucesso porque precisam de mais sucesso e, por isso, não podem perder tempo com supostas banalidades.

Como se vê, as palavras felicidade e sucesso estão carregadas do mal-estar de nossa época. Elas definem o modo como nossa geração vive, ou melhor, passa pela vida.  Se investigarmos um pouquinho mais, descobriremos que a maior parte dos males que vivemos em nossa época tem na base algo ligado ao desejo de felicidade e de sucesso. Por essa razão, prefiro usar outras duas palavras, que ainda não foram totalmente corrompidas pela mercado, para mostrar o papel que a felicidade e o sucesso tem em nossa vida.

Prefiro falar de contentamento e realização, porque essas palavras ainda não foram totalmente colonizadas pelo individualismo e pelo narcisismo, marcas contundentes do modo como as pessoas conduzem suas relações com as outras na contemporaneidade.

Somos realizados, mas não nos contentamos com isso. Queremos mesmo é o sucesso. Kivitz apresenta, em Vivendo com propósitos, uma estatística que, embora informal, nos chama a atenção para o que temos aqui e agora. Se considerarmos bem, veremos que tudo que temos neste momento é mais que suficiente para nos deixar contentes (felizes) e realizados (bem-sucedidos).

Veja o que diz o texto:

Se fosse possível reduzir a população do mundo inteiro a uma vila de 100 pessoas, mantendo a proporção do povo existente no mundo na virada para o terceiro milênio, tal vila seria composta com a seguinte configuração:
57 asiáticos, 21 europeus, 14 americanos (Norte, Centro e Sul) e 8 africanos
52 seriam mulheres e 48 seriam homens, 70 não-brancos e 30 brancos
6 pessoas possuiriam 59% da riqueza do mundo;
80 viveriam em casas inabitáveis
50 sofreriam de desnutrição;
1 teria computador e 1, apenas 1, teria formação universitária.

Em seguida, Kivitz faz uma pequena reflexão sobre esses números:

Falando francamente, você se considera uma pessoa vivendo no nível da sobrevivência ou já pode se considerar um sucesso? Leve em conta que, se você acordou hoje mais saudável que doente, tem mais sorte que aproximadamente um milhão de pessoas que não verão a próxima semana. Se nunca experimentou o perigo de uma batalha, a solidão de uma prisão, a agonia da tortura, a dor da fome, tem mais sorte do que 500 milhões de habitantes do mundo. Se você tem comida na geladeira, roupa no armário, um teto sobre a cabeça e um lugar aquecido para dormir, considere-se mais rico que 75% das pessoas do mundo. Se tiver dinheiro no banco, na carteira ou um trocado em algum lugar, considere-se entre os 8% das pessoas com melhor qualidade de vida no mundo. Enfim, considere-se uma pessoa bem-sucedida[1].

O que nós chamamos de sucesso pode não ser exatamente o tipo de sucesso que eu e você precisamos para ser contentes e realizados. Reputação, prestígio, alto salário, viagens, carros etc. podem ser, na verdade, empecilhos para uma vida de contentamento e realização.

Parece ser absolutamente verdadeiro o fato de que a maior parte de nós, isto é, a maior parte das pessoas que têm acesso a este artigo, é realizada (bem-sucedida), mas decide não se contentar com isso; prefere correr o mundo atrás do vento. Nem é preciso dizer o quanto isso potencializa ainda mais nossa crise de infelicidade.

Também temos recursos suficientes para sermos contentes, mas preferimos nos aventurar numa busca – insana e absolutamente fracassada – pela felicidade. Atualmente, eu e você somos movidos pelo lema de que temos individualmente um direito legítimo e inexorável à felicidade e ao sucesso, e os outros têm o dever de facilitar e/ou promover esse direito.

Assim, decidimos que as pessoas devem se engajar na tarefa de fazer com que o nosso direito de ser feliz e de ter sucesso se realize plenamente, e quem resistir a isso deve ser deixado de lado, descartado. Eu e você somos diariamente estimulados a desenvolver nossa individualidade, a satisfazer nossos desejos, alcançar nossos objetivos, nem que para isso tenhamos de usar e descartar pessoas.

Não custa lembrar que nenhuma pessoa que trata outra como coisa consegue ser feliz. E, do mesmo modo, nenhuma pessoa que é tratada como coisa consegue fazer outra feliz. Não podemos nos deixar ser seduzidos pela busca individualizada da felicidade e do sucesso. Devemos buscar o contentamento e a realização, que são coisas naturalmente altruístas. Ninguém é contente e realizado de forma individualizada.

