sexta-feira, 22 de junho de 2012

As histórias engendram nossa história


Passeio na Praça do Avião (por A. G. Lima*)

Eu e a Bruna** nos 2 vamos na praça do avião. ei vocês querem ir com a gente nos 2 podemos levar vocês mas no banco de trás tá bom. Então vamos! Os que nos estamos esperando, eu sugeriram. Então a bruna falou A. G. olha é a Clara** vamos falar oi para ela. Então nos duas falamos oi para a Clara e ai ela falou oi parando com a sua bicicleta nova.ai a bruna perguntou aonde você comprou essa bicicleta nova. Ai a Clara respondeu eu não sei por que foi o meu pai que comprou no meu aniversario.ai eu falei Clara você quer ir conosco ate a praça do avião você pode acompanhar a gente com a sua bicicleta. Então a Clara disse tá bom então o que nos estamos esperando!!!!! ai nos começamos a andar. depois de ums 15 minutos ai eu olhei para o lado esquerdo e vi só mato olhei para o lado direito ai que eu vi um bebedor ai eu falei amigas olhem aquele bebedor!!!.ai a Bruna falou então vamos la ja que não tem um bebedor aqui na nossa frente né!!!ai nos corremos pro auto do morro.ai a Clara disse esse morro é muito grande A. G. e Bruna. ai eu falei não se preocupe Clara porque a gente subira esse morro num estante.ai a Bruna falou olhem para cima já estamos chegando meninas. Quando nos chegamos nos estavamos exaustas e é claro que eu e a bruna e a Clara fizemos fila para beber agua.depois de beber agua nos três corremos para baixo em diresão au carro e a bicicleta nos eu e a bruna entramos no carro e a Clara subiu na sua bicicleta então nos comesamos a correr bem na hora que nos comesamos a correr uma grande chuva comesou a cair ainda bem que nos estvamos com mochilas ai nos 3 (três) pegamos nossos guarda chuvas ai nos usamos os nossos guarda chuvas depois de mais ums 15 (quinse) minutos a chuva parou e finalmente a gente chegou na praça do avião tchau amiginho.essa historia foi escrita por a a. g. lima.Muito obrgada amigas por mim ajudar tanto.
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        *A. G. Lima cursa o 1º ano.
        ** Os nomes foram alterados.

As histórias engendram nossa história


1 Percurso de escrita da história

A historinha acima foi produzida por A. G. Lima. Foi a primeira que ela escreveu. Não sei dizer quantos dias ela gastou para escrever o texto. Talvez uns cinco ou seis, não consecutivos. Eventualmente, ela ligava o computador e escrevia por uns 20 minutos. Depois disso, se distraia em algum joguinho ou simplesmente desligava o computador e ia brincar com outra coisa. No dia seguinte, ou dias depois, ela voltava a trabalhar  (brincar, na verdade) no texto.

2 Papel das histórias na construção da história

As histórias estão na base do que chamamos de cultura. É por elas que nos reconhecemos como humanos. Contamos histórias uns para os outros desde que passamos a nos perceber como pessoas, sujeitos autoconscientes. Silverstone, notavelmente, nos diz que histórias sempre foram contadas "para consolar, surpreender, entreter. E sempre houve contadores de história, sentados junto à lareira, viajando de cidade em cidade, falando, escrevendo, encenando. Nossas histórias, nossos mitos e lendas populares definiram, preservaram e renovaram culturas. Narrativas de perda e redenção, de heroísmo e fracasso. Histórias que tanto manifestam como secretamente oferecem modelos e lições, rotas para o passado e futuro, guia para os desorientados. Histórias que desafiam, provocam e solapam. Histórias com começo, meio e fim: estruturas familiares, temas reconhecíveis, agradáveis por sua variação; uma canção bem cantada, um conto bem contado, um suspense bem-feito. Nossas histórias são tanto púbicas como privadas. Aparecem no sagrado e no profano, alegando realidade, fantasiando, apelando à imaginação"[1].

