sábado, 7 de julho de 2012

Em memória dos manuais de teologia


Toda a minha infância foi cercada de teologia, embora não tivesse consciência disso. Eu tinha interesse em estudar certas questões teológicas, mas o ambiente e a esfera institucional nunca me ofereceram meios e estímulos para isso. Só fui ter acesso ao universo da teologia livresca quando entrei no seminário[1]. Ali comecei a interagir com os conceitos teológicos. E foram os manuais que me permitiram os primeiros passos. Já no primeiro semestre do curso, fui apresentado a um tal Louis  Berkhof (1873-1957). Até então, jamais tinha lido (em) qualquer livro de referência de teologia sistemática. Acho que nem sabia o que era isso.

Naquela época, eu achava que os manuais de teologia sistemática eram a melhor fonte para uma boa formação em teologia. Li avidamente (em) alguns, especialmente os mais conservadores e populares. Eis os autores que estiveram ao meu lado enquanto cursava as intermináveis disciplinas de Teologia Sistemática I, II, III, IV, etc. etc. (não me lembro mais quantas eram): Louis Berkhof (1873-1957), Wayne Grudem (1948-), Millard Erickson (1932-), Charles Hodge (1797-1878). Destes, Berkhof, com a sua Teologia sistemática, se tornou um companheiro inseparável por quatro anos.

No último ano, passei a contar com a companhia de mais dois amigos ilustres: Walter C. Kaiser Jr. e George Eldon Ladd. Os livros Teologia do Antigo Testamento (de Walter C. Kaiser Jr.) e Teologia do Novo Testamento (de George Eldon Ladd) completaram o cardápio de manuais que fizeram parte da minha dieta (alimentação regulamentada e regulada, nem sempre agradável ao paladar e quase sempre insuficiente para saciar) teológica inicial.

Não preciso me esforçar muito para mostrar que os três manuais (Teologia sistemática de Berkhof, Teologia do Antigo Testamento de Walter C. Kaiser Jr. e Teologia do Novo Testamento de George Eldon Ladd) que estiveram na base da minha formação são muito mais um acervo de tradição do que propriamente obras de elaboração teológica.

A Teologia sistemática de Louis Berkhof

Atualmente, acho a Teologia sistemática de Louis Berkhof intragável. Não gosto nem de chegar perto. Me sentiria mal se fosse obrigado a ler Berkhof novamente. E a razão não é que porque ele parte de uma base calvinista, mas porque se apresenta como portador de uma verdade universal, categórica, irrefutável. Felizmente, hoje não há mais clima para esse tipo de ambição teológica e epistemológica.

Berkhof escreveu sua obra na metade do século passado. Pelo que se vê, ele não tinha pretensão de fazer (construir) teologia; queria apenas reforçar um paradigma teológico já transformado em tradição. O que Berkhof fez, na verdade, foi transformar as elaborações de, principalmente, Abraham Kuyper (1837-1920), Herman Bavinck (1854-1921) e Chareles Hodge (1797-1878) numa espécie de confissão doutrinária. Essa é a razão por que considero a obra de Berkhof muito mais confessional que teológica. O texto mais parece uma encíclica reformada. O autor não teve interesse em apresentar a natureza, método e bases epistemológicas da teologia. Foi direto aos dogmas. Outros autores pelo menos apresentam um capítulo introdutório, no qual apresentam a teologia como ciência. O curioso é que esse livro é um dos mais utilizados nos seminários brasileiros, não importando a confessionalidade.

Infelizmente, quase todos os manuais de Teologia sistemática repetem a pretensão de legislar sobre conteúdos teológicos, se apresentando como a versão que encerra o debate. Não é em vão que quase toda Teologia sistemática pretende ser dogmática, embora nem sempre tenha coragem de assumir isso no título. Quase sempre reclamam (às vezes disfarçadamente) o status de dogma aos postulados que apresentam. 

Acho interessante comparar o título da obra de Karl Barth com o título da obra de Berkhof. O adjetivo (qualificação) dado à teologia de cada um ilustra bem a dissimulação que os termos sistemática e dogmática podem esconder. Se comparada à Teologia sistemática de Berkhof, a obra monumental de Karl Barth (1886-1968), Dogmática eclesiástica (sem tradução para o português), parece ter recebido o nome errado; parece que as duas obras estão com os nomes trocados. É a de Karl Barth que deveria ser chamada de sistemática - a exemplo da obra de Paul Tillich (1986-1965) -, não a de Berkhof, que deveria ser qualificada de dogmática. Se comparado com Berkhof, Karl Barth produziu teologia, não um recital dogmático.

Os manuais de teologia bíblica

O que dizer dos manuais de Teologia bíblica? Walter C. Kaiser Jr. e George Eldon Ladd fizeram a minha cabeça durante um tempo. Estudei Teologia bíblica sob a batuta deles. Atualmente, há muitos outros manuais disponíveis no mercado. Mas imagino que pelo menos o texto de George Eldon Ladd ainda continua sendo o mais popular nos seminários evangélicos.