Reafirmo que a busca narcísica da felicidade e do sucesso resulta quase sempre na morte e/ou flagelo do outro. Quem se deixa tomar pelo individualismo vive responsabilizando o outro por suas frustrações; vive dizendo que é infeliz porque o outro é ineficaz em seu dever. E, como consequência disso, vive atraindo e descartando pessoas. A cada descarte, a infelicidade e o fracasso existencial se estabelecem com mais ímpeto. 

É importante reafirmar que não há qualquer possibilidade de contentamento e realização sem que a presença do outro seja significativamente cultivada em nossas vidas.


@Limasostenes
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[1] Kivitz, Ed René. Vivendo com propósitos. São Paulo: Mundo Cristão, 2003. p. 36-37.

sábado, 20 de julho de 2013

Quando o medo de morrer se transforma em medo de viver


Começo dizendo que o medo não é, em nenhum aspecto, algo ruim. Só há benefícios em sentir medo. Nada se pode dizer contra essa que é uma das nossas manifestações instintivas mais básicas, até porque não há como evitá-la.

O medo não é um construto emocional, psíquico ou ético, tal como a esperança ou a coragem. Não é, portanto, um acessório que se constrói com a vida. É antes um dispositivo de série; está no DNA. É, felizmente, um bem filogenético necessário concedido a todos nós, independentemente do quão saudáveis somos, tanto do ponto de vista emocional quanto do ético.

E porque o medo foi incorporado ao nosso DNA? Simples: a vida é cheia de riscos. E o medo é o principal dispositivo de que dispomos para lidar com as ameaças; é ele que nos ajuda antecipar o perigo e agir imediatamente. Diante de um risco real, o medo nos diz que a morte está à espreita e nos predispõe, de forma quase sempre automática, a duas ações: fuga ou enfrentamento.

Noutras palavras, o medo assume o controle da situação: avalia e age conforme seus próprios critérios. É difícil haver uma situação em que conseguimos controlar racionalmente qual decisão (fugir ou enfrentar) é mais viável. O fator tempo (ou mais precisamente a falta de tempo) deve ser o motivo porque a decisão é deixada a cargo do instinto. A razão e a consciência precisam de tempo para recuperar informações e experiências, e, só então, ponderar o que é menos arriscado: fugir ou enfrentar.

De um ponto de vista estritamente natural, podemos dizer que o medo é o recurso mais importante que temos para manter nossa linhagem genética viva. Sem ele, a minha e a sua linhagem já teriam sucumbido às inúmeras catástrofes naturais e sociais que nossos antepassados enfrentaram. Sem medo, a morte não representa ameaça. E quando a morte já não amedronta mais, não há mais razão para prolongar a vida. Quem chega ao ponto de não ter mais nada a perder já perdeu a vida, mesmo que ainda esteja vivo.

Portanto, o medo não é um vilão. Quem tem medo não é moralmente fraco. Quem tem medo está vivo, apenas isso. Como diz o filósofo francês Jean-Paul Sartre, “todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal; isso nada tem a ver com a coragem”.

O ser humano é um ser absolutamente complexo. Entre inúmeras outras conquistas simbólicas, conseguiu desenvolver, a partir de uma base biológica comum à maior parte dos animais, uma série de acessórios, isto é, uma série de equipamentos que não estão disponíveis no DNA, pelo menos não da mesma forma que o medo. Todos os animais vertebrados têm medo. Mas apenas o ser humano conseguiu derivar do medo sentimentos e virtudes.

O medo, como uma matéria prima natural, nos permitiu fabricar um monte de artefatos emocionais, existenciais, éticos, culturais (tais como a preocupação, o desespero, a esperança, a ansiedade, a tranquilidade, a serenidade, a coragem, a covardia, entre tantos outros), os quais nos tornam aptos ao nosso complexo modo de vida social e cultural. Em sentido estrito, apenas nós, os humanos, conseguimos viver ansiosos, ao ponto de neutralizar a força, o poder e beleza da vida.

De todos os sentimentos, virtudes e vícios derivados do medo, a ansiedade é talvez o substrato que lhe está mais próximo na cadeia de derivação. A ansiedade tem em comum com o medo a ativação do estado de alerta. A diferença é que o medo só ativa o estado de alerta quando a ameaça é real e iminente. O medo está necessariamente preso ao presente. Apenas o aqui e o agora podem despertar o medo de seu sono. O medo não tem vínculo com o passado (memória), nem vínculo com o futuro (esperança). O medo não simboliza. O medo trabalha com a realidade em seu estado mais concreto, o presente.

Já a ansiedade se liga basicamente ao futuro. É o e o então que a despertam. A realidade concreta do aqui e agora tem pouca influência sobre seu quadro. Como define o psiquiatra Aubrey Lewis, a ansiedade é uma experiência subjetiva de medo, desagradável, desproporcional e dirigida para o futuro. É no presente que a ansiedade se manifesta, mas não é dele que ela se constrói; não é para ele que ela está voltada.

