domingo, 29 de abril de 2012

De onde copio os textos que publico em meu nome?


Uma pessoa me mandou uma mensagem assim: “Você escreve mensagens muito bonitas de onde tira elas?”  [sic]. Pois bem, vou dizer de onde tiro as mensagens, frases e textos que escrevo. Vou me denunciar. Vou anunciar publicamente a fonte de onde copio tudo que publico em meu nome. Estou com medo da repercussão (positiva e/ou negativa) que isso pode causar, mas não vou deixar essa oportunidade passar.


Eis a revelação: copio tudo o que escrevo de um livro enorme, mas minúsculo se comparado a outros que são realmente grandes.  Esse livro tem textos de muitos autores, mas a quantidade de nomes aí presentes ainda é pequena se comparada a outros livros realmente bons. Nesse livro também há uma infinidade de assuntos e temas, mas meu livro fonte chega a ser monótono se for comparado à ambivalência, diversidade e extensão temática de outros livros realmente profundos.

O livro de onde copio os meus textos é, ao mesmo tempo, grande e pequeno, diversificado e monótono, profundo e superficial. Tudo depende do padrão de comparação. Para mim, o meu livro fonte será sempre pequeno, monótono e superficial.

Não vou dizer qual é o título desse livro. Prefiro falar um pouco sobre ele. Não sei dizer quantas páginas ele tem, mas sei que não dá pra lê-lo num único dia, nem num único mês. Para falar a verdade, a extensão desse livro não é medida em páginas, mas em dias, meses e anos. Seu suporte é o tempo, não o espaço. Então, o melhor seria perguntar: qual é sua extensão temporal? De quantos dias, meses e anos ele é composto? Não sei dizer com precisão, mas vou arriscar esboçar aqui sua estrutura. O livro ainda não está pronto, é claro. Mas já tem uma organização – capítulos, seções e páginas – mais ou menos desenhada.

Meu livro fonte, que ainda está sem título, compõe-se de 29,5 seções distribuídas ao longo de 7 capítulos, totalizando aproximadamente 10767 páginas. Vou explicar melhor cada um desses elementos. Os capítulos são as fases escolares. As seções são os anos investidos para cumprir cada fase escolar. E as páginas são os dias que empenhei para ter em minhas mãos a atual versão do livro. Sua estrutura interna tem a seguinte configuração:

Capítulo 1: Ensino Fundamental, com 9 seções e aproximadamente 3285 páginas.
Capítulo 2: Ensino Médio, com 3 seções e aproximadamente 1095 páginas.
Capítulo 3: Graduação em Teologia, com 5 seções e aproximadamente 1825 páginas.
Capítulo 4: Graduação em Letras, com 4 seções e aproximadamente 1460 páginas.
Capítulo 5: Especialização em Docência Universitária, com 2 seções e aproximadamente 730 páginas.
Capítulo 6: Mestrado em Linguística, com 2,5 seções e aproximadamente 912 páginas.
Capítulo 7: Doutorado em Linguística, com 4 seções e aproximadamente 1460 páginas, até o momento.

Sou estudante desde que eu tinha 5 anos. Já são 27 anos estudando sem parar. Jamais fiquei um ano sem estar regularmente matriculado numa instituição escolar. O livro de onde copio o que escrevo é o livro da minha vida. Como disse, esse livro não é tão bom quanto outros, mas foi o melhor que eu consegui escrever. Não estou satisfeito com ele. Acho que nunca vou estar.

Não sei exatamente o que está escrito em cada capítulo, seção e página desse livro, mas posso assegurar que tudo que publico em meu nome foi copiado daí. Por exemplo, não sei dizer com precisão de qual página copiei o artigo A escola se tornou um lugar hostil”, publicado recentemente no meu blog www.sosteneslima.com. Mas certamente foi copiado dessa fonte, que até agora era secreta.

