sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O inferno mora na alma


De vez em quando o inferno se aproxima de mim, me envolve, me enreda. Fico com a alma dilacerada. Me desumanizo. Começo a lutar. E, com muito, esforço consigo enfraquecer as minhas trevas. Sei que não é uma vitória definitiva. O inferno me perseguirá outras vezes. Estarei, em outros momentos, à mercê de suas forças sutis e avassaladoras.

Houve um tempo em que eu tinha muito medo do inferno. Eu ficava aterrorizado com o cenário que os pregadores pintavam. Ficava ainda mais amedrontado quando alguém me dizia: “Se você continuar se comportando assim vai acabar indo para o inferno”.

Na minha infância, a ameaça de inferno era um expediente de controle muitíssimo eficaz. Quando a meninada se reunia e começava a aprontar, a expressão “cuidado com o inferno” era quase sempre suficiente para restaurar a ordem. Quando ouvia isso, a meninada ficava de orelha em pé; logo se lembrava de que Deus manda os desobedientes para um lugar bem longe, governado por Satanás. Lá os rebeldes são eternamente queimados; o fogo nunca apaga e bicho nunca morre.

Hoje, o inferno não me assusta mais. Aquele medo aterrador, quase sinistro, de ir para um lugar fétido, quente e comandado por um ser chifrudo que tortura suas vítimas com um tridente não me impressiona mais. Nenhuma pregação ou fala sobre o inferno me comove. O que mudou?

Descobri que o inferno não é um lugar para onde se vai depois da morte. Não, definitivamente não. O inferno mora bem aqui do lado; está entre nós, está em nós.

O inferno não é uma pessoa; ele está nas pessoas. O inferno não é uma coisa; ele está nas coisas. O inferno não é um lugar; ele está nos lugares; O inferno não é o mal; ele está no mal. O inferno não é uma entidade de outro mundo; ele está neste mundo. Não são as pessoas que vão para o inferno; é o inferno que vai para dentro das pessoas. Ninguém é torturado no inferno; é o inferno que, entrando nas pessoas, começa a impulsioná-las a um autoflagelo emocional e existencial. Ninguém é morto no inferno; é o inferno que, uma vez instalado nas pessoas, começa a matá-las por dentro.

O inferno não é uma categoria religiosa ou teológica. Sua existência não depende da anuência ou catalogação de uma determinada tradição e/ou dogma. Não é a religião que o institui; são as pessoas que o tornam real. O inferno existe porque pessoas existem. Ele está em todo lugar por onde o ser humano anda. O inferno mora na alma humana.

Embora não pareça, o inferno que a tradição religiosa pinta é muito menos terrível que o inferno que reside aqui. A postulação de um inferno fora do nosso mundo contribuiu, e muito, para que o inferno daqui atuasse livremente, se tornando cada vez mais infernal. A religião, ao fabricar um inferno em outras paragens cósmicas, como um ajuste de contas para depois da morte, mitigou o inferno daqui, tornou-o invisível. De certo modo, liberou as pessoas para viverem no inferno se darem conta disso. Também deu liberdade para o homem infernal disseminar inferno sem que as forças anti-inferno possam constrangê-lo. Afinal de contas, o castigo está destinado para a vida no além. Pouco se combate, reprime ou remedia aqui. É lá que tudo que tudo finalmente será pago.

Os religiosos e fundamentalistas também ganharam muito com essa história de construir um inferno no além. Com essa medida, eles puderam amansar, e maquiar ainda mais, os infernos e demônios que povoam a religião. Acabaram se livrando do risco de verem expostas as alianças espúrias que mantêm com os infernos e demônios que sutilmente governam as estruturas de poder da religião.

Hoje, o que sinto pelo inferno é uma enorme indignação. Sei que nem sempre percebo os infernos que existem no meu entorno, especialmente aqueles que estão sendo encubados dentro mim. Mas travo uma luta contínua para que o inferno jamais se torne comum, imperceptível. O inferno fica muito mais medonho, efetivo e devastador quando não é notado. Preciso lutar para que as cortinas que o envolvem e que o mascaram sejam destruídas. Preciso lutar para que as vísceras podres do inferno sejam expostas.

