sábado, 30 de junho de 2012

A tartaruga visita a terra seca

Era uma vez uma tartaruga que morava num lago. Vivia junto com uma comunidade de peixes. Os peixes a achavam um pouco estranha, diferente, mas nunca se deram conta de que ela não era um peixe. Também nunca perceberam que ela não era plenamente aquática. Viviam bem juntos. Eram felizes.


Certo dia a tartaruga resolveu dar uma volta na terra seca. Os peixes até sentiram falta dela. Mas nenhum deles pensou que alguma coisa ruim tivesse acontecido. Na verdade, imaginaram que a tartaruga tinha resolvido fazer uma longa jornada para outros lagos. Talvez ela tivesse se cansado daquele lugar. Talvez tivesse resolvido sair para conhecer novas paragens, novas culturas e fazer novos amigos. Os peixes tinham certeza de que mais cedo ou mais tarde ela voltaria.

E, realmente, foi isso que aconteceu. Depois de alguns meses, a tartaruga voltou para casa. Estava um pouco queimada do sol. Mas nada tão visível.

Logo que chegou, foi convida para dar uma palestra sobre sua jornada. Todos os peixes estavam curiosos para saber como foi viajar para tão longe, nadar em outras águas, visitar outros lagos, conhecer outros peixes.

Chegou o dia da palestra. O auditório estava lotado. O mestre de cerimônia chamou a tartaruga para se sentar num lugar de honra, bem ao centro da mesa. Chamou também dois convidados ilustres para compor a mesa. Eles eram dois grandes cientistas. Um trabalhava no departamento de Biosfera e o outro no de Cultura Aquática da Universidade do Logo Central, a mais famosa da região. Eles seriam mediadores de uma conversa acadêmica a ser realizada logo depois que a tartaruga terminasse sua preleção.

A tartaruga enfim começou o seu discurso:

_ Cumprimento todos os meus amigos aqui presentes, em especial os nobres colegas com quem divido a mesa. Me sinto muito honrada por estar aqui e por ter a oportunidade de falar sobre minha jornada. É muito importante poder compartilhar com vocês as experiências que tive em terra seca. Precisamos mesmo criar uma possibilidade de diálogo entre o mundo das águas e mundo da terra seca. Eles se completam e se interpenetram. Tudo que acontece num afeta o outro.

De repente começou um burburinho no auditório. Os peixes começaram a perguntar uns aos outros:

_ Do que ela está falando? Nós ouvimos bem? Ela está falando de terra seca? É verdade?

A tartaruga percebeu que alguma coisa estava errada. Parou de falar. Ficou observando o movimento e falatório dos peixes. Nesse instante, um deles se levantou e disse:

_ Dona tartaruga, estamos interessados em ouvir suas experiências. Temos interesse em saber por quais lugares a senhora andou, como foi sua jornada, quais peixes a senhora conheceu e como são os costumes e língua deles. Mas não é isso que a senhora começou a nos falar. Não estamos interessados em ouvir fantasias sobre a terra seca.

A tartaruga retomou sua fala:

_ Meus amigos, o que estou falando não é fantasia. Eu estava na terra seca. E esse lugar não é longe daqui. É mais perto do que vocês imaginam. Não posso falar sobre os peixes que conheci lá simplesmente porque lá não há peixes. Mas estive com outros amigos, desenvolvendo um trabalho muito importante tanto para o mundo deles quanto para o nosso mundo.

O peixe que tinha assumido a condição de porta-voz do auditório falou novamente, agora já com certa irritação:

_ Dona tartaruga, não nos faça de bobos. Terra seca não existe. Todos aqui sabem disso desde criança. Aprendemos ainda muito cedo que toda terra que existe é molhada. E tem mais um coisa: você disse que esteve com alguns amigos. Olha, dona tartaruga, se não há terra seca também não há qualquer ser que habite lá. Ninguém pode morar num lugar que não existe.

A tartaruga voltou a afirmar e agora com mais convicção: 

_ É isso mesmo que vocês estão ouvindo. Eu estava em terra seca. Eu tenho amigos lá e eles não são peixes. E o mais importante: a terra seca é parte vital do nosso mundo.

A maior parte dos peixes que estavam no auditório, ao ouvir isso, deu de ombros e foi embora. Foram para a lida da vida. Não tinham interesse em histórias de terra seca. Eles achavam que a tartaruga estava fazendo piada com esse assunto. E, como eles sabiam que terra seca não existe, preferiram deixar a tartaruga e suas histórias para lá. Afinal, tinham coisas muito mais importantes a fazer.

Alguns peixes, apesar do descontentamento, continuaram no auditório. Entre eles estavam os dois membros da mesa. Eles ficaram bastante desapontadas com as primeiras palavras da tartaruga, mas, por uma questão de polidez, permaneceram no auditório. 

Um dos cientistas decidiu intervir na conversa. Disse:

_ Dona tartaruga, não brinque conosco. Isso aqui é coisa séria. Não estamos aqui para ouvir fantasias. Estamos interessados em saber como foi sua experiência transcultural. Não estamos interessados ouvir histórias imaginárias. Por isso, seria melhor se a senhora dissesse logo que tudo isso não passa de uma brincadeira, um quebra gelo. Temos certeza de que a senhora está fantasiando. Isso é apenas uma historinha, não é? Todos nós sabemos que terra seca não existe. Por conseguinte, também não há vida num lugar que não existe. Não há nenhum estudo que comprove isso. A existência de um lugar que não seja molhado seria um absurdo. É incompatível com a natureza da água. Também é incompatível com a existência da vida. E mais: nenhum de nossos cientistas já esteve lá para comprovar que esse tal lugar existe.

