terça-feira, 10 de abril de 2012

A língua como objeto de estudo: da tradição à ciência[1]


A investigação científica (observação, descrição e explicação) de diversos fatos e fenômenos (naturais e sociais) avançou muito nos dois últimos séculos. É difícil encontrar atualmente um fato ou fenômeno que ainda seja plenamente ignorado pelas ciências em geral. Certamente há ainda muitos avanços pela frente, mas é inegável que hoje temos um acervo de explicações científicas que dá conta de quase todos os assuntos que cercam nossa vida cotidiana. 

A ciência também avançou em outra direção: alcançou o status de discurso legítimo.  O discurso científico se consolidou como a instância de explicação mais confiável e segura para o mundo natural e social. Quando há alguma disputa em torno de alguma questão, logo alguém recorre à autoridade da ciência para validar a versão que tem dos fatos. É difícil uma pessoa vencer um debate epistemológico tomando por base a tradição, senso comum, curandeirismo, obscurantismo e/ou astrologia.

A língua se tornou um objeto científico apenas recentemente. Tal como os elementos químicos – estudados esotericamente pela Alquimia por um longo tempo – a língua foi objeto de uma exploração e estudo pré-científico. A Gramática, desde Aristóteles, tem se ocupado de estudar a língua a partir de um conjunto de princípios teóricos e metodológicos cientificamente inválidos.

Contudo há uma diferença no curso histórico da Gramática e da Alquimia. O surgimento da Química rapidamente solapou a autoridade e credibilidade da Alquimia, relegando-a a uma condição de abordagem esotérica. A Linguística, inaugurada no começo do século XX, não conseguiu abalar a autoridade, credibilidade e aceitação da Gramática. Embora a Linguística venha mostrando as fragilidades dos princípios teóricos e metodológicos da abordagem gramatical, para a maioria das pessoas a ciência que estuda a língua é a Gramática. E isso ocorre a despeito do grande avanço das pesquisas científicas em língua.

Atualmente, temos um acervo considerável de teorias e bases metodológicas que permitem a compreensão, coleta e análise de praticamente todos os fatos linguísticos inerentes às línguas com tradição gráfica. Temos acumulado, ao longo dos últimos cem anos, um conjunto de teorias e descrições bastante significativo. Falando apenas do caso brasileiro, a Linguística, depois de 40 anos de sua introdução regular nas universidades, produziu um conjunto impressionante de descrições do português brasileiro, bem como um razoável delineamento do quadro das mais de 170 línguas faladas no Brasil.

Contudo, apesar de toda essa produção, a Linguística (fonte legítima das explicações e descrição dos fenômenos linguísticos) ainda luta por reconhecimento junto ao público geral, e enfrenta a desconfiança da maior parte da mídia, que prefere dar voz à Gramática.

Língua é um tema acessível a praticamente todas as pessoas. E isso contribui um pouco para o apagamento da autoridade da ciência que estuda esse objeto.  Por se tratar de uma realidade abundantemente presente na vida de todo mundo, todos se sentem habilitados a dar uma opiniãozinha, criando um cenário difícil para a penetração e visibilidade da versão do especialista, alguém com formação, tanto em nível de graduação como pós-graduação, na área de Linguística. 

Contudo, não é a opinião do senso comum que mais ofusca a Linguística. É a resistência e força da Gramática que criam os maiores empecilhos para a popularização da Linguística. É difícil mudar a representação que as pessoas têm da Gramática, especialmente se considerarmos que ela goza de amplo prestígio na mídia e na escola, além de contar com um histórico de mais de 2000 anos. Mesmo não adotando procedimentos cientificamente válidos na construção de suas teorias e descrições, o aval da mídia e da escola confere muito poder à Gramática.

Marcos Bagno apresenta e analisa em Preconceito linguístico[2] uma série de mitos que estão fortemente arraigados no imaginário linguístico dos brasileiros:

·           O Brasil é um país linguisticamente unificado;
·           O português é uma língua muito difícil;
·           A língua portuguesa está se degenerando, sendo maltratada e estropiada pelos seus próprios falantes;
·           O Estado brasileiro onde se fala o melhor português é o Maranhão;
·           Brasileiro não sabe falar português. Só em Portugal se fala bem nosso idioma;
·           A forma certa de falar é aquela que se espelha na forma escrita;
·           É preciso saber gramática (um conjunto interminável de nomes e classificações) para se falar e escrever bem.

Essas teses são amplamente aceitas como verdades científicas não apenas pela população, mas também pela mídia e pela escola. Isso ilustra o quanto a Linguística ainda é desconhecida e o quanto as questões de linguagem ainda são marcadas por mitos e senso comum. Diversos estudos e pesquisas da Linguística mostram a improcedência de todas essas teses. Apesar disso, a maior parte dos brasileiros ainda acredita cegamente que, de fato, o português é uma das línguas mais difíceis do mundo e que brasileiro não sabe falar a sua própria língua materna. Isso ocorre, em boa parte, porque a Linguística ainda não conseguiu romper as fronteiras do ambiente acadêmico. 

Daí a necessidade de o linguista vir a público dizer que a Linguística é a ciência que estuda a língua e a Gramática é apenas um compêndio de nomenclaturas e uma convenção de etiqueta linguística.



[1] Artigo publicado em: LIMA, S. A língua como objeto de estudo: da tradição à ciência. FOLHA 670, Anápolis, 6 a 12 abr. 2012. Educação, p. 22.
[2] BAGNO, M. Preconceito linguístico: o que é e como se faz. 15 ed. Loyola: São Paulo, 2002.

Nenhum comentário:

Postar um comentário