O inferno pode ser combatido tanto no plano pessoal e quanto no plano social. Contudo, em ambos os casos, a ação se constitui basicamente de plantar e cultivar amor. O que é o inferno senão uma ausência de amor, uma rejeição ao amor, um ódio declarado ao amor? O inferno se alimenta de tudo que mata o amor: indiferença, ódio, sadismo, presunção, ambição, inveja, ressentimento, mágoa etc.

O inferno nasce do fracasso do amor. Onde o amor floresce, o inferno morre. Onde o amor fracassa, o inferno finca raízes, se fortalece, constrói uma sede de governo, edifica repartições de comando.

A população do inferno não é feita de gente morta. São os vivos que vão para lá vivem aqui. Sempre que desprezamos o amor, passamos a engrossar as fileiras do inferno. E não há prática religiosa capaz de nos livrar do inferno. Apenas o amor pode pôr para fora o inferno que mora em nós.

O apóstolo João nos adverte: “Quem se recusa a amar não sabe o que mais importa sobre Deus, pois Deus é amor” [1 Jo. 1.8]*. Quando nos opomos a amar, plantamos no paraíso de Deus, o mundo em que vivemos, uma serpente semente de inferno. Não há oração, culto, louvor, campanha, novena, penitência, seja lá o que for, que mate essa semente. Tudo que importa para Deus é o amor. Sem amor, não há adoração que valha a pena. Sem amor, até as mais profundas preces se tornam sementes de inferno. A religião não pode destruir o inferno. Na verdade, em alguns casos, a religião faz é potencializar o inferno. Apenas o amor (Deus) pode aniquilar o inferno. Amemos.

@Limasostenes

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*Fragmento citado de:  Eugene Peterson. A mensagem: a bíblia em linguagem contemporânea. São Paulo: Vida, 2011. p. 1748.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Poética da sabedoria em tuítes







domingo, 26 de agosto de 2012

O amor (Eros) refaz a natureza do tempo (Chronos)


O amor reinventa a natureza do tempo,
Redimensiona a estrutura de seu (do tempo) movimento.
Com o amor, o tempo passa a se movimentar
Livremente para frente (esperança) e para trás (lembrança).
O amor também faz o tempo se eternizar no agora (memória).
O amor enfraquece a força e a ameaça do Chronos.
Amemos mais. Amemo-nos sempre.

Sostenes Lima
@Limasostenes

sábado, 25 de agosto de 2012

Exílio das palavras


Quando as palavras rumam para o exílio,
O texto vira miragem num horizonte que sempre se afasta,
A página fica em branco,
O dia finda antes da noite chegar,
O silêncio se impõe implacavelmente,

Frustram-se todos os projetos de locução.

O exílio das palavras 
É uma ausência que provoca saudade e desespero
É um silenciamento que fortalece a inércia.
Dou anistia para todas as palavras, mesmo as mais insurgentes e perturbadoras.
Quero que elas voltem para casa.
Quero que elas voltem a me construir e construir o meu texto.
Dou-lhes liberdade para escreverem a história que quiserem e da forma que quiserem.

Sostenes Lima
@Limasostenes

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Poética da vida em tuítes






terça-feira, 14 de agosto de 2012

Aluno cotista tem rendimento baixo. Será?


Já ouvi algumas pessoas dizendo que não são a favor do sistema de cotas (reserva de vagas para candidatos com determinado perfil étnico e/ou social) porque o aluno cotista apresenta rendimento muito, mas muito inferior aos demais. Quem usa essa justificativa para se posicionar contra as cotas está não apenas legitimando um preconceito contra o negro e/ou pobre, mas, sobretudo, se firmando numa inverdade. Pesquisas feitas na UERJ e Unicamp mostram que o aluno cotista tem desempenho acima da média[1]. Não bastasse o preconceito que o cotista carrega por ser pobre e/ou negro, ainda tem de carregar o preconceito (prejulgamento) de ser incapaz. Vê se pode?

