sábado, 17 de novembro de 2012

Sou professor, não um coitado



Sou professor, não um coitado. Peço que a mídia e sociedade me tratem com dignidade profissional. Não preciso que tenham pena de mim. Não preciso de condolências. Na verdade, a sociedade, como um todo, deveria ter pena de si mesma, não de mim. Se a mídia e a sociedade acham mesmo que estou na miséria, então é bom que comecem a preparar o próprio funeral.

Sou professor, não um missionário da educação. Não trabalho apenas por amor a profissão. Como qualquer outro profissional, trabalho para ser dignamente remunerado. Não vou completar a baixa remuneração com filantropia, trabalho voluntário. Não sou amigo ou voluntário da escola. Sou um profissional que desempenha aí suas atividades, devendo, para isso, ser adequadamente pago.

Também não tenho a missão de salvar a educação. Na verdade, não quero e não tenho a menor condição de fazer isso. Professor não é redentor. Se a educação está perdida, quem tem a responsabilidade de apontar o caminho da redenção é o Estado, não eu.

Também não tenho a missão de salvar nenhum aluno que, porventura, se encontre em alguma situação de risco social. Na verdade, não quero salvar ninguém. É o Estado que deve criar, promover e manter políticas públicas que diminuam as situações de risco social.

Sou professor, não tio. Não trabalho para suprir demandas afetivas (de natureza familiar) dos alunos. Minha responsabilidade profissional é, sobretudo, social, não afetiva. Não sou a extensão do pai ou da mãe de ninguém. Isso não quer dizer que minha atuação não seja carregada de afetividade. É sim. Mas não posso incorporar ao meu trabalho o papel de pai ou mãe; não posso me julgar capaz de satisfazer demandas afetivas dos alunos. Se eu fizer isso, vou comprometer a qualidade técnica de meu trabalho.

Este pequeno texto é uma espécie de protesto, um desabafo. Não é um artigo. Não me preocupei em apresentar base teórica ou dados  de pesquisa que sustem (ou não) o que disse. Eu apenas quis expressar uma indignação que volta e meia sinto. Estou mesmo cansado de ser tratado com estereótipos e caricaturas.  Quero respeito. Quero que meu país me veja como um profissional importante para qualquer projeto que se queira para esta nação, não como um coitado ou um redentor.

Encerro com um mantra (surrado, mas verdadeiro) muito frequente em livros (de autoajuda) da área de educação:

Sonho com o dia em que se reconhecerá que uma nação forte se constrói em sala de aula.   Sem um projeto educacional amplo, que inclua a reestruturação da carreira docente, não há projeto de nação que se sustente.

7 comentários:

  1. Texto perfeito. Faço das suas palavras, as minhas.

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  2. Sou professora dos pequenos (educação infantil). Sinto o mesmo. Assino em baixo.

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  3. AMEI!DESABAFO POR UM SÓ INDIVÍDUO MAS,QUE SE TORNOU DESABAFO COLETIVO DE PROFESSORES.

    PARABÉNS!

    TAMBÉM ASSINAREI ESSE TEXTO,DÁ LICENÇA!

    PROFESSORA CECÍLIA FRAZÃO

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  4. Esse desabafo é, em palavras, símbolo de motivação.

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  5. Nós somos o resultado da educação que recebemos. Lindas palavras!

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  6. Excelente texto!! serve para reflexão para o governo e sociedade em geral...

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  7. Nossa, esse texto é tudo que eu queria falar. acredito que deve estar entalado nas gargantas dos professorados por aí... MARAVILHOSO!!!!!

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