Livros de outras pessoas estão presentes no meu livro. Quando tomo emprestado algum fragmento textual de outros autores, faço questão de deixar marcada a proveniência.  E como faço essa marcação? Simples: coloco aspas e cito o nome do autor do livro de onde tirei o fragmento. Algo que todos nós devemos fazer. O simples ato de colocar aspas e indicar fonte mostra o quanto temos respeito pela propriedade intelectual dos outros. Portanto, qualquer texto ou fragmento textual (sem aspas e sem indicação de fonte) publicado em meu nome provém do livro da minha história. É dele que copio, sem constrangimento, tudo que escrevo.

sábado, 28 de abril de 2012

Tristeza à conta-gotas


Às vezes tristeza chega silenciosamente
como uma chuva fina e serena, mas persistente.
Pequenos pingos de melancolia vão encharcando lentamente a alma.
Às vezes, me inebrio com a tristeza
Até os últimos pedaços de alegria
Se desmancharem como sal na água.

Uma água fina e salgada vaza da alma,
Se transformando em fiapos de dor que escapam pelos becos dos olhos.

Tristeza torrencial não definha. Causa muitos danos, mas logo se vai.
Imediatamente podemos fazer serão para recompor as estruturas da alma.

Tristeza em forma de garoa faz a alma se afogar em lágrimas.
Elas se acumulam dia a dia até nos cobrir a cabeça.
A tristeza à conta-gotas faz todas as bases se tornarem umedecidas e enfraquecidas.
A tristeza quando se instala para ficar faz a memória desvanecer.
A tristeza persistente faz o futuro encolher e a esperança fugir.



sexta-feira, 27 de abril de 2012

A escola se tornou um lugar hostil [1]


O Portal G1 Goiás noticiou recentemente um vídeo postado no Youtube que mostra imagens de uma professora agredindo uma criança de 5 anos. O episódio, registrado por cinegrafista amador, aconteceu num colégio particular da cidade de Anápolis, a 55 quilômetros de Goiânia[2].



As cenas do vídeo exibem a atuação desastrada de uma profissional despreparada, tanto em nível técnico quanto ético-político. O despreparo profissional e ético do professor, cada vez mais alardeado pela mídia, deve ser encarado como algo resultante de um longo processo de deterioração que a carreira docente vem sofrendo.

Muita coisa mudou no âmbito da educação nos últimos 30 anos, algumas para melhor e outras para pior. Mas nenhuma mudança foi mais danosa ao sistema educacional do que a progressiva deterioração imposta à carreira docente. A escola se tornou uma esfera de trabalho hostil. A carreira docente se tornou menos atraente a profissionais com boa capacitação técnica e com boa formação ético-política e humana.

O Estado não assumiu a responsabilidade de financiar e gerir uma Educação Básica que fosse universal e gratuita, submetendo a instituição escolar a uma realidade lastimável. Para suprir a enorme quantidade de vagas de trabalho surgidas depois da democratização do acesso, a escola, em boa parte dos casos, teve que contratar um profissional que estivesse disposto a trabalhar muito e ganhar pouco.

O Estado universalizou o acesso, mas não aumentou suficientemente o investimento e nem se preocupou com a profissionalização e melhoria dos serviços oferecidos pela escola. Os governos passaram abarrotar a sala de aula, sem a menor preocupação em oferecer uma infraestrutura básica para a escola e sem se preocupar em construir uma carreira digna para o professor. Toda essa soma de atrapalhadas do Estado só podia dar nisto: um sistema educacional ineficiente e abandonado, sob o comando e responsabilidade de um profissional que tem poucas condições para ser competente. Que qualidade devemos esperar de um sistema educacional que paga ao professor em torno de R$ 1400,00 por 40 horas de trabalho semanal? Que tipo de atuação profissional podemos esperar de uma pessoa que há 20 anos trabalha exposta a condições de trabalho e salários tão aviltantes? Engana-se quem pensa que essa é uma realidade apenas da escola pública. Tanto a rede pública como a rede privada exploram o professor, submetendo-o a condições de trabalho indignas.

Nós, educadores, precisamos dizer à sociedade que um fato como este mostrado pelo vídeo não é simplesmente um desvio de comportamento de um professor que trabalha numa determinada escola, seja ela particular ou pública. Precisamos mostrar que episódios como este devem ser vistos sob uma ótica mais sistêmica, devem ser tratados como consequências inevitáveis das políticas públicas propostas para o campo da educação.

A mudança educacional que tanto desejamos só será possível quando começarmos a ver a degradação do sistema como um todo. O comportamento dessa professora tem de ser visto à luz de um contexto maior. Não estou a eximindo da reponsabilidade pelo que fez. Tudo deve ser apurado. Uma vez comprovado o desvio, a professora deve ser punida, conforme exigência da lei. Mas se nada, além disso, for feito, certamente novos casos parecidos vão continuar acontecendo. O problema não é com a pessoa em si, mas com o tipo de profissional que o sistema e a carreira educacional têm construído.