Crianças são contadoras e ouvidoras de história por excelência. É por meio das histórias que os pequenos vão entendendo a ordem do mundo. Eles foram lançadas aqui sem qualquer aviso ou orientação. Por isso, precisam de tempo e recursos para entender como é e como opera a casa dos humanos.

Quando chegamos neste mundo, tudo já está funcionando, das coisas maiores (língua, Estado, instituições culturais em geral etc.) às coisas menores (família, casa, trabalho do pai/mãe etc.). Não sabemos as razões por que cada coisa é do jeito que é. Também não sabemos por que temos uma mãe e não outra, um pai e não outro. Não sabemos por que moramos num lugar e não noutro. Tudo à nossa volta já está posto. Tudo já existe e é desconhecido. 

Na verdade, em matéria de consciência, chegamos aqui sem saber quase nada (ou nada mesmo). Apenas corpo  vem com um saber pronto. E que saber! Ele vem equipado com uma memória riquíssima. Já a consciência vem praticamente (ou totalmente) em branco.

Então, as pessoas começam a nos contar histórias. Resultado: começamos a nos habituar com o jeito das coisas, começamos a entender também a ordem (coerção) das coisas. As histórias nos mostram como devemos viver num mundo que ainda não é nosso, sobre o qual ainda temos pouca força de modificação. “As histórias proporcionam [não apenas] prazer, mas também ordem”[2].

Depois de ouvir muitas histórias, começamos a adquirir controle sobre esse mundo. É verdade que certas coisas do mundo não são facilmente modificadas. Entre elas estão a língua e os hábitos alimentares, por exemplo. Mas, mesmo assim, tudo muda. E muda porque as pessoas adquirem controle sobre as coisas que existem no mundo.

Quanto mais ouvimos e nos familiarizamos com histórias na infância, maior capacidade adquirimos de escrever, fazer, viver e mudar história(s). Devemos estimular nossos filhos a ouvir, ler, contar e escrever histórias, porque isso servirá como um ensaio para a construção de suas próprias histórias e reconstrução da história dentro da qual vivem.

3 Papel dos conflitos na estruturação das histórias

As crianças, desde cedo, sabem que uma boa história tem que ter bons personagens, boa aventura e bom conflito.

Outro dia a A. G. Lima me pediu para contar uma história para ela. Já estava passando de hora dela ir dormir. Eu queria contar uma história bem curtinha; não me lembrei de nenhuma. Acabei inventando uma mais ou menos assim:
Duas formiguinhas, o Job e o Zico, saíram para passear. No caminho, encontraram com o Fred, que vinha da casa do Tamanduá. Fred contou a aventura que viveu ao ir, sem que a mãe dele soubesse, à casa do Tamanduá. Ele tentou convencer o Job e o Zico a irem lá também. Acontece que a mãe do Zico já tinha lhe avisado a não se aproximar da casa do Tamanduá. Lá era um lugar muito perigoso. Como Zico era muito obediente, não cedeu ao convite de Fred. Depois de conversarem um pouco sobre outras coisas, Job e Zico voltaram para casa. Fim.
 Ao final da história, a A. G. Lima me falou:

_ Papai, essa história é sem graça; ela não tem problema. História tem que ter problema. O Job e Zico deveriam ter ido à casa do Tamanduá. Seria uma ótima aventura.

Eu disse a ela que outro dia contaria a história com o problema. De fato, dias depois, contei a história com o tal problema. Job, Zico e Fred se arriscaram; foram à casa do Tamanduá e passaram por maus bocados.

As crianças sabem que conflitos são um elemento fundamental das histórias. São eles que dão tessitura a uma boa narrativa. Na verdade, o conflito é um elemento essencial à vida. Ninguém suportaria viver uma vida sem intempéries. Seria absurdamente monótona e sem graça.

4 As histórias antecipam e sublimam nossa história

As crianças gostam de contar e ouvir histórias porque podem ver aí os perigos da vida sem senti-los na própria pele. Também podem ver que o mal não triunfa para sempre.

As histórias mostram o risco de viver, mas também mostram a força da esperança e o triunfo da alegria. As histórias mostram que, em determinados momentos, tudo pode estar muito sombrio, mas as coisas não ficam assim para sempre.