Não digo que casos específicos não aconteçam. Porém, no geral, o rendimento do aluno cotista é satisfatório. Parece inacreditável, não é? Sempre ouvimos dizer que aluno beneficiado pelo sistema de cotas é problemático, tem dificuldade de aprender, só tira nota ruim, abandona o curso pela metade. Pois é, o estudo feito pela UERJ e pela Unicamp desmascara o preconceito de que aluno cotista é incapaz. Fico pensando: derrubada essa justificativa, o que restará para abonar uma posição contrária às cotas?

Outro dia li o artigo “Universidade e populismo”, de Helio Schwartsman, colunista da Folha de S. Paulo. O texto aborda o Projeto de Lei (já aprovado na Câmara e Senado, aguardando apenas a sanção da presidente Dilma), que destina 50% das vagas das Universidades Federais para alunos que fizeram o Ensino Médio em escola pública. Segundo o autor, o Projeto é populista e, se sancionado, vai prejudicar a qualidade das Universidades brasileiras e também os próprios cotistas. O autor diz que até mesmo quem é a favor das cotas deveria se posicionar contra o Projeto. E o motivo, segundo ele, é que uma vez aumentado o número de alunos cotistas na Universidade, eles vão se segregar (formar uma espécie de gueto social dentro da Universidade) e, com isso, se afastar dos alunos ricos. O autor teve a babaquice coragem de dizer que um número maior de cotistas vai impedir que “jovens de estratos sociais mais baixos se beneficiem de estudar com alunos ricos”[2]. Para mim, isso soa como preconceito, mas muito preconceito. Não consegui digerir. Imagine só! O cara considera que a companhia da elite é fundamental para a redenção dos "pobres alunos cotistas". É isso mesmo? Eu entendi bem?

Todo mundo tem o direito de se posicionar contra o sistema de cotas. Mas daí achar que, sem os ricos, os pobres estão completamente perdidos é demais, não é?

Por fim, considero que tomar uma posição contrária ao sistema de cotas requer uma justificativa que se apoie em dados, não numa opinião de senso comum. Um cotista específico, que tenha rendimento baixo, jamais deve ser tomado como referência. Ele não representa o todo. Ele é apenas um aluno ruim como qualquer outro. Tenho certeza de que numa sala, em que há um cotista com baixo rendimento, há também um não cotista com baixo rendimento. Por que só o cotista é notado? Não parece haver aí uma pré-disposição para o pré-conceito?



[1] Para mais detalhes sobre a pesquisa, veja a notícia em:
[2] O texto de Schwartsman está disponível em:

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O Paraíso [por Rubem Alves*]


Dizem os fundamentalistas... Ah! Você não sabe quem são eles. Vou explicar. Fundamentalistas são pessoas muito religiosas (se católicas, protestantes, muçulmanas ou judias pouco importa, pois todas pensam do mesmo jeito). Elas pensam que Deus é dono de um jornal. Não dono como também redator-chefe, repórter e linotipista. Nesse jornal, que se chama O Correio Divino, tudo sai diretamente da pena de Deus, os editoriais, as reportagens, os artigos, os obituários, com a devida autenticação dos carimbos do cartório dos anjos. Por essa razão, tudo o que é ali publicado tem de ser acreditado tintim por tintim, nos seus mínimos detalhes: Deus não espalha boatos falsos, para aumentar a venda. O Correio Divino publica o que aconteceu de verdade, não importa quão fantástico possa parecer; para Deus tudo é possível, como o portento de Josué, que fez parar o Sol no meio do céu, e o do profeta Jonas, engolido e vomitado por um peixe, depois de gozar de sua hospitalidade visceral por três dias.

Pois eles, baseados no tal jornal, afirmam que Deus plantou um jardim maravilhosomuito tempo, quase 6 mil anos, muito longe, pelas bandas do Iraque. Por um desentendimento entre Deus, o casal de jardineiros e uma cobra, Deus expulsou os dois de e fechou a porta do Paraíso, que nunca mais foi achado. Por , hoje, se acha areia, guerra e petróleo, e dizem os entendidos que foi isso que restou do jardim de Deus, transformado em óleo preto por artes do Demo.

