quinta-feira, 8 de março de 2012

A poesia não reside no poema; está na alma.


“Não, a poesia não é uma coisa, não é o poema [...]. A poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer.

Esse tremor pode ser tristeza, riso, beleza, silêncio. Emily Dickinson, a solitária poeta norte-americana, escrevendo a um amigo, revelou-lhe o que era, para ela, a marca da poesia: ‘Quando leio um texto e me sinto tão fria que nenhum fogo pode me aquecer, sei que aquilo é poesia. Se leio um texto e sinto como se o topo da minha cabeça me tivesse sido arrancado, sei que aquilo é poesia’. Ela não mencionou nenhuma propriedade formal como ritmo ou rima como o essencial da poesia. Ela mencionou algo que acontece com o corpo quando tocado pela palavra poética.

Poesia é música. Por isso é preciso lê-la em voz alta. Ouve-se sempre uma música nos interstícios das palavras do poeta. ‘(...) e a melodia/ que não havia/ se agora a lembro/ faz-me chorar’. Era assim que Fernando Pessoa sentia”.


[Rubem Alves. Desfiz 75 anos. Campinas: Papirus, 2009. p. 27-28].

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