Portanto, pode se dizer que a ansiedade é uma antecipação do futuro. E essa antecipação pode ser boa ou ruim. Como o medo é uma resposta às intempéries apenas do presente, e como somos seres que navegam no passado, presente e futuro, a ansiedade é uma espécie de complementação do medo. É uma forma de lidarmos com as ameaças que estão no futuro. Se, tal como os animais, não tivéssemos consciência do futuro, também não teríamos necessidade da ansiedade. Foi o nascimento do futuro em nossa consciência que fez nascer a ansiedade.

Devo dizer que a ansiedade, assim como o medo, também foi muito importante para manter nossa linhagem genética viva. Se, por um lado, o medo nos ajudou a enfrentar sobretudo as ameaças de ordem natural e as ameaças repentinas, por outro, a ansiedade nos ajudou a enfrentar antecipadamente as ameaças de ordem social e cultural.

Diante de um animal feroz, é o medo que nos comanda, nos impelindo à ação menos arriscada. A mesma coisa acontece numa situação de assalto – um evento ameaçador que também se constrói repentinamente. Contudo, em ambos os casos é possível fazer alguma coisa antecipadamente para minimizar os riscos. Quando sabemos da possibilidade de um assalto, a ansiedade pode nos levar a tomar uma série de precauções. A consciência da possibilidade de uma intempérie futura nos compele a criar meios para evitá-la ou para enfrentá-la com menos prejuízo.

Portanto, pessoas com doses adequadas de ansiedade costumam sofrer menos contratempos na vida; costumam fazer aplicações mais seguras. Uma pessoa saudavelmente ansiosa tem bem menos chance de perder uma fortuna em certas aplicações financeiras claramente arriscadas.

Contudo, apesar dos benefícios, a ansiedade pode se transformar em algo absurdamente ruim, patológico. Em última instância, o medo e a ansiedade são dispositivos que nos alertam quanto ao perigo da morte, iminente ou futura. Por isso, são fundamentais para a nossa existência.

Acontece que essa mesma combinação, medo mais ansiedade, pode assumir uma feição completamente oposta. Em vez de nos alertar quanto ao perigo da morte, pode nos levar a focar doentiamente nos perigos da vida. Em vez de nos preparar para evitar, fugir e vencer a morte, passa a nos perturbar quanto aos riscos de viver. Passamos a antecipar a morte por puro medo de viver. E não é muito difícil notar quando a ansiedade passa a ser patológica. Basta observar se ela está atrapalhando (mais do que favorecendo) os relacionamentos e o mundo do trabalho, colocando aí um medo doentio do que pode acontecer amanhã.

via da vida


Começa o dia
vai a vida.
Vem o dia
com mais dor,
menos dor.
Via tudo, via nada.

Segue o passo firme, fraco, cai.
Levanta. E vida não se desfaz, refaz.
Mais pessoas, menos pessoas.
Muito riso, muito choro.
Nada de alegria, nada de tristeza.
Num momento tudo, no outro nada.
Vida cheia, vida vazia, vida a encher.

Via a vida por uma via
que sempre se mexe e transforma.
Perde muito, ganha muito. 
Tem saudade, tem esperança.

Num dia, viu-se o fim da via da vida
que vai. _ Para onde? Não se sabe.

sábado, 22 de junho de 2013

A ingenuidade de quem empunha o bordão “Fora Dilma”


Muita gente acha que se a presidenta Dilma fosse derrubada todos os problemas sociais e políticos brasileiros seriam resolvidos. Para mim, duas razões são suficientes para mostrar a ingenuidade da maior parte daqueles que estão vociferando o bordão “Fora Dilma”:

a) Alguém se lembra de quem é o vice-presidente? Gostaria de lembrar ao cara-pálida que carrega o cartaz "Fora Dilma" que o vice-presidente é Michel Temer. Portanto, meu amigo de inteligência rara, pense no que significaria ser governado por um presidente, cujo partido sempre arranjou um jeito de estar no poder desde 1985, passando pelos governos de Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, FHC, Lula e Dilma, independentemente do espectro ideológico que fundava cada pleito. O que esperar desse partido se não uma ganância inescrupulosa por ocupar indecentemente ministérios, presidência de autarquias, comissões etc. etc. etc.?

b) Caso Dilma caísse, qualquer outro presidente que viesse depois encontraria um país em frangalhos e um Congresso completamente desbaratado. Você acha mesmo que Michel Temer conseguiria fazer coisa alguma melhor do que Dilma está fazendo? Tenho certeza de que ele não faria nada melhor, nem se não houvesse crise. Com crise, então, seria derrubado logo em seguida. Quem viria depois?

