segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Deus gosta de sangue?


Estou farto de holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados, e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes.
[Isaías 1.11]

A cruz não representa um sacrifício necessário a uma divindade sanguinária; ela revela, sim, o retrato final do poder ameaçador do amor presente na vida dessa vítima. 
John Shelby Spong [1]

A morte de Jesus foi expiatória, vicária? Ele morreu para pagar uma dívida? Deus requer sacrifício para aceitar o ser humano? Jesus é um cordeiro (animal cujo sangue era apresentado diante de Deus) que foi imolado pelos pecados da humanidade? A cruz é o ápice da trajetória do nazareno?

Essas perguntas, se respondidas fora do convencional, colocam sob suspeita um dos pontos mais importantes da teologia cristã clássica. A morte sacrificial de Jesus é uma daquelas questões teológicas que ninguém ousa mexer, de tão estabelecida e consensual. Para quase todos os cristãos, os últimos pingos de sangue que escorreram sobre aquela estaca fincada sobre o monte Gólgota são as últimas moedas entregues a Deus como pagamento da enorme dívida humana.

De acordo com a cristologia tradicional, a morte de cruz foi uma oferenda para aplacar a ira de um deus que precisa de sangue para perdoar. "Sem sangue não há remissão de pecados", diz o escritor da Carta aos Hebreus, o texto neotestamentário mais bem sucedido na tarefa de colar em Jesus toda a parafernália conceitual e ritual do culto judaico.

A compreensão da cruz como um evento litúrgico está entranhavelmente arraigada no imaginário de praticamente todos os cristãos. E há diversas razões para isso.

Há uma ampla quantidade de textos bíblicos que mostra Jesus como o último cordeiro a ser morto. Seu sangue é eficaz e suficiente para redimir, de uma vez por todas, os pecados de todos os seres humanos. Há ainda diversos credos, tratados, documentos, confissões teológicas que ratificam essa interpretação. E, por último, todo o trabalho de catequese/discipulado é feito a partir dessa interpretação. Desde cedo nossos filhos aprendem, em salas de escola dominical, que Jesus morreu na cruz para nos salvar.

A morte é, portanto, colocada como centro de toda a trajetória de Jesus. A vida que antecede a cruz é desprezada. E a vida que vem depois é esquecida.

A cruz se transformou, assim, no grande fetiche ritual dos cristãos. Contudo, é importante alertar que, entre os primeiros cristãos, a cruz não foi um símbolo de fé ou devoção. Pouco se falava dela. Só mais tarde é que se tornou símbolo e marca do cristianismo.

É verdade que a teologia da morte sacrificial e vicária tem amplo respaldo no Novo Testamento, especialmente nos escritos de Paulo e na Carta aos Hebreus. Talvez por isso seja bastante difícil repensá-la, instabilizá-la, questioná-la.

Mas é preciso pensar em outras interpretações. Alguém talvez dirá: “E há outras interpretações?”. Há sim! E não são interpretações que desfazem da divindade de Jesus.

José María Mardones, no provocativo livro “Matar nossos deuses”, chama a atenção para a necessidade de se fazer uma leitura alternativa da cruz:

Não podemos ver na vida de Jesus nenhuma aceitação da cruz como algo desejado por Deus, mas como expressão e consequência de sua luta contra tudo o que causa sofrimento arbitrário nos seres humanos. O que se percebe claramente em Jesus é o amor que se manifesta por intermédio desse sofrimento; o amor desconcertante de Deus, não a vítima da justiça divina. Não há Deus sádico, não há vítima sacrificial, não há pagamento de nenhuma dívida. Há uma fidelidade livremente eleita em prol de um mundo e de uma vida humana fraterna e justa. E há um Deus criador e amoroso que não pode desejar mais que nosso bem e cujo ofício é amar. Esse Deus só pode ser antimal por “essência e excelência”, como muito bem diz Andres Torres Queiruga [2].