Se a sociedade quer um professor competente e decente, então deve exigir que o Estado ofereça uma carreira que atraia pessoas em condições de se tornar esse profissional desejado. Se eu e você queremos que os nossos filhos tenham um professor, cuja atuação seja radicalmente diferente da atuação desta professora, devemos exigir do poder público que dignifique a carreira do professor, que ofereça uma remuneração decente e condições de trabalho justas.

Mestre e Doutor em Linguística pela Universidade de Brasília
Docente na Universidade Estadual de Goiás (UEG) e Centro Universitário de Anápolis (UniEvangélica)

_________________________
[1] Artigo publicado em: LIMA, S. A língua como objeto de estudo: da tradição à ciência. FOLHA 670, Anápolis, 11 a 17 maio 2012. Educação, p. 22-23.
Disponível em: http://www.portal670.com.br/folha670/edicao/20/.[2] Notícia disponível em: http://g1.globo.com/goias/noticia/2012/04/imagens-registram-suposta-agressao-aluna-de-5-anos-em-anapolis-goias.html. Link para visualização do vídeo:

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Poética do sorriso











Sostenes Lima
@Limasostenes

sábado, 21 de abril de 2012

Deus quis se tornar mundano


Vivi uma parte da minha infância numa casa que dividia espaço com a igreja. O terreiro (uma espécie de calçada de terra batida) se estendia varanda a fora dando para a porta do fundo do templo. Eu experimentava a vida de dentro e para dentro da igreja. Mas a vida naquele claustro não era plena; faltava ali uma série de coisas fundamentais. Lá não havia escola, não havia parquinho, não havia mercado, não havia casa e nem trabalho para todos etc. A igreja não conseguia oferecer tudo de que as pessoas precisavam. Logo percebi que não era possível permanecer o tempo todo dentro da redoma da igreja. O que fazer então? Foi aí que me ensinaram que existem dois universos sociais dentro dos quais nossa vida transcorre: a igreja e o mundo. Me ensinaram que ser crente significava viver dentro de uma subcultura, a igreja, tendo o mínimo de contato possível com o espaço lá de fora, o mundo.

Diziam-me que a igreja era um lugar social puro, formado por pessoas boas e íntegras. Ouvi algumas vezes alguém dizer, em pregação, coisas como: “Se alguém está precisando de um funcionário, deve contratar um irmão; é mais seguro. As pessoas da igreja são honestas, competentes e responsáveis. Por que se arriscar contratando alguém do mundo?” Ou algo assim: “Se você está vendendo para um crente pode confiar. As pessoas da igreja não dão calote; elas honram sua palavra e seus negócios”.

Diziam-me que a igreja tinha os padrões morais mais elevados da sociedade. A igreja não apenas congregava pessoas limpas; ela tinha a mais alta fórmula de assepsia moral.  A igreja tinha um código de retidão que, quando cumprido à risca, tornava o crente livre de todas as mazelas morais que degradam a vida humana. O crente, uma vez lavado e remido, era uma pessoa santa.

Diziam-me também que a igreja tinha o melhor padrão de arte do mundo. Embora cultivasse apenas uma arte, a música, a igreja detinha um padrão estético capaz de suprir todas as demandas por arte. Ouvia em pregações: “Não ouça música do mundo. Elas não prestam, não edificam em nada. Ouça apenas as músicas da igreja. Essas, sim, são belas e edificantes”. Estranhamente, não me lembro de ouvir qualquer repreensão à leitura de obras literárias. Tenho minhas hipóteses sobre o motivo por que não havia censura à literatura, mas isso não importa neste momento.

As pessoas da igreja concebiam o mundo como o lado de fora da vida; um espaço social sujo, corrompido, cheio de pessoas más e pecadoras. Ouvi por diversas vezes frases como: “O mundo só tem coisas que não prestam. Ele é sedutor, cheio de atrativos, mas nada nele tem valor”. Também ouvia as pessoas da igreja advertindo sobre os perigos de se associar com as pessoas do mundo. Os pregadores diziam: “Cuidado com as pessoas do mundo. Elas são pecadoras e vão influenciar você, conduzindo-o para o fundo do poço. Não seja amigo de pessoas do mundo. Livrem-se das más companhias. Lembrem-se do ditado que diz: ‘me diga com quem você anda que direi quem você é’. Andar com uma pessoa mundana pode levar você a se tornar mundano também”.