A tartaruga respondeu:

_ Meu caro amigo cientista, eu respeito muito o seu saber. Mas posso garantir que ele parcial. Aliás, o senhor sabe muito mais do que eu que qualquer saber é parcial. Nenhuma teoria, ou um conjunto de teorias, consegue abarcar todo o universo. Não quero de forma alguma contradizer as teorias e crenças que orientam sua prática profissional. Mas não posso deixar de falar sobre algo que é tão importante pra mim e que faz parte da minha experiência. Não posso ser silenciada por uma teoria. Reafirmo que existe, sim, um lugar fora das águas. E mais: acho importante informar aos senhores cientistas e a todos que ainda estão nesse auditório que boa parte dos suprimentos que ajudam a manter a vida aqui na água vem de lá. A maioria de vocês vive à custa do que é produzido lá. Se a terra seca não existisse, a vida aqui também não existiria para muitos de vocês. Se houver uma crise lá, que acabe com vida terrestre, a coisa por aqui também vai ficar muito complicada. Muitas vidas daqui também vão entrar em crise.

Depois de ouvir isso, os dois cientistas ficaram indignados com a ignorância e devaneios da tartaruga. Em tom de protesto, saíram da mesa e do auditório. A essa altura, não havia mais clima para diálogo. Os dois intelectuais estavam convictos de que a tartaruga estava delirando. Talvez fosse necessário um tratamento médico. Definitivamente, a viagem não havia feito bem à tartaruga. Talvez ela tivesse sofrido algum tipo de trauma severo, capaz de desalinhar por completo sua lucidez.

Os poucos que ainda estavam ouvindo a conferência resolveram acompanhar os dois membros da mesa. A tartaruga ficou sozinha no auditório. Começou a imaginar como a vida seria melhor se os mundos do mundo se entendessem e trabalhassem para o bem comum. Estava triste em ver que os que vivem na terra seca pouco se importam com os vivem na água. Alguns deles também não acreditam que exista um mundo de terra molhada. Já os que vivem na água, embora sofram as consequências das ações de quem vive em terra seca, preferem não acreditar que exista um mundo fora das águas. Enquanto cada um dos mundos do mundo se isola em sua própria redoma, a crise vai se alastrando e matando todos os mundos.

Depois de pensar sobre essas coisas, a tartaruga saiu vagarosamente do auditório. Resolveu voltar a terra seca novamente.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O poeta e suas interfaces































sexta-feira, 22 de junho de 2012

As histórias engendram nossa história


Passeio na Praça do Avião (por A. G. Lima*)

Eu e a Bruna** nos 2 vamos na praça do avião. ei vocês querem ir com a gente nos 2 podemos levar vocês mas no banco de trás tá bom. Então vamos! Os que nos estamos esperando, eu sugeriram. Então a bruna falou A. G. olha é a Clara** vamos falar oi para ela. Então nos duas falamos oi para a Clara e ai ela falou oi parando com a sua bicicleta nova.ai a bruna perguntou aonde você comprou essa bicicleta nova. Ai a Clara respondeu eu não sei por que foi o meu pai que comprou no meu aniversario.ai eu falei Clara você quer ir conosco ate a praça do avião você pode acompanhar a gente com a sua bicicleta. Então a Clara disse tá bom então o que nos estamos esperando!!!!! ai nos começamos a andar. depois de ums 15 minutos ai eu olhei para o lado esquerdo e vi só mato olhei para o lado direito ai que eu vi um bebedor ai eu falei amigas olhem aquele bebedor!!!.ai a Bruna falou então vamos la ja que não tem um bebedor aqui na nossa frente né!!!ai nos corremos pro auto do morro.ai a Clara disse esse morro é muito grande A. G. e Bruna. ai eu falei não se preocupe Clara porque a gente subira esse morro num estante.ai a Bruna falou olhem para cima já estamos chegando meninas. Quando nos chegamos nos estavamos exaustas e é claro que eu e a bruna e a Clara fizemos fila para beber agua.depois de beber agua nos três corremos para baixo em diresão au carro e a bicicleta nos eu e a bruna entramos no carro e a Clara subiu na sua bicicleta então nos comesamos a correr bem na hora que nos comesamos a correr uma grande chuva comesou a cair ainda bem que nos estvamos com mochilas ai nos 3 (três) pegamos nossos guarda chuvas ai nos usamos os nossos guarda chuvas depois de mais ums 15 (quinse) minutos a chuva parou e finalmente a gente chegou na praça do avião tchau amiginho.essa historia foi escrita por a a. g. lima.Muito obrgada amigas por mim ajudar tanto.
         _____________
        *A. G. Lima cursa o 1º ano.
        ** Os nomes foram alterados.

