quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O silêncio é a alma da palavra


O silêncio antecede e forma a palavra.
Quando o silêncio é longo demais, a palavra nasce envelhecida ou morta;
Quando é curto demais, a palavra nasce prematura, informe e disforme.
O silêncio tem que ser do tamanho certo.

Palavras nascidas depois de uma boa gestação no silêncio são
fortes, mas não brutas
espontâneas, mas não canhestras
suaves, mas não passivas
simples, mas não simplórias

Mesmo depois de nascidas,
as palavras ainda devem continuar amigas do silêncio.
Palavra enunciada continuamente é palavra vazia.

Toda palavra, depois de enunciada,
precisa ser relançada ao exílio do silêncio.
Lá as palavras morrem e renascem em outras.
Esse é o ciclo de vida da palavra.

A palavra a que se nega o silêncio deixará ser palavra: 
Se degenerará em ruído.
O silêncio é a alma da palavra.

domingo, 25 de novembro de 2012

(2012/816) Comentários en passant sobre a "in-serventia de Deus" [1]




[1] Resenha do texto "Deus não serve para nada. E agora?" escrita por Osvaldo Luiz Ribeiro e publicada no blog Peroratio

1. Sóstenes Lima tem um blog homônimo na Internet. Nunca havia lido, não conhecia. Alguém ou alguéns de meus contatos do facebook deve(m) ter encontrado, porque hoje é a segunda vez que um texto de Sóstenes aparece postado.


3. Vou tecer alguns comentários en passant. Não será um comentário geral, moverei apenas os peões do tabuleiro...

4. Primeiro: "a religião nasceu com o ser humano". Esse "com" é ambíguo - o que se está a dizer? Que, nascido o homem, junto com ele nasce a religião? "homo sapiens não apenas conseguiu autoconsciência, mas também auterconsciência, das quais nasce a religião" - novamente, pode-se interpretar que se continue a falar da condição concomitante do nascimento do homem e da religião no homem, ou pode estar implícita a ideia de que estamos diante de um processo histórico longo - o texto, até aqui, passa por cima disso. "homo sapiens percebeu que para fora de si existe um mundo desconhecido, contingente, ameaçador; numinoso, por assim dizer" - outra vez, e mais grave: o texto agora insinua que a percepção do mundo como "numinoso" equivale à sua percepção como algo externo - passagem rápida demais, eu acredito, entre a hominização e a "teologização" humana. "Diante de tanto temor, imediatamente o homo sapiens se torna homo religiosus. Busca explicações para aquilo que desconhece e que o ameaça": bingo? Parece que eu estava certo: o texto torna todo o longo processo de hominização e de posterior "religiosização" um fenômeno praticamente único - veja-se o "imediatamente"...

5. Não sei. Acho que não foi assim: para mim, e creio que para a paleontologia, há um abismo de milênios entre a hominização e a posterior e muito, muito recente "teologização humana". Fiquemos no Homo sapiens - 250.000 anos? E a religião? Arqueologicamente comprovada, dependendo da flexibilização do trato material, 100.000 ou 40.000 anos. Não é possível unir os dois momentos, principalmente se tivermos em mente que o Homo sapiens não é o marco "inaugural" da espécie: dependendo do recuo no tempo, pode-se chegar a 6 ou 7 milhões de anos.

6. Não estou me detendo em detalhes. A ideia de que a teologização humana se dá concomitantemente à hominização embute um princípio teológico - ser homem é ser religioso, a religião é "natural", co-natural, co-humana, de sorte que só se pode pensar o homem enquanto ser religioso... Tenho minhas severas dúvidas... De qualquer forma, prepara-se o argumento final do artigo: pode-se fugir da "magia", mas não da "fé"...

7. O núcleo desenvolvido do texto une Fenomenologia da Religião e Feuerbach, e eu não faria maiores comentários. Estamos, aí, diante de certa compreensão do fenômeno religioso, com a qual tenho laços afetivos e ideológicos. O problema, todavia, é que o texto já separou o "nascimento" da "fé" do desenvolvimento cultural e histórico da religião - ele poderá, agora, pôr no chão o "desenvolvimento", guardando em relicário sagrado seu parto co-natural... É o que fará? Pode apostar...