Vivi minha infância e adolescência exposto a esse discurso. Havia claramente uma divisão entre o que era de boa fama (coisas inerentes à igreja) e o que era degenerado (coisas inerentes ao mundo). Esse tipo de discurso, embora tenha perdido força, ainda continua ativo em muitos recantos religiosos. Ainda há muitas pregações que conclamam as pessoas a renegarem o mundo.

Não vou discutir o que está na base dessa cosmovisão que enaltece a igreja e demoniza o mundo. Sei  que há aí muita ignorância, moralismo, hipocrisia, alienação e dominação. É óbvio que, por trás de um discurso tão sectário como esse, há muita arrogância moral e farisaísmo.  Também não tenho dúvidas de que há aí uma gama de interesses espúrios, bem escondidos nos porões institucionais, que favorecem certas pessoas e certas instituições. Mas isso não me interessa no momento.

A questão a que me proponho é outra; está relacionada às seguintes indagações: Por que o cristão deve renegar o mundo se Deus fez exatamente o contrário? Por que o cristão deve se enclausurar na igreja se Jesus desenvolveu toda sua prática ministerial fora da organização religiosa de sua época? Na verdade, Jesus não apenas se desligou da instituição religiosa de sua época; ele se opôs a ela radicalmente. Jesus colocou em ruína todas as bases que davam sustentação ao discurso exclusivista e moralista da elite religiosa de seu tempo.

Jesus não renegou o mundo. Ele teve uma vida intensamente mundana. Viveu a infância e juventude numa pequena cidade da Galileia. Lá, possivelmente, adquiriu uma profissão e trabalhou com o pai. Foi a festas. Comeu e bebeu muito. Chorou e riu. Tornou-se um profeta itinerante imerso no mundo, dialogando com as crises mundanas que assolavam as pessoas. Circulou por espaços públicos e privados sem querer torná-los sagrados.

Não encontramos, na atividade e pregação de Jesus, qualquer base para uma cisão entre igreja e mundo. Não há nada mais contraditório do que exigir que alguém seja um cristão fora do mundo, como se isso fosse realmente possível.

Deus, em Jesus, se propôs a uma jornada de mundanização. Jesus entra no mundo e se mistura com ele. A encarnação não é uma negação do mundo, mas uma entrada radical e definitiva de Deus em nossa história, em nossa esfera de existência. A encarnação é uma evidência de que Deus se interessou pelo mundo, de que Deus quis se tornar mundano. Logo, qualquer pregação que demonize o mundo, que o renegue, parece contradizer o propósito da atividade de Jesus.  Deus quis interagir com o mundo. Sejamos imitadores de Deus. Tornemo-nos cristãos mais afeitos ao mundo. Sejamos mundanos.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Poética da contemplação em tuítes
















Sostenes Lima
@Limasostenes

sábado, 14 de abril de 2012

Poética da saudade em tuítes























Sostenes Lima
@Limasostenes

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O dia se faz de desejo e saudade


A Aurora tem desejo do Meio-dia que tem saudade da Aurora
O Meio-dia tem desejo do Crepúsculo que tem saudade do Meio-dia
O Crepúsculo tem desejo da Noite-turva que tem saudade do Crepúsculo
A Noite-turva tem desejo da Aurora que tem saudade da Noite-turva.


terça-feira, 10 de abril de 2012

A língua como objeto de estudo: da tradição à ciência[1]


A investigação científica (observação, descrição e explicação) de diversos fatos e fenômenos (naturais e sociais) avançou muito nos dois últimos séculos. É difícil encontrar atualmente um fato ou fenômeno que ainda seja plenamente ignorado pelas ciências em geral. Certamente há ainda muitos avanços pela frente, mas é inegável que hoje temos um acervo de explicações científicas que dá conta de quase todos os assuntos que cercam nossa vida cotidiana. 