Mardones nos ajuda a ver o evento ignominioso do Gólgota como resultado/consequência do modelo/estilo de vida que Jesus realizou e propôs, não como um rito cósmico em que um deus, irado pelo pecado, colhe violentamente o sangue do próprio filho para, então, ficar em paz com a humanidade. Jesus, em função de sua ética fundamentada exclusivamente no amor, passou a viver de um modo bastante provocativo. Sua situação só se agravava à media que ofendia, denunciava, desmascarava o status quo religioso, político e social de uma parcela da população judaica. Seu apego radical à ética do amor não deixava margem para outro fim que não a cruz.

Portanto, me parece bastante interessante compreender o nascimento e a vida de Jesus como o centro do projeto de Deus, não a cruz. Ela veio como um contragolpe que o ser humano, livre e capaz de resistir ao amor, deu em Deus. Leonardo Boff foi certeiro ao afirmar: “o Cristianismo não anuncia a morte de Deus. E, sim, a humanidade, a benevolência, a jovialidade e o amor incondicional de Deus. Um Deus vivo, criança que chora e ri e que nos revela a eterna juventude da vida humana perpassada pela divina[3].

O Reino de Deus entrou definitivamente na história por meio do que Jesus anunciou e realizou, não por meio daquela morte horrenda arranjada pela elite religiosa judaica, em conluio com a espada e a cruz romana. Para Deus, os últimos pingos de sangue que caíram sobre o monte Caveira não são guloseimas. Ele não se alimenta e nem se deleita com sangue. Toda aquela cena de horror resulta da opção que Jesus fez em amar radicalmente, não de uma suposta exigência de Deus para que sua justiça e honra fossem reparadas. O que Deus fez foi dar a vida por amor e não cobrar a vida por justiça. 





[1]  Spong, John ShelbyUm novo cristianismo para um novo mundo: A fé além dos dogmas. Campinas: Verus, p. 150.
[2] Mardones, José María. Matar nossos deuses: Em que Deus acreditar? São Paulo: Ave-Maria, p. 97-98.
[3] Boff, Leonardo. Um Deus anônimo. Disponível em: http://leonardoboff.wordpress.com/2012/12/26/um-deus-anonimo/. Acesso em: 26 dez. 2012.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Abraão e Isaque



Por Luis Fernando Verissimo[1]

Deus mandou Abraão imolar seu único filho, Isaac, e oferecê-lo em holocausto a Ele sobre uma das montanhas de Moriá. E tomou Abraão a lenha do holocausto e um cutelo e levou seu filho ao lugar que Deus lhe dissera. E edificou Abraão ali um altar e amarrou Isaac e deitou-o em cima da lenha. E estendeu Abraão sua mão com o cutelo para imolar seu único filho.

Mas um anjo do Senhor lhe bradou desde os céus: “Abraão, Abraão, não estendas tua mão sobre Isaac e não lhe faças mal. Agora sei que temes a Deus, pois não lhe negaste teu único filho em holocausto.” E Abraão levantou os olhos e viu um cordeiro que Deus provera para oferecer em holocausto em lugar do seu filho, e assim fez. E o anjo do Senhor bradou que a semente de Abraão se multiplicaria como as estrelas do céu, e subiria à porta dos seus inimigos, e abençoaria todas as nações da Terra, porque Abraão obedecera à voz de Deus.

Muitos anos depois:

- Eu ainda sonho com aquele dia e acordo tremendo.

- Você era um menino...

- Vejo o cutelo na sua mão, vejo o seu rosto contorcido pela dor, vejo os seus olhos cheios de água...

- Você era um menino...

- Lembro de tudo. Lembro dos trovões.

- Era a voz do anjo me falando dos céus.

- Não ouvi a voz do anjo. Ouvi os trovões. Só você ouviu a voz do anjo.

- Meu filho...

- Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Mas não consigo esquecer. Sonho com aquele dia todas as noites e acordo tremendo.

- Você era um menino...

- Me lembro das nuvens escuras. De uma revoada de pássaros negros. Pássaros atônitos  chocando-se no ar. O céu parecendo recuar com o horror da cena: um pai imolando um filho!

- Um sacrifício. Um ritual necessário de sangue. A cerimônia inaugural da nossa tribo, com os favores do céu.

- Um horror.