8. A certa altura, uma declaração que, a meu ver, merece duas observações: "portanto, não tenho a intenção de defender aqui que é possível ser cristão sem estar imerso numa experiência religiosa. Isso seria um contrassenso". Primeira observação: a) não é o que pensava Bonhoeffer, que, enquanto esteve preso, pretendia desenvolver uma Teologia expressa na seguinte fórmula - "um Cristianismo não-religioso para um homem em estado adulto". Polares, as duas declarações. Pena que Bonhoeffer não tenha podido levar a cabo seu projeto. A segunda observação é que, como eu percebera, a entrada do texto prepara a sua saída - está-se a propor uma expressão religiosa "crítica" que se pudesse separar do mar de cultura e de sincretismo mágico por que o Cristianismo se teria deixado marcar...

9. A tese é: o Cristianismo é a religião da experiência última e sublime, diante da qual a religião histórica é espuma e sincretismo mágico. Eis o citado que acredito justificar minha leitura:
Não é meu propósito demonizar a religião em si. O que pretendo é mostrar que a fé cristã, embora ancorado no sentimento religioso, exige um passo à frente, sobretudo, em direção a um Deus inútil. Do contrário, estaremos navegando apenas na superfície da experiência religiosa, algo mais ou menos igual em praticamente todas as religiões, com diferenças rituais irrelevantes.

10. A religião histórica, tanto faz qual e tanto faz o nome do deus, é "um ritual de magia". O Cristianismo modelar, todavia, deveria ir além disso: "Não se trata de negar o caráter religioso de Deus, ou da natureza da religião como uma experiência de atenuação da vida, mas de buscar uma experiência que vai além disso". Por que haveria - para o autor, "há", ele afirma - um modo correto de ser corretamente cristão:
Ser cristão de verdade implica transcender o sentimento de desamparo diante do mundo e da vida (algo que incessantemente nos compele a buscar um Deus amparador, protetor, controlador). Significa rumar em direção a um Deus que provoca em nós um sentimento de contemplação e uma sede incontrolável de relacionamento. Significa buscar uma fusão com Deus, tendo o Cristo encarnado como referência. Ser cristão é desejar Deus, não precisar de Deus. Quem precisa de Deus para ajeitar questões contingentes (e mal administradas) da vida cotidiana, ainda está vivendo uma experiência religiosa pré-cristã, imatura, um pouco mágica.

11. É curioso. Um Deus que acaba de se fazer inútil, mas que não se joga fora. Mas ele acabou de ser declarado como não tendo nada a ver com a vida!... A magia é mesmo uma coisa desagradável! Que ele, esse Deus, cuide das "contingências" da vida - as contingências da vida, meus senhores, eis a única coisa que a vida é! - é um pensamento aviltante da condição máxima dessa divindade, sublime - platônica... Vejo-me diante da idealização radical da subjetivação filosófica da fé: assisto ao encontro explícito entre a Teologia e a Filosofia do século XX - pouca Filosofia e quase nenhuma Teologia "crítica" (?) do século XX foi além disso, deixou de ser isso e expressou-se fora desse ponto axial. Descorporização da fé, platonização da fé, sublimação da fé, filosofização da fé.

12. No último parágrafo, um tanto quanto constrangido de ter levantado alto demais a cabeça e ter corrido o risco de esquecer o que é a vida, Sóstenes confessa: "sou contraditório, eu sei". Felizmente, ele mesmo o declara. Eu o declararia, mas meus leitores se constrangeriam. Todavia, o próprio autor o confessa. E vai mais longe: "não sei como resolver esse dilema", isto é, fugir da vida, em direção a um Deus que não põe a mão na matéria, coisa imunda, e no carbono, coisa do demiurgo - Platão é o verdadeiro fundador da Teologia cristã! -, e, ao mesmo tempo, reconhecer que a vida é dor e sofrimento: "já orei por todos esses motivos".

13. O mais engraçado é que a solução me parece diante dele: "tenho convicção de que, em minha experiência de fé, devo avançar em direção a um Deus amigo, companheiro, diante do qual tudo que posso fazer é contemplar, estar perto, dialogar, abraçar, amar, estar nele e ele em mim". Tem mesmo? Tem consciência, mesmo, de que se trata de uma experiência de fé? De ? Ora, se você levar a sério que se trata de uma experiência de fé, e se compreender fenomenologicamente, psicologicamente, antropologicamente, epistemologicamente o que isso significa, verá que se trata de racionalização envolvida por sentimentos de subjetivação e desejo... Não há nada de concreto aí. Nada. É o princípio do desejo a recusar-se a encarar o princípio de realidade - para citar o teórico com que Sóstenes abre seu texto.