A ciência também avançou em outra direção: alcançou o status de discurso legítimo.  O discurso científico se consolidou como a instância de explicação mais confiável e segura para o mundo natural e social. Quando há alguma disputa em torno de alguma questão, logo alguém recorre à autoridade da ciência para validar a versão que tem dos fatos. É difícil uma pessoa vencer um debate epistemológico tomando por base a tradição, senso comum, curandeirismo, obscurantismo e/ou astrologia.

A língua se tornou um objeto científico apenas recentemente. Tal como os elementos químicos – estudados esotericamente pela Alquimia por um longo tempo – a língua foi objeto de uma exploração e estudo pré-científico. A Gramática, desde Aristóteles, tem se ocupado de estudar a língua a partir de um conjunto de princípios teóricos e metodológicos cientificamente inválidos.

Contudo há uma diferença no curso histórico da Gramática e da Alquimia. O surgimento da Química rapidamente solapou a autoridade e credibilidade da Alquimia, relegando-a a uma condição de abordagem esotérica. A Linguística, inaugurada no começo do século XX, não conseguiu abalar a autoridade, credibilidade e aceitação da Gramática. Embora a Linguística venha mostrando as fragilidades dos princípios teóricos e metodológicos da abordagem gramatical, para a maioria das pessoas a ciência que estuda a língua é a Gramática. E isso ocorre a despeito do grande avanço das pesquisas científicas em língua.

Atualmente, temos um acervo considerável de teorias e bases metodológicas que permitem a compreensão, coleta e análise de praticamente todos os fatos linguísticos inerentes às línguas com tradição gráfica. Temos acumulado, ao longo dos últimos cem anos, um conjunto de teorias e descrições bastante significativo. Falando apenas do caso brasileiro, a Linguística, depois de 40 anos de sua introdução regular nas universidades, produziu um conjunto impressionante de descrições do português brasileiro, bem como um razoável delineamento do quadro das mais de 170 línguas faladas no Brasil.

Contudo, apesar de toda essa produção, a Linguística (fonte legítima das explicações e descrição dos fenômenos linguísticos) ainda luta por reconhecimento junto ao público geral, e enfrenta a desconfiança da maior parte da mídia, que prefere dar voz à Gramática.

Língua é um tema acessível a praticamente todas as pessoas. E isso contribui um pouco para o apagamento da autoridade da ciência que estuda esse objeto.  Por se tratar de uma realidade abundantemente presente na vida de todo mundo, todos se sentem habilitados a dar uma opiniãozinha, criando um cenário difícil para a penetração e visibilidade da versão do especialista, alguém com formação, tanto em nível de graduação como pós-graduação, na área de Linguística. 

Contudo, não é a opinião do senso comum que mais ofusca a Linguística. É a resistência e força da Gramática que criam os maiores empecilhos para a popularização da Linguística. É difícil mudar a representação que as pessoas têm da Gramática, especialmente se considerarmos que ela goza de amplo prestígio na mídia e na escola, além de contar com um histórico de mais de 2000 anos. Mesmo não adotando procedimentos cientificamente válidos na construção de suas teorias e descrições, o aval da mídia e da escola confere muito poder à Gramática.

Marcos Bagno apresenta e analisa em Preconceito linguístico[2] uma série de mitos que estão fortemente arraigados no imaginário linguístico dos brasileiros:

·           O Brasil é um país linguisticamente unificado;
·           O português é uma língua muito difícil;
·           A língua portuguesa está se degenerando, sendo maltratada e estropiada pelos seus próprios falantes;
·           O Estado brasileiro onde se fala o melhor português é o Maranhão;
·           Brasileiro não sabe falar português. Só em Portugal se fala bem nosso idioma;
·           A forma certa de falar é aquela que se espelha na forma escrita;
·           É preciso saber gramática (um conjunto interminável de nomes e classificações) para se falar e escrever bem.

Essas teses são amplamente aceitas como verdades científicas não apenas pela população, mas também pela mídia e pela escola. Isso ilustra o quanto a Linguística ainda é desconhecida e o quanto as questões de linguagem ainda são marcadas por mitos e senso comum. Diversos estudos e pesquisas da Linguística mostram a improcedência de todas essas teses. Apesar disso, a maior parte dos brasileiros ainda acredita cegamente que, de fato, o português é uma das línguas mais difíceis do mundo e que brasileiro não sabe falar a sua própria língua materna. Isso ocorre, em boa parte, porque a Linguística ainda não conseguiu romper as fronteiras do ambiente acadêmico. 

