sábado, 19 de maio de 2012

Fantasia: a face serena de um mundo desalmado


Temos vontade de viver num mundo onde todos os nossos desejos podem se tornar reais. Como esse mundo não existe, descobrimos desde cedo uma forma de fazê-lo existir. É só fantasiar.

Desde cedo, aprendemos que o nosso desejo de realizar coisas impossíveis deve ser investido e aprofundado, não silenciado. A fantasia nos permite ser grandes e fazer coisas extraordinárias. Quando crianças, brincamos de ser gente grande porque achamos que os adultos têm poderes ilimitados, podem fazer coisas formidáveis. Depois que nos tornamos adultos, descobrimos que a coisa não é tão fácil assim.

Contudo, mesmo sabendo que a realidade (mundo que foge ao controle e desejo dos grandões) é dura, jamais abandonamos o mundo da fantasia. Quando descobrimos não ser possível fazer uma cadeira voar com uma simples ordem, buscamos outros meios para realizar essa proeza. O certo é que os adultos criam novas fantasias (mais sofisticadas) para substituir as fantasias infantis.

Engana-se quem acha que gente grande não tem fantasias e devaneios. Sem elas, a expectativa de vida seria drasticamente reduzida. Não conseguiríamos suportar por muito tempo as intempéries e ameaças da vida sem invenção do fantástico, sem a criação de mundos e realidades alternativas.

À medida que nos tornamos crescidos, mudamos nossas maneiras de brincar. Crianças brincam de ser adultos e fazer coisas de adulto. Elas levam muito a sério o desafio de recriar as peripécias que dão forma ao universo, desejo e realizações dos marmanjos. Crianças brincam de ser mães, pais, professores, médicos, motoristas, babás etc. Nós, adultos, somos desafiados a desempenhar esse papéis, que foram bastante ensaiados  na infância.  O problema é que, no mundo dos adultos, não mais brincamos de faz de conta. Se a brincadeira falha, há consequências graves. A gente pode até começar tudo de novo, mas as marcas ficam. Nas brincadeiras de adulto, fazemos a conta de todas as ações e assumimos o saldo (devedor, quase sempre).

As crianças imaginam mundos encantados, sem limitação e povoado de seres mágicos, poderosos. Os adultos transformam essas fantasias em religião, ciência ou arte. Substituem o cenário e os personagens da fantasia, mas a plataforma é mesma. O fato é que somos movidos pelo desejo de criar, não importando muito o quê e como fazemos isso. Estamos sempre desesperados por fabricar mundos.

Há uma oficina de fantasia na alma humana. Ninguém consegue viver sem devaneios. Eles são a alternativa que temos para enfrentar um mundo que não se ajusta aos nossos desejos. Freud, em Escritores criativos e devaneios, nos ensina que “as forças motivadoras das fantasias são os desejos insatisfeitos, e toda fantasia é a realização de um desejo, uma correção da realidade insatisfatória”. A realidade que se apresenta diante de nós precisa de uma contraparte atenuante. O mundo, a vida e todas as coisas que nos cercam estão sempre a nos hostilizar. A fantasia, ou poética em alguns casos, faz a cara feia do mundo se transformar num sorriso convidativo e envolvente. A fantasia é a face serena de um mundo desalmado e feio. Viva a fantasia.

2 comentários:

  1. Texto "fantástico" professor, muito lindo. Me lembrei de parte de minha infância com meus primos (brincávamos de "igreja" ...rsrs. Típica brincadeira de filho de evangélicos. Até ministrávamos a ceia com pão sovado e suco de uva Ki-suco, não sei como gostávamos de beber aquilo)... Que bom que temos esse "escape", pena que nem todos reconheçam isso.

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  2. Gostei do que Escreveu.... Realmente estamos vivendo em um mundo desalmado, as quatro paredes religiosas são incapazes de nos humanizar, pelo contrário, ela nos intimida, ameaça e manipula segundo seu credo. Essas fantasias de criança não são esquecidas, pelo contrario, são evidenciadas na fase adulta com mais teor e imanência! Marksuel Carlos

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