segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Xô complexo de vira-latas

Foi Nelson Rodrigues que cunhou a expressão “complexo de vira-latas” quando escreveu uma crônica esportiva antes da final da copa do Mundo de 1958. Desde a final de 1950, em que o Brasil perdeu para o Uruguai no Maracanã, uma onda de pessimismo mexia com a cabeça do torcedor. Nelson Rodrigues escreveu, então, uma crônica em que se propunha a analisar a condição do Brasil para a final diante da Suécia e o sentimento (pessimista) que tomava conta do torcedor. No final do texto, nosso grande dramaturgo e cronista diz:  “Em suma: - temos dons em excesso. Só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de ‘complexo de vira-latas’”. Logo em seguida, Nelson Rodrigues define a expressão: “Por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”[1].

O complexo de vira-latas do brasileiro assume diversas feições, dependo do que está em jogo. Não é só no esporte que esse sentimento de inferioridade se alastra. Até Monteiro Lobato propalou essa besteira, dando-lhe contornos raciais lastimáveis: “O Brasil, filho de pais inferiores, mal-educados, destituídos desses caracteres fortíssimos que imprimem, a talho de buril, um cunho inconfundível em certos indivíduos, como acontece com o alemão, com o inglês, cresceu tristemente, sempre enflanelado porque constipado, a engolir mezinhas e panaceias, e afinal de contas, dando como resultado um tipo imprestável, incapaz de continuar a se desenvolver sem o concurso vivificador do sangue de alguma raça original - desses que possuem caracteres inconfundíveis”[2]. (Aff! Sinto vergonha alheia por tamanha asneira. Como Monteiro Lobato pode dizer isso?). Como diz Pondé, brasileiro vira-lata, cheio de afetação, “adora bancar o chique falando mal de si mesmo. Principalmente quando alguém chique (leia-se, europeu [e americano]) fala mal do Brasil. Um modo específico de nosso complexo de vira-lata é achar a Europa [e Estados Unidos] o máximo”[3].

Nestes dias de jogos olímpicos, tenho ouvido muitas pessoas dizerem que os atletas brasileiros, se comparados aos americanos e chineses, não têm força mental, são psicologicamente fracos. Isso é, a meu ver, mais uma das muitas faces do tal complexo de vira-latas que povoa o nosso imaginário.

Quando o Corinthians se preparava para jogar a final da Libertadores (2012) com o Boca Juniors, ouvi um monte de brasileiros vira-latas dizendo que os times do Brasil sempre amarelam diante dos times da Argentina. Mas não foi bem isso que aconteceu, não é?!. E por que não? Simplesmente porque isso não é verdade. Não estou dizendo que o retrospecto dos times brasileiros sobre os argentinos seja favorável. O que estou dizendo é que, em geral, não são apenas fatores emocionais que levam a vitória ou derrota. O Corinthians provou que uma equipe competitiva (formada por atletas competentes, bem dirigida e acostumada a enfrentar jogos difíceis) dificilmente perde uma partida por causa de fatores emocionais.

Antes do triunfo do Corinthians (2012), os times brasileiros vinham de cinco (5) derrotas em finais da Libertadores para os argentinos (o Cruzeiro perdeu para o Estudiantes em 2009, o Grêmio para o Boca Juniors em 2007, o Santos para o Boca Juniors em 2003, o Palmeiras para o Boca Juniors em 2000 e o São Paulo para o Velez Sarsfield em 1994). Um retrospecto como esse, infelizmente, revigora o discurso de que os brasileiros são amarelões. Contudo, é importante frisar que as razões para essas derrotas sucessivas, certamente, vão muito além de fatores emocionais. É obvio que cada equipe derrotada falhou em outros critérios além do emocional. Além disso, há uma verdade óbvia, mas muitas vezes ignorada: quando dois times disputam uma final, necessariamente, um ganha e outro perde. Isso é uma questão matemática, não emocional. Mesmo quando os dois times estão técnica e psicologicamente preparados, um vai perder.

Diversos fatores coatuam na performance de uma equipe, não apenas o psicológico. Não há como exigir força mental de alguém que não tenha talento e técnica suficiente para vencer uma competição, para ganhar uma medalha olímpica. Também não há como exigir que um atleta tenha força psicológica para ganhar uma medalha olímpica sem ter participado de eliminatórias internas (brasileiras) e competições internacionais  de alto nível, fortemente competitivas.

Eis mais uma verdade óbvia e incontestável: um time ou atleta vitorioso é aquele que, ao disputar partidas difíceis com frequência, soma mais vitórias que derrotas, tendendo a se tornar cada vez mais confiante. Não é a confiança que gera a vitória. É exatamente o contrário. É a recorrência de participação em competições complicadas, alcançando mais vitórias que derrotas, que torna o atleta mais confiante e mais bem preparado para enfrentar uma competição importante e cheia de expectativa nacional, como a olimpíada. Se certos atletas brasileiros, em algumas modalidades, são psicologicamente fracos é porque ainda não alcançaram nível técnico e competitividade suficiente para conseguir vencer em olimpíadas. E isso se dá porque têm deficiências técnicas, porque competem pouco ou porque as seletivas brasileiras não são tão fortes assim.

Fico pensando: se preparação psicológica ganhasse mesmo jogos, seria fácil fazer o Brasil se tornar Campeão Mundial de Rúgbi. Bastaria montar um time e começar a fazer a preparação mental. Alguém acha que isso funcionaria? Não estou dizendo que o trabalho de uma equipe multidisciplinar, incluindo aí a colaboração de psicólogos, não é importante. Só estou dizendo que não é a falta desse tipo de trabalho que compromete o desempenho de grande parte dos atletas brasileiros.