Acho um desperdício. Se o que Deus queria era plantar um paraisinho, por que gastar tempo e energia fazendo um mundo tão grande, tão bonito, o Rio Amazonas, o Himalaia, o mar, as praias com coqueiros, os riachinhos nas montanhas, o Pantanal e o Lago de Como, que é onde estou agora? Teria sido muito mais lógico fazer um mundo do tamanho do jardim, seria mais fácil tomar conta, e assim tudo caberia num asteróide, como aquele onde morava o Pequeno Príncipe.

Claro que isso tudo que falei é brincadeira, pois não acredito em nada disso. Eu leio os textos sagrados como quem poesia e não como quem jornal. Prefiro pensar que Deus é poeta a imaginá-lo como dono de um jornal. Existirá ofensa maior para um poeta que perguntar se o seu poema é reportagem?

Sendo esse o caso, posso bem sonhar que Deus não fez um Paraíso , ele fez muitos, tantos quantas são as suas criaturas, para cada uma delas um Paraíso diferente, e os espalhou pelo mundo inteiro. Em volta de cada pessoa existe um Paraíso diferente do seu, como se fosse uma bolha transparente. Você viu?

Não. Você nunca viu. Sugiro consultar um oculista, alguma coisa deve estar errada com os seus olhos, você não está vendo direito. Diagnóstico sugerido pelos mesmos poemas sagrados, que atestam que o primeiro dano do pecado foi estragar nossa visão. Com o que concorda Alberto Caeiro, oftalmologista de renome, que diz que não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. O mundo está cheio de cegos com vista perfeita.

Quem oferece colírios curativos para olhos cegos (muito embora sejam cegos para o belo, tendo vista muito boa para o feio!) é um místico medieval, Ângelo Silésio, que escreveu num dos seus poemas: Quem, dentro de si mesmo, um Paraíso não for capaz de encontrar, não será capaz também de, um dia, nele entrar...

Não quero fazer inveja a ninguém, mas eu estou no Paraíso, aqui na Itália, num castelo, às margens do Lago de Como, cercado de montanhas, que eu vejo agora através da janela do meu quarto enquanto escrevo. São três e meia da tarde, o Sol brilha forte, o castelo está circundado de parques, mais de dez quilômetros de caminhos pelos bosques de coníferas altíssimas, ninféias, fontes com repuxos, o cheiro da resina dos pinheiros vai até o fundo da alma, o silêncio é quebrado pelo apito dos barcos longe e pelo repicar do sino da igreja que acabou de bater. Bateu também dentro de mim uma saudade não sei de quê, eu sou uma saudade imensa cercada de carne por todos os lados...

Fiquei imaginando Deus, andando pelos caminhos onde eu andei, no vento fresco da tarde, do jeitinho como diz o texto sagrado. Ele deve ter sentido a mesma coisa que eu senti: quanto maior era a beleza, maior também era a tristeza. A beleza, em solidão, é sempre triste. Beleza solitáriavontade de chorar. Para ser boa, a beleza exige, pelo menos, dois pares de olhos tranquilos se olhando, dois pares de mãos amigas brincando, e bocas de voz mansa sussurrando...

Acho que foi naquele momento, quando Deus sentiu tristeza ao ver a beleza, que ele entendeu por que Adão estava tão deprimido: deuses e homens são muito parecidos... E foi então que ele aprendeu – pois Deus também aprende – que não é bom que o homem fique . Fez dormir Adão, e ordenou que aquilo que ele sonhasse, aquilo mesmo acontecesse. E ele sonhou com dois olhos tranquilos, duas mãos brincalhonas, e uma voz mansa... E assim nasceu a mulher, o sonho mais belo do homem, para trazer alegria ao Paraíso...

