sábado, 30 de junho de 2012

A tartaruga visita a terra seca

Era uma vez uma tartaruga que morava num lago. Vivia junto com uma comunidade de peixes. Os peixes a achavam um pouco estranha, diferente, mas nunca se deram conta de que ela não era um peixe. Também nunca perceberam que ela não era plenamente aquática. Viviam bem juntos. Eram felizes.


Certo dia a tartaruga resolveu dar uma volta na terra seca. Os peixes até sentiram falta dela. Mas nenhum deles pensou que alguma coisa ruim tivesse acontecido. Na verdade, imaginaram que a tartaruga tinha resolvido fazer uma longa jornada para outros lagos. Talvez ela tivesse se cansado daquele lugar. Talvez tivesse resolvido sair para conhecer novas paragens, novas culturas e fazer novos amigos. Os peixes tinham certeza de que mais cedo ou mais tarde ela voltaria.

E, realmente, foi isso que aconteceu. Depois de alguns meses, a tartaruga voltou para casa. Estava um pouco queimada do sol. Mas nada tão visível.

Logo que chegou, foi convida para dar uma palestra sobre sua jornada. Todos os peixes estavam curiosos para saber como foi viajar para tão longe, nadar em outras águas, visitar outros lagos, conhecer outros peixes.

Chegou o dia da palestra. O auditório estava lotado. O mestre de cerimônia chamou a tartaruga para se sentar num lugar de honra, bem ao centro da mesa. Chamou também dois convidados ilustres para compor a mesa. Eles eram dois grandes cientistas. Um trabalhava no departamento de Biosfera e o outro no de Cultura Aquática da Universidade do Logo Central, a mais famosa da região. Eles seriam mediadores de uma conversa acadêmica a ser realizada logo depois que a tartaruga terminasse sua preleção.

A tartaruga enfim começou o seu discurso:

_ Cumprimento todos os meus amigos aqui presentes, em especial os nobres colegas com quem divido a mesa. Me sinto muito honrada por estar aqui e por ter a oportunidade de falar sobre minha jornada. É muito importante poder compartilhar com vocês as experiências que tive em terra seca. Precisamos mesmo criar uma possibilidade de diálogo entre o mundo das águas e mundo da terra seca. Eles se completam e se interpenetram. Tudo que acontece num afeta o outro.

De repente começou um burburinho no auditório. Os peixes começaram a perguntar uns aos outros:

_ Do que ela está falando? Nós ouvimos bem? Ela está falando de terra seca? É verdade?

A tartaruga percebeu que alguma coisa estava errada. Parou de falar. Ficou observando o movimento e falatório dos peixes. Nesse instante, um deles se levantou e disse:

_ Dona tartaruga, estamos interessados em ouvir suas experiências. Temos interesse em saber por quais lugares a senhora andou, como foi sua jornada, quais peixes a senhora conheceu e como são os costumes e língua deles. Mas não é isso que a senhora começou a nos falar. Não estamos interessados em ouvir fantasias sobre a terra seca.

A tartaruga retomou sua fala:

_ Meus amigos, o que estou falando não é fantasia. Eu estava na terra seca. E esse lugar não é longe daqui. É mais perto do que vocês imaginam. Não posso falar sobre os peixes que conheci lá simplesmente porque lá não há peixes. Mas estive com outros amigos, desenvolvendo um trabalho muito importante tanto para o mundo deles quanto para o nosso mundo.

O peixe que tinha assumido a condição de porta-voz do auditório falou novamente, agora já com certa irritação:

_ Dona tartaruga, não nos faça de bobos. Terra seca não existe. Todos aqui sabem disso desde criança. Aprendemos ainda muito cedo que toda terra que existe é molhada. E tem mais um coisa: você disse que esteve com alguns amigos. Olha, dona tartaruga, se não há terra seca também não há qualquer ser que habite lá. Ninguém pode morar num lugar que não existe.

A tartaruga voltou a afirmar e agora com mais convicção: 

_ É isso mesmo que vocês estão ouvindo. Eu estava em terra seca. Eu tenho amigos lá e eles não são peixes. E o mais importante: a terra seca é parte vital do nosso mundo.

