sábado, 29 de setembro de 2012

Gramática de carne e sangue


Houve um dia em que Deus se cansou de ser fabricado, construído e grosseiramente reproduzido em palavras. Se cansou de ser ídolo. Desistiu da linguagem denotativa como recurso para se fazer conhecido. Abandonou definitivamente os cânones da religião. Percebeu que tudo que aí se dizia (e se diz) a seu respeito tinha (e tem) um poder incrível de se transformar em parafernália religiosa.

Deus viu que todos os textos que tentavam trazê-lo para perto dos seres humanos, uma vez sob o controle dos magnatas da religião, logo se transformavam (e ainda se transformam), em dispositivos de opressão e desumanização. Deus notou que os textos sagrados, quando entram para o domínio do aparelho religioso, perdem a vida e se revestem de morte.

Depois de tanto desencanto com os textos e com o aparelhamento da religião, Deus decidiu vir aos homens revestido noutro tipo de palavra. Deus se cansou de ser obscurecido, aviltado e demonizado pelos textos que o aparelho religioso produz (e continua produzindo) sobre ele. Decidiu, então, fazer de si mesmo um texto de carne, uma poiesis encarnada.

Deus quis se mostrar de verdade. Para isso, revestiu-se de carne humana, de ossos humanos, de desejos humanos, de cognição humana, de psiquismo humano, de abraços humanos, de beijos humanos, de histórias humanas, de prosa humana, de poesia humana. Deus rompeu com a linguagem referencial e se casou com a matéria e poiesis humanas. Deus virou um poema em carne, que desbrava e encanta corações sequiosos de contemplação, ternura, afeto. Deus passou a morar em histórias que celebram o desmoronamento das estruturas religiosas. Deus virou um contador de histórias da vida cotidiana, abandonando de vez a tribuna dos grandes eventos litúrgicos e as cátedras das grandes escolas rabínicas.

Deus virou um de nós para nos mostrar que nenhum monumento de linguagem referencial, nenhuma confissão teológica, nenhum acontecimento litúrgico pode tocá-lo. Apenas um texto recoberto de sensibilidade (um poema, uma metáfora, uma história, um causo) pode traçar alguns de seus contornos. Nenhum edito, encíclica, confissão, sermão, petição, relatório etc., que esteja a serviço de algum empreendimento religioso, contém Deus.

Deus não se deixa conceituar porque sabe que conceitos podem virar instrumento de morte. Muitos já mataram e muitos já morreram por causa de algum conceito religioso.  É por isso que Deus jamais foi textografado. Deus sempre soube que um texto que o refletisse com precisão, compondo uma Textografia de Deus, mais cedo ou mais tarde (talvez só mais cedo), cairia na mão de algum magnata religioso (pessoal ou institucional) e se transformaria num instrumento de exploração, dominação e execução.

Deus nunca esteve em textos que servem para oprimir, excluir e matar. Aliás, Deus nem chega perto de eventos nos quais textos assim estejam sendo lidos/falados, a não ser para recolher dali os fracos e pobres que estão sendo massacrados.

Deus, agora, não está mais nos textos. Ele está nas pessoas. Deus virou gente para não precisar mais da mediação dos textos. Deu um basta na farra que os religiosos estavam fazendo em seu nome a partir do uso de textos supostamente sagrados, falsas teotextografias. Na verdade, Deus se cansou de ser vítima dos textos. Fez de si mesmo o texto a ser seguido, imitado, lembrado.