As histórias engendram nossa história


1 Percurso de escrita da história

A historinha acima foi produzida por A. G. Lima. Foi a primeira que ela escreveu. Não sei dizer quantos dias ela gastou para escrever o texto. Talvez uns cinco ou seis, não consecutivos. Eventualmente, ela ligava o computador e escrevia por uns 20 minutos. Depois disso, se distraia em algum joguinho ou simplesmente desligava o computador e ia brincar com outra coisa. No dia seguinte, ou dias depois, ela voltava a trabalhar  (brincar, na verdade) no texto.

2 Papel das histórias na construção da história

As histórias estão na base do que chamamos de cultura. É por elas que nos reconhecemos como humanos. Contamos histórias uns para os outros desde que passamos a nos perceber como pessoas, sujeitos autoconscientes. Silverstone, notavelmente, nos diz que histórias sempre foram contadas "para consolar, surpreender, entreter. E sempre houve contadores de história, sentados junto à lareira, viajando de cidade em cidade, falando, escrevendo, encenando. Nossas histórias, nossos mitos e lendas populares definiram, preservaram e renovaram culturas. Narrativas de perda e redenção, de heroísmo e fracasso. Histórias que tanto manifestam como secretamente oferecem modelos e lições, rotas para o passado e futuro, guia para os desorientados. Histórias que desafiam, provocam e solapam. Histórias com começo, meio e fim: estruturas familiares, temas reconhecíveis, agradáveis por sua variação; uma canção bem cantada, um conto bem contado, um suspense bem-feito. Nossas histórias são tanto púbicas como privadas. Aparecem no sagrado e no profano, alegando realidade, fantasiando, apelando à imaginação"[1].

Crianças são contadoras e ouvidoras de história por excelência. É por meio das histórias que os pequenos vão entendendo a ordem do mundo. Eles foram lançadas aqui sem qualquer aviso ou orientação. Por isso, precisam de tempo e recursos para entender como é e como opera a casa dos humanos.

Quando chegamos neste mundo, tudo já está funcionando, das coisas maiores (língua, Estado, instituições culturais em geral etc.) às coisas menores (família, casa, trabalho do pai/mãe etc.). Não sabemos as razões por que cada coisa é do jeito que é. Também não sabemos por que temos uma mãe e não outra, um pai e não outro. Não sabemos por que moramos num lugar e não noutro. Tudo à nossa volta já está posto. Tudo já existe e é desconhecido. 

Na verdade, em matéria de consciência, chegamos aqui sem saber quase nada (ou nada mesmo). Apenas corpo  vem com um saber pronto. E que saber! Ele vem equipado com uma memória riquíssima. Já a consciência vem praticamente (ou totalmente) em branco.

Então, as pessoas começam a nos contar histórias. Resultado: começamos a nos habituar com o jeito das coisas, começamos a entender também a ordem (coerção) das coisas. As histórias nos mostram como devemos viver num mundo que ainda não é nosso, sobre o qual ainda temos pouca força de modificação. “As histórias proporcionam [não apenas] prazer, mas também ordem”[2].

Depois de ouvir muitas histórias, começamos a adquirir controle sobre esse mundo. É verdade que certas coisas do mundo não são facilmente modificadas. Entre elas estão a língua e os hábitos alimentares, por exemplo. Mas, mesmo assim, tudo muda. E muda porque as pessoas adquirem controle sobre as coisas que existem no mundo.

Quanto mais ouvimos e nos familiarizamos com histórias na infância, maior capacidade adquirimos de escrever, fazer, viver e mudar história(s). Devemos estimular nossos filhos a ouvir, ler, contar e escrever histórias, porque isso servirá como um ensaio para a construção de suas próprias histórias e reconstrução da história dentro da qual vivem.

3 Papel dos conflitos na estruturação das histórias

As crianças, desde cedo, sabem que uma boa história tem que ter bons personagens, boa aventura e bom conflito.

Outro dia a A. G. Lima me pediu para contar uma história para ela. Já estava passando de hora dela ir dormir. Eu queria contar uma história bem curtinha; não me lembrei de nenhuma. Acabei inventando uma mais ou menos assim:
Duas formiguinhas, o Job e o Zico, saíram para passear. No caminho, encontraram com o Fred, que vinha da casa do Tamanduá. Fred contou a aventura que viveu ao ir, sem que a mãe dele soubesse, à casa do Tamanduá. Ele tentou convencer o Job e o Zico a irem lá também. Acontece que a mãe do Zico já tinha lhe avisado a não se aproximar da casa do Tamanduá. Lá era um lugar muito perigoso. Como Zico era muito obediente, não cedeu ao convite de Fred. Depois de conversarem um pouco sobre outras coisas, Job e Zico voltaram para casa. Fim.
 Ao final da história, a A. G. Lima me falou:

_ Papai, essa história é sem graça; ela não tem problema. História tem que ter problema. O Job e Zico deveriam ter ido à casa do Tamanduá. Seria uma ótima aventura.

Eu disse a ela que outro dia contaria a história com o problema. De fato, dias depois, contei a história com o tal problema. Job, Zico e Fred se arriscaram; foram à casa do Tamanduá e passaram por maus bocados.

As crianças sabem que conflitos são um elemento fundamental das histórias. São eles que dão tessitura a uma boa narrativa. Na verdade, o conflito é um elemento essencial à vida. Ninguém suportaria viver uma vida sem intempéries. Seria absurdamente monótona e sem graça.