Fico mesmo é com de Deus. Os entendidos, que privam de sua vida íntima, teólogos, clérigos, papas e cardeais, dizem que não devo me preocupar, pois Ele está sempre em boa companhia, tem mãe puríssima, que nasceu sem pecado. É um filho obedientíssimo, que sempre faz o que lhe é mandado. Dizem que isso basta para a felicidade de Deus.

Discordo. Sem o olhar dos olhos apaixonados, sem o toque das mãos brincalhonas, sem o som da voz mansa, nem Deus pode se sentir feliz.

Essa é uma felicidade possível aos homens. Mas, e Deus? Andando sozinho pelo jardim. Coitado! Tanta beleza. Tanta tristeza...

15/8/93
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* Texto extraído de: Rubem Alves. Teologia do cotidiano. São Paulo: Olhos D'água, 1994. p. 62-65.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Xô complexo de vira-latas

Foi Nelson Rodrigues que cunhou a expressão “complexo de vira-latas” quando escreveu uma crônica esportiva antes da final da copa do Mundo de 1958. Desde a final de 1950, em que o Brasil perdeu para o Uruguai no Maracanã, uma onda de pessimismo mexia com a cabeça do torcedor. Nelson Rodrigues escreveu, então, uma crônica em que se propunha a analisar a condição do Brasil para a final diante da Suécia e o sentimento (pessimista) que tomava conta do torcedor. No final do texto, nosso grande dramaturgo e cronista diz:  “Em suma: - temos dons em excesso. Só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de ‘complexo de vira-latas’”. Logo em seguida, Nelson Rodrigues define a expressão: “Por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”[1].

O complexo de vira-latas do brasileiro assume diversas feições, dependo do que está em jogo. Não é só no esporte que esse sentimento de inferioridade se alastra. Até Monteiro Lobato propalou essa besteira, dando-lhe contornos raciais lastimáveis: “O Brasil, filho de pais inferiores, mal-educados, destituídos desses caracteres fortíssimos que imprimem, a talho de buril, um cunho inconfundível em certos indivíduos, como acontece com o alemão, com o inglês, cresceu tristemente, sempre enflanelado porque constipado, a engolir mezinhas e panaceias, e afinal de contas, dando como resultado um tipo imprestável, incapaz de continuar a se desenvolver sem o concurso vivificador do sangue de alguma raça original - desses que possuem caracteres inconfundíveis”[2]. (Aff! Sinto vergonha alheia por tamanha asneira. Como Monteiro Lobato pode dizer isso?). Como diz Pondé, brasileiro vira-lata, cheio de afetação, “adora bancar o chique falando mal de si mesmo. Principalmente quando alguém chique (leia-se, europeu [e americano]) fala mal do Brasil. Um modo específico de nosso complexo de vira-lata é achar a Europa [e Estados Unidos] o máximo”[3].

Nestes dias de jogos olímpicos, tenho ouvido muitas pessoas dizerem que os atletas brasileiros, se comparados aos americanos e chineses, não têm força mental, são psicologicamente fracos. Isso é, a meu ver, mais uma das muitas faces do tal complexo de vira-latas que povoa o nosso imaginário.

Quando o Corinthians se preparava para jogar a final da Libertadores (2012) com o Boca Juniors, ouvi um monte de brasileiros vira-latas dizendo que os times do Brasil sempre amarelam diante dos times da Argentina. Mas não foi bem isso que aconteceu, não é?!. E por que não? Simplesmente porque isso não é verdade. Não estou dizendo que o retrospecto dos times brasileiros sobre os argentinos seja favorável. O que estou dizendo é que, em geral, não são apenas fatores emocionais que levam a vitória ou derrota. O Corinthians provou que uma equipe competitiva (formada por atletas competentes, bem dirigida e acostumada a enfrentar jogos difíceis) dificilmente perde uma partida por causa de fatores emocionais.