Só existem duas opções democráticas para a saída de Dilma do governo: morte natural ou o encerramento do mandado. Então, como você quer que ela caia fora agora? Seria por impeachment? Nesse caso, o que pesa a favor da abertura de um processo de impeachment? Ou seria por renúncia? Novamente, o que pesaria a favor de uma renúncia? Ou algo mais absurdo como um assassinato? Volto a repetir: só existem duas opções democráticas para a saída de Dilma da presidência: morte natural ou  o encerramento do mandato. Qualquer outra via é golpe. Vou escrever em CAIXA ALTA para você  entender com clareza o que está pedindo com o bordão "Fora Dilma": GOLPE POLÍTICO. Só mais uma perguntinha, talvez a mais importante deste artigo: Qual o nível de coerência política de um manifestante que pede golpe político numa democracia? Pense nisso.

Muita gente também embarca ingenuamente na ideia de que os problemas políticos brasileiros se resolvem com uma simples troca de presidente. Não se resolvem, não. O problema é muito mais complexo. Portanto, um panfletinho com “Fora Dilma” só pode ser piada de um alienado, que não faz ideia do universo político no qual está envolvido. Vejamos algumas coisinhas que você precisa saber, menino:

a) O grande problema do governo Lula e do governo de Dilma (dos dois mandados de FHC também) decorre da necessidade da tal governabilidade, que obriga o executivo a fazer alianças terríveis.

Por que Haddad fez aliança com Maluf? Por que Dilma aceitou Michel Temer como vice? Por que Lula e Dilma apoiaram Sarney na presidência do Senado? Por que Dilma apoia Renan Calheiros (ex-ministro de FHC, não custa dizer) na presidência do Senado? Por que a base aliada emplacou Marco Feliciano (do PSC, um partido abertamente cooptado e fisiológico) na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias do Congresso (algo simplesmente inconcebível até mesmo no roteiro de um romance de meia-pataca)?

A resposta para todas essas perguntas todo mundo já sabe, mas não quer levar a sério neste momento de clamor por reformas políticas. Tudo mundo sabe que o governo (leia-se o presidente) precisa do tráfico de influência de sujeitos como esses que eu mencionei logo acima para conseguir governar. Enquanto houver a sustentação desse sistema de venda de pedaços do executivo (ministérios, autarquias, secretárias etc.) e gente interessada em comprar, nenhum presidente conseguirá governar de verdade, independentemente do partido a que pertença. É aqui que mora o nosso grande problema político. É esse câncer que precisa ser debatido e combatido pela sociedade.

b) A quantidade de partidos sem identidade e decência ideológica só faz piorar a situação. Você sabe me dizer quantos partidos existem no Brasil atualmente? E, destes, quantos realmente tem história, cara e representatividade política? Aí vão algumas informações elementares e não tão rigorosas: i) existem no Brasil atualmente mais de 25 partidos diferentes; ii) destes, apenas 15 têm cadeiras na Câmara dos Deputados, isto é, têm algum tipo (nem que seja de apenas um Deputado) de representatividade popular; iii) dos 15 partidos que têm representantes do povo no Câmara, pelo menos uns 10 não têm a mínima identidade e decência ideológica; são apenas legendas que alugam (a um preço caríssimo e indecente) seus deputados para quem pagar mais: governo, oposição ou grupos sociais poderosos (religiosos, empresariado, ruralistas, etc.).

c) As coligações partidárias, à revelia da identidade e perfil ideológico - se é que isso ainda existe - dos partidos, é para mim um acinte. Como pode uma coligação do tipo PT-PSDB? Pois é, esse tipo de promiscuidade partidária aconteceu em várias cidades do Brasil nas eleições do ano passado. Pior que uma coligação PT-PSDB é uma coligação PCdoB-DEM, que também aconteceu em alguma cidade do Brasil.

Digo mais uma vez: os problemas a serem combatidos devem ser o câncer que se instalou na relação do Palácio do Planalto com o Congresso Nacional, e no modo como o sistema partidário tem construído seus arranjos. É esse mar de lama e de fezes que precisa ser extirpado; é contra essas distorções que os movimentos de protestos precisam marchar com bravura. Quem empunha um cartaz “Fora Dilma” e não consegue ver o câncer que existe na relação entre Executivo e Legislativo, e a latrina que as relações, coligações e alianças partidárias se tornaram, não tem a mínima noção do que está fazendo. É meramente massa de manobra, um alienado engajado que se acha politizado.

P.S. Para os desavisados e apressados em tirar conclusões absurdas, quero deixar claro que nem ventilei a ideia de extinção dos partidos políticos. Eles são fundamentais em qualquer processo democrático. Estou defendo a ideia de reforma na legislação, de modo a tornar os partidos mais fortes, mais definidos e menos suscetíveis à cooptação.