4 As histórias antecipam e sublimam nossa história

As crianças gostam de contar e ouvir histórias porque podem ver aí os perigos da vida sem senti-los na própria pele. Também podem ver que o mal não triunfa para sempre.

As histórias mostram o risco de viver, mas também mostram a força da esperança e o triunfo da alegria. As histórias mostram que, em determinados momentos, tudo pode estar muito sombrio, mas as coisas não ficam assim para sempre.

É preciso nutrir a esperança porque a qualquer momento o bem pode triunfar. É verdade que o bem não chega reparando todas as dores e perdas. Ficam as cicatrizes e traumas. Mas o infortúnio e a maldade não duram para sempre. A esperança não permite o triunfo eterno do mal. Quem tem esperança milita, trabalha, enfrenta a dor; faz o mal perder espaço.

Essas são algumas lições que venho tirando da atividade de contar histórias para a A. G. Lima e, agora, de ler e editar as histórias que ela conta.

5 História revisada

Resolvi fazer a revisão da historinha para facilitar a leitura. Segue o texto revisado: 

Passeio na Praça do Avião (por A. G. Lima)
Eu e a Bruna, nós duas, vamos na praça do avião.
_ Ei, vocês querem ir com a gente? Nós duas podemos levar vocês, mas no banco de trás, tá bom?
_ Então vamos! Os que nós estamos esperando?, eu sugeri.
Então a Bruna falou:
_ A. G., olha, é a Clara. Vamos falar oi para ela.
Então nós duas falamos oi para a Clara. Aí ela falou oi, parando com a sua bicicleta nova. Aí a Bruna perguntou:
_ Onde você comprou essa bicicleta nova?
Aí a Clara respondeu:
_ Eu não sei, porque foi o meu pai que comprou no meu aniversario.
 Aí eu falei:
_ Clara, você quer ir conosco até a praça do avião? Você pode acompanhar a gente com a sua bicicleta.
Então a Clara disse:
_ Tá bom! Então o que nos estamos esperando!!!!!
Aí nós começamos a andar. Depois de uns 15 minutos, eu olhei para o lado esquerdo e vi só mato. Olhei para o lado direito e vi um bebedor. Aí eu falei:
_ Amigas olhem aquele bebedor!!!
Aí a Bruna falou:
_ Então vamos lá, já que não tem um bebedor aqui na nossa frente né!!!
Aí nós corremos para o outro lado do morro. Aí a Clara disse:
_ Esse morro é muito grande, A. G. e Bruna.
Aí eu falei:
_ Não se preocupe, Clara, porque a gente subirá esse morro num instante.
Aí a Bruna falou:
_ Olhem para cima, já estamos chegando meninas.
Quando nós chegamos, nós estávamos exaustas. É claro que eu e a Bruna e a Clara fizemos fila para beber água. Depois de beber água, nós três corremos para baixo em direção ao carro e a bicicleta. Nós, eu e a Bruna, entramos no carro e a Clara subiu na sua bicicleta. Então nós começamos a correr. Bem na hora que nós começamos a correr, uma grande chuva começou a cair. Ainda bem que nós estávamos com mochilas. Aí nós 3 (três) pegamos nossos  guarda-chuvas. Aí nós usamos os nossos guarda-chuvas. Depois de mais uns 15 (quinze) minutos, a chuva parou e finalmente a gente chegou na Praça do Avião.
Tchau, amiguinho. Essa história foi escrita por A. G. Lima.
Muito obrigada, amigas, por me ajudarem tanto.
@Limasostenes
_____________________
[1] Silverstone, R. Por que estudar a mídia? 2. ed. São Paulo: Loyola, 2005. p. 79.
[2] Silverstone, R. Por que estudar a mídia? 2. ed. São Paulo: Loyola, 2005. p. 81.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Jesus desconstrói a imagem de um Deus de poder

“Se pensarmos em Jesus como alguém que foi realmente crucificado e se sentiu realmente abandonado, então a imagem de Deus que encontramos em Jesus na cruz não é de poder, mas de impotência ou mais ainda: de um poder da impotência”.

[John D. Caputo. What would Jesus deconstruct. Grand Rapids: Baker Academic, 2007]

Jesus deconstructs the image of a powerful God

"If we […] think of a Jesus who really is crucified and who really feels abandoned, then the icon of God we find in Jesus on the cross is not an icon of power but of powerlessness, or at most of a power of powerlessness".

[John D. Caputo. What would Jesus deconstruct. Grand Rapids: Baker Academic, 2007]

terça-feira, 19 de junho de 2012

Teopoética em tuítes

















































quinta-feira, 14 de junho de 2012

A vida não é um mar de rosas


“A vida não é um mar de rosas”. Essa é uma frase muito surrada. De tanto uso, perdeu a profundidade de sentido. Acho até que não significa mais nada. Mas já significou um dia.

Coisa bonita seria viver num mar de rosas. Tenho vontade de olhar para o horizonte e ver à minha frente um tapete de flores coloridas fazendo movimentos ondulados ao sabor de uma brisa suave. Tenho vontade de andar sobre esse tapete, fazer morada aí. Também tenho vontade que ele seja um mar por onde eu possa navegar ou um tapete encantado, por meio do qual eu possa viajar pelos cinco continentes. Mas esse tapete de flores e esse mar de rosas são apenas sonho, esperança. Existem apenas no desejo.

