domingo, 29 de julho de 2012

O texto é a pessoa: tuítes sobre a textualização do sujeito



























































Sostenes Lima
@Limasostenes

terça-feira, 24 de julho de 2012

Por que não sigo o caminho da tradição


O movimento evangélico brasileiro parece se encontrar numa encruzilhada nada promissora. Uma direção aponta para a tradição, conservadorismo, institucionalização, rigidez. A outra, para o modismo, superficialidade, sensacionalismo, exploração econômica da fé etc. Está difícil a vida de quem quer viver uma fé com profundidade, sem se deixar amarrar por certos dogmas e tradições institucionais centenárias e sem se deixar cooptar pelas superficialidades, esquisitices e malandragens do neopentecostalismo.

Apresento aqui os motivos por que a tradição, embora seja menos pior que o modismo, não me atrai. Parto do pressuposto de que tradição, em quase todas vertentes e tons, rechaça veemente tudo que não se ajusta aos seus cânones (conceituais e práticos). Diz a tradição que estruturas doutrinárias e institucionais devem ser protegidas, a qualquer custo, de todas as ameaças deturpadoras do novo. Paradigmas herdados de gerações que viveram em outro mundo, cuja natureza social e cultural se diferencia bastante do nosso, são tratados como dogmas intocáveis.

Aparentemente a tradição é uma escolha segura para quem busca profundidade. Em geral, o protestantismo tradicional tem se mostrado bastante resistente diante das investidas e canalhices bizarrices que norteiam o movimento neopentecostal (por vezes o pentecostal também) midiático, especializado em vender produtos religiosos. Por terem nome, corpo doutrinário e uma grande estrutura eclesiástica a zelar, as igrejas tradicionais ainda resistem ao apelo do sucesso indecente fácil e do proselitismo de cooptação desenfreado.

Antes de prosseguir, devo apontar o perfil do que estou chamando de movimento evangélico tradicional. Para mim, cinco características marcam uma igreja tradicional: a) 100 anos ou mais de existência; b) forte estrutura clerical e um programa formal de formação e iniciação pastoral; c) sistema de governo baseado em decisões colegiadas, o que inibe a ascensão de lideranças calhordas personalistas e carismáticas; d) identidade doutrinária relativamente definida e estável; e) liturgia conservadora, com pouca abertura a manifestações culturais populares, tanto as locais como as importadas pelo movimento gospel.

Como dito, à primeira vista, uma igreja tradicional parece uma excelente escolha. Mas, na prática, a coisa pode se mostrar bastante complicada. Principalmente porque tradição não costuma se dar bem com profundidade e mudança. E o motivo é bem simples. Não se faz nada com profundidade sem escavar, sem ir a fundo, sem revolver escombros. Tradição odeia escavação, investigação, suspeita, dúvida.

A busca por profundidade pressupõe movimento, contradição. É pela ação do contraditório que se chega a uma síntese mais profunda. Como se sabe, para se chegar a uma síntese é preciso haver antítese. Do embate entre tradição e novas teses (antíteses) surgem sínteses mais aprofundadas, embora também provisórias. As sínteses envelhecem e logo se tornam teses a serem confrontadas por antíteses emergentes. Uma fé profunda navega em dialéticas turbulentas, não em tradições marasmódicas, estagnadas. Só por meio de movimentos dialéticos indefinidos podemos chegar ao aprofundamento contínuo de conceitos e práticas.

Uma instituição firmemente ancorada em seus esteios centenários, tanto conceituais (corpo doutrinário) quanto práticos (sistema de governo, modo de operação clerical, serviço pastoral e litúrgico), costuma não tolerar indagações, questionamentos, instabilidades, provocações. Dificilmente admitirá revisão em seu aparato teológico. Por mais que existam fortes mudanças nos paradigmas culturais, teóricos e epistemológicos circundantes, as denominações tradicionais se mostram pouco abertas a revisar algum elemento de sua confissão doutrinária. Assentam-se numa ortodoxia exagerada, cheia de conservadorismo e arrogância institucional. Em geral, extrapolam na defesa de seu patrimônio e de sua identidade litúrgico-teológica, resvalando na presunção; julgam que tudo que foi herdado de gerações anteriores deve ser protegido, já que conceitos e práticas antigas são naturalmente melhores, já foram depurados.