Sem a necessidade dos textos como elementos de mediação, os magnatas do esquema religioso agora estão de mãos abanando. E foi se a glória da máquina religiosa! Ninguém precisa mais se submeter a nenhum rabino, sacerdote, apóstolo, profeta, padre, pastor, bispo, reverendo etc. etc. Deus é o próprio texto encarnado, escrito numa gramática de carne e sangue, que pode ser lido/comido por qualquer um. O verbo se tornou carne e nos disse: “Este é o meu corpo que é dado por vocês. Comam dele todos. Deixem que as estruturas do verbo sejam dissolvidas na alma, no caráter e no afeto de vocês. E, assim, sejam impelidos à prática do amor”. Amém.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Poeta

Poeta é alguém
Que sai em busca de coisas já encontradas por todos,
Que faz o dia nascer quando o sol já se inclina para o poente,
Que sonha na vigília e faz poema enquanto dorme.
Ser poeta é se encontrar com pessoas/coisas/realidades/eventos
Que existem para além do que as coisas são no espaço-tempo.

Sostenes Lima
@Limasostenes

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Rostos desfigurados: o sujeito e a massa pós-modernos

Por José J. Queiroz (2006, p. 4-5)[1]

Um rosto sem sujeito, como proclama Baudrillard (1991). O sujeito, a grande descoberta da Modernidade, agora agoniza, manipulado pela simulação (que é fingir ter o que não se tem), pelo simulacro (imagem falsa e enganadora, que impede o acesso à realidade e extermina o sentido das coisas). Mergulhado no universo onipresente do vídeo, das informações, do eletrônico, o humano vai assumindo a forma de um puro código, um sujeito sem corpo, sem substância, (como Neo, personagem central dos filmes Matrix) ou uma peça de um enorme espetáculo (como a personagem do filme The Truman Show). O espetáculo invade o cotidiano na TV, nos filmes, nas revistas, na moda, nas igrejas, um show fantasioso e fantástico, que a todos envolve no mundo da irrealidade. Narcisista, o sujeito só enxerga a própria imagem, eclética, feita de pedaços de objetos informatizados, flutuante, sem consistência, presa fácil da apatia, da ansiedade, da depressão. Publicidade, marketing, design, embalagem, micro, TV, internet, forjam o cérebro e o comportamento. Está em franca ascensão o homo digitalis ou o homo videns (SARTORI, 2001).

Isolada, dispersa, fragmentada, a massa pós-moderna já não é mais a de outrora, que se organizava em classes, partidos, segmentos, sindicatos, blocos. O patriotismo se arrefece; os laços familiares e a vinculação trabalhador-empresa são cada vez mais instáveis. A indefinição e a ausência de identidade alteram também o modo de perceber o tempo e o espaço, as coisas, e acabam tornando a própria vida um teorema “indecidível”, constituído de pequenas experiências, que se sucedem, vivências fragmentárias, onde não cabem mais os grandes ideais de totalidade como Pátria, Céu, Revolução, Libertação. (BAUDRILLARD, 1994; LYOTARD, 1993).

REFERÊNCIAS

BAUDRILLARD, Jean. Simulacro e simulação. Lisboa: Relógio D´Água, 1991.
______. À Sombra das Maiorias Silenciosas: o fim do social e o surgimento
das Massas. 4. ed. São Paulo: Brasiliense: 1994.
LYOTARD, Jean-François. O Pós-Moderno. 4. ed. Rio de Janeiro: ed. José Olympio: 1993.
SARTORI, Giovanni. Homo Videns. Televisão e Pós-Pensamento. Bauru: EDUSC, 2001.


[1] Fragmento extraído de: QUEIROZ, J. J. Deus e crenças religiosas no discurso filosófico pós-moderno. Linguagem e religião. Revista de Estudos da Religião, n. 2, p. 1-23, 2006. Disponível em:  www.pucsp.br/rever/rv2_2006/p_queiroz.pdf. Acesso em: 12 set. 2012. [O título "Rostos desfigurados: o sujeito e massa pós-modernos" não consta no original].

sábado, 8 de setembro de 2012

Restam

Restam...
as pálpebras pesando sobre os olhos
um olhar esmaecido
um pensamento que se arrasta
o desejo se despedaçando
o dia chorando ante o crepúsculo
o barulho se envolvendo em silêncio
a escuridão se assentando
a alma se acalmando diante do imponderável.

Anápolis, 08 set. 2012

Sostenes Lima
@Limasotenes