quinta-feira, 31 de maio de 2012

Isso, sim, é uma chancela à ignorância


Escrevi um ensaio no mês de maio do ano passado (2011). Achei por bem publicá-lo aqui.

Faço uma crítica às concepções de língua e ensino de língua portuguesa que circulam na grande mídia. Tomo como exemplo a cobertura que dois programas de entrevistas da Globo News (Entre Aspas, com Mônica Waldvogel, e Espaço Aberto, com Alexandre Garcia)  deram à polêmica que se criou em torno do livro didático “Por uma vida melhor” da professora Heloisa Ramos. Segundo a grande mídia, o livro de Heloísa Ramos contém erros e jamais deveria ter sido aprovado pelo MEC. Contudo, uma análise elementar mostra que a obra está ancorada em teorias e pesquisas sociolinguísticas e educacionais.

Antes do ensaio, segue o vídeo de um dos programas. Infelizmente o outro já não está mais disponível na rede.


Escritores falam sobre o ensino de língua portuguesa no Brasil - Entre Aspas, com Mônica Waldvogel

Isso, sim, é uma chancela à ignorância





Poética das palavras em tuítes





















































quarta-feira, 30 de maio de 2012

Sono comprado

O sol já se insinuava à aurora quando ele conseguiu dormir. Bastaram dois minutos de sono para começar a sonhar. Viu-se num lugar onde o sono era comprado. Foi à loja e pediu:

_ Quero 10 dias de sono seguidos. Quanto custa?

_ É 40 Reais, respondeu o atendente.

_ Vou levar.

Saiu da loja com os 10 dias de sono na sacola, decido a usar logo que pusesse o pé dentro de casa. Já deitado, se preparava para consumir o produto que tinha acabado de comprar, quando o telefone tocou. Levantou-se completamente irritado esbravejando:

_ Nem no sonho a gente consegue mais dormir!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Semente da insaciedade


Somos continuamente seduzidos pela vontade de ser grandes. Nosso desejo de realizar projetos faraônicos começa bem cedo. Desde criança, desejamos fazer coisas notáveis. Quando adultos, nos metemos em projetos políticos, científicos, sociais, religiosos, artísticos etc. desejando fazer coisas irrepetíveis. Todos nós nutrimos certas ambições messiânicas. Por medo do ridículo, às vezes, conseguimos manter nossos desejos silenciados, mas não totalmente reprimidos e inativos. Eles continuam vivos, prontos a virem à tona em oportunidades pouco arriscadas ou embaraçosas.

 Mesmo querendo, é muito difícil depor nosso desejo de grandeza. Por exemplo, é muito difícil escrever um texto sem o desejo de que ele seja um grande texto. Quando nos lançamos sobre uma folha em branco, nos deixamos seduzir pela ideia de que o vazio será vencido por um texto magnífico. Nos entregamos à ilusão de que, ao final de cada página, algo incrivelmente criativo virá a existir. É quase impossível escrever um texto desejando-o precário. Não nos sentimos bem em celebrar a precariedade ou mediocridade, em qualquer que área que seja.

Algumas pessoas chegam até a acreditar que são geniais, mesmo não sendo. Alguns até se entregam a uma celebração inebriante (delirante) de sua própria obra, concebendo-a como a última peça da criatividade humana, mesmo o objeto não passando de um (des)arranjo precariamente desenhado. Contudo, o que mais acontece é que mesmo um gênio, como Machado de Assis, costuma ser o “mais austero crítico de si mesmo”. Parece que até os gênios nutrem certa decepção com o que realizam, se comparado com o que desejavam realizar. O que dizer, então, dos mortais e medianos?

Realmente, o desejo de notabilidade, de grandeza, de genialidade não é facilmente saciado. Ou melhor, nunca pode ser saudavelmente saciado. Me parece que só pessoas alucinadas e doentes se sentem grandes e geniais. Em geral, as pessoas desejam ser grandes, mas não se sentem assim, mesmo quando de fato são.

É bom que seja assim. Só conhecemos o Machado de Assis de Dom Casmurro porque ele se desencantou com o que produziu em Iaiá Garcia. Grandes realizações (científicas, artísticas, sociais, tecnológicas etc.) existem porque há na alma humana uma semente de insaciedade, de descontentamento com o que já está pronto, com o que já foi alcançado.

