sexta-feira, 27 de abril de 2012

A escola se tornou um lugar hostil [1]


O Portal G1 Goiás noticiou recentemente um vídeo postado no Youtube que mostra imagens de uma professora agredindo uma criança de 5 anos. O episódio, registrado por cinegrafista amador, aconteceu num colégio particular da cidade de Anápolis, a 55 quilômetros de Goiânia[2].



As cenas do vídeo exibem a atuação desastrada de uma profissional despreparada, tanto em nível técnico quanto ético-político. O despreparo profissional e ético do professor, cada vez mais alardeado pela mídia, deve ser encarado como algo resultante de um longo processo de deterioração que a carreira docente vem sofrendo.

Muita coisa mudou no âmbito da educação nos últimos 30 anos, algumas para melhor e outras para pior. Mas nenhuma mudança foi mais danosa ao sistema educacional do que a progressiva deterioração imposta à carreira docente. A escola se tornou uma esfera de trabalho hostil. A carreira docente se tornou menos atraente a profissionais com boa capacitação técnica e com boa formação ético-política e humana.

O Estado não assumiu a responsabilidade de financiar e gerir uma Educação Básica que fosse universal e gratuita, submetendo a instituição escolar a uma realidade lastimável. Para suprir a enorme quantidade de vagas de trabalho surgidas depois da democratização do acesso, a escola, em boa parte dos casos, teve que contratar um profissional que estivesse disposto a trabalhar muito e ganhar pouco.

O Estado universalizou o acesso, mas não aumentou suficientemente o investimento e nem se preocupou com a profissionalização e melhoria dos serviços oferecidos pela escola. Os governos passaram abarrotar a sala de aula, sem a menor preocupação em oferecer uma infraestrutura básica para a escola e sem se preocupar em construir uma carreira digna para o professor. Toda essa soma de atrapalhadas do Estado só podia dar nisto: um sistema educacional ineficiente e abandonado, sob o comando e responsabilidade de um profissional que tem poucas condições para ser competente. Que qualidade devemos esperar de um sistema educacional que paga ao professor em torno de R$ 1400,00 por 40 horas de trabalho semanal? Que tipo de atuação profissional podemos esperar de uma pessoa que há 20 anos trabalha exposta a condições de trabalho e salários tão aviltantes? Engana-se quem pensa que essa é uma realidade apenas da escola pública. Tanto a rede pública como a rede privada exploram o professor, submetendo-o a condições de trabalho indignas.

Nós, educadores, precisamos dizer à sociedade que um fato como este mostrado pelo vídeo não é simplesmente um desvio de comportamento de um professor que trabalha numa determinada escola, seja ela particular ou pública. Precisamos mostrar que episódios como este devem ser vistos sob uma ótica mais sistêmica, devem ser tratados como consequências inevitáveis das políticas públicas propostas para o campo da educação.

A mudança educacional que tanto desejamos só será possível quando começarmos a ver a degradação do sistema como um todo. O comportamento dessa professora tem de ser visto à luz de um contexto maior. Não estou a eximindo da reponsabilidade pelo que fez. Tudo deve ser apurado. Uma vez comprovado o desvio, a professora deve ser punida, conforme exigência da lei. Mas se nada, além disso, for feito, certamente novos casos parecidos vão continuar acontecendo. O problema não é com a pessoa em si, mas com o tipo de profissional que o sistema e a carreira educacional têm construído.

Se a sociedade quer um professor competente e decente, então deve exigir que o Estado ofereça uma carreira que atraia pessoas em condições de se tornar esse profissional desejado. Se eu e você queremos que os nossos filhos tenham um professor, cuja atuação seja radicalmente diferente da atuação desta professora, devemos exigir do poder público que dignifique a carreira do professor, que ofereça uma remuneração decente e condições de trabalho justas.

Mestre e Doutor em Linguística pela Universidade de Brasília
Docente na Universidade Estadual de Goiás (UEG) e Centro Universitário de Anápolis (UniEvangélica)

_________________________
[1] Artigo publicado em: LIMA, S. A língua como objeto de estudo: da tradição à ciência. FOLHA 670, Anápolis, 11 a 17 maio 2012. Educação, p. 22-23.
Disponível em: http://www.portal670.com.br/folha670/edicao/20/.[2] Notícia disponível em: http://g1.globo.com/goias/noticia/2012/04/imagens-registram-suposta-agressao-aluna-de-5-anos-em-anapolis-goias.html. Link para visualização do vídeo:

3 comentários:

  1. Sempre sensato e ponderado, amigo! Observar os rumos que a escola tem tomado nos enche de preocupação, indignação e nos convida a pensar também no tipo de profissional estamos formando nas licenciaturas... É verdade que temos de insistir em temas como ética, valores humanos e formação moral entre os licenciandos, mas como você bem pontua, isso não é tudo... é preciso promover discussões sobre políticas públicas e qualidade de vida para os profissionais da educação.
    A escola, de fato, se tornou um lugar hostil... e, infelizmente, doente. http://www.opopular.com.br/cmlink/o-popular/blogs/jarbas-rodrigues/blog-do-jarbas-rodrigues-1.288/mp-move-a%C3%A7%C3%A3o-contra-o-estado-para-frear-aumento-de-doen%C3%A7as-entre-professores-1.145156

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  2. Adorei a matéria, como a Barbra disse, sempre sensato.

    Infelizmente isso é uma realidade, e diria, pouco comum. Esse profissional, como foi dito no texto, trabalha muito, sob condições quase desumanas, com salas lotadas, pouco apoio da coordenação*, às vezes até sem giz colorido, nem água no bebedouro, sem livros ** para os alunos, bibliotecas desfalcadas**, algumas sem laboratórios...

    O professor vai pra sala e se sente sozinho, diante de 40 crianças e adolescentes. Tem que fazer o melhor, aumentar os números do IDEB, mostrar que a escola faz um bom trabalho, mas isso sozinho, praticamente. Como isso é possível?

    Amanda Gurgel, professora do Rio Grande do Norte, no vídeo divulgado no You Tube (http://www.youtube.com/watch?v=8L1QYWYb8GY) consegue falar dos vários problemas que o profissional da educação básica enfrenta.

    Não há condições para salvar esse país quando me dão apenas um giz ruim e um quadro áspero e quebrado ...

    Como diz Amanda, não podemos associar "qualidade de educação com professor em sala de aula". Há muita coisa além disso.E quando vem a greve, pensa-se que é a grave que prejudica, mas e os outros dias do ano em que a educação é sucateada, não prejudica? Quando a greve estoura, é apensa a indignação e a luta tentando mudar a realidade, não é a greve que prejudica. A gente simplifica demais as coisas assim.

    Quando somos formados na graduação não somos preparados para o que realmente encontramos: somos professores, pais, amigos, inimigos, somos exemplo e motivo de ódio, somos ameaçados, inspiramos....

    É muito intensa essa experiência... pode ser muito boa, mas tem sido muito ruim, na verdade massacrante. Mas o nosso governo se preocupa apenas com números.. reduzir os números do salário e dos gastos, mas aumentar os de aprovação e números de acesso á escola.

    Enquanto isso, não sendo exagerada, morremos aos poucos, cansados, desvalorizados, esgotados ..

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  3. Muito coerente seu posicionamento diante dessa questão, principalmente qdo diz que "O comportamento dessa professora tem de ser visto à luz de um contexto maior". E bota contexto nisso! E bota MAIOR nisso...

    É fato que a situação do professor é precária tanto na rede pública quanto na rede privada. Estive por alguns anos na rede privada em uma excelente escola em que de fato os alunos se destacavam no que diz respeito ao aprendizado. Tudo isso era fruto da dedicação do professor que ouvia quase todos os dias: "Hoje só tem horário de entrar, nem sabemos que horas vamos sair...". E assim, para ter esse resultado, trabalhávamos quase que em regime de escravidão.

    Atualmente sou concursada na rede pública em Goiânia e a primeira semana de trabalho quase foi capaz de me nocautear frente à realidade que encontrei. Os alunos mal sabem ler, a escrita não conta com qualquer pontuação e tantas outras coisitas mais. Isso para 7º, 8º e 9º ano! E há de fato aqueles que se encontram matriculados nestas séries e não sabem de forma alguma ler ou escrever, ou seja, analfabetos. Estão "boiando" diariamente nas salas de aula.

    Na rede privada era prazeroso colher os frutos daquele aprendizado que estava compartilhando com os alunos, vê-los crescer, mas o peso do trabalho era indescritível! Na rede pública não vejo possibilidade alguma em ver esses frutos: salas superlotadas, alunos com uma base escolar muito fraca o que não te permite avançar, caos!

    Sinto-me uma palhaça todos os dias indo em direção ao circo... Por quê? Porque sei que a escola não está atendendo o propósito para o qual existe. É uma utopia, uma mentira, um engodo!

    Pessimismo da minha parte? Não sei... mas é difícil acreditar na mudança do país caso não mudem a política educacional vigente. Mas a pergunta é: Por que mudariam?

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