14. Se querem tratar da inutilidade de Deus - aceito. Aceito qualquer coisa no campo da pesquisa, se com isso sou convidado a pensar sobre mim, sobre minha existência. Mas, por favor, se Deus é inútil, Deus é inútil. A retórica da manutenção do Deus inútil a despeito de sua inutilidade é o efeito teológico e religioso, místico e mágico - ironia! - do encontro violento entre a fé e a razão - e tudo isso não passa do efeito desesperado da alma que quer acreditar contra toda a racionalidade e, para tentar um pouco de paz interior - porque, afinal, a fé ainda está lá - precisa oferecer alguns farrapos que seja com que a razão, que começa a ganhar espaço, se contente em vestir...

15. Faça de Deus um inútil. Mas não tente esconder a nudez com farrapos.

16. A coragem de vir a público e denunciar a inutilidade de Deus pede a coragem de assumir que com a utilidade se vai também o que e quem se pensava útil: não apenas o que ele fazia, mas ele mesmo.

17. Sim, a fé se esconde na Filosofia. A Teologia se disfarça em crítica.

18. Nudez, senhores - a serpente era a mais nua de todas as espécies que Yahweh criara...

Diálogo com Osvaldo Luiz Ribeiro



Osvaldo Luiz Ribeiro
Sóstenes, seu texto [“Deus não é genocida”] foi divulgado no Facebook e o li. Acho que não o conhecia. Uma texto provocativo e público. Logo, provocado, comento-o.

Sostenes Lima
Caro Osvaldo Luiz Ribeiro, visito o blog Peroratio com certa frequência. Gosto dos seus posts. Antes mesmo de você me honrar com sua presença aqui, eu já tinha colocado o Peroratio como um dos blogs da minha lista de "Pontos de contato". Obrigado por sua visita.

Aproveitei o seu comentário para dar continuidade à interlocução. Gostei de cada uma das suas colocações. Não vou rebatê-las, de modo algum. Razão: me falta profundidade e sobra retórica (rs). Quero apenas comentar cada um dos seus itens (a, b, c, d).

Osvaldo Luiz Ribeiro
a) Marcião fez o mesmo que você, no século II. Foi mais longe, ele, eu acho – em todo caso, vi os mesmos arrazoados. Separar um deus bom de um deus ruim.

Sostenes Lima
a) Penso que as razões que levaram Marcião a propor uma divisão entre o Deus do A.T. (um demiurgo mau) e o Deus no N.T. são um pouco diferentes das que me levaram a escrever o texto “Deus não é genocida”. Embora suas propostas estivessem, em grande parte, ligadas a questões éticas, Marcião, até onde sei, não as elaborou para contestar o apoio dos cristãos a uma guerra específica. Me parece que a maior preocupação dele era criar uma conciliação ética entre o Deus do A.T. e o Deus do N.T., sem que isso estivesse ligado a uma questão crucial de sua época. De qualquer modo, não estudei Marcião. Tenho pouco a dizer sobre suas postulações teológicas.

Osvaldo Luiz Ribeiro
b) Você trata Yahweh, deus judeus, talvez israelita, como deus pagão. Foi exatamente o que Marcião fez. Não vejo sentido – se você tirar Yahweh, o deus ocidental desaparece. Não há monoteísmo sem Yahweh – e estou falando estritamente em termos históricos, porque não acredito em acesso metafísico.

Sostenes Lima
b) Minha discussão (e contestação) gira em torno de Yahweh Sabaoth (Deus dos Exércitos), não de Yahweh em si. Vejo problema no Deus invocado pelos judeus para lhes garantir vitória nas empreitadas militares, não no Deus de Israel em si. Ao criar especificidades para Yahweh, os judeus acabaram seguindo os mitos e religiões de sua época e de seu entorno geográfico-cultural. Todos os povos, com os quais Israel interagia, tinham deuses para praticamente todas as atividades (sociais, econômicas e culturais) e esferas da vida, tais como agricultura, guerra, justiça, saúde. O que distinguia os judeus dos outros povos é que eles congregavam essas potencialidades divinas num só ser. Daí o monoteísmo. Contudo, penso que o Yahweh da guerra, o Yaweh da agricultura (se houver), o Yahweh da saúde etc. são imitações pagãs. Esses deuses pagãos, embora chamados de Yahweh, não são propriamente o Yahweh pai do messias, o pai do Cristo dos cristãos.