Herdamos isso de Deus. Ele é essencialmente expansivo. Não estou dizendo que Deus sofre de algum tipo de carência de grandeza. Ele é pleno em si mesmo. Contudo, houve um dia em que Ele quis se expandir. Também não sei dizer se Deus se desencantou consigo mesmo. O que posso dizer é que Deus quis se alargar e criar outros movimentos para si mesmo. O ser humano é uma aventura criativa de Deus, é um passo além do que ele já tinha feito, buscando fazer algo maior e mais sublime.  Não tenho dúvidas de que Deus está sempre em movimento, em atividade, fazendo coisas novas, aperfeiçoando a técnica para empregá-la em sua(s) grande(s) obra(s) prima(s).

sábado, 26 de maio de 2012

Geografia da alma


A alma tem espaços imensos, desenhos estranhos, contornos imprevisíveis.
Do pico dos montes se veem as grandezas e delírios do eu.
Dos vales, grutas e cavernas se veem suas frustrações, amarguras e limitações.
Por entre ruas, avenidas e alamedas se veem máscaras e projeções,
Que tornam a incursão pública do eu um projeto realizável.
Na disposição e arquitetura das casas se vê um ideal de aconchego e amparo.
O eu coloniza um espaço para dentro, para lá se construir, se ordenar, se equilibrar, se manter.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Estou cansado de senso comum


Tenho profundo respeito pelas tradições e saberes locais. Gosto de ouvir histórias e causos. Sou encantado por saberes complexos que chegaram até nós por meio da tradição oral. Gosto da ciência que se faz com intuição e memória, gosto da poética que se constrói longe dos cânones literários. Gosto de ouvir idosos, contando e cantando a vida do tempo que a cidade ainda não oprimia as pessoas. Gosto de culturas e experiências locais ainda não engolfadas pelo estilo de vida urbano. Gosto de aprender com quem ensina a partir de uma base epistemológica diferente da minha. Mas estou cansado de senso comum.

Não tenho mais paciência para ver e ouvir pessoas propalando saberes adquiridos a partir do Jornal Nacional, Veja (discurso direitoide), manuais e manifestos de doutrinamento contra neoliberalismo  (discurso esquerdoide). O senso comum (de direita e de esquerda) me aborrece. Obviamente, o senso comum do qual estou falando é diferente dos saberes e experiências de comunidades tradicionais e locais. A praga que me irrita é esse saberzinho de meia-pataca adquirido a partir de livros de autoajuda, da grande mídia ou de discursos hegemônicos. É esse tipo de saber que me deixa pilhado, especialmente quando é propagado em ambientes acadêmicos.

Segue uma série de frases, chavões e mantras de senso comum que me causam arrepios:

1) Português é a língua mais difícil do mundo;
2) Brasileiro não sabe falar português;
3) O português está sendo dominado pelo inglês;
4) É preciso estudar gramática para aprender português;
5) A cultura pop está emburrecendo as pessoas;
6) O inglês vai acabar com todas as línguas locais;
7) A globalização está matando a cultura brasileira;
8) Não há mais música de qualidade no Brasil;
9) O Brasil não produz mais grande literatura, apenas lixo cultural;
10) Paulo Coelho é lixo cultural, não literatura;
11) Brasileiro não gosta mais da boa música, agora só ouve Michel Teló;
12) O Brasileiro não lê;
13) O Brasil é um país de corruptos;
14) O brasileiro é muito passivo, não se manifesta;
15) O Brasil não leva a educação a sério;
16) O Brasil não investe em educação;
17) Os políticos têm interesse em manter a população analfabeta;
18) O Brasil está mudando muito;
19) Vivemos num momento de muitas mudanças históricas;
20) As pessoas estão preferindo se relacionar pela internet.
21) As pessoas preferem conhecer alguém distante a fazer amizade com o vizinho;
22) Etc. etc. etc.

Não estou dizendo que todas essas afirmações são mitos. O que estou dizendo é que não suporto ouvir pessoas repetindo essas ladainhas sem a menor preocupação em estudar o tema, sem verificar o que um pesquisador da área diz sobre o assunto, sem consultar uma pesquisa séria etc. Por exemplo, outro dia ouvi alguém dizer, em tom de crítica, que o brasileiro não lê. Estranhamente, a pessoa de quem ouvi essa pérola, jamais leu um artigo sobre o mercado editorial brasileiro, jamais foi atrás de estudos estatísticos que mostram a evolução das práticas leituras no Brasil ao longo das últimas décadas. Ela falou isso porque ouviu a Sandra Annenberg ou Evaristo Costa repetindo esse mantra no Jornal Hoje, ou porque viu um Globo Repórter sobre o assunto, ou porque leu uma materiazinha de Veja, ou porque sei lá o quê!

Encerro fazendo um apelo: vamos estudar mais.



quinta-feira, 24 de maio de 2012

Poética do luar





















Sostenes Lima
@Limasostenes

sábado, 19 de maio de 2012

Aforismos da (não) amizade











Sostenes Lima
@Limasostenes

Fantasia: a face serena de um mundo desalmado


Temos vontade de viver num mundo onde todos os nossos desejos podem se tornar reais. Como esse mundo não existe, descobrimos desde cedo uma forma de fazê-lo existir. É só fantasiar.

