sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O inferno mora na alma


De vez em quando o inferno se aproxima de mim, me envolve, me enreda. Fico com a alma dilacerada. Me desumanizo. Começo a lutar. E, com muito, esforço consigo enfraquecer as minhas trevas. Sei que não é uma vitória definitiva. O inferno me perseguirá outras vezes. Estarei, em outros momentos, à mercê de suas forças sutis e avassaladoras.

Houve um tempo em que eu tinha muito medo do inferno. Eu ficava aterrorizado com o cenário que os pregadores pintavam. Ficava ainda mais amedrontado quando alguém me dizia: “Se você continuar se comportando assim vai acabar indo para o inferno”.

Na minha infância, a ameaça de inferno era um expediente de controle muitíssimo eficaz. Quando a meninada se reunia e começava a aprontar, a expressão “cuidado com o inferno” era quase sempre suficiente para restaurar a ordem. Quando ouvia isso, a meninada ficava de orelha em pé; logo se lembrava de que Deus manda os desobedientes para um lugar bem longe, governado por Satanás. Lá os rebeldes são eternamente queimados; o fogo nunca apaga e bicho nunca morre.

Hoje, o inferno não me assusta mais. Aquele medo aterrador, quase sinistro, de ir para um lugar fétido, quente e comandado por um ser chifrudo que tortura suas vítimas com um tridente não me impressiona mais. Nenhuma pregação ou fala sobre o inferno me comove. O que mudou?

Descobri que o inferno não é um lugar para onde se vai depois da morte. Não, definitivamente não. O inferno mora bem aqui do lado; está entre nós, está em nós.

O inferno não é uma pessoa; ele está nas pessoas. O inferno não é uma coisa; ele está nas coisas. O inferno não é um lugar; ele está nos lugares; O inferno não é o mal; ele está no mal. O inferno não é uma entidade de outro mundo; ele está neste mundo. Não são as pessoas que vão para o inferno; é o inferno que vai para dentro das pessoas. Ninguém é torturado no inferno; é o inferno que, entrando nas pessoas, começa a impulsioná-las a um autoflagelo emocional e existencial. Ninguém é morto no inferno; é o inferno que, uma vez instalado nas pessoas, começa a matá-las por dentro.

O inferno não é uma categoria religiosa ou teológica. Sua existência não depende da anuência ou catalogação de uma determinada tradição e/ou dogma. Não é a religião que o institui; são as pessoas que o tornam real. O inferno existe porque pessoas existem. Ele está em todo lugar por onde o ser humano anda. O inferno mora na alma humana.

Embora não pareça, o inferno que a tradição religiosa pinta é muito menos terrível que o inferno que reside aqui. A postulação de um inferno fora do nosso mundo contribuiu, e muito, para que o inferno daqui atuasse livremente, se tornando cada vez mais infernal. A religião, ao fabricar um inferno em outras paragens cósmicas, como um ajuste de contas para depois da morte, mitigou o inferno daqui, tornou-o invisível. De certo modo, liberou as pessoas para viverem no inferno se darem conta disso. Também deu liberdade para o homem infernal disseminar inferno sem que as forças anti-inferno possam constrangê-lo. Afinal de contas, o castigo está destinado para a vida no além. Pouco se combate, reprime ou remedia aqui. É lá que tudo que tudo finalmente será pago.

Os religiosos e fundamentalistas também ganharam muito com essa história de construir um inferno no além. Com essa medida, eles puderam amansar, e maquiar ainda mais, os infernos e demônios que povoam a religião. Acabaram se livrando do risco de verem expostas as alianças espúrias que mantêm com os infernos e demônios que sutilmente governam as estruturas de poder da religião.

Hoje, o que sinto pelo inferno é uma enorme indignação. Sei que nem sempre percebo os infernos que existem no meu entorno, especialmente aqueles que estão sendo encubados dentro mim. Mas travo uma luta contínua para que o inferno jamais se torne comum, imperceptível. O inferno fica muito mais medonho, efetivo e devastador quando não é notado. Preciso lutar para que as cortinas que o envolvem e que o mascaram sejam destruídas. Preciso lutar para que as vísceras podres do inferno sejam expostas.