Daí a necessidade de o linguista vir a público dizer que a Linguística é a ciência que estuda a língua e a Gramática é apenas um compêndio de nomenclaturas e uma convenção de etiqueta linguística.



[1] Artigo publicado em: LIMA, S. A língua como objeto de estudo: da tradição à ciência. FOLHA 670, Anápolis, 6 a 12 abr. 2012. Educação, p. 22.
[2] BAGNO, M. Preconceito linguístico: o que é e como se faz. 15 ed. Loyola: São Paulo, 2002.

sábado, 7 de abril de 2012

Choque de vícios[1]


Reescrevi e adaptei uma história bem conhecida para ilustrar o estrago que a inveja e a ganância podem provocar. Vamos à história.

Dois homens foram convidados para uma audiência com o rei.  Não foi por coincidência que o rei convocou justamente aqueles dois homens. Eles tinham vícios que os tornavam próximos e distantes ao mesmo tempo. Um era ganancioso e o outro, invejoso.

Os dois convidados chegam ao local do encontro. Estão meio apreensivos, um pouco amedrontados. Sentem-se interiormente culpados, embora nenhum deles se considere invejoso ou ganancioso.  Eles tinham visto no edital de convocação que cada um teria direito a um pedido, mas a essa altura não esperavam coisa boa. Talvez o rei lhes desse o direito de pedir um castigo mais brando ou coisa parecida.

No horário marcado, os dois súditos são chamados à sala real. Começa a audiência. O rei, vendo o terror estampado no rosto de cada um, diz:
_ Não tenham medo desse encontro. Hoje é um dia de sorte, não de infortúnio. Vocês foram convidados para receberem um presente. Peçam que quiserem e lhes darei.

A fala do rei os aliviou. De imediato cada um começou a fazer planos para o pedido, mas em silêncio. Um dos convidados esboçou fazer uma pergunta sobre haver ou não alguma condição que governasse o pedido. O rei de imediato o interrompeu:
_ Só há uma condição. Apenas um de vocês poderá fazer o pedido. Este receberá o que pedir e o outro receberá o que for pedido em dobro. Não há nenhuma regra que estabeleça quem deve fazer o pedido. Isso será decidido entre vocês.

Logo se instalou um drama na mente de cada um. O ganancioso pensou:
_ Se eu fizer o pedido vou ganhar menos que eu poderia ganhar. Devo convencer meu companheiro a fazer o pedido.

O invejoso, por sua vez, pensou:
_ Se eu fizer o pedido ele vai ganhar o dobro. Eu não suportaria vê-lo ganhar mais que eu. Devo convencê-lo a fazer o pedido.

Eles discutiram por alguns minutos, até que o ganancioso convenceu o invejoso a fazer o pedido. Este pensou consigo:
_ Preciso encontrar uma forma de fazer com que o meu pedido seja pior para ele. Mas é difícil. O rei foi muito sábio.

Num momento de profunda iluminação, sua inveja lhe forneceu uma ideia masoquista, mas suficiente para lhe satisfazer a compulsão por desgraça alheia. Antes de lançar o pedido ao rei, o invejoso se certificou da regra:
_ Qualquer coisa que eu pedir meu companheiro receberá em dobro? É isso mesmo, majestade? Qualquer coisa, mesmo?
_ Sim, disse o rei.
O invejou então pediu:
_ Quero que arranque um dos meus olhos.

Moral da história: a inveja não se importa com o sofrimento de quem lhe dá morada; o que ela quer mesmo é ver o infortúnio do outro. A inveja tem pavor de bem estar.  Ela leva o invejoso a condições degradantes só para manter a obsessão por desgraça alheia. A inveja compele o invejoso à autoperversidade para se manter momentânea e morbidamente feliz.



[1] Essa história faz parte do artigo "Anatomia da inveja", disponível em:
http://www.sosteneslima.com/2012/04/anatomia-da-inveja.html

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Anatomia da inveja


Os vícios estão sempre à espreita da alma querendo lhe consumir. Eles não pedem licença; também não entram pela porta da frente. Eles se intrometem matreiramente na alma por aberturas pouco vigiadas. Uma vez dentro da alma, logo se dirigem para os recantos e porões. Lá se escondem para agir à surdina. De todos os vícios, a inveja é o que mais tem êxito na tarefa de se esconder, de se dissimular. Só podemos nos dar conta de que ela está aninhada na alma se estivermos dispostos a ler suas criptografias. Por exemplo, o incômodo pelo sucesso alheio (especialmente de quem o alcançou legitimamente) é um sinal de que a inveja já pôs seu negócio clandestino a funcionar, abrindo sucursais em diversas vielas e becos da alma.