Desde cedo, aprendemos que o nosso desejo de realizar coisas impossíveis deve ser investido e aprofundado, não silenciado. A fantasia nos permite ser grandes e fazer coisas extraordinárias. Quando crianças, brincamos de ser gente grande porque achamos que os adultos têm poderes ilimitados, podem fazer coisas formidáveis. Depois que nos tornamos adultos, descobrimos que a coisa não é tão fácil assim.

Contudo, mesmo sabendo que a realidade (mundo que foge ao controle e desejo dos grandões) é dura, jamais abandonamos o mundo da fantasia. Quando descobrimos não ser possível fazer uma cadeira voar com uma simples ordem, buscamos outros meios para realizar essa proeza. O certo é que os adultos criam novas fantasias (mais sofisticadas) para substituir as fantasias infantis.

Engana-se quem acha que gente grande não tem fantasias e devaneios. Sem elas, a expectativa de vida seria drasticamente reduzida. Não conseguiríamos suportar por muito tempo as intempéries e ameaças da vida sem invenção do fantástico, sem a criação de mundos e realidades alternativas.

À medida que nos tornamos crescidos, mudamos nossas maneiras de brincar. Crianças brincam de ser adultos e fazer coisas de adulto. Elas levam muito a sério o desafio de recriar as peripécias que dão forma ao universo, desejo e realizações dos marmanjos. Crianças brincam de ser mães, pais, professores, médicos, motoristas, babás etc. Nós, adultos, somos desafiados a desempenhar esse papéis, que foram bastante ensaiados  na infância.  O problema é que, no mundo dos adultos, não mais brincamos de faz de conta. Se a brincadeira falha, há consequências graves. A gente pode até começar tudo de novo, mas as marcas ficam. Nas brincadeiras de adulto, fazemos a conta de todas as ações e assumimos o saldo (devedor, quase sempre).

As crianças imaginam mundos encantados, sem limitação e povoado de seres mágicos, poderosos. Os adultos transformam essas fantasias em religião, ciência ou arte. Substituem o cenário e os personagens da fantasia, mas a plataforma é mesma. O fato é que somos movidos pelo desejo de criar, não importando muito o quê e como fazemos isso. Estamos sempre desesperados por fabricar mundos.

Há uma oficina de fantasia na alma humana. Ninguém consegue viver sem devaneios. Eles são a alternativa que temos para enfrentar um mundo que não se ajusta aos nossos desejos. Freud, em Escritores criativos e devaneios, nos ensina que “as forças motivadoras das fantasias são os desejos insatisfeitos, e toda fantasia é a realização de um desejo, uma correção da realidade insatisfatória”. A realidade que se apresenta diante de nós precisa de uma contraparte atenuante. O mundo, a vida e todas as coisas que nos cercam estão sempre a nos hostilizar. A fantasia, ou poética em alguns casos, faz a cara feia do mundo se transformar num sorriso convidativo e envolvente. A fantasia é a face serena de um mundo desalmado e feio. Viva a fantasia.

domingo, 13 de maio de 2012

Da incapacidade técnica do professor de língua portuguesa


O ensino de língua portuguesa na Educação Básica (EB) não vai bem. Prova disso são os resultados alcançados pelos alunos em exames nacionais (Prova Brasil, ENEM) e internacionais (PISA). Há diversas causas para isso, desde as mais sistêmicas às mais pessoais: falta de investimento, infraestrutura escolar precária, professor mal capacitado, professor mal remunerado, bases teóricas e procedimentos didáticos inadequados, condições socioeconômicas do alunado etc. É impossível apontar com segurança quais são, de fato, as causas reais dessa conta, difícil de pagar. Contudo, penso ser necessário buscar uma reflexão contínua sobre os aspectos aí envolvidos, senão de todos, pelo menos de alguns. Neste artigo, quero discutir a parcela de culpa do professor da disciplina. É óbvio que, sozinho, ele não pode fazer o ensino português dar certo. Mas se fizer a sua parte, o cenário melhora consideravelmente.

Fico indignado quando vejo um professor de português desempenhando desleixadamente sua função. Não me conformo com o professor que justifica seu descaso com o trabalho com o seguinte argumento: “Não desempenho um bom trabalho porque ganho pouco. Faço o que vale o meu salário”. Acho isso uma desonestidade. De fato, alguns professores deixam de fazer o melhor que podem simplesmente porque se sentem lesados pelo Estado. Como retaliação, acabam levando o trabalho de barriga. É claro que o Estado sai prejudicado com essa atitude do professor, mas as maiores vítimas são o aluno e a sociedade como um todo. Salário baixo pode até explicar, em alguns casos, mas não justifica trabalho mal feito. É preciso que a sociedade fiscalize a ação do professor e exija dele compromisso ético com sua profissão.

