terça-feira, 24 de julho de 2012

Por que não sigo o caminho da tradição


O movimento evangélico brasileiro parece se encontrar numa encruzilhada nada promissora. Uma direção aponta para a tradição, conservadorismo, institucionalização, rigidez. A outra, para o modismo, superficialidade, sensacionalismo, exploração econômica da fé etc. Está difícil a vida de quem quer viver uma fé com profundidade, sem se deixar amarrar por certos dogmas e tradições institucionais centenárias e sem se deixar cooptar pelas superficialidades, esquisitices e malandragens do neopentecostalismo.

Apresento aqui os motivos por que a tradição, embora seja menos pior que o modismo, não me atrai. Parto do pressuposto de que tradição, em quase todas vertentes e tons, rechaça veemente tudo que não se ajusta aos seus cânones (conceituais e práticos). Diz a tradição que estruturas doutrinárias e institucionais devem ser protegidas, a qualquer custo, de todas as ameaças deturpadoras do novo. Paradigmas herdados de gerações que viveram em outro mundo, cuja natureza social e cultural se diferencia bastante do nosso, são tratados como dogmas intocáveis.

Aparentemente a tradição é uma escolha segura para quem busca profundidade. Em geral, o protestantismo tradicional tem se mostrado bastante resistente diante das investidas e canalhices bizarrices que norteiam o movimento neopentecostal (por vezes o pentecostal também) midiático, especializado em vender produtos religiosos. Por terem nome, corpo doutrinário e uma grande estrutura eclesiástica a zelar, as igrejas tradicionais ainda resistem ao apelo do sucesso indecente fácil e do proselitismo de cooptação desenfreado.

Antes de prosseguir, devo apontar o perfil do que estou chamando de movimento evangélico tradicional. Para mim, cinco características marcam uma igreja tradicional: a) 100 anos ou mais de existência; b) forte estrutura clerical e um programa formal de formação e iniciação pastoral; c) sistema de governo baseado em decisões colegiadas, o que inibe a ascensão de lideranças calhordas personalistas e carismáticas; d) identidade doutrinária relativamente definida e estável; e) liturgia conservadora, com pouca abertura a manifestações culturais populares, tanto as locais como as importadas pelo movimento gospel.

Como dito, à primeira vista, uma igreja tradicional parece uma excelente escolha. Mas, na prática, a coisa pode se mostrar bastante complicada. Principalmente porque tradição não costuma se dar bem com profundidade e mudança. E o motivo é bem simples. Não se faz nada com profundidade sem escavar, sem ir a fundo, sem revolver escombros. Tradição odeia escavação, investigação, suspeita, dúvida.

A busca por profundidade pressupõe movimento, contradição. É pela ação do contraditório que se chega a uma síntese mais profunda. Como se sabe, para se chegar a uma síntese é preciso haver antítese. Do embate entre tradição e novas teses (antíteses) surgem sínteses mais aprofundadas, embora também provisórias. As sínteses envelhecem e logo se tornam teses a serem confrontadas por antíteses emergentes. Uma fé profunda navega em dialéticas turbulentas, não em tradições marasmódicas, estagnadas. Só por meio de movimentos dialéticos indefinidos podemos chegar ao aprofundamento contínuo de conceitos e práticas.

Uma instituição firmemente ancorada em seus esteios centenários, tanto conceituais (corpo doutrinário) quanto práticos (sistema de governo, modo de operação clerical, serviço pastoral e litúrgico), costuma não tolerar indagações, questionamentos, instabilidades, provocações. Dificilmente admitirá revisão em seu aparato teológico. Por mais que existam fortes mudanças nos paradigmas culturais, teóricos e epistemológicos circundantes, as denominações tradicionais se mostram pouco abertas a revisar algum elemento de sua confissão doutrinária. Assentam-se numa ortodoxia exagerada, cheia de conservadorismo e arrogância institucional. Em geral, extrapolam na defesa de seu patrimônio e de sua identidade litúrgico-teológica, resvalando na presunção; julgam que tudo que foi herdado de gerações anteriores deve ser protegido, já que conceitos e práticas antigas são naturalmente melhores, já foram depurados.

