domingo, 13 de maio de 2012

Por uma nova educação, por um novo professor de português


O ensino de língua portuguesa na Educação Básica (EB) não vai bem. Prova disso são os resultados alcançados pelos alunos em exames nacionais (Prova Brasil, ENEM) e internacionais (PISA). Há diversas causas para isso, desde as mais sistêmicas às mais pessoais: falta de investimento, infraestrutura escolar precária, professor mal capacitado, professor mal remunerado, bases teóricas e procedimentos didáticos inadequados, condições socioeconômicas do alunado etc. É impossível apontar com segurança quais são, de fato, as causas principais do problema. Contudo, penso ser necessário buscar uma reflexão contínua sobre os aspectos aí envolvidos, senão de todos, pelo menos de alguns. Neste artigo, quero discutir a parcela de responsabilidade do professor da disciplina. É óbvio que, sozinho, ele não pode fazer o ensino português dar certo. Mas se fizer a sua parte, o cenário melhora consideravelmente.

Sabemos que alguns professores de português desempenham sua função de modo insuficiente, e usam como justificativa a baixa remuneração. Não podemos aceitar o discurso de um professor que diz não fazer um bom trabalho porque ganha pouco. Alguns professores confessam que deixam de fazer o melhor que podem porque se sentem lesados pelo Estado. Como retaliação, levam o trabalho de barriga. É claro que o Estado sai prejudicado com essa atitude do professor, mas as maiores vítimas são o aluno e a sociedade como um todo. Salário baixo explica, mas não justifica trabalho mal feito. É preciso que a sociedade fiscalize a ação do professor e exija dele compromisso ético com sua profissão.

Contudo, é importante assinalar, como dito acima, que o descaso profissional não é a única e nem a principal razão por que o ensino de português vai mal. Há muitas outras razões.

Passo a discutir agora o problema da capacitação técnica do professor. Por exemplo, há casos em que o professor de português não ministra uma boa aula simplesmente porque não tem condições técnicas para isso. Essa é uma questão bem mais complexa. Não se trata de irresponsabilidade, mas de limitação profissional.

É verdade que há casos em que o professor tem condições favoráveis para se capacitar e se recusa a fazê-lo. Contudo, nem todos os casos se encaixam nesse quadro. Há professores que simplesmente não têm condições, sob diversos aspectos, de adquirir todo o aparato teórico-conceitual e prático-procedimental que cerca o ensino de língua portuguesa.

Acredito que alguns professores de português não dão boas aulas simplesmente porque não conseguem. Não é má fé; é falta de recurso teórico-prático mesmo. Há casos em que o professor não prepara os alunos para a prática da leitura e produção de texto porque ele mesmo, o próprio professor, não tem um bom nível de letramento; ele mesmo tem sérias dificuldades com a prática da leitura e escrita.

É comum vermos professores de português que, por não terem alcançado um nível de formação suficiente, ensinam de tudo em sala de aula, menos o que realmente importa: ler e escrever. E fazem isso porque lhes falta o domínio de todo o aparato teórico e prático que cerca a atividade de ensinar a ler e escrever.

Nas últimas décadas, as abordagens teórico-metodológicas de ensino de português mudaram consideravelmente. Essa parece ser uma das razões por que há um grande número de professores de português com defasagem teórico-metodológica. Boa parte desse grupo se graduou antes de 1990 ou estudou em IES (Instituição de Ensino Superior) menores, não tendo acesso a uma boa formação conceitual e técnica. Isso significa que, se esses profissionais não continuaram estudando, estão ensinando língua portuguesa a partir de uma base teórico-metodológica já superada.

Some-se a isso o fato de que nossa rede pública de ensino tem um número enorme de professores formados em programas emergenciais. Alguns desses professores, embora tenham passado por um curso de formação, continuaram atuando do mesmo modo que antes. Entraram no curso de formação “já dominando” a teoria e o fazer didático, “já sabendo” ensinar Língua Portuguesa, por fazer isso há algum tempo. Grande parte não foi à IES à procura de formação; simplesmente aceitou se matricular num curso de licenciatura parcelada porque precisava de um documento que lhe permitisse continuar fazendo o que  “já sabia fazer”. É claro que nem todos se encaixam nessa descrição. Alguns realmente mudaram suas concepções teóricas e suas práticas didáticas.

