sábado, 14 de julho de 2012

Os blogs e a emancipação dos leitores/autores[1]


Os blogs são mesmo um caminho sem volta, tanto para o mundo da indústria da informação quanto para quem consome e reindustrializa seus produtos: os leitores/autores.

O universo jornalístico e publicitário já está notando que os blogs não são rivais; são aliados importantes que vão lhe garantir permanência no mercado. Os blogs despontam como uma espécie de loja de varejo de informação, formação e entretenimento, enquanto portais, jornais e revistas vêm se especializando no trabalho de indústria e fornecimento por atacado. Hoje, já é provável que o internauta acesse uma matéria de revista (Superinteressante, por exemplo) primeiramente via blog. São poucos os ciberleitores que vão primeiro ao site da revista. Depois de lida a matéria no blog, talvez o leitor até se dirija ao site de origem, via link, para ver se algo mais lhes interessa.

Os leitores/autores também vêm notando que os blogs são sua única saída para fazer valer seu direito de ampla expressão. Há nas mídias tradicionais uma forte restrição à fala do leitor. Ouvir rádio, ver televisão, assistir a um filme, ler um livro, ler jornal, ler revista etc. são atividades que impõem ao interlocutor uma condição de dominação e assujeitamento. O modo de operação dessas mídias praticamente força o leitor a se calar. Se alguém quiser realmente fazer seu texto circular nesse mercado extremamente corporativo, terá de superar uma série de entraves culturais, técnicos, econômicos etc. As mídias unidirecionais incentivaram bastante a prática da leitura, é verdade. Mas, por limitações técnicas, deixaram os leitores sem condições de responder, dialogar. E eles, notando que essas mídias estão lhes interditando um direito fundamental – o de exprimir seu mundo, seu locus sociocultural – não mais se resignam com isso.

A migração dos jornais e revistas para internet forneceu recursos mais acessíveis para o leitor dizer o que pensa. As caixas de texto, destinadas ao comentário, têm sido um instrumento importante para os leitores dialogarem tanto com o jornal/revista quanto com outros leitores. Através desse recurso eles podem dizer que a cobertura de um evento foi superficial, que uma notícia ou reportagem está mal elaborada etc. Contudo, somente leitores menos experientes se satisfazem com apenas essa possibilidade. Leitores mais experimentados, e com demanda de escrita, não se contentam em simplesmente postar um comentário, em fazer adendos a textos alheios. Eles querem escrever seus próprios textos e se tornarem leitores/autores emancipados.

Os blogs são uma invenção extraordinária. Finalmente, as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) criaram uma mídia centrada nos interlocutores, dando-lhes poder para enfrentar a força dos grandes impérios da informação (ou seria desinformação?). As redes sociais também são uma boa invenção, mas com certas limitações, que impedem o aprofundamento do texto. Leitores/autores, que manejam bem a escrita, não se contentam em apenas postar um pequeno texto no Facebook ou Twitter. Eles querem escrever ou reproduzir um texto mais denso, que consiga aprofundar a representação e interpretação que têm de sua realidade social.

A blogosfera está em alta e vem se despontando como um ambiente profissional, informativo e formativo bastante promissor. Os blogs, ao lado de outras mídias interativas, podem se transformar numa importante agência social de informação e formação, e assim contribuir para a construção de um leitor-cidadão, que seja capaz de interpretar a realidade de forma mais autônoma e crítica. O acesso a uma matriz de informação e opinião alternativa, com pouca ligação com os grandes centros do poder, dá condições para que o cidadão-leitor enxergue melhor certos compromissos ideológicos que dão sustentação à indústria da informação oficial e hegemônica.


Docente na Universidade Estadual de Goiás (UEG). Doutor em Linguística (UnB) e pesquisador na área de Gêneros Textuais e Mídias.
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Texto publicado em: https://impresso.dm.com.br/edicao/20131219/pagina/29#

3 comentários:

  1. Interessantíssimo seu post, Sóstenes! Concordo com o que você disse, e seu blog reforça ainda mais sua ideia, ele está aqui fruto de um leitor/ autor que manejam bem a escrita, é crítico, quer mostrar o que pensa e quer escrever seus próprios textos.

    É interessante observar essa certa liberdade, mas devemos ser bem sensatos em saber que muita coisa escrita em muitos blogs é perigosa, sem embasamento, superficial, inverdade. Pra mim, o perigo também é esse, mas que não tem como se controlar, se não, não existiria liberdade em se escrever o que quer.

    Só acho que devemos aproveitar essa multiplicidade de dizeres, e quando necessário denunciar o que extrapolou a liberdade individual e chegou ao ponto de ferir a liberdade alheia.

    E é claro, experimentar a sensação de ter seu espaço virtual de escrita é uma sensação incrível, ainda mais quando as pessoas te leem e comentam com você!

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  2. Acontece que justamente por essa facilidade de resposta, muita gente que não tem competência pra responder sobre determinado assunto se sente na direito de responder. Essa facilidade exagerada não tem só consequências boas. O obstáculo "unidirecional" também é bom e pode funcionar como uma peneira. Quem não tem nada de importante pra falar não vai passar pelos obstáculos pra publicar sua baboseira. Nem todo mundo tem realmente o que falar.

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  3. Muito bom mesmo esse texto. Recomendei aos mestrandos que estão pesquisando a leitura e a escrita na internet, especialmente os blogs.

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