Na nossa vida de cada dia a coisa é mais complicada. A vida não é exatamente um mar e as flores não são tão vistosas, nem coloridas. Elas se apoiam em hastes cheias de espinhos. Como se sabe, movimentar entre rosas é muito arriscado. É difícil circular por aí sem ser ferido. 

E o que dizer do mar? Ele muito grande, imponente e bravo. Duvido que a vida seja tudo isso. O mais certo seria dizer que a vida é um jardim. A grandeza e imensidão do mar não fazem justiça ao que a vida de fato é: limitada e esgotável. Bem que gostaríamos de viver num mundo sem fronteiras, gigantesco, tal como o mar. Mas a vida tem seus limites, e eles normalmente demarcam um espaço pequeno, apertado, às vezes, até hostil. Cecília Meireles nos adverte:

No meio do mundo faz frio,
faz frio no meio do mundo,
muito frio.[1]

Jardins têm cerca, são pequenos, delicados e frágeis; necessitam de cultivo constante para se manterem vivos diante de tantas ameaças. Assim é a vida: um jardim de rosas (não tão exuberantes), que se apoiam em caules espinhentos, prontos a ferir quem se dedica a cultivar as flores que daí se podem colher. A vida é um jardim frágil, delicado, complexo, inconstante, sazonal. Talvez por isso seja extraordinariamente sedutora.

Sempre soubemos que a vida não está para brincadeiras. Mas ultimamente, começamos a nos esquecer disso. O que tem acontecido é que, de tanto a publicidade nos dizer que é possível viver num mar de rosas, bastando um mergulho no consumo, começamos a nos esquecer de como nossa casa, o jardim, realmente é. O mar de rosas anunciado pela publicidade oferece juventude eterna, beleza irresistível, segurança e poder.

Anúncios, comerciais, cartazes etc. dizem: compre muito cosmético e tratamento antienvelhecimento e você jamais se frustrará com o espelho. Compre muitas roupas, calçados e joias também. Fazendo isso, o espelho sempre lhe dirá: “você é a pessoa mais bela do mundo”. O que espelho não fala, de jeito nenhum, é que outros espelhos dizem a mesma coisa para as outras pessoas.

Se você precisa de segurança e poder, compre tecnologia, compre carros, compre fortalezas disfarçadas de casas, compre  serviços de vigilância, compre prestígio. A conta é alta, mas o resultado é garantido (será?).

A maioria de nós acredita que o consumo garante uma vida com as rosas, sem os espinhos, sem o cultivo do jardim. Somos enredados. Adoramos acreditar em conto de vigário. Mas convenhamos! Como não acreditar? A propaganda de uma vida paradisíaca, sem contratempos, é muito persuasiva; conta com recursos muito poderosos. As mídias se tornaram onipresente em nossas vidas; nos dizem o tempo todo o que comprar, onde comprar  e os resultados que cada compra garante. Além disso, a ciência e a tecnologia estão cada vez mais voltadas para o bem-estar do indivíduo. É quase impossível não ser enredado. Com tantos recursos, parece não haver dúvidas de que a velhice, a feiura, o perigo e a insignificância podem ser vencidos.

Nossa geração não admite uma vida com problemas. Buscamos a qualquer custo eliminar, via consumo, qualquer tipo incômodo, seja físico ou psicológico. Não toleramos mais o desconforto do corpo e da alma. Há uma parafernália de tecnologias materiais que garantem o bem-estar do corpo. Há também um arsenal de tecnologias simbólicas e discursivas[2], dispersas em várias indústrias (terapêutica, religiosa, editorial de autoajuda, cultural etc.), que afiançam o conforto psicológico. Merece destaque à parte, as proezas ofertadas pela indústria farmacológica. Hoje se compra, via biomedicalização, quase tudo para o corpo e para a alma. Até a felicidade (?) pode ser comprada em cápsulas.

Quem não adere prontamente ao discurso de uma vida de constante sucesso é tachado de pessimista, reacionário. Quem não quer ser feliz o tempo todo? Quem não quer viver sem dor? Quem não quer ser jovem pra sempre? Só mesmo alguém muito deslocado do seu tempo poderia, estando a felicidade à venda, deixar de comprá-la. Só mesmo um reacionário aceitaria envelhecer, num mundo em que se pode comprar rejuvenescimento. Realmente são poucos os que ainda veem algum sentido na contradição, limitação, fraqueza da vida.

Não é preciso muito esforço para mostrar que a vida é bem diferente do que gostaríamos que fosse. Apesar de hoje podermos comprar muita coisa, a vida em si não é comprável. A felicidade também não é comprável.

Podemos até retardar o envelhecimento, mas ainda não há meios capazes de eliminar a dor, o vazio da alma, a dor da saudade etc. Também não há remédio para matar a morte.