Diante desse quadro, o que podemos fazer? Nos casos em que os professores se recusam a desempenhar sua atividade com qualidade, mesmo tendo condições técnicas para isso, devemos, como país e sociedade, pressioná-los a oferecer um serviço de melhor qualidade. Como cidadãos, devemos fazer pressão política e exigir que nosso direito a um ensino público e de qualidade seja respeitado.

Se o caso for de um professor sem capacitação técnica, devemos pressioná-lo a se capacitar. Devemos, uma vez constado seu interesse em se capacitar, nos juntar a ele e exigir que a escola e o Estado ofereçam condições para que continue seu processo de formação, em cursos de Especialização e Pós-Graduação Stricto Sensu. Essa luta não é apenas do professor. A sociedade deve urgentemente assumir essa causa.


Já sabemos pelo senso comum que toda mudança educacional começa com o professor. Ele dever querer ser competente; deve querer uma escola melhor. Devemos exigir isso dele. Mas nossa cobrança não deve se dirigir apenas a ele. Devemos cobrar do Estado uma reestruturação profunda na carreira docente e no nosso sistema educacional como um todo. Somente quando a sociedade assumir como sua a reivindicação por uma escola pública, gratuita e de qualidade, teremos chance de mudar os resultados de avaliações como a Prova Brasil, ENEM e PISA.  A escola só se tornará a instituição social que queremos – um espaço para a formação humana integral, de onde todos os alunos saiam, ao final da Educação Básica, sabendo ler e escrever competentemente – quando a sociedade se convencer de que essa não é uma causa dos agentes da educação, mas sua.

4 comentários:

  1. Leonardo Rodriguesdomingo, maio 13, 2012

    De fato, a incapacidade técnica é algo que compromete o verdadeiro ensino de língua portuguesa. Antes de nos perguntarmos por que o aluno não aprende a língua, deveríamos, enquanto professores, nos questionar sobre o porquê de não difundirmos o gosto pela leitura e pela produção de textos. Infelizmente, vivemos numa sociedade onde há pessoas (alunos e professores) que ainda acreditam numa educação linguística alicerçada tão somente nas nomenclaturas e regras gramaticais. É preciso, pois, formação de qualidade. É preciso desenvolver o gosto pela arte de ler e de interpretar. Por isso, amigo, concordo contigo em todas as reflexões apresentadas.

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  2. Tens razão, caro professor e colega de trabalho. É preciso que o professor de Língua portuguesa tome consciência da necessidade de se engajar em projetos de pesquisa, transformando a si mesmo para começar a intervir em seu meio com mais eficácia e competência.

    Prof. Dr. Divino José Pinto

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  3. Ainda bem que no primeiro parágrafo do seu texto vc explica bem que são várias as causas e que será abordado apenas a parcela de culpa do professor, porque caso não, seria mais um fardo a ser carregado por essa figura "excêntrica" chamada "professor".
    Isso porque tenho ouvido constantemente da sociedade que a culpa do caos nas escolas é o tal do professor que não presta.
    Concordo na integra com suas pontuações a respeito da desqualificação de muitos professores ou falta de continuidade em seus estudos, isso é um fato. A acomodação parece ser a melhor via. Mas como professora da rede pública de ensino, tenho me questionado sobre a limitação da minha atuação que está intrinsecamente ligada a outros fatores como: salas superlotadas e indisciplina. O professor fica isolado na sala de aula, sem respaldo, sem quem o ajude com os problemas detectados, sem ter como alcançar alunos que têm alguma necessidade especial, sem alguém que se importe de fato com o trabalho que ele está ali para realizar. É o professor e o professor, um monólogo que grita por socorro.
    Bom, acabei chegando aos outros fatores, mas é que é tudo tão interligado que fica mesmo difícil a dissociação.
    No entanto, se o professor assegurar sua capacidade para exercer sua função, já é alguma coisa...
    Hummm... confesso que não senti segurança ao escrever "já é alguma coisa..." isso porque o professor sozinho é só o professor sozinho.

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  4. nao gostei do artigo pois nao sao todos os professores que tem essa falta de responsabilidade, e o unico fator nao é o mal salario tambem é grande falta de desinterece dos alunos , eu sou uma aluna , do segundo ano do ensino medio eu me intereço muito por portugues tenho 16 anos a minha prof é maravilhosa alem d prof é minha amiga ela considera meus textos perfeitos eu ja li mais de 50 livros sou considerada a melhor da sala tiro a nota mais alta , 9 eu nunka tiro 10 por que ? eu queria ajuda pois estudo, vontade e determinaçao nao me falta.
    by : Tainá

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