sexta-feira, 25 de maio de 2012

Estou cansado de senso comum


Tenho profundo respeito pelas tradições e saberes locais. Gosto de ouvir histórias e causos. Sou encantado por saberes complexos que chegaram até nós por meio da tradição oral. Gosto da ciência que se faz com intuição e memória, gosto da poética que se constrói longe dos cânones literários. Gosto de ouvir idosos, contando e cantando a vida do tempo que a cidade ainda não oprimia as pessoas. Gosto de culturas e experiências locais ainda não engolfadas pelo estilo de vida urbano. Gosto de aprender com quem ensina a partir de uma base epistemológica diferente da minha. Mas estou cansado de senso comum.

Não tenho mais paciência para ver e ouvir pessoas propalando saberes adquiridos a partir do Jornal Nacional, Veja (discurso direitoide), manuais e manifestos de doutrinamento contra neoliberalismo  (discurso esquerdoide). O senso comum (de direita e de esquerda) me aborrece. Obviamente, o senso comum do qual estou falando é diferente dos saberes e experiências de comunidades tradicionais e locais. A praga que me irrita é esse saberzinho de meia-pataca adquirido a partir de livros de autoajuda, da grande mídia ou de discursos hegemônicos. É esse tipo de saber que me deixa pilhado, especialmente quando é propagado em ambientes acadêmicos.

Segue uma série de frases, chavões e mantras de senso comum que me causam arrepios:

1) Português é a língua mais difícil do mundo;
2) Brasileiro não sabe falar português;
3) O português está sendo dominado pelo inglês;
4) É preciso estudar gramática para aprender português;
5) A cultura pop está emburrecendo as pessoas;
6) O inglês vai acabar com todas as línguas locais;
7) A globalização está matando a cultura brasileira;
8) Não há mais música de qualidade no Brasil;
9) O Brasil não produz mais grande literatura, apenas lixo cultural;
10) Paulo Coelho é lixo cultural, não literatura;
11) Brasileiro não gosta mais da boa música, agora só ouve Michel Teló;
12) O Brasileiro não lê;
13) O Brasil é um país de corruptos;
14) O brasileiro é muito passivo, não se manifesta;
15) O Brasil não leva a educação a sério;
16) O Brasil não investe em educação;
17) Os políticos têm interesse em manter a população analfabeta;
18) O Brasil está mudando muito;
19) Vivemos num momento de muitas mudanças históricas;
20) As pessoas estão preferindo se relacionar pela internet.
21) As pessoas preferem conhecer alguém distante a fazer amizade com o vizinho;
22) Etc. etc. etc.

Não estou dizendo que todas essas afirmações são mitos. O que estou dizendo é que não suporto ouvir pessoas repetindo essas ladainhas sem a menor preocupação em estudar o tema, sem verificar o que um pesquisador da área diz sobre o assunto, sem consultar uma pesquisa séria etc. Por exemplo, outro dia ouvi alguém dizer, em tom de crítica, que o brasileiro não lê. Estranhamente, a pessoa de quem ouvi essa pérola, jamais leu um artigo sobre o mercado editorial brasileiro, jamais foi atrás de estudos estatísticos que mostram a evolução das práticas leituras no Brasil ao longo das últimas décadas. Ela falou isso porque ouviu a Sandra Annenberg ou Evaristo Costa repetindo esse mantra no Jornal Hoje, ou porque viu um Globo Repórter sobre o assunto, ou porque leu uma materiazinha de Veja, ou porque sei lá o quê!

Encerro fazendo um apelo: vamos estudar mais.



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