sábado, 31 de março de 2012

Tributo aos mentores

Comparo a vida à experiência de um claustrófobo preso numa caverna escura. Do ponto de vista existencial, raramente experimentamos a vida a partir de um ambiente amistoso, favorável, extraordinariamente iluminado e livre.

Nosso drama se desenvolve num habitat incrivelmente hostil. O mundo em que vivemos, tanto natural quanto social, não está para brincadeira. Além disso, encaramos a vida sozinhos. Não desconsidero o papel da sociedade na formação e manutenção do sujeito, mas penso que os dramas existenciais de uma pessoa são, em última instância, uma preocupação dela mesma. Não há ninguém além de mim que experimente a vida tal como experimento. Partilhamos um ecossistema bionatural e um enorme conjunto de sistemas sociais, culturais e cognitivos. Mas há na vida de cada pessoa algo exclusivo, intransferível: a existência do seu eu.

Usando como base a metáfora da caverna, eu diria que três condições governam a vida individual: solidão, aprisionamento e escuridão. A grande saga de cada um é rumar à abertura da caverna. Nossa vida é, na verdade, uma grande peregrinação por vielas escuras, numa busca desesperada pela saída. Gastamos os nossos dias rodopiando, indo, vindo, subindo e descendo pedras, algumas vezes sem qualquer senso de direção, apenas com um objetivo: chegar à porta que dá acesso a uma vida plena, livre e sem ameaças. E essa abertura existe?

Jamais duvidei de que haja uma saída para nossa busca existencial, só tenho dificuldade em saber onde ela está e como é. É verdade que existem alguns mapas, algumas pistas e apontamentos que nos indicam o caminho. Mas como podemos lê-los se está tudo escuro? Saber que há em nossas mãos pistas que indicam o caminho de saída e mesmo assim permanecer presos, pode nos deixar ainda mais angustiados e exauridos.

O desespero existencial que nos atordoa só é amenizado quando um tênue fio de luz rompe por entre alguma fresta. É um fio de luz tão frágil, tão fugaz, que em pouco tempo se esvai. Mas é suficiente para nos fazer olhar repentinamente para o mapa e para o nosso entorno. Por um instante nos damos conta de onde estamos e qual o próximo passo. Depois voltamos a peregrinar novamente pelos labirintos da caverna. Subimos e descemos até outro fio de luminosidade romper por entre as pedras e nos encher de esperança outra vez.

De onde vêm esses fios de luz, tão frágeis, tão tênues, tão fugazes, mas tão essenciais para nossa odisseia existencial? Vêm de pessoas que conseguiram ir adiante; pessoas que acumularam tantas andanças pela caverna ao ponto de conhecerem detalhadamente cada pedra, cada buraco, cada fresta. Essas pessoas são mentores que lançam luz sobre os mapas que estão diante da nossa vida diária, ajudando-nos a interpretá-los. São pessoas que se doaram para conhecer a caverna a fim de ajudar outros. Por seus medos atenuam o medo, por sua bravura fazem nascer coragem, por suas dores transformam seus próprios sangues em unguentos que curam feridas. Somos todos carentes de mentores.

Precisamos de alguém que nos ajude a enfrentar o drama da existência. Perambular pelos não-destinos de um não-caminho numa caverna escura, e ao sabor de um marasmo não-ventoso, esse é o fim de quem não encontra, sequer um, mentor durante a vida. Quem são seus mentores? Você já encontrou pelo menos um? Há pelo menos uma pessoa que pode ajudá-lo a decifrar o mapa de sua vida? Caso ainda não tenha sequer um mentor, desespere-se ainda mais porque a vida não é mesmo amistosa.


sábado, 24 de março de 2012

Você sabe o que é gratidão?


voce sabe o que e gratidão bem gratidão e semos felizez com o que nos temos tipo se eu tevese uma boneca e o meu amigo tivese um selular e eu quisece o selular dele mas tinha um problema o selular não era meu então eu tinha que ser grata mas como eu faria isto então eu pemsei pensei e pensei e ai eu tive uma ideia vocês queren que eu conte a minha ideia ta eu vou contar a minha ideia foi ser grata ai que eu vou mostra o que e gratidão bem gratidão e ser feliz com o que voce tem e não com o que o seu amigo tem bem voutando a historia bem ai eu fiquei feliz com o que eu tinha e fim então não foi que eu fiquei feliz com o que eu tinha na historia então voces entenderão o que e gratidão então tchau.
Ana Gabriela Lima
É filha de Sostenes Lima e Priscilla Lima, tem 5 anos e faz o 1º ano

Cometários de um pai encantado


Este é o primeiro artigo da Ana Gabriela. Ela o escreveu espontaneamente hoje pela manhã. Estávamos nós dois no escritório. Eu escrevia. Ela, então, ligou o computador e pediu para que eu abrisse o aplicativo de texto. Ela começou a escrever e, eventualmente, me perguntava como era grafia de alguma palavra. Fiquei tão orgulhoso do texto, que resolvi publicar aqui, com o consentimento dela, é claro. 

Devo fazer um pequeno esclarecimento para aqueles que acham que eu deveria ter revisado o texto e publicado apenas a versão revista. A mensagem e a articulação de ideias desenvolvidas no artigo são muito mais importantes que ortografia e pontuação. 

A Ana Gabriela terá muitas oportunidades para aprender ortografia e pontuação ao longo de sua vida escolar. Neste momento, o que importa é garantir a ela o gosto de escrever. Devo estimulá-la a escrever de tudo - de histórias a artigos de opinião. Ela deve se sentir segura para escrever o que quiser sem se sentir censurada. 