Contudo, essa não é a única razão por que o ensino de português vai mal. Há casos em que o professor não ministra uma boa aula de português porque não tem capacidade técnica. Aí a questão é um pouco mais complexa porque não se trata de uma irresponsabilidade, mas de uma limitação profissional.

É verdade que há casos em que o professor tem condições favoráveis para se capacitar e se recusa a fazê-lo. Aí sua inaptidão deve ser vista como irresponsabilidade. Contudo, nem todos os casos se encaixam nesse quadro. Há professores que simplesmente não têm condições, sob diversos aspectos, de adquirir todo o aparato teórico-conceitual e prático-procedimental que cerca o ensino de língua portuguesa.

Tenho boas razões, incluindo observações empíricas, para acreditar que alguns professores de português não dão boas aulas simplesmente porque não conseguem. Não é má fé; é falta de capacitação mesmo. O professor não prepara os alunos para a prática da leitura e produção de texto porque ele mesmo, o próprio professor, não tem um bom nível de letramento; ele mesmo tem sérias dificuldades com a prática da leitura e escrita. É muito comum vermos professores de português que, por não terem alcançado um nível de formação suficiente, ensinam de tudo em sala de aula, menos o que realmente importa: ler e escrever. E fazem isso porque lhes falta o domínio de todo o aparato teórico e prático que cerca a atividade de ensinar os alunos a ler e escrever.

Nas últimas décadas, as abordagens teórico-metodológicas de ensino de português mudaram bastante. Essa é uma das razões por que há um grande número de professores de português inaptos. A maior parte deles é formada por professores que se graduaram antes de 1990 ou estudaram em IES (Instituição de Ensino Superior) menores, não tendo acesso a uma boa capacitação conceitual e técnica. Isso significa que, se esses profissionais não continuaram estudando, estão ensinando língua portuguesa a partir de uma base teórica e prática completamente ultrapassada, tendo grandes chances de fracasso.

Some-se a isso o fato de que nossa rede pública de ensino tem um número enorme de professores formados em programas emergenciais. São professores que, embora tenham passado por um curso de formação, continuaram atuando do mesmo modo que antes. São professores que entraram no curso de formação “já dominando” a teoria e o fazer didático, “já sabendo” ensinar língua portuguesa, por fazer isso há algum tempo. A maior parte deles não foi à IES à procura de formação; simplesmente aceitou se matricular num curso de licenciatura parcelada porque precisava de um documento que lhe permitisse continuar fazendo o que  “já sabia fazer”. É claro que nem todos se encaixam nessa descrição. Alguns realmente mudaram suas concepções teóricas e práticas didáticas, mas são poucos.

Diante desse quadro, o que podemos fazer? Nos casos em que os professores se recusam a desempenhar sua atividade com qualidade, mesmo tendo condições técnicas para isso, devemos, como país e sociedade, pressioná-los a oferecer um serviço de melhor qualidade. Como cidadãos, devemos fazer uma pressão política junto aos professores e à escola, exigindo que nosso direito seja respeitado.

Se o caso for de um professor sem capacitação técnica, devemos pressioná-lo a se capacitar. Devemos, uma vez constado seu interesse em se capacitar, nos juntar a ele e exigir que a escola e o Estado ofereçam condições para que continue seu processo de formação, em cursos de Especialização e Pós-Graduação Stricto Sensu.

Já sabemos pelo senso comum que toda mudança educacional começa com o professor. Ele dever querer ser competente; deve querer uma escola melhor. Devemos cobrar do Estado melhores condições de trabalho para a carreira docente e cobrar melhoria para o nosso sistema educacional como um todo. Mas nossa cobrança não deve se dirigir apenas ao poder público. Devemos cobrar da escola e do professor também.

Como professor, digo que precisamos convencer nossos pares de que é muito mais fácil conseguir o apoio da sociedade para as nossas reivindicações se ela estiver convencida de que temos compromisso ético com nossa atividade profissional. A sociedade se mostrará muito mais disposta a se engajar em nossa luta quando vir que o que nos falta não é responsabilidade, mas melhores condições e oportunidades.

sábado, 12 de maio de 2012

Poética da infância em tuítes









Sostenes Lima
@Limasostenes

sábado, 5 de maio de 2012

Poética da memória em tuítes








































Sostenes Lima
@Limasostenes