- Uma história muito maior do que a nossa. Muito maior do que a de um filho imolado. Hoje sou o pai de nações, o patriarca do mundo, porque obedeci ao Senhor e minha semente foi abençoada.

- Você ficou com o poder, eu fiquei com os pesadelos.

- Nossa tribo foi abençoada. Da minha semente nasceu a nossa glória.

- Você ficou com a glória, eu fiquei com as marcas das cordas.

- Você viu o meu rosto contorcido de dor, filho. Viu os meus olhos cheios de água. Viu que eu estava sofrendo por ter que matá-lo.

- O fio do cutelo encostou na minha garganta.

- Mas eu não o matei!

- Porque Deus não deixou. Porque Deus mudou de ideia.

- Meu filho...

- Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Vou conseguir sobreviver às minhas memórias e aos meus pesadelos. Como você sobreviveu ao que sabe.

- O que é que eu sei?

- Que deve tudo o que tem, seu poder e sua glória, a um Deus volúvel. A um Deus incerto do que faz. A um Deus que volta atrás. A um Deus inconfiável.

- Ele estava me testando.

- Então é pior. Um Deus frívolo e cruel.

- Você era apenas um menino...

- Me lembro das nuvens escuras e dos pássaros atônitos  E do céu recuando diante daquela abominação: um pai matando um filho. E me lembro dos trovões.

- Era o anjo do Senhor falando comigo.

- Eram trovões.

- Obedeci à voz dos céus porque temo a Deus.

- Mais razão para temê-lo tenho eu, pai, que senti o fio do cutelo na garganta.

- Na origem de todos os povos há uma cerimônia de sangue.

- Então na origem de todos os povos há uma abominação.

- Esta conversa se repete, filho. Por quanto tempo ainda a teremos?

- Por todos os tempos, pai.
  




[1] Texto extraído de: Verissimo, Luis Fernando. Diálogos impossíveis. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. p. 53-55.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Ter razão ou ser feliz?



“Nunca se justifique; os amigos não precisam e os inimigos não acreditam”.
Autor desconhecido


Outro dia li uma historinha interessante, que mostra com clareza como a obsessão por estar certo, por ter razão e/ou por ter a opinião que encerra o diálogo pode ser um obstáculo para a felicidade. Vejamos a história:


Oito da noite, numa avenida movimentada. O casal já está atrasado para jantar na casa de uns amigos. O endereço é novo e ela consultou no mapa antes de sair. Ele conduz o carro. Ela orienta e pede para que vire, na próxima rua, à esquerda. Ele tem certeza de que é à direita. Discutem.

Percebendo que, além de atrasados, poderiam ficar mal-humorados, ela deixa que ele decida. Ele vira à direita e percebe, então, que estava errado. Embora com dificuldade, admite que insistiu no caminho errado, enquanto faz o retorno. Ela sorri e diz que não há problema algum se chegarem um pouquinho atrasados.

Aí ele quis saber:

- Você tinha certeza de que eu estava indo pelo caminho errado. Por que você não insistiu um pouco mais?

E ela diz:

- Entre ter razão e ser feliz, prefiro ser feliz. Estávamos à beira de uma discussão, se eu insistisse mais, teríamos estragado a noite!


Optar por ser feliz é bem menos complicado, mas muito menos frequente. Nos deixamos enredar pela necessidade de poder. Acabamos gastando tempo e esforço (físico e intelectual) absurdos para provar que estamos certos. E no final das contas, não há resultado algum a se comemorar; há apenas cacos emocionais a se juntar. Nenhuma discussão para se provar quem está certo termina com as pessoas inteiras. Alguém sairá machucado. Vale a pena?

Há muitas situações em que, mesmo estando com a razão, não é certo brigar. Conquistar a razão à força torna-a completamente vazia. De que adianta garantir que estamos certos se no decorrer da discussão as pessoas foram embora ou foram machucadas?

Há sempre mais...


Há sempre mais do que se pode dizer

Há sempre mais no que se pode dizer e não se diz
Há sempre mais no que se diz

Há sempre mais...