Vejo que a construção de um Deus com paixões, pretensões e incursões militares decorre da necessidade dos judeus. Os registros das ações desse Deus não podem ser aprioristicamente tratados como revelação. Só tenho de aceitar como revelação todos os registros dos atos de Yahweh – com todas as especificidades dadas pelos judeus – se eu seguir rigorosamente o dogma da inerrância e da inspiração verbal plena. Caso contrário, posso conceber boa parte do A.T. como uma narrativa de autocompreensão religiosa do povo judeu, incluindo aí a criação/projeção de um Deus que lhes atendesse certas (ou quase todas) demandas da vida cotidiana. Muito do que há no A.T. é, para mim, então, resultado do modo como o povo judeu (dentro dos contextos social, cultural, econômico etc. que o cercavam) concebia Deus. Portanto, as ações atribuídas a Deus podem não ser necessariamente de Deus.

O discurso religioso é, talvez de todos os discursos, o que tem mais poder de construção e manutenção, porque invoca uma autoridade supra-humana, inquestionável. Dogmas são criações discursivas poderosas porque estão assentados em discursos sagrados, que reivindicam para si mesmos um poder legítimo, inerrante e não suscetível à crítica e à suspeita.

Osvaldo Luiz Ribeiro
c) Não entendo como você pode se dizer um cristão convicto e, por isso, negar Yahweh, um deus pagão e assassino, quando o Cristianismo é muitíssimo mais assassino do que Yahweh - se somarmos todas as mortes atribuídas a Yahweh a gente pode dar um século de matança cristã que fica zero a zero, com 19 séculos de sangue ainda para a gente negociar com algum outro deus pagão...

Sostenes Lima
c) Nesse ponto, penso ser necessário distinguir Yahweh e judaísmo, do mesmo modo que é necessário distinguir Cristo e cristianismo. Cristo não fez e não faz tudo que os cristãos lhe atribuem. Houve na história do cristianismo diversas incursões de massacre e outros desastres éticos, já denunciados por mim no artigo “A agenda de Jesus se opõe à agenda dos cristãos”. Quem fez isso, embora em nome de Deus, foram os cristãos, não o próprio Deus. Portanto, os 19 séculos de violência do cristianismo devem ser interpretados à luz das necessidades e contexto histórico dos cristãos, não à luz da revelação.

Minha interpretação do A.T. vai nessa mesma direção. Yahweh não é sinônimo de Israel ou de judaísmo. Nem tudo que Israel e/ou judaísmo atribuem a Yahweh foi realmente praticado por Yahweh. Como disse acima, o problema não está com Yahweh, mas com o Deus que entra na guerra para exterminar violentamente os inimigos de Israel. É o sanguinário Yahweh Sabaoth que é pagão, não o Yahweh.

Osvaldo Luiz Ribeiro
d) o final do seu texto, aí, sim, me interessa – mas, cá entre nós, ele pode funcionar bastante bem sem essa retórica de "sou cristão" mas o AT que vá pro inferno: se é para mandar às favas, mande tudo, e fiquemos com a ética humanista e secular moderna que tá de bom tamanho...

Sostenes Lima
d) Gosto da ética humanista secular. Penso que ela dá conta de todas as demandas éticas da comunidade humana global, sem qualquer apelo às bases éticas das diversas religiões. Não há que se recorrer à ética cristã (ou qualquer ética religiosa) para se chegar a um padrão ético satisfatório para a continuidade e desenvolvimento da família humana (que envolve o ser humano e todos os outros organismos e elementos naturais de seu entorno). Na verdade, a ética religiosa tende mesmo a atrapalhar mais que ajudar. Temos visto que a religião, embora grandemente assentada em questões éticas, tende a fossilizar a ética e transformá-la em moralismo. Penso que uma das bases do embate de Jesus com as instituições de sua época se deu, em grande parte, por causa do desvirtuamento da ética da lei em moralismo e tradição.

Coloquei a figura do cristão no meu artigo exatamente para dizer que, mesmo olhando sob a ótica religiosa – seja cristã ou judaica – o genocídio jamais é sancionado. Só mesmo uma degeneração da ética cristã, judaica (ou de qualquer outra ética religiosa) pode dar legitimidade ao genocídio; só quando se coloca algum dogma acima da ética (é bom lembrar que disso decorre a maior parte dos movimentos fundamentalistas) é que se pode respaldar ou apoiar qualquer forma de genocídio.

