quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Rostos desfigurados: o sujeito e a massa pós-modernos

Por José J. Queiroz (2006, p. 4-5)[1]

Um rosto sem sujeito, como proclama Baudrillard (1991). O sujeito, a grande descoberta da Modernidade, agora agoniza, manipulado pela simulação (que é fingir ter o que não se tem), pelo simulacro (imagem falsa e enganadora, que impede o acesso à realidade e extermina o sentido das coisas). Mergulhado no universo onipresente do vídeo, das informações, do eletrônico, o humano vai assumindo a forma de um puro código, um sujeito sem corpo, sem substância, (como Neo, personagem central dos filmes Matrix) ou uma peça de um enorme espetáculo (como a personagem do filme The Truman Show). O espetáculo invade o cotidiano na TV, nos filmes, nas revistas, na moda, nas igrejas, um show fantasioso e fantástico, que a todos envolve no mundo da irrealidade. Narcisista, o sujeito só enxerga a própria imagem, eclética, feita de pedaços de objetos informatizados, flutuante, sem consistência, presa fácil da apatia, da ansiedade, da depressão. Publicidade, marketing, design, embalagem, micro, TV, internet, forjam o cérebro e o comportamento. Está em franca ascensão o homo digitalis ou o homo videns (SARTORI, 2001).

Isolada, dispersa, fragmentada, a massa pós-moderna já não é mais a de outrora, que se organizava em classes, partidos, segmentos, sindicatos, blocos. O patriotismo se arrefece; os laços familiares e a vinculação trabalhador-empresa são cada vez mais instáveis. A indefinição e a ausência de identidade alteram também o modo de perceber o tempo e o espaço, as coisas, e acabam tornando a própria vida um teorema “indecidível”, constituído de pequenas experiências, que se sucedem, vivências fragmentárias, onde não cabem mais os grandes ideais de totalidade como Pátria, Céu, Revolução, Libertação. (BAUDRILLARD, 1994; LYOTARD, 1993).

REFERÊNCIAS

BAUDRILLARD, Jean. Simulacro e simulação. Lisboa: Relógio D´Água, 1991.
______. À Sombra das Maiorias Silenciosas: o fim do social e o surgimento
das Massas. 4. ed. São Paulo: Brasiliense: 1994.
LYOTARD, Jean-François. O Pós-Moderno. 4. ed. Rio de Janeiro: ed. José Olympio: 1993.
SARTORI, Giovanni. Homo Videns. Televisão e Pós-Pensamento. Bauru: EDUSC, 2001.


[1] Fragmento extraído de: QUEIROZ, J. J. Deus e crenças religiosas no discurso filosófico pós-moderno. Linguagem e religião. Revista de Estudos da Religião, n. 2, p. 1-23, 2006. Disponível em:  www.pucsp.br/rever/rv2_2006/p_queiroz.pdf. Acesso em: 12 set. 2012. [O título "Rostos desfigurados: o sujeito e massa pós-modernos" não consta no original].

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