A inveja é um vício complicado e difícil de ser combatido. Só quando dissecamos sua estrutura é que nos tornamos capazes de lhe fazer uma oposição consistente e de minar suas bases. Façamos o exercício de descortiná-la. A seguir, desenvolvo uma reflexão sobre alguns traços de sua anatomia, com o objetivo de nos preparar para combatê-la com efetividade. 

A inveja é mal vista, logo tem de ser negada. Talvez a inveja seja o vício mais difamado e rejeitado. Não é bonito ser invejoso. Outros vícios como a raiva, o orgulho etc. são mais higienizados e aceitos socialmente. Não é tão feio assim ser esquentado. Também não causa tanta vergonha ser orgulhoso. Quem projeta orgulho não arranha drasticamente sua própria imagem; talvez até ganhe com isso. Mas quando se fala em inveja, a coisa é bem diferente. Ela é um vício sujo, humilhante e degradante. Ninguém gosta de se mostrar invejoso. Praticamente todas as pessoas reagem com furor quando são identificadas como invejosas. Toda essa representação negativa da inveja só contribui para que ela exista na clandestinidade da alma. Ela é enxotada para os porões e só sai de lá disfarçada. Em boa parte dos casos, sob um disfarce tão bom que nem o invejoso percebe.

A inveja não oferece ganho real e nem gratificação duradoura. A inveja não melhora a vida do invejoso e nem lhe dá prazer. Antes, lhe cria uma série de problemas relacionais, levando-o a se corroer solitariamente.  O invejoso vive possuído por uma raiva insana dos outros (porque são prósperos) e de si mesmo (porque é medíocre). A inveja nunca se sacia porque não age para fora. Diferentemente da raiva, que exige uma ação externa para se locupletar, a inveja, por ser preguiçosa e covarde, só age internamente; só ataca o mais fraco, o próprio invejoso. Ela sempre quer ver mais desgraça na vida do outro, mas é impotente para fazer isso acontecer. Ela sempre se frustra: ou porque o outro só prospera ou porque a desgraça que sobreveio é pequena demais aos seus olhos.

A inveja subverte a fonte da felicidade. Em vez se basear no que é bom, a inveja arma sua estrutura sobre o que é mau. Ambrose Bierce apresenta, no Devil’s Dictionary[1] (Dicionário do Diabo), uma definição de felicidade que se ajusta perfeitamente à fisiologia da inveja:

“Felicidade – uma sensação agradável proveniente da contemplação da miséria alheia”.

A inveja se fundamenta no infortúnio, na desgraça, na miséria, e extrai daí fiapos de felicidade para o invejoso. Ambrose Bierce deixou de colocar em sua definição que essa sensação de felicidade é absurdamente efêmera e só se repete quando a desgraça alheia se aprofunda. A inveja constrói, então, uma estrutura de felicidade baseada na voracidade e insaciabilidade, tornando o invejoso viciado em desejo de desgraça. Como esse desejo nunca é plenamente satisfeito, o invejoso nunca experimenta a felicidade, mas apenas fragmentos extáticos de um prazer mórbido. A felicidade não se instala e nem se mantém quando o mal é o fundamento. Logo, todo invejoso é profundamente infeliz e morbidamente masoquista.

Termino este artigo com uma história muito conhecida. Eu a reescrevi e adaptei aos propósitos deste artigo[2]:

Dois homens foram convidados para uma audiência com o rei.  Não foi por coincidência que o rei convocou justamente aqueles dois homens. Eles tinham vícios que os tornavam próximos e distantes ao mesmo tempo. Um era ganancioso e o outro, invejoso.

Os dois convidados chegam ao local do encontro. Estão meio apreensivos, um pouco amedrontados. Sentem-se interiormente culpados, embora nenhum deles se considere invejoso ou ganancioso.  Eles tinham visto no edital de convocação que cada um teria direito a um pedido, mas a essa altura não esperavam coisa boa. Talvez o rei lhes desse o direito de pedir um castigo mais brando ou coisa parecida.