Osvaldo Luiz Ribeiro
e) Para mim, é impossível separar a tradição cristã de seu passado judeu - IMPOSSÍVEL: tudo, absolutamente tudo, no cristianismo está assentado de modo sine qua non em assentamentos veterotestamentários. Penso que devíamos é fazer a crítica cristã a partir dessa relação, e não tratar o cristianismo e o fato de sermos cristãos como algo "acima" ou "melhor" do que foi o judaísmo veterotestamentário. Foi não: foi pior, mil vezes pior.

Sostenes Lima
e) Também acho que todo o nosso fundamento teológico é dependente do monoteísmo judaico. Somos todos filhos de Yahweh, por assim dizer. A questão central para mim não é pesar qual religião foi/é mais cruel: judaísmo ou cristianismo. Essa questão não me interessa. Também não me interessa saber qual Deus fez mais besteiras e barbaridades na história: o Deus dos judeus ou Deus dos Cristãos. Meu objetivo, ao escrever o artigo, não foi comparar a representação que os judeus e os cristãos constroem para o seu Deus, e a partir daí dar o veredito sobre qual Deus é mais bárbaro. De modo algum. Em se tratando de representação, todos os deuses tendem a se tornar bárbaros. Não tenho a menor dúvida de que há muitos deuses bárbaros e pagãos tanto no judaísmo e quanto cristianismo.

Meu objetivo central foi denunciar a representação que judeus e cristãos têm de Deus, especialmente a representação que atribui a ele uma identidade belicosa, sanguinária. Eu quis dizer que algumas representações de Deus, construídas em diversas manifestações do discurso sagrado (livros sagrados, profetismo, prédica etc.), não devem ser levadas a sério, não devem ser tratadas com a reverência que reivindicam. Há que se colocar certos pressupostos éticos antes.


Osvaldo Luiz Ribeiro
"Meu voto", para brincar com a declaração da moda...
Meus respeitos,

Sostenes Lima
Um grande abraço, meu amigo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Deus não é genocida



Uma boa parte dos cristãos, ancorada numa interpretação ideologizada e equivocada da bíblia, sempre foi simpática, conivente e, em alguns casos, cooperadora com as ações genocidas de Israel, como a que está em curso no momento.

São muitos os cristãos que, sem ativar o menor senso ético, concebem as batalhas de guerra dos hebreus, registradas no Antigo Testamento, em especial nos livros de Josué, Juízes, I e II Samuel, I e II Reis e I e II Crônicas, como sendo ordenadas e sancionadas por Deus. Algumas dessas batalhas, massacres para ser mais preciso, são comumente citadas em sermões como exemplos do cuidado e provisão de Deus para com aqueles que lhe são fiéis.  É muito comum ver pregadores citando as ações militares de Josué (algumas delas com conteúdo claramente impróprio para crianças) sem sentir o menor constrangimento ético.

Invasões e expedições de horror, abertamente genocidas, como as de Josué[1], são normalmente interpretadas, por correntes fundamentalistas, como demonstração do cumprimento da vontade de Deus. Aliás, a ocupação de Canaã como um todo, com a consequente destruição dos povos locais, é vista como o ponto culminante do plano de Deus em instituir para si uma nação: Israel.

Vitórias esmagadoras, com a dizimação de prisioneiros de guerra e civis (em sua maioria mulheres e crianças), são alardeadas por pregadores fundamentalistas como um prêmio que Deus concedia aos hebreus por eles serem o povo escolhido. Triunfos, quando em desvantagem militar, são frequentemente apresentados como exemplos máximos de situações em que Deus pode intervir em favor dos seus escolhidos, providenciando vitórias onde há pouquíssima ou nenhuma possibilidade de acontecer.

Para quem interpreta literalmente a bíblia, a aliança de Deus garantia aos hebreus, caso estivessem em dia com as leis cerimoniais, civis e morais editadas pelo próprio Deus no deserto, sucesso em quaisquer incursões de guerra. Mesmo planos imperialistas eram abonados por Deus.