Antes do triunfo do Corinthians (2012), os times brasileiros vinham de cinco (5) derrotas em finais da Libertadores para os argentinos (o Cruzeiro perdeu para o Estudiantes em 2009, o Grêmio para o Boca Juniors em 2007, o Santos para o Boca Juniors em 2003, o Palmeiras para o Boca Juniors em 2000 e o São Paulo para o Velez Sarsfield em 1994). Um retrospecto como esse, infelizmente, revigora o discurso de que os brasileiros são amarelões. Contudo, é importante frisar que as razões para essas derrotas sucessivas, certamente, vão muito além de fatores emocionais. É obvio que cada equipe derrotada falhou em outros critérios além do emocional. Além disso, há uma verdade óbvia, mas muitas vezes ignorada: quando dois times disputam uma final, necessariamente, um ganha e outro perde. Isso é uma questão matemática, não emocional. Mesmo quando os dois times estão técnica e psicologicamente preparados, um vai perder.

Diversos fatores coatuam na performance de uma equipe, não apenas o psicológico. Não há como exigir força mental de alguém que não tenha talento e técnica suficiente para vencer uma competição, para ganhar uma medalha olímpica. Também não há como exigir que um atleta tenha força psicológica para ganhar uma medalha olímpica sem ter participado de eliminatórias internas (brasileiras) e competições internacionais  de alto nível, fortemente competitivas.

Eis mais uma verdade óbvia e incontestável: um time ou atleta vitorioso é aquele que, ao disputar partidas difíceis com frequência, soma mais vitórias que derrotas, tendendo a se tornar cada vez mais confiante. Não é a confiança que gera a vitória. É exatamente o contrário. É a recorrência de participação em competições complicadas, alcançando mais vitórias que derrotas, que torna o atleta mais confiante e mais bem preparado para enfrentar uma competição importante e cheia de expectativa nacional, como a olimpíada. Se certos atletas brasileiros, em algumas modalidades, são psicologicamente fracos é porque ainda não alcançaram nível técnico e competitividade suficiente para conseguir vencer em olimpíadas. E isso se dá porque têm deficiências técnicas, porque competem pouco ou porque as seletivas brasileiras não são tão fortes assim.

Fico pensando: se preparação psicológica ganhasse mesmo jogos, seria fácil fazer o Brasil se tornar Campeão Mundial de Rúgbi. Bastaria montar um time e começar a fazer a preparação mental. Alguém acha que isso funcionaria? Não estou dizendo que o trabalho de uma equipe multidisciplinar, incluindo aí a colaboração de psicólogos, não é importante. Só estou dizendo que não é a falta desse tipo de trabalho que compromete o desempenho de grande parte dos atletas brasileiros.

A verdade doída e, às vezes, difícil de admitir é que boa parte dos atletas olímpicos do Brasil é tecnicamente fraca, não psicologicamente. E isso acontece por razões que vão muito além da força, boa vontade e equilíbrio emocional de cada atleta. Falta-nos aprofundar os diversos projetos educacionais e socioesportivos já em curso em vários pontos do país e criar outros. Também devemos aumentar o número de modalidades esportivas praticadas e dar condições para que os atletas participem de várias competições nacionais e  internacionais de alto nível.

A preparação psicológica de um atleta não é algo que se faz na véspera, como que colocando nele chip previamente programado e alimentado por um roteiro de estímulos psicológicos, capaz de reprimir certas reações e sentimentos, e estimular outros. Participar intensivamente, e com condições estruturais dignas, de competições nacionais e internacionais é parte fundamental da preparação psicológica do competidor, talvez a mais importante. E não sou eu que estou inventando isso. Veja o que Ana Moser, ex-atleta do vôlei brasileiro, medalhista de bronze em Atlanta 1996, diz: “Como se aprende, em esportes individuais, a ter confiança em uma competição difícil como a Olimpíada? Disputando, durante a vida toda, competições muito difíceis. É o que existe em maior escala no judô brasileiro e em todas as modalidades nas grandes potências esportivas. Essa “é a melhor preparação psicológica que pode ser feita. Muito melhor do que recorrer a terapias e dinâmicas motivacionais, etc.”[4].