A maior parte dos peixes que estavam no auditório, ao ouvir isso, deu de ombros e foi embora. Foram para a lida da vida. Não tinham interesse em histórias de terra seca. Eles achavam que a tartaruga estava fazendo piada com esse assunto. E, como eles sabiam que terra seca não existe, preferiram deixar a tartaruga e suas histórias para lá. Afinal, tinham coisas muito mais importantes a fazer.

Alguns peixes, apesar do descontentamento, continuaram no auditório. Entre eles estavam os dois membros da mesa. Eles ficaram bastante desapontadas com as primeiras palavras da tartaruga, mas, por uma questão de polidez, permaneceram no auditório. 

Um dos cientistas decidiu intervir na conversa. Disse:

_ Dona tartaruga, não brinque conosco. Isso aqui é coisa séria. Não estamos aqui para ouvir fantasias. Estamos interessados em saber como foi sua experiência transcultural. Não estamos interessados ouvir histórias imaginárias. Por isso, seria melhor se a senhora dissesse logo que tudo isso não passa de uma brincadeira, um quebra gelo. Temos certeza de que a senhora está fantasiando. Isso é apenas uma historinha, não é? Todos nós sabemos que terra seca não existe. Por conseguinte, também não há vida num lugar que não existe. Não há nenhum estudo que comprove isso. A existência de um lugar que não seja molhado seria um absurdo. É incompatível com a natureza da água. Também é incompatível com a existência da vida. E mais: nenhum de nossos cientistas já esteve lá para comprovar que esse tal lugar existe.

A tartaruga respondeu:

_ Meu caro amigo cientista, eu respeito muito o seu saber. Mas posso garantir que ele parcial. Aliás, o senhor sabe muito mais do que eu que qualquer saber é parcial. Nenhuma teoria, ou um conjunto de teorias, consegue abarcar todo o universo. Não quero de forma alguma contradizer as teorias e crenças que orientam sua prática profissional. Mas não posso deixar de falar sobre algo que é tão importante pra mim e que faz parte da minha experiência. Não posso ser silenciada por uma teoria. Reafirmo que existe, sim, um lugar fora das águas. E mais: acho importante informar aos senhores cientistas e a todos que ainda estão nesse auditório que boa parte dos suprimentos que ajudam a manter a vida aqui na água vem de lá. A maioria de vocês vive à custa do que é produzido lá. Se a terra seca não existisse, a vida aqui também não existiria para muitos de vocês. Se houver uma crise lá, que acabe com vida terrestre, a coisa por aqui também vai ficar muito complicada. Muitas vidas daqui também vão entrar em crise.

Depois de ouvir isso, os dois cientistas ficaram indignados com a ignorância e devaneios da tartaruga. Em tom de protesto, saíram da mesa e do auditório. A essa altura, não havia mais clima para diálogo. Os dois intelectuais estavam convictos de que a tartaruga estava delirando. Talvez fosse necessário um tratamento médico. Definitivamente, a viagem não havia feito bem à tartaruga. Talvez ela tivesse sofrido algum tipo de trauma severo, capaz de desalinhar por completo sua lucidez.

Os poucos que ainda estavam ouvindo a conferência resolveram acompanhar os dois membros da mesa. A tartaruga ficou sozinha no auditório. Começou a imaginar como a vida seria melhor se os mundos do mundo se entendessem e trabalhassem para o bem comum. Estava triste em ver que os que vivem na terra seca pouco se importam com os vivem na água. Alguns deles também não acreditam que exista um mundo de terra molhada. Já os que vivem na água, embora sofram as consequências das ações de quem vive em terra seca, preferem não acreditar que exista um mundo fora das águas. Enquanto cada um dos mundos do mundo se isola em sua própria redoma, a crise vai se alastrando e matando todos os mundos.

Depois de pensar sobre essas coisas, a tartaruga saiu vagarosamente do auditório. Resolveu voltar a terra seca novamente.

Um comentário:

  1. A mais pura verdade, vemos isto no reflexo no nosso dia-a-dia, as duas terras, como se não existissem.
    Belo texto.

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