Os manuais de Teologia do Antigo Testamento de Walter C. Kaiser Jr e Ralph L. Smith

Talvez a Teologia do Antigo Testamento de Walter C. Kaiser Jr. nem seja a mais utilizada atualmente. No seminário em que estudei, já há algum tempo, a Teologia do Antigo Testamento de Ralph L. Smith passou a ser o livro-texto.

Mais recentemente, entrou no mercado a obra de Paul House (que não conheço), que dever estar tendo boa aceitação, especialmente por ter sido publicada pela editora Vida, um selo editorial com ampla penetração nos seminários e livrarias evangélicas brasileiras.

Tanto Kaiser Jr. quanto Smith seguem, em certo sentido, a mesma a direção. Ambos são extremamente conservadores. Defendem o revelationis dogma (dogma da revelação) de forma tão exagerada, que seus textos parecerem muito mais uma Teologia sistemática (dogmática) do Antigo Testamento do que uma Teologia do Antigo Testamento propriamente dita, como são as de Gerhard von Rad (1901-1971) e Antonius H. J. Gunneweg (1922-1990).

Kaiser Jr. e Smith se deixam cegar pelo princípio da revelação; se negam a elaborar uma interpretação aprofundada do percurso teológico que norteou a vida dos judeus. Os autores praticamente não dão espaço para se pensar e discutir a formação do pensamento do teológico judaico registrado nos livros sagrados. Também não há espaço para se pensar a composição do canon do Antigo Testamento (AT) como resultado de um processo histórico intimamente ligado ao processo de construção de uma nação. Não há uma proposta de análise que contemple o AT como um conjunto de escritos inextricavelmente associados à formação e sedimentação da identidade cultural e religiosa dos judeus, e relacionados com a afirmação do poder político e institucional de uma nação. As forças e movimentos sociais, políticos e históricos que ensejaram a elaboração de uma tradição firmemente teocrática e expressa em textos sagrados são praticamente ignorados em ambas as obras.

Ressalte-se ainda o fato de que a obra de Ralph L. Smith está mais para um resumo/resenha do que um ensaio analítico. O autor parece muito mais preocupado em resenhar outros autores do que em escrever suas proposições. Nunca vi tanta citação num livro só. É um tal de segundo fulano de tal, de acordo com fulano de tal, fulano de tal afirma, etc. etc. que não acaba mais.

A Teologia do Novo Testamento de George Eldon Ladd

Resta ainda escavar minha memória a respeito de George Eldon Ladd. Dos três manuais que citei, este é único que ainda leio. Não porque seja um excelente tratado de Teologia do Novo Testamento, mas porque é o livro-texto recomendado pelo seminário onde leciono a disciplina Teologia do Novo Testamento. Se a escolha do livro-texto fosse exclusivamente minha, certamente escolheria outro. Há tantas opções melhores, que podem ser usadas em conjunto: Teologia do Novo Testamento de Leonhard Goppelt (1911-1973), Teologia do Novo Testamento de Rudolf Bultmann (1884-1976), Síntese teológica do Novo Testamento de Werner Georg Kümmel (1905-1995), Forma e exigências do Novo Testamento de J. Shreiner e G. Dautzenberg, Teologia do Novo Testamento de Joachim Jeremias, entre outras.

Contudo, mesmo não sendo a minha preferência, não tenho rejeição ao texto de Ladd. É verdade que há algumas partes em que o mesmo defeito de Walter Kaiser Jr. e Ralph Smith (defesa exagerada do revelationis principium – princípio da revelação) enfraquece o texto. Veja-se o caso do capítulo em que Ladd (1997, p. 99-112) trata de O Reino e a igreja, em especial quando autor aborda os fragmentos de Mateus 16.18-19 e Mateus 18.15-20.

Ladd (1997, p. 103-104) defende que ambos os textos provêm de Jesus de Nazaré, não da tradição da igreja. Nos fragmentos, Jesus afirma a identidade da ekklesia e confere aos apóstolos (com ênfase em Pedro) uma posição de governo supremo. Os textos mostram a autocompreensão da comunidade primitiva como um grupo especial dentro do judaísmo (Kümmel, 2003).

Em Mateus 16.18-19, Jesus se dirige a Pedro, enfatizando que a compreensão que ele (Pedro) tinha a respeito do Cristo resultava de uma revelação especial do pai. Segundo Kümmel (2003, p. 168), essas palavras “podem ter surgido somente na comunidade primitiva” (grifo meu). As palavras de Pedro parecem não se ajustar ao que aconteceu no dia da crucificação, quando os apóstolos abandonaram Jesus, e Pedro o negou veementemente. A atitude de Pedro, após a ressurreição, foi completamente diferente. Já convicto da natureza do Cristo e de sua missão, ele se manteve firme frente as perseguições judaicas. Portanto, o texto se ajusta melhor à compreensão que a comunidade primitiva tinha do Cristo ressurreto e de si mesma.