Que fazer então? Há duas possibilidades. O primeiro caminho é entrar de cabeça (e bolso) no mundo da propaganda e acreditar, apesar das evidências contrárias, que é possível viver sem dor, sem feiura, sem velhice, sem perigo etc. Basta consumir de forma tresloucada e viciada; basta se deixar embriagar pelo ópio que nega todas as fragilidades da vida. Henri Nouwen nos diz que “a voz do mal também tenta-nos a simular uma fachada invencível. Palavras como vulnerabilidade, renúncia, rendição, choro, lamento e dor não serão encontradas no dicionário do diabo”[3]. Para viver sem crises, o primeiro passo é higienizar o dicionário da vida, fazer um limpa em todas as palavras que remetem à sua dureza e perigo. O problema nessa escolha é que, ao encarar a própria vida, talvez a pessoa tenha de admitir:

vivo uma vida
Que não quero nem amo,
Minha porque sou ela [...]
[Ricardo Reis] [4]

Faço uma última advertência aos que decidirem tomar o caminho de negação da vida. Pode ser que no crepúsculo da existência, você ouça a voz de um dos seus eus fazendo a seguinte acusação:

Não morres satisfeito.
A vida te viveu
sem que vivesses nela.
E não te convenceu
nem deu qualquer motivo
para haver o ser vivo.
[Carlos Drummond de Andrade][5]

Outro caminho é aceitar que a vida é intrinsecamente complexa. Constitui-se de elementos contraditórios e complementares. A vida é a um só tempo bela e feia, alegre e triste, serena e terrível, domesticada e selvagem, saudável e doentia. A vida vive diante da morte e a morte morre diante da vida. Fernando Pessoa, no Livro do desassossego, sintetiza: “o próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela”[6]. Vida e morte estão inseparavelmente casadas na vida.

O projeto de ser feliz sempre, de viver imerso num prazer contínuo, não é realizável. É preciso suspeitar de qualquer programa que ofereça felicidade completa e perene. Bem-estar pleno, prazer intenso e ausência total de dor e desconforto só podem ser experimentados esporadicamente, em pequenos recortes de tempo. Freud nos ensinou isso muito antes que o consumismo e publicidade se tornassem tão poderosos e apelativos. Já em 1930, quando publicou o Mal-estar na civilização, ele dizia: “O programa de tornar-se feliz, que o princípio do prazer nos impõe, não pode ser realizado plenamente”[7].

Henri Nouwen nos ensina que quando aceitamos a vida como ela é, o “sofrimento deixa de ser um aborrecimento ou maldição de que temos que fugir sem poupar esforços, para tornar-se um caminho para uma realização mais profunda”. Devemos aprender “a olhar nossas perdas de frente, e não fugir delas. Ao aceitar sem repulsa as dores da vida, poderemos encontrar o inesperado”[8], ensaiar uma dança com a dor e um lamento com a alegria. Viver a inteireza da vida, com sabores e dissabores, não é apenas um caminho para uma vida equilibrada; é, sobretudo, o caminho para a experiência de uma vida grande, que valha a pena. Para mim, as palavras de Ricardo Reis são sábias e acertadíssimas:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.[9]




[1] Cecília Meireles. Mar absoluto e outros poemas. In: Antônio Carlos Secchin (Org.). Cecília Meireles - Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. v. 1. p. 455.
[2] Tomo o termo tecnologia discursiva conforme a proposta de Fairclough (2001), para quem aS tecnologias discursivas e a tecnologização do discurso são características de ordens de discurso modernas. "Exemplos de tecnologias de discurso são entrevista, ensino, aconselhamento e publicidade. Ao denominá-las tecnologias do discurso, quero sugerir que na sociedade moderna elas têm assumido e estão assumindo o caráter de técnicas transcontextuais que são consideradas como recursos ou conjunto de instrumentos que podem ser usados para perseguir uma variedade ampla de estratégias em muitos e diversos contextos. As tecnologias discursivas são cada vez mais adotadas em locais institucionais específicos por agentes sociais designados. Elas têm seus próprios tecnólogos especialistas: pesquisadores que cuidam de sua eficiência, especialistas que trabalham em seu aperfeiçoamento à luz da pesquisa e da mudança nas exigências institucionais e treinadores que transmitem as técnicas" [Norman Fairclough. Discurso e mudança social. Brasília: Editora UnB, 2001. p. 264].
[3] Henri Nouwen. Transforma meu pranto em dança. Rio de Janeiro: Textus, 2002. p. 7.
[4] Fernando Pessoa. Odes de Ricardo Reis: obra poética III. Porto Alegre: L&PM, 2001. p.152.
[5] Carlos Drummond de Andrade. A falta que me ama. Rio de Janeiro: Sabiá, 1968. p. 179.
[6] Fernando Pessoa. Livro do desassossego. In: Richard Zenith (Org.). Fernando Pessoa - Livro do desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Rio de Janeiro: Companhia da Letras, 1997. p. 170. §178.
[7] Sigmund Freud. O mal-estar na civilização. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 21. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976[1930]. p. 102.
[8] Henri Nouwen. Transforma meu pranto em dança. Rio de Janeiro: Textus, 2002. p. xv.
[9] Fernando Pessoa. Odes de Ricardo Reis: obra poética III. Porto Alegre: L&PM, 2001. p.148-149.

Por que escrever? [por C. Drummond de Andrade]


Santidade de escrever,
insanidade de escrever
equivalem-se. O sábio
equilibra-se no caos.

[Carlos Drummond de Andrade]

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Aforismos da felicidade


















sábado, 9 de junho de 2012

Poética do amor em tuítes










































sexta-feira, 8 de junho de 2012

Tex(a)tu-alize-se


Para o poeta
só há um caminho para a vida:
 viver em têxtase
enquanto textualiza, atualiza, alisa
suas asper(as)-idades.