É preciso nutrir a esperança porque a qualquer momento o bem pode triunfar. É verdade que o bem não chega reparando todas as dores e perdas. Ficam as cicatrizes e traumas. Mas o infortúnio e a maldade não duram para sempre. A esperança não permite o triunfo eterno do mal. Quem tem esperança milita, trabalha, enfrenta a dor; faz o mal perder espaço.

Essas são algumas lições que venho tirando da atividade de contar histórias para a A. G. Lima e, agora, de ler e editar as histórias que ela conta.

5 História revisada

Resolvi fazer a revisão da historinha para facilitar a leitura. Segue o texto revisado: 

Passeio na Praça do Avião (por A. G. Lima)
Eu e a Bruna, nós duas, vamos na praça do avião.
_ Ei, vocês querem ir com a gente? Nós duas podemos levar vocês, mas no banco de trás, tá bom?
_ Então vamos! Os que nós estamos esperando?, eu sugeri.
Então a Bruna falou:
_ A. G., olha, é a Clara. Vamos falar oi para ela.
Então nós duas falamos oi para a Clara. Aí ela falou oi, parando com a sua bicicleta nova. Aí a Bruna perguntou:
_ Onde você comprou essa bicicleta nova?
Aí a Clara respondeu:
_ Eu não sei, porque foi o meu pai que comprou no meu aniversario.
 Aí eu falei:
_ Clara, você quer ir conosco até a praça do avião? Você pode acompanhar a gente com a sua bicicleta.
Então a Clara disse:
_ Tá bom! Então o que nos estamos esperando!!!!!
Aí nós começamos a andar. Depois de uns 15 minutos, eu olhei para o lado esquerdo e vi só mato. Olhei para o lado direito e vi um bebedor. Aí eu falei:
_ Amigas olhem aquele bebedor!!!
Aí a Bruna falou:
_ Então vamos lá, já que não tem um bebedor aqui na nossa frente né!!!
Aí nós corremos para o outro lado do morro. Aí a Clara disse:
_ Esse morro é muito grande, A. G. e Bruna.
Aí eu falei:
_ Não se preocupe, Clara, porque a gente subirá esse morro num instante.
Aí a Bruna falou:
_ Olhem para cima, já estamos chegando meninas.
Quando nós chegamos, nós estávamos exaustas. É claro que eu e a Bruna e a Clara fizemos fila para beber água. Depois de beber água, nós três corremos para baixo em direção ao carro e a bicicleta. Nós, eu e a Bruna, entramos no carro e a Clara subiu na sua bicicleta. Então nós começamos a correr. Bem na hora que nós começamos a correr, uma grande chuva começou a cair. Ainda bem que nós estávamos com mochilas. Aí nós 3 (três) pegamos nossos  guarda-chuvas. Aí nós usamos os nossos guarda-chuvas. Depois de mais uns 15 (quinze) minutos, a chuva parou e finalmente a gente chegou na Praça do Avião.
Tchau, amiguinho. Essa história foi escrita por A. G. Lima.
Muito obrigada, amigas, por me ajudarem tanto.
@Limasostenes
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[1] Silverstone, R. Por que estudar a mídia? 2. ed. São Paulo: Loyola, 2005. p. 79.
[2] Silverstone, R. Por que estudar a mídia? 2. ed. São Paulo: Loyola, 2005. p. 81.

3 comentários:

  1. Parabéns Gabi,é um privilégio tê-la como aluna.Fico encantada com a sua criatividade e espontaneidade na escrita .Continue criando histórias ,contos e poesias através da leitura e escrita você pode viajar ,sonhar,descobrir e redescobrir...a vida...o mundo. Beijos . Tia Lu

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  2. Parabéns Gabi, a sua história não só demonstra sua inteligência e capacidade de escrever, mas, também a sua própria história e as influências que você recebeu e recebe. Sendo filha de quem é, só poderia ser o que está sendo. Você é muito inteligente! Tio Silas.

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  3. Parabéns Gabi, você é muito inteligente, continue assim, você o orgulho de sua família. Bjos do tio Silas

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