O texto de Mateus 18.15-19, que trata de um caso de indisciplina na igreja, ilustra também uma fala de Jesus que só pode ter surgido no ambiente da comunidade primitiva. De acordo com Mateus 18.17, Jesus diz que, se um réu, depois de levado ao tribunal da igreja, se recusar a ouvir a repreensão deve ser considerado “como pagão (gentio) e publicano”. A fala de Jesus no fragmento parece ser contraditória a outras falas de Jesus (cuja historicidade é praticamente consensual entre os críticos) a respeito dos publicanos. O tratamento de um rebelde como gentio e publicano parece se aproximar muito mais da representação negativa que os judeus ortodoxos (especialmente os fariseus) tinham dos gentios e publicanos do que com o modo como, em diversas situações, Jesus tratou os cobradores de impostos. Uma das atitudes que mais pesavam contra a reputação de Jesus era justamente o fato de ele andar e se dar bem com os publicanos, alguns deles reconhecidamente corruptos. Uma vez chegou ao absurdo de, numa parábola, elogiar a oração de um publicano e desprezar a oração de um fariseu (Lucas 18.9-14). Diante do apreço que ele tinha pelos publicanos, parece improvável que, para o Jesus de Nazaré, um rebelde devesse receber como punição o epiteto de publicano.

A pesar desses detalhes, não tenho rejeição ao texto de Ladd. Ele parece muito mais aberto ao diálogo. Em diversos pontos, faz uma interlocução interessante com as obras de Rudolf Bultmann (1884-1976), Joachim Jeremias (1900-1979), Werner Georg Kümmel (1905-1995), Oscar Cullmann (1924-199), Martin Dibelius (1883-1947), C. H. Dodd (1984-1973) e Leonhard Goppelt (1911-1973).

Palavras finais

Os manuais de teologia, tanto sistemática como bíblica, são muito importantes na formação teológica inicial. A maioria dos nossos seminários não visa preparar alunos para uma carreira acadêmica, mas para o exercício pastoral. Isso explica por que os manuais mais conservadores são os mais utilizados. É pouco provável que um seminário vá utilizar a Teologia sistemática de Paul Tillich ou a de Wolfhart Pannenberg e a Teologia do Novo Testamento de Rudolf Bultmann ou de Joachim Jeremias como livros-texto. Essas obras, embora bastante importantes para a formação teológica, não se ajustam plenamente à atividade pastoral. São obras que resultam de atividades de pesquisa e elaboração teológicas; nasceram de demandas acadêmicas, não de demandas da práxis pastoral. Diferentemente da Teologia sistemática de Wayne Grudem, as teologias de Tillich e Pannenberg não pretendem fazer uma interlocução com a teologia prática.

A saída para quem está estudando num seminário e quer seguir carreira acadêmica é construir um percurso de leitura autônomo. Deve ler as obras de maior envergadura e profundidade teológica de forma independente. Ou deixar para fazer isso mais tarde, quando terminar a graduação e já estiver se preparando ingressar num curso de Pós-Graduação Stricto Sensu.


Referências (apenas as obras com tradução)

Bavinck, H. Teologia sistemática. São Paulo: SOCEP, 2001.
Berkhof, L. Teologia sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.
Bultmann, R. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2004.
Cullman, O. A Formação do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1990.
Cullman, O. Cristologia do Novo Testamento. São Paulo: Liber, 2001.
Erickson, M. J. Introdução à teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1997.
Goppelt, L. Teologia do Novo Testamento. 3. ed. São Paulo: Teológica/Paulus, 2002.
Gunneweg, A. H. J. Teologia bíblica do Antigo Testamento: uma história da religião de
Israel na perspectiva bíblico-teológica. São Paulo: Teológica/Loyola, 2005.
Hodge, C. Teologia sistemática. São Paulo: Hagnus, 2001.
Jeremias, J. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008.
Kaiser Jr., W. Teologia do Antigo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1999.
Kümmel, W. G. Síntese teológica do Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003.
Kümmel, W. G. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1982.
Ladd, G. E. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Exodus, 1997.
Pannenberg, W. Teologia sistemática. São Paulo: Paulus/Academia Cristã, 2009. 3 v.
Smith, R. L. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2001.
Tillich, P. Teologia sistemática. 5. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2005.
Von Rad, G. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: ASTE/Targumim, 2006.
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[1] Seminário é o nome que se dá a Instituições de Ensino Teológico voltadas para a formação pastoral.

Um comentário:

  1. Me esclareceu bastante. Deu para compreender mais a destinação dessas obras teológicas.

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