Falta a muitos cristãos a coragem de fazer uma leitura ética mais radical do Antigo Testamento, levando em conta os princípios defendidos no sermão do monte. Isso implica, certamente, a coragem de instabilizar e, por vezes, devastar algum dogma. Levar o sermão do monte e a mensagem de Jesus às últimas consequências tem efeitos perigosos.

Eu sei que ler as narrativas de guerra do Antigo Testamento a partir de outros pressupostos éticos, isto é, fora da caixa de conserva da ortodoxia, é opção bastante provocadora. Contudo, penso que, quando amparados por um valor ético superior, não devemos ter medo de enfrentar os dogmas. O princípio ético segundo o qual todo ser humano tem direito à vida sobrepõe qualquer dogma. Então, não me preocupo em tocar no dogma da inerrância e inspiração verbal plena da bíblia. Afinal, busco seguir Jesus, não a bíblia. Ela é para mim o mapa que aponta para o destino, não o destino em si. E, se vista como mapa, a bíblia necessariamente precisa de leitura e interpretação.

É preciso, ao ler o Antigo Testamento, especialmente as passagens que narram eventos de guerra, separar o que é interesse de Deus (quase nada) e o que é interesse militar e nacional dos hebreus. Quem precisava de um território e um Estado eram os hebreus, não Deus. Então, as medidas militares (especialmente aquelas que desrespeitavam certos princípios de guerra universais, como garantir a vida de prisioneiros e proteger civis) executadas por Israel para conquistar território eram ações motivadas por suas necessidades e ambições, não pelo desejo de Deus.

Sei que uma proposta de interpretação como essa, que questiona o status da bíblia como a narrativa dos atos de Deus, custa muito caro. Interpretações críticas e não dogmáticas são severamente combatidas; são comumente tachadas de heresia.

Não me importo em ser herege. O que não posso fazer é permitir que um dogma me leve a passar por cima de um pressuposto ético universal tão basilar como o que o garante a todos o direito de viver. Não posso, por exigência de um dogma, aceitar que Deus seja genocida. Quem é genocida é o ser humano e o seu maior aparelho de poder, o Estado, não Deus. Quem invade territórios alheios, dizima exércitos oponentes, mata friamente prisioneiros de guerra e massacra cruelmente mulheres e crianças são os exércitos de um Estado, sob o comando de um monarca e/ou de um general genocida, não Deus.

O homem é o senhor da guerra. Não há um Deus da guerra. Yaweh Sabaoth (Deus dos exércitos) é uma invenção pagã dos hebreus para legitimar suas ações militares, o qual não cabe em hipótese alguma na espiritualidade cristã.

Se as batalhas do general Josué, tal como narradas no livro de Josué, acontecessem hoje, Josué seria certamente encarado pela comunidade internacional como um genocida. Não tenho dúvida de que, havendo oportunidade de enfraquecer seu poderio militar, ele seria julgado e condenado por um tribunal internacional por violação dos direitos humanos e por crime de guerra, genocídio.

Dizer isso a respeito de Josué, uma grande herói da fé e um exemplo impecável de confiança em Deus, é para muitos cristãos um sacrilégio, uma profanação, um sinal claro de apostasia. Não me importo com isso.

Não me considero um apóstata. Pelo menos aos meus olhos, parece bastante compatível com a fé cristã a ideia de que, em Jesus, recebemos uma revelação explícita de que Deus não tem planos de ocupar palácios, montar secretariado, financiar a indústria da violência, comandar exércitos. Jesus nos mostrou com precisão que a agenda de Deus está na contramão do poder. Então, não vejo incoerência ou heresia no que estou dizendo.

Sou um cristão convicto. Leio e respeito a bíblia. Mas busco não ser fundamentalista. Talvez meu problema seja que, na busca por não ser fundamentalista, acabe me tornando um heterodoxo (um sinônimo bonito para herege). Realmente não consigo ser ortodoxo. Não consigo crer em certos postulados à revelia da ética.

Não creio num Deus que tem seus próprios princípios éticos, completamente alheios aos princípios éticos humanos. Não consigo crer num Deus que segue regras éticas arbitrárias, sem levar em conta aquilo que, para a maior parte dos humanos, é horrendo, medonho, hediondo. Simplesmente não consigo crer num Deus que manda matar todos os homens, idosos, mulheres e crianças de um território invadido. Sequer creio num Deus que manda invadir.

