quarta-feira, 21 de março de 2012

"Sou concurseiro. O que devo estudar para sair bem em língua portuguesa?"[1]



As provas de língua portuguesa dos grandes concursos mudaram bastante nos últimos anos. Isso tem deixado o concurseiro à deriva, sem saber o que deve estudar para sair bem. Quem insiste em estudar apenas a famosa gramática vem se decepcionando a cada prova. Isso porque é bastante raro encontrar atualmente itens avaliativos (como são chamadas tecnicamente as questões) que abordem objetos gramaticais isoladamente: classes de palavra (substantivo, artigo, adjetivo, preposição, pronome etc.), termos da oração (sujeito, predicado, objeto etc.), períodos compostos (por coordenação e subordinação), tipos de oração (coordenadas sindéticas, subordinadas adjetivas, subordinadas substantivas, subordinadas adverbiais) etc.

A mudança na estrutura das provas de língua portuguesa é visível principalmente nos exames elaborados pelo CESPE, Fundação Carlos Chagas e FGV. Nas duas últimas décadas, essas instituições começaram a incorporar em suas provas uma série de postulados teóricos provenientes da Linguística Teórica e Aplicada. Esses pressupostos, apesar de serem amplamente conhecidos no meio acadêmico, ainda são bastante desconhecidos do público em geral.

Desde os anos 80, estudos linguísticos vêm mostrando que adquirir conhecimentos em Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB) e metalinguagem (conteúdos difundidos nos compêndios de gramática tradicional) não garante a aprendizagem efetiva da leitura e da produção de texto. Saber nomenclatura gramatical e metalinguagem não leva, necessariamente, o aluno a desenvolver os conhecimentos linguístico-pragmáticos de que precisa para ampliar sua competência textual (capacidade de ler e produzir texto). O que faz com que o aluno aprenda a ler e escrever competentemente é o trabalho com o texto e o discurso, e não o trabalho com a análise de frases isoladas, como é comum nos estudos gramaticais tradicionais.

Nos últimos anos, essas e outras descobertas da Linguística Teórica e Aplicada passaram ter enorme influência sobre os itens avaliativos dos grandes concursos. As questões gramaticais começaram a ser deixadas de lado, sendo substituídas por questões textuais, discursivas e semânticas. Os exames passaram a exigir dos candidatos conhecimentos que comprovem competência em leitura e competência em produção de texto, e não mais apenas o domínio da Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB).

Infelizmente, as escolas e os cursinhos preparatórios não conseguiram acompanhar essas mudanças. A maior parte deles ainda enfrenta muita dificuldade em ensinar língua portuguesa a partir de uma abordagem discursivo-textual, aquela que enfatiza os conhecimentos linguístico-pragmáticos (mobilizados quase espontaneamente quando se lê e quando se escreve). A abordagem tradicional, aquela que enfatiza os conhecimentos metalinguísticos (aqueles aprendidos em gramáticas tradicionais e que servem para fazer análises morfológicas e sintáticas) ainda é muito utilizada.

Como as teorias linguísticas ainda estão muito circunscrita aos ambientes acadêmicos, as escolas e os cursinhos acabam ensinando apenas os conteúdos disponíveis nas gramáticas tradicionais. Nem é preciso dizer que isso prejudica o aluno. Ele acredita que, se estudar e aprender o que está sendo ensinado, sairá bem nas provas de língua portuguesa. Mas não é bem isso que acontece. Quando um candidato, que teve acesso apenas ao ensino de língua portuguesa tradicional, se depara com uma prova que exige outros conhecimentos, ele mal consegue entender o que item avaliativo está pedindo. Como não tem consciência de que o problema está na defasagem teórica da escola ou do cursinho, o candidato acaba se culpando por achar que saiu mal porque estudou pouco. Tem convicção de que deveria ter estudo um pouco mais a gramática. Mal sabe ele que o problema não foi ter estudado pouco a gramática, mas sim ter estudado apenas a gramática tradicional.

A minha primeira sugestão para quem é concurseiro: estude a gramática, mas não fique só nela. Saber apenas o que os compêndios de gramática ensinam não mais garante sucesso nas provas de português. Volto a frisar o motivo: os atuais itens avaliativos (questões discursivas ou de múltipla escolha) partem do pressuposto de que o candidato já domina saberes como classes de palavra, termos da oração (sujeito, objeto), tipos de oração etc. Portanto, os itens avaliativos não têm mais o objetivo de medir o conhecimento que o candidato tem dessas questões. O que se avalia agora é a capacidade que o candidato tem de mobilizar o saber sobre classes de palavra e outros objetos gramaticais, tendo em vista a construção de uma leitura mais profunda e crítica, e a elaboração de um texto denso e formalmente bem escrito.

Veja-se o item avaliativo a seguir como exemplo:


Marque a sequência que completa corretamente as lacunas para que o trecho a seguir seja coerente.

A visão sistêmica exclui o diálogo, de resto necessário numa sociedade ________ forma de codificação das relações sociais encontrou no dinheiro uma linguagem universal. A validade dessa linguagem não precisa ser questionada, ________ o sistema funciona na base de imperativos automáticos que jamais foram objeto de discussão dos interessados. (FREITAG, Barbara. A teoria crítica ontem e hoje. p. 61. Com adaptações)

a) na qual – todavia
b) cuja – já que
c) onde – em que
d) em que – posto que
e) já que – porque



Um aluno, cuja formação em língua portuguesa está circunscrita ao que é ensinado nos compêndios de gramática, teria muita dificuldade em saber qual parte da gramática deveria estudar para responder corretamente a questão. Seria a seção de classes de palavra? O aluno deveria estudar a classe dos pronomes até chegar aos pronomes relativos? Deveria estudar a classe das conjunções? Ou deveria estudar período composto por coordenação e subordinação? Na verdade, tudo isso! Para ser mais preciso, o aluno já deveria saber tudo isso, para ser capaz de avançar ao próximo nível: o da construção e reconstrução do sentido, saber exigido nas atividades de leitura e produção de texto.