No horário marcado, os dois súditos são chamados à sala real. Começa a audiência. O rei, vendo o terror estampado no rosto de cada um, diz:

_ Não tenham medo desse encontro. Hoje é um dia de sorte, não de infortúnio. Vocês foram convidados para receberem um presente. Peçam o que quiserem e lhes darei.

A fala do rei os aliviou. De imediato cada um começou a fazer planos para o pedido, mas em silêncio. Um dos convidados esboçou fazer uma pergunta sobre haver ou não alguma condição que governasse o pedido. O rei de imediato o interrompeu:

_ Só há uma condição. Apenas um de vocês poderá fazer o pedido. Este receberá o que pedir e o outro receberá o que for pedido em dobro. Não há nenhuma regra que estabeleça quem deve fazer o pedido. Isso será decidido entre vocês.

Logo se instalou um drama na mente de cada um. O ganancioso pensou:

_ Se eu fizer o pedido vou ganhar menos que eu poderia ganhar. Devo convencer meu companheiro a fazer o pedido.

O invejoso, por sua vez, pensou:

_ Se eu fizer o pedido ele vai ganhar o dobro. Eu não suportaria vê-lo ganhar mais que eu. Devo convencê-lo a fazer o pedido.

Eles discutiram por alguns minutos, até que o ganancioso convenceu o invejoso a fazer o pedido. Este pensou consigo:

_ Preciso encontrar uma forma de fazer com que o meu pedido seja pior para ele. Mas é difícil. O rei foi muito sábio.

Num momento de profunda iluminação, sua inveja lhe forneceu uma ideia masoquista, mas suficiente para lhe satisfazer a compulsão por desgraça alheia. Antes de lançar o pedido ao rei, o invejoso se certificou da regra:

_ Qualquer coisa que eu pedir meu companheiro receberá em dobro? É isso mesmo, majestade? Qualquer coisa, mesmo?

_ Sim, disse o rei.

O invejou então pediu:

_ Quero que arranque um dos meus olhos.

Moral da história: a inveja não se importa com o sofrimento de quem lhe dá morada; o que ela quer mesmo é ver o infortúnio do outro. A inveja tem pavor de bem-estar.  Ela leva o invejoso a condições degradantes  só para manter a obsessão por desgraça alheia. A inveja compele o invejoso à autoperversidade para se manter momentânea e morbidamente feliz.



[2] Li uma versão sumária dessa história em: Os Guinness. Sete pecados capitais. São Paulo: Shedd Publicações, 2006.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Deus é a beleza

“A Beleza é entidade volátil – toca a pele e rápido se vai.

Pois isso a que nos referimos pelo nome de Deus é assim mesmo: um grande, enorme Vazio, que contém toda a Beleza do universo. Se o vaso não fosse vazio, nele não se plantariam as flores. Se o copo não fosse vazio, com ele não se beberia água. Se a boca não fosse vazia, com ela não se comeria o fruto. Se o útero não fosse vazio, nele não cresceria a vida. Se o céu não fosse vazio, nele não voariam os pássaros, nem as nuvens, nem as pipas...

E assim, me atrevendo a usar a ontologia de Riobaldo, eu posso dizer que Deus tem de existir. Tem Beleza demais no universo, e Beleza não pode ser perdida. E Deus é esse Vazio sem fim, gamela infinita, que pelo universo vai colhendo e ajuntando toda a Beleza que há, garantindo que nada se perderá, dizendo que tudo o que se amou e se perdeu haverá de voltar, se repetirá de novo. Deus existe para tranquilizar a saudade.

Posso então responder à pergunta que me fizeram. É claro que acredito em Deus, do jeito como acredito nas cores do crepúsculo, do jeito como acredito no perfume da murta, do jeito como acredito na beleza da sonata, do jeito como acredito na alegria da criança que brinca, do jeito como acredito na beleza do olhar que me contempla em silêncio. Tudo tão frágil, tão inexistente, mas me faz chorar. E se me faz chorar, é sagrado. É um pedaço de Deus... Dizia o poeta Valéry: Que seria de nós sem o socorro daquilo que não existe?"

Rubem Alves. Teologia do cotidiano. São Paulo: Olho D'Água, 1994. p. 79-80.