Manutenção da tradição garante segurança, conforto e pureza. Em compensação (ou também em prejuízo), asfixia o dinamismo e a vivacidade. Quando pilares tradicionais são reforçados para que continuem inabaláveis, apesar dos ventos fortes de inquietação e renovação que sopram constantemente, o movimento da vida é cerceado, ares frescos são rechaçados. Apego exagerado à tradição força a pessoa a respirar ar empoeirado e envelhecido, sob a alegação de qualquer novidade embute risco de heresia. Quanto a mim, prefiro o risco de heresia ao embotamento que cerca o tradicionalismo.

8 comentários:

  1. Você foi muito contundente nesta reflexão.
    Sua denúncia a cerca da superficialidade da tradição foi muito coerente. Realmente, ir a fundo nas grandes questões não combina com o tradicionalismo, pois como vc disse "tradição odeia escavação, investigação, suspeita, dúvida". Brilhante.

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  2. Pensamentos assim sempre foram combatidos na fogueira... Entretanto, nao recuar diante das chamas é o desafio daqueles que resolveram andar a beira do precipicio... Valeu ''TRUTA''.

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  3. Para se ver livre da crosta da religiosidade é necessário reforma. Estar disposto a quebrar as paredes dos paradigmas e levantar novas paredes é um desafio para a igreja do século XXI, pois por incrível que pareça ainda nos dias contemporâneos existem igrejas rurais em perímetros urbanos. Ideologias, liturgias ao modo antigo (centenário). Como lidar com uma situação tão perturbadora como essa? Penso que a resposta a essa pergunta é: pelo protestos dos fadigados com essa situação. Um artigo como esse vai nos ajudar a dar o grito de liberdade!

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  4. ...mas existem alguns que levados por um verdadeiro avivamento, este, evidenciado por um profundo amor as Escrituras e um anseio por uma espiritualidade-verdade, que naturalmente também têm optado por esse rompimento! Essa é nossa alegria e nossa esperança!!

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  5. Creio que pode ser explicitada a diferença de tradição e tradicionalismo, aquela muda com a sua época, esta é uma "religião". Concordo que o tradicionalismo engessa, mas perdão em discordar no que diz respeito a à escolha do porto à tempestade. Um navegador experiente não sai para o mar quando este está bravio. Aguarda águas mais calmas pára assim sair. Mantém-se no porto. Este porto muda com os anos, mas ainda assim é um porto. Temos vivenciado tempos em que no Brasil muitos tem buscado o resgate de uma identidade brasileira e na contramão, em nome de renovos, de novos (e perigosos) ventos perdemos uma identidade do que é ser cristão. É muito assunto para escrever apenas neste espaço.

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  6. Jesus apenas disse: Eu sou o CAMINHO, assim os apóstolos pregavam. Após tantos e tantos desvios, inclusive a terminologia, Cristianismo ou Cristandade, pelo que se vê na Bíblia era completamente desconhecido por Jesus e seus apóstolos, então...desvios e mais desvios.Os fariseus e outros não tinham a Bíblia e nós a temos. E as religiões tanto uma como outra, fazem de tudo para provar que a Bíblia está errada. "Estamos desafinando o instrumento".

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  7. "Estamos desafinando o único instrumento dos seguidores de Cristo". A bíblia, onde apenas cita Jesus e os apóstolos, porque não todos os profetas apenas dizendo "O CAMINHO", agora com tantos desvios.Querem ainda provar que a Bíblia está errada. Tanto apelido que perderam até o nome certo, protestante, pentecostal, catolicismo, espiritismo (tudo Cristão) etc...etc...tudo CRISTÃO, um nome que Jamais Jesus adotou em sua IGREJA, ou a Bíblia está muito errada. Um dia as religiões irão provar que sim, a bussola mudou de lado, está apontando aos DESVIOS.

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