O item avaliativo citado logo acima não tem o mínimo interesse em verificar se o candidato sabe ou não que o primeiro espaço deve ser preenchido por um pronome relativo e o segundo por uma conjunção subordinativa. O que se pretende avaliar é se o aluno consegue mobilizar os conhecimentos que tem sobre os conectivos para aplicá-los na elaboração de um período coerente e coeso.

Realmente, o cenário para quem está se preparando para concurso não é muito fácil. Parece haver mesmo uma discrepância enorme entre o que é ensinado nas escolas e cursinhos e o que é efetivamente cobrado nas provas. Esse distanciamento revela a diferença que há entre o lugar teórico de onde partem os elaboradores da prova e o lugar teórico de onde partem os professores. Os elaboradores de itens avaliativos de língua portuguesa para os grandes concursos normalmente são professores-pesquisadores que tem formação acadêmica em nível de mestrado e/ou doutorado, nas áreas de Letras ou Linguística. Eles partem de teorias e abordagens de ensino-aprendizagem de língua mais recentes, desenvolvidas no interior da ciência Linguística. Do outro lado do processo estão professores aulistas, especializados em transformar conhecimentos complexos em fórmulas simples, a fim de facilitar a apreensão via memorização. A maioria desses professores tem apenas graduação e, para piorar a situação, em alguns casos, a graduação é em Direito e não em Letras. É muito comum ver, nas escolas e cursinhos, aulas de língua portuguesa enfocando conteúdos baseados em teorias e abordagens linguísticas tradicionais (da gramática) já superadas no campo da Linguística Teórica e Aplicada.

Escrevi este artigo no intuito de tornar público essa polarização teórica e, com isso, conscientizar o concurseiro da necessidade de buscar uma formação em língua portuguesa que esteja em consonância com as teorias da Linguística Teórica e Aplicada. Ressalto o conselho que dei acima e acrescento mais um: 1) Procure estudar algo além da gramática tradicional; 2) Fuja do professor que só sabe gramática.

Aproveitando a deixa, aqui vai uma dica para você que quer testar se seu professor de língua portuguesa sabe apenas gramática. Faça a seguinte pergunta para ele: “O que você achou de toda aquela polêmica criada pela mídia em torno do livro didático “Por uma vida melhor”, da professora Heloísa Ramos?” Se o professor se posicionar do lado da mídia (que demonizou o livro, dizendo que a professora estava ensinando o brasileiro a falar errado), isso é um forte indício de que ele sabe muito pouco (ou quase nada mesmo) sobre Linguística Teórica e Aplicada. Fuja desse professor.

Graduado em Letras e Teologia, Mestre e Doutorando em Linguística pela UnB
Docente de Língua Portuguesa e Linguística na Universidade Estadual de Goiás (UEG) e Centro Universitário de Anápolis (UniEvangélica)


[1] Este artigo está completamente fora da temática desenvolvida no meu blog e não tenho intenção de continuar falando sobre o tema. Resolvi escrevê-lo e publicá-lo depois que um amigo concurseiro me pediu uma opinião sobre o que ele deveria estudar para sair bem nas provas de língua portuguesa. Na verdade, não foi só um amigo. Várias pessoas vêm me fazendo perguntas sobre quais conteúdos de língua portuguesa devem estudar para sair bem em concursos. Aqui está uma resposta um pouco mais elaborada, com algumas explicações técnicas. Espero que este texto ajude meus amigos concurseiros em alguma coisa. Um abraço a tod@s e boa sorte.

3 comentários:

  1. Um texto esclarecedor! Obrigado por ajudar a pequenino, como eu, que foi severamente prejudicados por um sistema injusto e perverso!
    Um grande abraço, mestre!
    Amilton Freitas

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    Respostas
    1. Adorei o texto Sóstenes! E vejo que alguns cursinhos já começam a ver que algumas coisas mudaram. Digo isso porque trabalho em alguns cursinhos e vejo que eles estão percebendo a importância do texto em si. Agora existe uma disciplina em alguns de "Texto", que na verdade seria a Interpretação de Texto. Isso já seria um pequeno passo para se fugir da gramática tradicional pura.

      Mostrar a importância da leitura de do texto em todas as disciplinas, e que em algumas questões, apenas a leitura atenta já te mostra a resposta, sem que seja necessário perder tempo fazendo contas.

      Essa disciplina veio em função do ENEM que com sua mudança e grande aceitação, deu uma modificada (e na verdade tem que dar!) nos cursinhos.

      É sempre necessário olhar o modo como as provas de vestibular e concurso veem sendo feitas.

      Ficar aquém não vale a pena.

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  2. Adorei o texto Sóstenes! E vejo que alguns cursinhos já começam a ver que algumas coisas mudaram. Digo isso porque trabalho em alguns cursinhos e vejo que eles estão percebendo a importância do texto em si. Agora existe uma disciplina em alguns de "Texto", que na verdade seria a Interpretação de Texto. Isso já seria um pequeno passo para se fugir da gramática tradicional pura.

    Mostrar a importância da leitura de do texto em todas as disciplinas, e que em algumas questões, apenas a leitura atenta já te mostra a resposta, sem que seja necessário perder tempo fazendo contas.

    Essa disciplina veio em função do ENEM que com sua mudança e grande aceitação, deu uma modificada (e na verdade tem que dar!) nos cursinhos.

    É sempre necessário olhar o modo como as provas de vestibular e concurso veem sendo feitas.

    Ficar aquém não vale a pena.

    Cindy Michelle

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