Manutenção da tradição garante segurança, conforto e pureza. Em compensação (ou também em prejuízo), asfixia o dinamismo e a vivacidade. Quando pilares tradicionais são reforçados para que continuem inabaláveis, apesar dos ventos fortes de inquietação e renovação que sopram constantemente, o movimento da vida é cerceado, ares frescos são rechaçados. Apego exagerado à tradição força a pessoa a respirar ar empoeirado e envelhecido, sob a alegação de qualquer novidade embute risco de heresia. Quanto a mim, prefiro o risco de heresia ao embotamento que cerca o tradicionalismo.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Quero viver assim...


Atravessar dias
Ter uma data (20/07) como referência para contabilizar os encantos e desencantos de viver
Fazer da vida uma jornada de pontes diárias
Cruzar a ponte de cada dia, isto é, não deixar nada de ontem para ser feito hoje
Me desprender do lado que ficou para trás
Abandonar as coisas e afazeres desnecessários
Perder pessoas apenas temporariamente
Me afastar de pessoas, quase sempre, por motivo involuntário
Só me despedir  para sempre de pessoas que se encantaram
Renunciar projetos irrealizáveis, complicados e complicadores
Me descolar de intrigas e futricas existenciais
Me livrar de bagagens que jamais deveriam ter estado comigo
Chegar ao outro lado da ponte a cada dia
Saudar a novidade que se apresenta a mim a cada raiar do sol
Aceitar que, do outro lado da ponte diária, tudo é novo, mesmo as pessoas e coisas que atravessaram comigo
Celebrar a transformação e seguir em frente, em vez de lamentar e querer voltar a um tempo e a um lugar que não existem mais
Aceitar novos desafios e novos projetos, sem abandonar aqueles que fazem minha vida valer a pena
Me encantar com as pessoas que, caminhando comigo diariamente, se tornam novas a cada amanhecer
Me deixar surpreender com a pessoa que é uma unidade comigo
Amar mais as pessoas que atravessam as pontes diárias comigo continuamente, sem falhar um dia sequer
Construir uma família nova a cada dia, muito mais sólida e afetuosa
Manter parcerias de amizade de longa data
Encontrar novas pessoas e fazer novas parcerias de amizade e de vida
Viver Deus de um modo espontâneo, sem religiosidade e sem forçação espiritual
Orar sem dizer uma única palavra
Viver a vida sem se preocupar muito com a busca da felicidade
Viver e morrer a cada dia
Ser triste quando a alegria se desgasta
Ser feliz quando a tristeza arreda o pé
Ser pleno, contraditório, recortado, limitado
Desejar a vida sem subestimar e negar a morte.


quarta-feira, 18 de julho de 2012

Escrever é um ato de coragem: tuítes sobre a escrita

































sábado, 14 de julho de 2012

Os blogs e a emancipação dos leitores/autores[1]


Os blogs são mesmo um caminho sem volta, tanto para o mundo da indústria da informação quanto para quem consome e reindustrializa seus produtos: os leitores/autores.

O universo jornalístico e publicitário já está notando que os blogs não são rivais; são aliados importantes que vão lhe garantir permanência no mercado. Os blogs despontam como uma espécie de loja de varejo de informação, formação e entretenimento, enquanto portais, jornais e revistas vêm se especializando no trabalho de indústria e fornecimento por atacado. Hoje, já é provável que o internauta acesse uma matéria de revista (Superinteressante, por exemplo) primeiramente via blog. São poucos os ciberleitores que vão primeiro ao site da revista. Depois de lida a matéria no blog, talvez o leitor até se dirija ao site de origem, via link, para ver se algo mais lhes interessa.

Os leitores/autores também vêm notando que os blogs são sua única saída para fazer valer seu direito de ampla expressão. Há nas mídias tradicionais uma forte restrição à fala do leitor. Ouvir rádio, ver televisão, assistir a um filme, ler um livro, ler jornal, ler revista etc. são atividades que impõem ao interlocutor uma condição de dominação e assujeitamento. O modo de operação dessas mídias praticamente força o leitor a se calar. Se alguém quiser realmente fazer seu texto circular nesse mercado extremamente corporativo, terá de superar uma série de entraves culturais, técnicos, econômicos etc. As mídias unidirecionais incentivaram bastante a prática da leitura, é verdade. Mas, por limitações técnicas, deixaram os leitores sem condições de responder, dialogar. E eles, notando que essas mídias estão lhes interditando um direito fundamental – o de exprimir seu mundo, seu locus sociocultural – não mais se resignam com isso.