O inferno pode ser combatido tanto no plano pessoal e quanto no plano social. Contudo, em ambos os casos, a ação se constitui basicamente de plantar e cultivar amor. O que é o inferno senão uma ausência de amor, uma rejeição ao amor, um ódio declarado ao amor? O inferno se alimenta de tudo que mata o amor: indiferença, ódio, sadismo, presunção, ambição, inveja, ressentimento, mágoa etc.

O inferno nasce do fracasso do amor. Onde o amor floresce, o inferno morre. Onde o amor fracassa, o inferno finca raízes, se fortalece, constrói uma sede de governo, edifica repartições de comando.

A população do inferno não é feita de gente morta. São os vivos que vão para lá vivem aqui. Sempre que desprezamos o amor, passamos a engrossar as fileiras do inferno. E não há prática religiosa capaz de nos livrar do inferno. Apenas o amor pode pôr para fora o inferno que mora em nós.

O apóstolo João nos adverte: “Quem se recusa a amar não sabe o que mais importa sobre Deus, pois Deus é amor” [1 Jo. 1.8]*. Quando nos opomos a amar, plantamos no paraíso de Deus, o mundo em que vivemos, uma serpente semente de inferno. Não há oração, culto, louvor, campanha, novena, penitência, seja lá o que for, que mate essa semente. Tudo que importa para Deus é o amor. Sem amor, não há adoração que valha a pena. Sem amor, até as mais profundas preces se tornam sementes de inferno. A religião não pode destruir o inferno. Na verdade, em alguns casos, a religião faz é potencializar o inferno. Apenas o amor (Deus) pode aniquilar o inferno. Amemos.

@Limasostenes

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*Fragmento citado de:  Eugene Peterson. A mensagem: a bíblia em linguagem contemporânea. São Paulo: Vida, 2011. p. 1748.

11 comentários:

  1. Não acreditas na existência de um inferno pós-morte ou na existência de Satanás?

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    1. O que posso dizer, sendo bastante honesto, é que não sei praticamente nada a respeito da vida pós-morte e do mundo espiritual.

      Contudo tenho muita convicção a respeito do amor (Deus). Sei que o amor (Deus) está acima de tudo; sei que o amor (Deus) é o que é; sei que que o amor (Deus) suplanta (ou suplantará) tudo.

      Abraços, meu amigo. Andemos pelo caminho do amor (de Deus), e ele continuará a nos guiar, mesmo quando andarmos por caminhos que não conhecemos muito bem. Sostenes Lima.

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  2. Obrigado por sua honestidade. Tenho lido suas postagens, apesar de não concordar com tudo, são visões interessantes a respeito da fé cristã. Acima de tudo viva o AMOR (DEUS) e, assim, creio que não há porque temer o inferno.

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  3. Concordo que o inferno é, muitas vezes, vivenciado aqui mesmo, na terra, em vida. Entendo que cada um tem o seu diabo, os seus demônios e seu inferno. Acredito que a vida aqui, vivida sem amor, se torna, de fato, um inferno, posto que Deus é amor.

    Mas não concordo (ou não entendi) com sua posição sobre o inferno pós morte, como o amigo disse acima.
    Sei que nem você, nem ninguém sabe praticamente nada a respeito da vida pós morte.
    Mas dizer que não acredita no inferno pós morte, ainda que diferente da forma como a religião muitas vezes o expõe, pra mim, é o mesmo que não acreditar no céu pós morte.

    Muitos vivem um inferno já aqui, sim. Muitos outros, entretanto, vivem o céu já aqui (ou ao menos tentam viver), que são todos aqueles que, nada haver com religiosidade, vivem verdadeiramente a essência de Deus, que é o amor.

    Mas há de ter o inferno pós morte, como também há de ter o céu pós morte. A bíblia os cita, inclusive.

    Afinal, só pra esclarecer, você acredita no céu pós morte?
    Se sim, como pode não acreditar no inferno pós morte?