Se fé ortodoxa significa crer em Yaweh Sabaoth (um deus pagão), posso ser tachado de herege. Prefiro crer num Deus que não se mete em guerra, a não ser para acolher o paulistano e o palestino que estão atualmente sendo massacrados pelo crime e pela barbárie da guerra, a idolatrar um monstro sanguinário.

Um Deus que tem prazer no sangue simplesmente não entra em mim. Não consigo me ancorar em qualquer teologia que faz vista grossa à ética. Prefiro ser herege, mantendo-me coerente com princípios éticos que julgo invioláveis, a ser ortodoxo e bater de frente com princípios éticos universais, como os que estão expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, Direito Internacional Humanitário, entre outros tratados internacionais.





[1] A seguinte narrativa ilustra muito bem uma situação em que os direitos de prisioneiros de guerra são violados. Mais que isso. Há aí a violação de direitos humanos, um genocídio cruel, bárbaro:

“[23]. Os cinco reis foram tirados da caverna. Eram os reis de Jerusalém, de Hebrom, de Jarmute, de Láquis e de Eglom. [24]. Quando os levaram a Josué, ele convocou todos os homens de Israel e disse aos comandantes do exército que o tinham acompanhado: "Venham aqui e ponham o pé no pescoço destes reis". E eles obedeceram.
[25]. Disse-lhes Josué: "Não tenham medo! Não se desanimem! Sejam fortes e corajosos! É isso que o Senhor fará com todos os inimigos que vocês tiverem que combater". [26]. Depois Josué matou os reis e mandou pendurá-los em cinco árvores, onde ficaram até à tarde.
[27]. Ao pôr-do-sol, sob as ordens de Josué, eles foram tirados das árvores e jogados na caverna onde haviam se escondido. Na entrada da caverna colocaram grandes pedras, que lá estão até hoje.
[28]. Naquele dia Josué tomou Maquedá. Atacou a cidade e matou o seu rei à espada e exterminou todos os que nela viviam, sem deixar sobreviventes. E fez com o rei de Maquedá o que tinha feito com o rei de Jericó” [Josué 10.23-28 NVI].

Meu Deus, se isso não é uma barbárie, o que será? Se práticas como essas são eticamente consentidas, porque são feitas em nome de Deus, o que realmente podemos esperar de dele? Tenho medo.

sábado, 17 de novembro de 2012

Sou professor, não um coitado



Sou professor, não um coitado. Peço que a mídia e sociedade me tratem com dignidade profissional. Não preciso que tenham pena de mim. Não preciso de condolências. Na verdade, a sociedade, como um todo, deveria ter pena de si mesma, não de mim. Se a mídia e a sociedade acham mesmo que estou na miséria, então é bom que comecem a preparar o próprio funeral.

Sou professor, não um missionário da educação. Não trabalho apenas por amor a profissão. Como qualquer outro profissional, trabalho para ser dignamente remunerado. Não vou completar a baixa remuneração com filantropia, trabalho voluntário. Não sou amigo ou voluntário da escola. Sou um profissional que desempenha aí suas atividades, devendo, para isso, ser adequadamente pago.

Também não tenho a missão de salvar a educação. Na verdade, não quero e não tenho a menor condição de fazer isso. Professor não é redentor. Se a educação está perdida, quem tem a responsabilidade de apontar o caminho da redenção é o Estado, não eu.

Também não tenho a missão de salvar nenhum aluno que, porventura, se encontre em alguma situação de risco social. Na verdade, não quero salvar ninguém. É o Estado que deve criar, promover e manter políticas públicas que diminuam as situações de risco social.

Sou professor, não tio. Não trabalho para suprir demandas afetivas (de natureza familiar) dos alunos. Minha responsabilidade profissional é, sobretudo, social, não afetiva. Não sou a extensão do pai ou da mãe de ninguém. Isso não quer dizer que minha atuação não seja carregada de afetividade. É sim. Mas não posso incorporar ao meu trabalho o papel de pai ou mãe; não posso me julgar capaz de satisfazer demandas afetivas dos alunos. Se eu fizer isso, vou comprometer a qualidade técnica de meu trabalho.

Este pequeno texto é uma espécie de protesto, um desabafo. Não é um artigo. Não me preocupei em apresentar base teórica ou dados  de pesquisa que sustem (ou não) o que disse. Eu apenas quis expressar uma indignação que volta e meia sinto. Estou mesmo cansado de ser tratado com estereótipos e caricaturas.  Quero respeito. Quero que meu país me veja como um profissional importante para qualquer projeto que se queira para esta nação, não como um coitado ou um redentor.