Tex(a)tu-alizar-se
é revestir a trama da vida
com fios de palavras,
que se sobrepõem
aos fios de experiência
já sedimentados.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Sobre deuses e rezas [por Rubem Alves*]


Perdida no meio dos viajantes que enchiam o aeroporto, ela era uma figura destoante. A roupa largada, os passos pesados, uma sacola de plástico pendurada numa das mãos – esses sinais diziam que ela já não mais ligava para a sua condição de mulher: não se importava em ser bonita. Pensei mesmo que se tratava de uma freira. Seu comportamento era curioso: dirigia-se às pessoas, falava por alguns momentos, e como não lhe prestassem atenção procurava outras com quem falar. Quando vi que ela tinha uma Bíblia na mão compreendi tudo: ela se imaginava possuidora de conhecimentos sobre Deus que os outros não possuíam e tratava de salvar a alma deles.

Meu caminho me obrigou a passar perto dela – e quando olhei para o seu rosto de perto levei um susto: eu a reconheci de outros tempos, quando ela era uma moça bonita que ria e brincava e para quem olhávamos com olhares de cobiça.

Não resisti e chamei alto o seu nome. Ela se espantou, olhou-me com um olhar interrogativo, não me reconheceu. Com razão. Os muitos anos deixam suas marcas no rosto.

– Eu sou o Rubem!

Seu rosto se iluminou pela lembrança, sorriu, e pensei que poderíamos nos assentar e conversar sobre as nossas vidas. Mas sua preocupação com a minha alma não permitia essas perdas de tempo com conversa fiada. E ela tratou de verificar se o meu passaporte para a eternidade estava em ordem:

– Você continua firme na fé!?

– Mas de jeito nenhum. Então você deixou de ler a Bíblia? Pois lá está dito que Deus é espírito, vento impetuoso que sopra em todo lugar, o mesmo vento que ele soprou dentro da gente para que respirássemos, fôssemos leves e pudéssemos voar. Quem está no vento não pode estar firme. Firmes são as pedras, as tartarugas, as âncoras. Você já viu um papagaio firme? Papagaio firme é papagaio no chão, não voa. Pois eu estou mais é como urubu, lá nas alturas, flutuando ao sabor do imprevisível Vento Sagrado, sem firmeza alguma, rodando em largos círculos.

Ela ficou perdida, acho que nunca havia ouvido resposta tão estranha, mudou de tática e tentou pegar a minha alma do outro lado, desatou a falar de Deus, informou-me que ele é maravilhoso etc., etc., etc., como se estivesse no púlpito em celebração de domingo.

Refuguei e disse:

– Acho que quem não está firme em Deus é você. Olha, passei a noite toda respirando, estou respirando desde que acordei, e juro que agora é a primeira vez que penso no ar. Não pensei nem falei no ar porque somos bons amigos. Ele entra e sai do meu corpo quando quer, sem pedir licença. Mas a história seria outra se eu estivesse com asma, os brônquios apertados, o ar sem jeito de entrar, ou, como naquele anúncio antigo do xarope Bromil, o coitado do homem sufocado por uma mordaça, gritando pelo ar que lhe faltava. Por via das dúvidas até andaria com uma garrafa de oxigênio na bagagem, para qualquer emergência.

E continuei:

– Pois Deus é como o ar. Quando a gente está em boas relações com ele não é preciso falar. Mas quando a gente está atacado de asma, então é preciso ficar gritando pelo nome dele. Do jeito como o asmático invoca o ar. Quem fala com Deus o tempo todo é asmático espiritual. E é por isso que andam sempre com Deus engarrafado na Bíblia e outros livros e coisas de função parecida. Só que o vento não pode ser engarrafado...

Aí ela viu que minha alma estava perdida mesmo e, como consolo, fez um sinal de adeus e disse que iria orar muito por mim. Aí eu protestei, implorei que não o fizesse. Disse-lhe que eu tinha medo de que Deus ficasse ofendido. Pois há rezas e orações que são ofensas. É óbvio: se vou lá, bater às portas de Deus, pedindo que ele tenha dó de alguém, eu lhe estou imputando duas imperfeições que, se fosse comigo, me deixariam muito bravo.

Primeiro, estou dizendo que não acredito no amor dele, deve ser meio fraquinho, sem iniciativa, preguiçoso, à espera do meu cutucão. Se eu não der a minha cutucada, Deus não se mexe. E isso não é coisa de ofender Deus? Segundo, estou sugerindo que Ele deve andar meio esquecido, desmemoriado, necessitado de um secretário que lhe lembre suas obrigações. E trato de, diariamente, apresentar-lhe a sua agenda de trabalho. Mas está lá nos salmos e nos evangelhos que Deus sabe tudo antes que a gente fale qualquer coisa. Ora, se a gente fica no falatório é porque não acredita nisso. Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio.