Em geral, nós, torcedores, somos muito injustos com os atletas quando eles perdem. Não estou dizendo que precisamos aplaudir a derrota. Mas devemos ser mais empáticos com o mundo que existe em torno do atleta. Não é sua cabeça que para de funcionar quando ele perde. Certas derrotas são desenhadas muito antes da competição e partida começarem. Por exemplo, a eliminação das equipes e atletas do tiro esportivo, esgrima, remo, entre outras modalidades, não aconteceu porque os atletas amarelaram; aconteceu porque nossos atletas não tinham nível técnico para competir em condições de igualdade com os outros. No atual momento, não há preparação psicológica que faça o tênis de mesa do Brasil ganhar da China. Isso não é complexo de inferioridade, é apenas uma constatação da diferença no nível técnico. Do mesmo modo, também não há preparação psicológica capaz de fazer o time de futebol chinês masculino ganhar uma medalha de ouro olímpica (o time sequer se classificou para Londres-2012).

O Brasil deve focar na preparação para os jogos Rio-2016, mas sem essa dar muito atenção para esse complexo de vira-latas que tanto nos perturba e que dirige a mentalidade do tecedor brasileiro médio. Alguns resultados do Time Brasil em Londres vem nos mostrando as modalidades que mais se ajustam ao nosso perfil cultural, e que mais devem receber incentivo e investimento. Para mim, não adianta querer que o Brasil ganhe medalhas no badminton, na luta olímpica (luta livre e luta greco-romana), no hóquei sobre a grama, tiro etc. Devemos preparar equipes para competir nessas modalidades, mas não vejo condições (culturais, estruturais e de talento) capazes de fazer esses esportes florescerem por aqui num prazo curto de quatro anos. Por outro lado, modalidades como boxe, judô, atletismo, natação, ginástica, entre outras, e os esportes coletivos mais tradicionais (futebol, vôlei, basquete, handebol etc.) têm mostrado que podem nos dar muitas medalhas. Essas modalidades devem ser escolhidas como prioridade para que o Brasil alcance as 30 medalhas olímpicas planejadas pelo  Comitê Olímpico Brasileiro (COB).

Já está passando de hora de nos vermos como um povo capaz, que deve agir para algo acontecer; não como um povo que, por ser emocionalmente fraco, nunca é capaz de realizar alguma coisa com excelência, como reza o complexo de vira-latas. Esse negócio de dizer que o atleta brasileiro é psicologicamente fraco não passa de uma das nuances do discurso de vira-latas que, infelizmente, persiste em dirigir nossas vidas, apesar do vasto conjunto de exemplos contrários que temos. Ou alguém acha que um time que vence 30 dos 39 campeonatos que disputou, incluindo aí olimpíadas e campeonato mundial, é psicologicamente fraco? O vôlei masculino, sob o comando Bernardinho, fez isso nos últimos dez anos.

Já passou de hora desse sentimento de vira-latas, que tanto nos atravanca, ser desmantelado. Chega de ser vira-latas, colonizados, subalternos, pedintes. Xô complexo de vira-latas, você já deu o que tinha de dar. O esporte olímpico brasileiro vem tomando o caminho certo em diversas frentes. Agora é a vez dos torcedores  (e todos os brasileiros) saírem do caminho errado e pararem de ver o Brasil como um país de joão-ninguém.

@Limasostenes


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[1] Nelson Rodrigues. À sombra das chuteiras imortais. São Paulo: Cia. das Letras, 1993. p. 51-52.
[2] Monteiro Lobato. “A todo transe”. In: ______. Literatura do Minarete. São Paulo: Globo, 2008. p. 100.
[3] Luiz Felipe Pondé. Vira-latas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 05 dez. 2011. Disponível em:  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/13006-vira-latas.shtmlAcesso em: 06 ago. 2012.
[4] Ana Moser. Preparação psicológica. Disponível em: http://br.noticias.yahoo.com/blogs/blog-ana-moser/prepara%C3%A7%C3%A3o-psicol%C3%B3gica-141344764.html. Acesso em: 06 ago. 2012.

domingo, 5 de agosto de 2012

Poética da memória em tuítes II













Sostenes Lima
@Limasostenes