A migração dos jornais e revistas para internet forneceu recursos mais acessíveis para o leitor dizer o que pensa. As caixas de texto, destinadas ao comentário, têm sido um instrumento importante para os leitores dialogarem tanto com o jornal/revista quanto com outros leitores. Através desse recurso eles podem dizer que a cobertura de um evento foi superficial, que uma notícia ou reportagem está mal elaborada etc. Contudo, somente leitores menos experientes se satisfazem com apenas essa possibilidade. Leitores mais experimentados, e com demanda de escrita, não se contentam em simplesmente postar um comentário, em fazer adendos a textos alheios. Eles querem escrever seus próprios textos e se tornarem leitores/autores emancipados.

Os blogs são uma invenção extraordinária. Finalmente, as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) criaram uma mídia centrada nos interlocutores, dando-lhes poder para enfrentar a força dos grandes impérios da informação (ou seria desinformação?). As redes sociais também são uma boa invenção, mas com certas limitações, que impedem o aprofundamento do texto. Leitores/autores, que manejam bem a escrita, não se contentam em apenas postar um pequeno texto no Facebook ou Twitter. Eles querem escrever ou reproduzir um texto mais denso, que consiga aprofundar a representação e interpretação que têm de sua realidade social.

A blogosfera está em alta e vem se despontando como um ambiente profissional, informativo e formativo bastante promissor. Os blogs, ao lado de outras mídias interativas, podem se transformar numa importante agência social de informação e formação, e assim contribuir para a construção de um leitor-cidadão, que seja capaz de interpretar a realidade de forma mais autônoma e crítica. O acesso a uma matriz de informação e opinião alternativa, com pouca ligação com os grandes centros do poder, dá condições para que o cidadão-leitor enxergue melhor certos compromissos ideológicos que dão sustentação à indústria da informação oficial e hegemônica.


Docente na Universidade Estadual de Goiás (UEG). Doutor em Linguística (UnB) e pesquisador na área de Gêneros Textuais e Mídias.
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Texto publicado em: https://impresso.dm.com.br/edicao/20131219/pagina/29#

sábado, 7 de julho de 2012

Em memória dos manuais de teologia


Toda a minha infância foi cercada de teologia, embora não tivesse consciência disso. Eu tinha interesse em estudar certas questões teológicas, mas o ambiente e a esfera institucional nunca me ofereceram meios e estímulos para isso. Só fui ter acesso ao universo da teologia livresca quando entrei no seminário[1]. Ali comecei a interagir com os conceitos teológicos. E foram os manuais que me permitiram os primeiros passos. Já no primeiro semestre do curso, fui apresentado a um tal Louis  Berkhof (1873-1957). Até então, jamais tinha lido (em) qualquer livro de referência de teologia sistemática. Acho que nem sabia o que era isso.

Naquela época, eu achava que os manuais de teologia sistemática eram a melhor fonte para uma boa formação em teologia. Li avidamente (em) alguns, especialmente os mais conservadores e populares. Eis os autores que estiveram ao meu lado enquanto cursava as intermináveis disciplinas de Teologia Sistemática I, II, III, IV, etc. etc. (não me lembro mais quantas eram): Louis Berkhof (1873-1957), Wayne Grudem (1948-), Millard Erickson (1932-), Charles Hodge (1797-1878). Destes, Berkhof, com a sua Teologia sistemática, se tornou um companheiro inseparável por quatro anos.

No último ano, passei a contar com a companhia de mais dois amigos ilustres: Walter C. Kaiser Jr. e George Eldon Ladd. Os livros Teologia do Antigo Testamento (de Walter C. Kaiser Jr.) e Teologia do Novo Testamento (de George Eldon Ladd) completaram o cardápio de manuais que fizeram parte da minha dieta (alimentação regulamentada e regulada, nem sempre agradável ao paladar e quase sempre insuficiente para saciar) teológica inicial.