Voltei à minha amiga:

– Veja você. Tive um filho que estudava longe. Eu gostava dele. Ele gostava de mim. De vez em quando a gente se falava ao telefone. E o dinheiro da mesada ia sempre, com telefonema ou sem telefonema. Agora imagine: de repente começo a perceber telefonemas dele três vezes por dia e mensagens por sedex, cartas e telegramas louvando o meu amor, agradecendo a minha generosidade... Você acha que isso me faria feliz? De jeito nenhum. Concluiria que o meu pobre filho havia endoidecido e estava acometido de um terrível medo de que eu o abandonasse. Pois é assim mesmo com Deus: quem fica o dia inteiro atrás dele, com falatório, é porque desconfia dele. Mas o pior é o gosto estético que assim se imputa a Deus. Uma pessoa que gosta de passar o dia inteiro ouvindo os outros repetindo as mesmas coisas, as mesmas palavras, as mesmas rezas, pela eternidade afora, não deve ser muito boa da cabeça. Para mim isso é o inferno. Quem reza demais acha que Deus não funciona bem da cabeça. Acho que ele ficaria mais feliz se, em vez do meu falatório, eu lhe oferecesse uma sonata de Mozart ou um poema da Adélia...

Mas aí o alto-falante chamou o meu voo, tive de me despedir, e imagino que ela ficou aflita, temerosa de que Deus derrubasse meu avião com um raio. Mal sabia ela que Deus nem mesmo havia ouvido a nossa conversa pois, cansado das doidices dos adultos, ele foge sempre que vê dois deles conversando e se esconde deles, disfarçado de criança.

28/2/94


* Texto extraído de: Rubem Alves. Teologia do cotidiano. São Paulo: Olhos D'água, 1994. p. 54-57.

terça-feira, 5 de junho de 2012

A ressurreição do sol


O sol se despede e, lentamente,
Começa a se apagar no horizonte.
Primeiro se esconde atrás das montanhas.
Depois, não tendo mais como se manter escondido,
Resolve ir embora de vez.
Deixa rastros avermelhados no céu,
Anunciando que acabou de partir.
Logo os rastros também de apagam.
O sol resignado se vai, sabendo-se momentaneamente derrotado.

A noite esmaga o sol.
Já não há mais quem o veja.
O grande fogo não resiste, 
Fica frio, perde a vermelhidão, se apaga,  fica preto.
Permanece apenas a memória do sol.

Mas a morte não dura pra sempre.
Há ressurreição.

O sol conhece os movimentos da gangorra.
No crepúsculo ele desce, perde.
Na alvorada ele sobe, ganha.
Sol e escuridão vivem a duelar numa gangorra sem fim.

Também o sol conhece a memória.
Ele sabe que a noite jamais pode matá-lo.
O sol sabe que, mesmo quando tem que ir, não vai por completo.
Ele entra sorrateiramente na memória das pessoas e permanece por lá,
ora nos recantos, ora nos quartos, ora nas salas da lembrança.
À noite, o sol pode voltar fulgurante,
Quando uma lembrança lhe reclama a presença.

O sol também conhece os sonhos.
Ele sabe que os sonhos da noite são penetráveis.
Lá ele pode refulgir, lá não há escuridão que lhe passe rasteira.

O sol adormece ao anoitecer
E acorda revigorado quando a aurora rompe por trás dos morros.
O sol encurta a noite, a treva, a dor.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Deus é poeta, não repórter ou historiador


As religiões são como grandes poemas, grandes sonhos humanos, os mais ousados sonhos humanos, aqueles que nos fazem saltar os limites da necessidade; são criações imensas do espírito humano que os grandes mestres sonharam e ensinaram os homens a sonhar durante milhares de anos.
Nesses sonhos, como nos poemas, os grandes homens não queriam fugir da realidade, mas penetrá-la profundamente.
[Mariano Corbí*]


Quando cito um trecho do mito de Prometeu, não preciso dizer a ninguém que não estou tomando a narrativa como história, mas como mito. Mas se eu resolver citar um trecho da história da Torre de Babel, devo começar dizendo que se trata de um mito, para não ser tachado de estúpido. Por que preciso dizer que Torre de Babel é um mito? Isso deveria ser um pressuposto básico.

Quando digo que Prometeu é o inventor da tecnologia ninguém acha que estou tratando Prometeu como um sujeito histórico. Mas se falo de , a maioria das pessoas acha que estou me referindo a um sujeito histórico. Caso eu queira ser compreendido de outra forma, devo dizer expressamente que  é  personagem de uma narrativa/debate de sabedoria trágico-épico, não um sujeito histórico como Moisés.

Gostaria que certos pressupostos básicos aplicados às narrativas míticas e fantásticas (não bíblicas) também fossem aplicados a certas narrativas bíblicas. Por exemplo, quando conto a história de Branca de Neve, ninguém me pergunta se eu acredito ou não em Branca de Neve. As pessoas simplesmente ouvem e fruem a história, tirando dela lições éticas e, até, valores transcendentes. Por que, quando conto a história da Serpente no Éden, as pessoas não aplicam o mesmo pressuposto? Por que preciso responder se acredito ou não em serpentes falantes?

A bíblia é para mim, sobretudo, um livro de poesia. Rubem Alves** me ensinou que Deus é um poeta, não um repórter ou historiador. Em Teologia do cotidiano, ele diz: “Eu leio os textos sagrados como quem lê poesia e não como quem lê jornal. Prefiro pensar que Deus é poeta a imaginá-lo como dono de um jornal. Existirá ofensa maior para um poeta que perguntar se o seu poema é reportagem?”.

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* Corbí, Mariano. Religión sin religión. Madrid: PPC, 1996. p. 131.
** Alves, Rubem. Teologia do cotidiano. São Paulo: Olho D’água, 1994. p. 63.