A verdade doída e, às vezes, difícil de admitir é que boa parte dos atletas olímpicos do Brasil é tecnicamente fraca, não psicologicamente. E isso acontece por razões que vão muito além da força, boa vontade e equilíbrio emocional de cada atleta. Falta-nos aprofundar os diversos projetos educacionais e socioesportivos já em curso em vários pontos do país e criar outros. Também devemos aumentar o número de modalidades esportivas praticadas e dar condições para que os atletas participem de várias competições nacionais e  internacionais de alto nível.

A preparação psicológica de um atleta não é algo que se faz na véspera, como que colocando nele chip previamente programado e alimentado por um roteiro de estímulos psicológicos, capaz de reprimir certas reações e sentimentos, e estimular outros. Participar intensivamente, e com condições estruturais dignas, de competições nacionais e internacionais é parte fundamental da preparação psicológica do competidor, talvez a mais importante. E não sou eu que estou inventando isso. Veja o que Ana Moser, ex-atleta do vôlei brasileiro, medalhista de bronze em Atlanta 1996, diz: “Como se aprende, em esportes individuais, a ter confiança em uma competição difícil como a Olimpíada? Disputando, durante a vida toda, competições muito difíceis. É o que existe em maior escala no judô brasileiro e em todas as modalidades nas grandes potências esportivas. Essa “é a melhor preparação psicológica que pode ser feita. Muito melhor do que recorrer a terapias e dinâmicas motivacionais, etc.”[4].

Em geral, nós, torcedores, somos muito injustos com os atletas quando eles perdem. Não estou dizendo que precisamos aplaudir a derrota. Mas devemos ser mais empáticos com o mundo que existe em torno do atleta. Não é sua cabeça que para de funcionar quando ele perde. Certas derrotas são desenhadas muito antes da competição e partida começarem. Por exemplo, a eliminação das equipes e atletas do tiro esportivo, esgrima, remo, entre outras modalidades, não aconteceu porque os atletas amarelaram; aconteceu porque nossos atletas não tinham nível técnico para competir em condições de igualdade com os outros. No atual momento, não há preparação psicológica que faça o tênis de mesa do Brasil ganhar da China. Isso não é complexo de inferioridade, é apenas uma constatação da diferença no nível técnico. Do mesmo modo, também não há preparação psicológica capaz de fazer o time de futebol chinês masculino ganhar uma medalha de ouro olímpica (o time sequer se classificou para Londres-2012).

O Brasil deve focar na preparação para os jogos Rio-2016, mas sem essa dar muito atenção para esse complexo de vira-latas que tanto nos perturba e que dirige a mentalidade do tecedor brasileiro médio. Alguns resultados do Time Brasil em Londres vem nos mostrando as modalidades que mais se ajustam ao nosso perfil cultural, e que mais devem receber incentivo e investimento. Para mim, não adianta querer que o Brasil ganhe medalhas no badminton, na luta olímpica (luta livre e luta greco-romana), no hóquei sobre a grama, tiro etc. Devemos preparar equipes para competir nessas modalidades, mas não vejo condições (culturais, estruturais e de talento) capazes de fazer esses esportes florescerem por aqui num prazo curto de quatro anos. Por outro lado, modalidades como boxe, judô, atletismo, natação, ginástica, entre outras, e os esportes coletivos mais tradicionais (futebol, vôlei, basquete, handebol etc.) têm mostrado que podem nos dar muitas medalhas. Essas modalidades devem ser escolhidas como prioridade para que o Brasil alcance as 30 medalhas olímpicas planejadas pelo  Comitê Olímpico Brasileiro (COB).

Já está passando de hora de nos vermos como um povo capaz, que deve agir para algo acontecer; não como um povo que, por ser emocionalmente fraco, nunca é capaz de realizar alguma coisa com excelência, como reza o complexo de vira-latas. Esse negócio de dizer que o atleta brasileiro é psicologicamente fraco não passa de uma das nuances do discurso de vira-latas que, infelizmente, persiste em dirigir nossas vidas, apesar do vasto conjunto de exemplos contrários que temos. Ou alguém acha que um time que vence 30 dos 39 campeonatos que disputou, incluindo aí olimpíadas e campeonato mundial, é psicologicamente fraco? O vôlei masculino, sob o comando Bernardinho, fez isso nos últimos dez anos.

Já passou de hora desse sentimento de vira-latas, que tanto nos atravanca, ser desmantelado. Chega de ser vira-latas, colonizados, subalternos, pedintes. Xô complexo de vira-latas, você já deu o que tinha de dar. O esporte olímpico brasileiro vem tomando o caminho certo em diversas frentes. Agora é a vez dos torcedores  (e todos os brasileiros) saírem do caminho errado e pararem de ver o Brasil como um país de joão-ninguém.

@Limasostenes


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[1] Nelson Rodrigues. À sombra das chuteiras imortais. São Paulo: Cia. das Letras, 1993. p. 51-52.
[2] Monteiro Lobato. “A todo transe”. In: ______. Literatura do Minarete. São Paulo: Globo, 2008. p. 100.
[3] Luiz Felipe Pondé. Vira-latas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 05 dez. 2011. Disponível em:  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/13006-vira-latas.shtmlAcesso em: 06 ago. 2012.
[4] Ana Moser. Preparação psicológica. Disponível em: http://br.noticias.yahoo.com/blogs/blog-ana-moser/prepara%C3%A7%C3%A3o-psicol%C3%B3gica-141344764.html. Acesso em: 06 ago. 2012.

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