Não preciso me esforçar muito para mostrar que os três manuais (Teologia sistemática de Berkhof, Teologia do Antigo Testamento de Walter C. Kaiser Jr. e Teologia do Novo Testamento de George Eldon Ladd) que estiveram na base da minha formação são muito mais um acervo de tradição do que propriamente obras de elaboração teológica.

A Teologia sistemática de Louis Berkhof

Atualmente, acho a Teologia sistemática de Louis Berkhof intragável. Não gosto nem de chegar perto. Me sentiria mal se fosse obrigado a ler Berkhof novamente. E a razão não é que porque ele parte de uma base calvinista, mas porque se apresenta como portador de uma verdade universal, categórica, irrefutável. Felizmente, hoje não há mais clima para esse tipo de ambição teológica e epistemológica.

Berkhof escreveu sua obra na metade do século passado. Pelo que se vê, ele não tinha pretensão de fazer (construir) teologia; queria apenas reforçar um paradigma teológico já transformado em tradição. O que Berkhof fez, na verdade, foi transformar as elaborações de, principalmente, Abraham Kuyper (1837-1920), Herman Bavinck (1854-1921) e Chareles Hodge (1797-1878) numa espécie de confissão doutrinária. Essa é a razão por que considero a obra de Berkhof muito mais confessional que teológica. O texto mais parece uma encíclica reformada. O autor não teve interesse em apresentar a natureza, método e bases epistemológicas da teologia. Foi direto aos dogmas. Outros autores pelo menos apresentam um capítulo introdutório, no qual apresentam a teologia como ciência. O curioso é que esse livro é um dos mais utilizados nos seminários brasileiros, não importando a confessionalidade.

Infelizmente, quase todos os manuais de Teologia sistemática repetem a pretensão de legislar sobre conteúdos teológicos, se apresentando como a versão que encerra o debate. Não é em vão que quase toda Teologia sistemática pretende ser dogmática, embora nem sempre tenha coragem de assumir isso no título. Quase sempre reclamam (às vezes disfarçadamente) o status de dogma aos postulados que apresentam. 

Acho interessante comparar o título da obra de Karl Barth com o título da obra de Berkhof. O adjetivo (qualificação) dado à teologia de cada um ilustra bem a dissimulação que os termos sistemática e dogmática podem esconder. Se comparada à Teologia sistemática de Berkhof, a obra monumental de Karl Barth (1886-1968), Dogmática eclesiástica (sem tradução para o português), parece ter recebido o nome errado; parece que as duas obras estão com os nomes trocados. É a de Karl Barth que deveria ser chamada de sistemática - a exemplo da obra de Paul Tillich (1986-1965) -, não a de Berkhof, que deveria ser qualificada de dogmática. Se comparado com Berkhof, Karl Barth produziu teologia, não um recital dogmático.

Os manuais de teologia bíblica

O que dizer dos manuais de Teologia bíblica? Walter C. Kaiser Jr. e George Eldon Ladd fizeram a minha cabeça durante um tempo. Estudei Teologia bíblica sob a batuta deles. Atualmente, há muitos outros manuais disponíveis no mercado. Mas imagino que pelo menos o texto de George Eldon Ladd ainda continua sendo o mais popular nos seminários evangélicos.

Os manuais de Teologia do Antigo Testamento de Walter C. Kaiser Jr e Ralph L. Smith

Talvez a Teologia do Antigo Testamento de Walter C. Kaiser Jr. nem seja a mais utilizada atualmente. No seminário em que estudei, já há algum tempo, a Teologia do Antigo Testamento de Ralph L. Smith passou a ser o livro-texto.

Mais recentemente, entrou no mercado a obra de Paul House (que não conheço), que dever estar tendo boa aceitação, especialmente por ter sido publicada pela editora Vida, um selo editorial com ampla penetração nos seminários e livrarias evangélicas brasileiras.

Tanto Kaiser Jr. quanto Smith seguem, em certo sentido, a mesma a direção. Ambos são extremamente conservadores. Defendem o revelationis dogma (dogma da revelação) de forma tão exagerada, que seus textos parecerem muito mais uma Teologia sistemática (dogmática) do Antigo Testamento do que uma Teologia do Antigo Testamento propriamente dita, como são as de Gerhard von Rad (1901-1971) e Antonius H. J. Gunneweg (1922-1990).

