sábado, 7 de abril de 2012

Choque de vícios[1]


Reescrevi e adaptei uma história bem conhecida para ilustrar o estrago que a inveja e a ganância podem provocar. Vamos à história.

Dois homens foram convidados para uma audiência com o rei.  Não foi por coincidência que o rei convocou justamente aqueles dois homens. Eles tinham vícios que os tornavam próximos e distantes ao mesmo tempo. Um era ganancioso e o outro, invejoso.

Os dois convidados chegam ao local do encontro. Estão meio apreensivos, um pouco amedrontados. Sentem-se interiormente culpados, embora nenhum deles se considere invejoso ou ganancioso.  Eles tinham visto no edital de convocação que cada um teria direito a um pedido, mas a essa altura não esperavam coisa boa. Talvez o rei lhes desse o direito de pedir um castigo mais brando ou coisa parecida.

No horário marcado, os dois súditos são chamados à sala real. Começa a audiência. O rei, vendo o terror estampado no rosto de cada um, diz:
_ Não tenham medo desse encontro. Hoje é um dia de sorte, não de infortúnio. Vocês foram convidados para receberem um presente. Peçam que quiserem e lhes darei.

A fala do rei os aliviou. De imediato cada um começou a fazer planos para o pedido, mas em silêncio. Um dos convidados esboçou fazer uma pergunta sobre haver ou não alguma condição que governasse o pedido. O rei de imediato o interrompeu:
_ Só há uma condição. Apenas um de vocês poderá fazer o pedido. Este receberá o que pedir e o outro receberá o que for pedido em dobro. Não há nenhuma regra que estabeleça quem deve fazer o pedido. Isso será decidido entre vocês.

Logo se instalou um drama na mente de cada um. O ganancioso pensou:
_ Se eu fizer o pedido vou ganhar menos que eu poderia ganhar. Devo convencer meu companheiro a fazer o pedido.

O invejoso, por sua vez, pensou:
_ Se eu fizer o pedido ele vai ganhar o dobro. Eu não suportaria vê-lo ganhar mais que eu. Devo convencê-lo a fazer o pedido.

Eles discutiram por alguns minutos, até que o ganancioso convenceu o invejoso a fazer o pedido. Este pensou consigo:
_ Preciso encontrar uma forma de fazer com que o meu pedido seja pior para ele. Mas é difícil. O rei foi muito sábio.

Num momento de profunda iluminação, sua inveja lhe forneceu uma ideia masoquista, mas suficiente para lhe satisfazer a compulsão por desgraça alheia. Antes de lançar o pedido ao rei, o invejoso se certificou da regra:
_ Qualquer coisa que eu pedir meu companheiro receberá em dobro? É isso mesmo, majestade? Qualquer coisa, mesmo?
_ Sim, disse o rei.
O invejou então pediu:
_ Quero que arranque um dos meus olhos.

Moral da história: a inveja não se importa com o sofrimento de quem lhe dá morada; o que ela quer mesmo é ver o infortúnio do outro. A inveja tem pavor de bem estar.  Ela leva o invejoso a condições degradantes só para manter a obsessão por desgraça alheia. A inveja compele o invejoso à autoperversidade para se manter momentânea e morbidamente feliz.



[1] Essa história faz parte do artigo "Anatomia da inveja", disponível em:
http://www.sosteneslima.com/2012/04/anatomia-da-inveja.html

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