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  4. Sostenes, tenho tanto orgulho de você!

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  5. Sostenes, sinto-me muito honrada em tê-lo conhecido... Sinto orgulho imenso!

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    1. Oi, Margarida. Saudades de nossa jornada na graduação. Tempos bons aqueles, hein; muito enriquecedores. Aprendi muito com o nosso grupo (Karla - a outra Karla por um tempo também -, Mara, Margarida). Tenho saudades da Mara e das Karlas também.

      Obrigado por suas palavras. Você, como sempre, muito gentil.

      Muitos abraços.

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  6. Desculpa queridos, mas essa pergunta sugere outras indagações...
    A existência do céu pós-mote , depende da exsitência de um inferno pós-morte? Por quê?
    Abraços

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  7. Acredito que o "inferno" vive no coração das pessoas que não tem AMOR não sentem AMOR .. que não sabem perdoar .. que guardam mágoas .. que ficam felizes quando acontece algo de ruim com o seu próximo ... etc.
    Cada um faz o seu inferno aqui neste planeta ... assim como acredito que cada um constrói o seu "Paraíso" ... com ações, atitudes e modo de viver... Não queira salvar o mundo se você nem sabe o nome do seu vizinho ou virou o rosto para um irmão seu...

    Adorei o texto, ele me lembrou minha escola de "freiras" elas passavam um filme com imagens do inferno, eu era criança e aquilo me deixava com "medo" e ficava repetindo na mente durante o filme "isso não pode ser assim.. isso não pode ser assim" ... as imagens eram de pessoas pegando fogo e com gritos pavorosos ... era um filme de terror ... enfim ... Parabéns pelo texto.

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  8. Apenas para contribuir no debate, vale dizer que na visão judaica e cristã do primeiro século, a preocupação era com a ressurreição (a da carne, tal qual consta no Credo apostólico). Os judeus chamavam (e se não me engano ainda chamam) de 'mundo por vir'. O cristãos criam que a Nova Jerusalém desceria na terra (por sobre a antiga , provavelmente). O que quero apontar é que este mundo, esta matéria, este universo, esses átomos ao nosso redor estarão no que chamamos de 'Reino dos Céus' (que por sinal, creio eu, já começou).

    É o céu que desce na terra e não o contrário. A vinda de Jesus de certa forma nos dá uma pista: Deus se tornou carne. A eternidade entrou na história. Não penso que Deus mude a direção do movimento no fim e as escrituras não avalizam isso também.

    Não temos muito o que dizer sobre outros mundos e realidades. Como será o destino daqueles que porventura não fizerem parte desse Reino dos Céus na Terra? Creio que ninguém possa dizer com certeza. Me parece razoável que nem todos entrarão nesse Reino. Nem todos ressuscitarão para entrar nele e isso aparece claro nas escrituras.

    Penso ainda que a maioria de nós não gostaria de viver em um Reino governado pela lógica do Sermão da Montanha. Um lugar onde devemos dar a outra face. Onde somos todos irmãos, e por tanto não somos donos de nada. Onde a meritocracia não é respeitada, temos apenas o suficiente e a riqueza é repartir e não possuir. A maioria não quer viver num lugar assim.

    Jesus veio nos salvar. Mas veio também nos ensinar a ser um novo tipo de pessoas. Pra que ser salvo se continuo querendo o inferno do mesmo jeito? Pra que ser perdoado se não me arrependo da vida distante do Reino de Deus que gosto de ter? Eu quero entrar no céu ou quero que o céu entre em mim?

    Para completar, penso que Deus não obrigará ninguém a entrar no seu Reino. Tampouco impedirá quem quiser sair. E creio que muitos vão preferir ficar do lado de fora.

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  9. Muito bom Sóstenes!!!!! Texto maravilhoso!!! Ouço e penso muito a respeito do Reino de Deus, em nós e nós nele, desde aqui, pois o Reino de Deus é chegado, e já! E achei muito boa sua leitura a respeito do inferno já, e não apenas depois!

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