Kaiser Jr. e Smith se deixam cegar pelo princípio da revelação; se negam a elaborar uma interpretação aprofundada do percurso teológico que norteou a vida dos judeus. Os autores praticamente não dão espaço para se pensar e discutir a formação do pensamento do teológico judaico registrado nos livros sagrados. Também não há espaço para se pensar a composição do canon do Antigo Testamento (AT) como resultado de um processo histórico intimamente ligado ao processo de construção de uma nação. Não há uma proposta de análise que contemple o AT como um conjunto de escritos inextricavelmente associados à formação e sedimentação da identidade cultural e religiosa dos judeus, e relacionados com a afirmação do poder político e institucional de uma nação. As forças e movimentos sociais, políticos e históricos que ensejaram a elaboração de uma tradição firmemente teocrática e expressa em textos sagrados são praticamente ignorados em ambas as obras.

Ressalte-se ainda o fato de que a obra de Ralph L. Smith está mais para um resumo/resenha do que um ensaio analítico. O autor parece muito mais preocupado em resenhar outros autores do que em escrever suas proposições. Nunca vi tanta citação num livro só. É um tal de segundo fulano de tal, de acordo com fulano de tal, fulano de tal afirma, etc. etc. que não acaba mais.

A Teologia do Novo Testamento de George Eldon Ladd

Resta ainda escavar minha memória a respeito de George Eldon Ladd. Dos três manuais que citei, este é único que ainda leio. Não porque seja um excelente tratado de Teologia do Novo Testamento, mas porque é o livro-texto recomendado pelo seminário onde leciono a disciplina Teologia do Novo Testamento. Se a escolha do livro-texto fosse exclusivamente minha, certamente escolheria outro. Há tantas opções melhores, que podem ser usadas em conjunto: Teologia do Novo Testamento de Leonhard Goppelt (1911-1973), Teologia do Novo Testamento de Rudolf Bultmann (1884-1976), Síntese teológica do Novo Testamento de Werner Georg Kümmel (1905-1995), Forma e exigências do Novo Testamento de J. Shreiner e G. Dautzenberg, Teologia do Novo Testamento de Joachim Jeremias, entre outras.

Contudo, mesmo não sendo a minha preferência, não tenho rejeição ao texto de Ladd. É verdade que há algumas partes em que o mesmo defeito de Walter Kaiser Jr. e Ralph Smith (defesa exagerada do revelationis principium – princípio da revelação) enfraquece o texto. Veja-se o caso do capítulo em que Ladd (1997, p. 99-112) trata de O Reino e a igreja, em especial quando autor aborda os fragmentos de Mateus 16.18-19 e Mateus 18.15-20.

Ladd (1997, p. 103-104) defende que ambos os textos provêm de Jesus de Nazaré, não da tradição da igreja. Nos fragmentos, Jesus afirma a identidade da ekklesia e confere aos apóstolos (com ênfase em Pedro) uma posição de governo supremo. Os textos mostram a autocompreensão da comunidade primitiva como um grupo especial dentro do judaísmo (Kümmel, 2003).

Em Mateus 16.18-19, Jesus se dirige a Pedro, enfatizando que a compreensão que ele (Pedro) tinha a respeito do Cristo resultava de uma revelação especial do pai. Segundo Kümmel (2003, p. 168), essas palavras “podem ter surgido somente na comunidade primitiva” (grifo meu). As palavras de Pedro parecem não se ajustar ao que aconteceu no dia da crucificação, quando os apóstolos abandonaram Jesus, e Pedro o negou veementemente. A atitude de Pedro, após a ressurreição, foi completamente diferente. Já convicto da natureza do Cristo e de sua missão, ele se manteve firme frente as perseguições judaicas. Portanto, o texto se ajusta melhor à compreensão que a comunidade primitiva tinha do Cristo ressurreto e de si mesma.