Sostenes Lima

@Limasostenes

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Só a poesia pode salvar o mundo[*]




Tem dias que acordo com a beleza tentando escapulir de dentro do meu peito. Não encontro meios de permitir que ela vaze. Um universo de boas palavras se revolve nas minhas entranhas. Tento poetar me fazendo amigo dos sonetos. Sei que a cadência das frases feitas em verso pode me socorrer. A beleza da poesia alivia como uma aragem fresca. A asfixia convulsiva da angústia não resiste a graça avassaladora de um poema.

Mas sou incompetente para o verso metrificado. Resta-me deixar os dedos à vontade. E eles bailam na prosa. Bordo pensamentos numa sintaxe pouco alinhada. Redijo como o menino que precisa mostrar-se na redação. É jeito de desabafar.

Sento-me à mesa para distribuir uma eucaristia. Minha sede de viver vira o pão sem fermento. Não reflito sobre os escombros da morte, mas, na esperança da aurora.

Na primeira linha, parto com o anseio de ver-me livre de algemas. Grilhões que apertam os pulsos me estimulam. Encarno na tarefa. Não importo se sou artesão atrapalhado; talvez pensador transversal; quem sabe amante repreensível. Minha escrita sou eu se trago dos porões da alma a força que energizou a minha inspiração. Escrevo para me construir livre se faço das palavras o libelo da delicadeza. No final, minha canhota me enreda. Ladeio os que dão a cara a bater contra a intolerância, o preconceito, a discriminação. Como diz Sostenes Lima: “Escrever é dançar com a angústia para distraí-la; é conversar em silêncio com as vozes que nos ensinaram a falar”.

Escrevo em busca da beleza trágica do saltério bíblico: na contradição de esperar e odiar, amar e desdenhar. Quero, diante do absurdo da vida, celebrar prados verdejantes e constelações coriscantes. Quero, no vale da sombra da morte, dizer: eu creio. Quero, na angústia de sentir o pé inimigo no pescoço, ter os olhos serenos.

Escrevo em busca da beleza apaixonada dos boêmios: na celebração do amor essencial. Quero cantar à musa anônima, que encanta os amantes. Quero nunca perder um olhar de terno. Quero não deixar a sensibilidade escoar no ralo da eficiência. Quero emocionar-me com o amor romântico, e tantas vezes inconsequente, dos jovens. Quero ambientes intimistas, pouco iluminados, plenos de insinuações. Quero o imaginário sem aspereza.

Escrevo em busca da beleza persuasiva dos pensadores: na difícil tarefa de repensar, tensionar ideias, provocar reflexão. Quero mergulhar nos compêndios que desalojam o obscurantismo. Quero debulhar, com lentidão, as espigas que nascem do trigal filosófico. Que belo sonho: sentar em tertúlias.
Escrevo em busca da beleza criadora dos romancistas: na feliz aventura de viajar a mundos fantásticos. Quero ver-me na pele de protagonistas que ousam desafiar demônios, encarar exércitos, sonhar com cidades submersas e, sofrer, sobretudo sofrer. Só eles conseguem ensinar o que é viver e morrer por mãos alheias.

Escrevo em busca da beleza solidária dos santos: no desprendimento de amar sem considerar o galardão. Quero celebrar a vida dos Franciscos de Assis, dos Nelsons Mandela. Na direção do próximo, eles andaram as milhas que jamais tive coragem de encarar. Quero aprender o segredo de não ter a vida por preciosa, como Oscar Romero, mártir de uma morte anunciada. Quero chegar ao fim da existência sem o bolor que noto na pele de quem se acovarda diante do mal.

Dou razão a Vinicius de Moraes: “Só a poesia pode salvar o mundo de amanhã”. Os poetas são vigias. Eles guardam as muralhas da cidade; são arautos do divino. De seu alarido frágil vem uma certeza: o mal ainda não se mostrou forte o suficiente para arrancar a Imago Dei do coração de homens e mulheres. Do alto da torre, tirania e opressão tomam conhecimento: o brado da vida pertence aos que amam o Bem. A beleza que tenta sair do meu peito é compromisso transubstanciado em palavras.

Soli Deo Gloria

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Tuítes sobre a natureza da poesia