Encerro com um mantra (surrado, mas verdadeiro) muito frequente em livros (de autoajuda) da área de educação:

Sonho com o dia em que se reconhecerá que uma nação forte se constrói em sala de aula.   Sem um projeto educacional amplo, que inclua a reestruturação da carreira docente, não há projeto de nação que se sustente.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O livro é um objeto sensual


Por André Green[1]

O desejo de ver está presente na leitura. A capa, a encadernação de um livro são sua roupa. Indicam um nome, um título, um pertencer (a casa editora) que se propõem ao olhar e o atraem.

Quando o livro está na estante de uma biblioteca, seu acesso é fácil para o olhar em busca de prazer; quando está posto na vitrine de uma livraria, esta barreira transparente aumenta nossa curiosidade. Entramos na livraria pra ‘dar uma olhada’. Exceto no caso em que já sabemos o que queremos e pedimos ao livreiro, não gostamos de ser perturbados em nossa inspeção. Fuçamos até que, atraídos por um vago indício, seguramos um livro. Aí começa o prazer, quando o abrimos, tocamos, folheamos, sondamos aqui e ali. Se o livro não está com as páginas cortadas, às vezes somos obrigados a fazer uma pequena acrobacia ocular para ler uma página pregada por cima ou pelo lado, pois é justamente aquela passagem que nos interessa.

Enfim, é preciso escolher. Se a promessa de prazer nos parece que vai poder ser mantida, pagamos o preço do livro e partimos abraçados com ele. Dependendo de se não nos desagrada mostrá-lo em nossa posse ou se algum pudor nos leva a esconder a sua identidade, o mostraremos nu ou embrulhado. Para ler, precisamos nos isolar com o livro – em público ou em particular – e às vezes em lugares bem estranho e a priori pouco propícios a este tipo de exercício.

O que nos leva a ler? A busca de um prazer pela introjeção visual que satisfaz uma curiosidade.




[1] Texto extraído de: André Green. Literatura e psicanálise: a desligação. In: Luiz Costa Lima (Org.). Teoria da literatura em suas fontes. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. p. 233-234 [Adaptado na distribuição dos parágrafos. O título “O livro é um objeto sensual” não consta no original].

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

As memórias são o que a alma acumula



Por Rubem Alves[1]

Acumular é um dos mais profundos instintos da alma. Por que a alma ama. O amor deseja possuir. Se amo a casinha de paredes brancas e janelas azuis, por que não possuí-la, se posso? Se ela for minha, eu cuidarei dela, plantarei um jardim. [...]. Se amo a música que ouço, por que não possuir o CD? Eu o levarei para casa e poderei gozá-lo quantas vezes quiser. O amor é onívoro – quer comer tudo. Comer é a forma mais radical de possuir. Comendo, o que estava fora e era outro passa a ser parte de meu próprio corpo. ‘Sou onívoro de sentimentos, de seres, de livros, de acontecimentos e lutas. Comeria toda a terra. Beberia todo o mar’, dizia Neruda.

Eu ajuntei muitas coisas e estou sendo perturbado pela pergunta da parábola; Para quem ficará tudo o que acumulaste? [...].

Parece estranho, mas o fato é que memórias são também objetos que acumulamos. Estão guardados no nosso tesouro. Há umas memórias das quais me livraria com prazer. Seria preciso inventar uma técnica de faxina de memórias: uma vez por ano, limpeza das memórias que fazem sofrer. Mas há as memórias que amo. Curioso: nenhuma delas é sobre acontecimentos importantes. São memórias-brinquedo: fico brincando com elas. E isso me faz feliz. Bobagens: a cena de um menino andando a cavalo de madrugada no meio do campo coberto com capim-gordura, o barulho da água caindo no monjolo [...]. Quando eu morrer vão se perder. Mas não quero que se percam. Tenho de dá-las para alguém que tome conta delas. Aí me vem a aflição por escrever. Quando escrevo, estou lutando contra a morte. A morte das coisas que o meu amor ajuntou e vão se perder quanto eu morrer.


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[1] Texto extraído de: Rubem Alves. Se eu pudesse viver minha vida novamente... 21. ed. Campinas: Verus, 2010. p. 46-47. [O título "As memórias são o que a alma acumula" não consta no original].