O texto de Mateus 18.15-19, que trata de um caso de indisciplina na igreja, ilustra também uma fala de Jesus que só pode ter surgido no ambiente da comunidade primitiva. De acordo com Mateus 18.17, Jesus diz que, se um réu, depois de levado ao tribunal da igreja, se recusar a ouvir a repreensão deve ser considerado “como pagão (gentio) e publicano”. A fala de Jesus no fragmento parece ser contraditória a outras falas de Jesus (cuja historicidade é praticamente consensual entre os críticos) a respeito dos publicanos. O tratamento de um rebelde como gentio e publicano parece se aproximar muito mais da representação negativa que os judeus ortodoxos (especialmente os fariseus) tinham dos gentios e publicanos do que com o modo como, em diversas situações, Jesus tratou os cobradores de impostos. Uma das atitudes que mais pesavam contra a reputação de Jesus era justamente o fato de ele andar e se dar bem com os publicanos, alguns deles reconhecidamente corruptos. Uma vez chegou ao absurdo de, numa parábola, elogiar a oração de um publicano e desprezar a oração de um fariseu (Lucas 18.9-14). Diante do apreço que ele tinha pelos publicanos, parece improvável que, para o Jesus de Nazaré, um rebelde devesse receber como punição o epiteto de publicano.

A pesar desses detalhes, não tenho rejeição ao texto de Ladd. Ele parece muito mais aberto ao diálogo. Em diversos pontos, faz uma interlocução interessante com as obras de Rudolf Bultmann (1884-1976), Joachim Jeremias (1900-1979), Werner Georg Kümmel (1905-1995), Oscar Cullmann (1924-199), Martin Dibelius (1883-1947), C. H. Dodd (1984-1973) e Leonhard Goppelt (1911-1973).

Palavras finais

Os manuais de teologia, tanto sistemática como bíblica, são muito importantes na formação teológica inicial. A maioria dos nossos seminários não visa preparar alunos para uma carreira acadêmica, mas para o exercício pastoral. Isso explica por que os manuais mais conservadores são os mais utilizados. É pouco provável que um seminário vá utilizar a Teologia sistemática de Paul Tillich ou a de Wolfhart Pannenberg e a Teologia do Novo Testamento de Rudolf Bultmann ou de Joachim Jeremias como livros-texto. Essas obras, embora bastante importantes para a formação teológica, não se ajustam plenamente à atividade pastoral. São obras que resultam de atividades de pesquisa e elaboração teológicas; nasceram de demandas acadêmicas, não de demandas da práxis pastoral. Diferentemente da Teologia sistemática de Wayne Grudem, as teologias de Tillich e Pannenberg não pretendem fazer uma interlocução com a teologia prática.

A saída para quem está estudando num seminário e quer seguir carreira acadêmica é construir um percurso de leitura autônomo. Deve ler as obras de maior envergadura e profundidade teológica de forma independente. Ou deixar para fazer isso mais tarde, quando terminar a graduação e já estiver se preparando ingressar num curso de Pós-Graduação Stricto Sensu.


Referências (apenas as obras com tradução)

Bavinck, H. Teologia sistemática. São Paulo: SOCEP, 2001.
Berkhof, L. Teologia sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.
Bultmann, R. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2004.
Cullman, O. A Formação do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 1990.
Cullman, O. Cristologia do Novo Testamento. São Paulo: Liber, 2001.
Erickson, M. J. Introdução à teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1997.
Goppelt, L. Teologia do Novo Testamento. 3. ed. São Paulo: Teológica/Paulus, 2002.
Gunneweg, A. H. J. Teologia bíblica do Antigo Testamento: uma história da religião de
Israel na perspectiva bíblico-teológica. São Paulo: Teológica/Loyola, 2005.
Hodge, C. Teologia sistemática. São Paulo: Hagnus, 2001.
Jeremias, J. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008.
Kaiser Jr., W. Teologia do Antigo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1999.
Kümmel, W. G. Síntese teológica do Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003.
Kümmel, W. G. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1982.
Ladd, G. E. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Exodus, 1997.
Pannenberg, W. Teologia sistemática. São Paulo: Paulus/Academia Cristã, 2009. 3 v.
Smith, R. L. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2001.
Tillich, P. Teologia sistemática. 5. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2005.
Von Rad, G. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: ASTE/Targumim, 2006.
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[1] Seminário é o nome que se dá a Instituições de Ensino Teológico voltadas para a formação pastoral.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Poética do silêncio em tuítes