terça-feira, 14 de agosto de 2012

Aluno cotista tem rendimento baixo. Será?


Já ouvi algumas pessoas dizendo que não são a favor do sistema de cotas (reserva de vagas para candidatos com determinado perfil étnico e/ou social) porque o aluno cotista apresenta rendimento muito, mas muito inferior aos demais. Quem usa essa justificativa para se posicionar contra as cotas está não apenas legitimando um preconceito contra o negro e/ou pobre, mas, sobretudo, se firmando numa inverdade. Pesquisas feitas na UERJ e Unicamp mostram que o aluno cotista tem desempenho acima da média[1]. Não bastasse o preconceito que o cotista carrega por ser pobre e/ou negro, ainda tem de carregar o preconceito (prejulgamento) de ser incapaz. Vê se pode?

Não digo que casos específicos não aconteçam. Porém, no geral, o rendimento do aluno cotista é satisfatório. Parece inacreditável, não é? Sempre ouvimos dizer que aluno beneficiado pelo sistema de cotas é problemático, tem dificuldade de aprender, só tira nota ruim, abandona o curso pela metade. Pois é, o estudo feito pela UERJ e pela Unicamp desmascara o preconceito de que aluno cotista é incapaz. Fico pensando: derrubada essa justificativa, o que restará para abonar uma posição contrária às cotas?

Outro dia li o artigo “Universidade e populismo”, de Helio Schwartsman, colunista da Folha de S. Paulo. O texto aborda o Projeto de Lei (já aprovado na Câmara e Senado, aguardando apenas a sanção da presidente Dilma), que destina 50% das vagas das Universidades Federais para alunos que fizeram o Ensino Médio em escola pública. Segundo o autor, o Projeto é populista e, se sancionado, vai prejudicar a qualidade das Universidades brasileiras e também os próprios cotistas. O autor diz que até mesmo quem é a favor das cotas deveria se posicionar contra o Projeto. E o motivo, segundo ele, é que uma vez aumentado o número de alunos cotistas na Universidade, eles vão se segregar (formar uma espécie de gueto social dentro da Universidade) e, com isso, se afastar dos alunos ricos. O autor teve a babaquice coragem de dizer que um número maior de cotistas vai impedir que “jovens de estratos sociais mais baixos se beneficiem de estudar com alunos ricos”[2]. Para mim, isso soa como preconceito, mas muito preconceito. Não consegui digerir. Imagine só! O cara considera que a companhia da elite é fundamental para a redenção dos "pobres alunos cotistas". É isso mesmo? Eu entendi bem?

Todo mundo tem o direito de se posicionar contra o sistema de cotas. Mas daí achar que, sem os ricos, os pobres estão completamente perdidos é demais, não é?

Por fim, considero que tomar uma posição contrária ao sistema de cotas requer uma justificativa que se apoie em dados, não numa opinião de senso comum. Um cotista específico, que tenha rendimento baixo, jamais deve ser tomado como referência. Ele não representa o todo. Ele é apenas um aluno ruim como qualquer outro. Tenho certeza de que numa sala, em que há um cotista com baixo rendimento, há também um não cotista com baixo rendimento. Por que só o cotista é notado? Não parece haver aí uma pré-disposição para o pré-conceito?



[1] Para mais detalhes sobre a pesquisa, veja a notícia em:
[2] O texto de Schwartsman está disponível em:

2 comentários:

  1. O sistema de cotas autentica a discriminação racial, econômica e social; contrariando o princípio da isonomia constitucional em que "todos são iguais" independente de raça, sexo, condição social ou econômica, ou religião. Num pais onde praticamente toda a população é capaz de provar geneticamente ser (ou possuir) geneticamente negra, o sistema de cotas é uma piada de mau gosto. Por isso sou radicalmente contra o sistema de cotas.

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  2. O sistema de cotas eh mais uma prova da falência institucional do ensino público brasileiro, nao fazer nada para melhorá-lo e ainda assim apresentar uma solução vagabunda como eh o sistema de cotas realmente eh pedir pra ser taxado eternamente como subdesenvolvido.
    Universidades federais, USP, ITA etc. foram criadas para formarem profissionais com máxima excelência e máxima eficiência, não resolvem problemas sociais.

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