Sou linguista e trabalho com teorias de aquisição da língua escrita e letramento. Posso garantir, a partir de um amplo respaldo teórico e empírico, que a ênfase em questões gramaticais e ortográficas nessa fase da vida escolar só atrapalha o desenvolvimento da capacidade e do prazer de escrever.

Se você, leitor/a pai ou mãe, me permite um conselho, aí vai: diante das primeiras produções de seu filho, não superestime questões gramaticais ou ortográficas. Valorize o texto, a narrativa, o conteúdo. A aprendizagem da norma gramatical virá a seu tempo.

A seguir apresento o texto revisto. Inseri a pontuação para facilitar a compreensão do texto e para uma melhor visualização do encadeamento das orações e períodos.

Você sabe o que é gratidão? Bem, gratidão é sermos felizes com o que nós temos. Tipo: se eu tivesse uma boneca e o meu amigo tivesse um celular e eu quisesse o celular dele. Mas tinha um problema. O celular não era meu, então eu tinha que ser grata.
Mas como eu faria isto, então? Eu pensei, pensei e pensei e aí eu tive uma ideia. Vocês querem que eu conte a minha ideia? Tá, eu vou contar: a minha ideia foi ser grata. Aí que eu vou mostrar o que é gratidão. Bem, gratidão é ser feliz com o que você tem e não com o que o seu amigo tem.
Bem, voltando á história. Bem, aí eu fiquei feliz com o que eu tinha e fim. Então, não foi que eu fiquei feliz com o que eu tinha na história? Então, vocês entenderam o que é gratidão? Então, tchau!”.

Como nasce um poema


A inspiração gesta o poema.
Palavras agitadas emergem caoticamente.
Uma turba de palavras impetuosas se apresenta
Mostrando toda a sua potência poética.

Põe-se, então, o poeta transpirar enquanto acolhe palavras chucras e rebeldes,
Mas carregadas de desejo de ser poesia.
Depois de um trabalho absorvente,
O poeta põe ordem no caos
E doma as palavras: nasce então poema.



quarta-feira, 21 de março de 2012

Para onde corre o eu-palavras?

De que matéria se faz o homem?
De palavras. Eu e você somos palavras e nada mais.

Vejo-me escorrendo como palavras liquefeitas.
Todos os dias escorro vida abaixo (ou seria vida acima?)
Para onde vou?
Meu rio-palavras segue caudalosamente para o Mar-Palavra.
Lá eu-palavras me se diluirei.
Então me integrarei ao Tu-Palavra.

"Sou concurseiro. O que devo estudar para sair bem em língua portuguesa?"[1]



As provas de língua portuguesa dos grandes concursos mudaram bastante nos últimos anos. Isso tem deixado o concurseiro à deriva, sem saber o que deve estudar para sair bem. Quem insiste em estudar apenas a famosa gramática vem se decepcionando a cada prova. Isso porque é bastante raro encontrar atualmente itens avaliativos (como são chamadas tecnicamente as questões) que abordem objetos gramaticais isoladamente: classes de palavra (substantivo, artigo, adjetivo, preposição, pronome etc.), termos da oração (sujeito, predicado, objeto etc.), períodos compostos (por coordenação e subordinação), tipos de oração (coordenadas sindéticas, subordinadas adjetivas, subordinadas substantivas, subordinadas adverbiais) etc.

A mudança na estrutura das provas de língua portuguesa é visível principalmente nos exames elaborados pelo CESPE, Fundação Carlos Chagas e FGV. Nas duas últimas décadas, essas instituições começaram a incorporar em suas provas uma série de postulados teóricos provenientes da Linguística Teórica e Aplicada. Esses pressupostos, apesar de serem amplamente conhecidos no meio acadêmico, ainda são bastante desconhecidos do público em geral.

Desde os anos 80, estudos linguísticos vêm mostrando que adquirir conhecimentos em Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB) e metalinguagem (conteúdos difundidos nos compêndios de gramática tradicional) não garante a aprendizagem efetiva da leitura e da produção de texto. Saber nomenclatura gramatical e metalinguagem não leva, necessariamente, o aluno a desenvolver os conhecimentos linguístico-pragmáticos de que precisa para ampliar sua competência textual (capacidade de ler e produzir texto). O que faz com que o aluno aprenda a ler e escrever competentemente é o trabalho com o texto e o discurso, e não o trabalho com a análise de frases isoladas, como é comum nos estudos gramaticais tradicionais.

Nos últimos anos, essas e outras descobertas da Linguística Teórica e Aplicada passaram ter enorme influência sobre os itens avaliativos dos grandes concursos. As questões gramaticais começaram a ser deixadas de lado, sendo substituídas por questões textuais, discursivas e semânticas. Os exames passaram a exigir dos candidatos conhecimentos que comprovem competência em leitura e competência em produção de texto, e não mais apenas o domínio da Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB).

Infelizmente, as escolas e os cursinhos preparatórios não conseguiram acompanhar essas mudanças. A maior parte deles ainda enfrenta muita dificuldade em ensinar língua portuguesa a partir de uma abordagem discursivo-textual, aquela que enfatiza os conhecimentos linguístico-pragmáticos (mobilizados quase espontaneamente quando se lê e quando se escreve). A abordagem tradicional, aquela que enfatiza os conhecimentos metalinguísticos (aqueles aprendidos em gramáticas tradicionais e que servem para fazer análises morfológicas e sintáticas) ainda é muito utilizada.

Como as teorias linguísticas ainda estão muito circunscrita aos ambientes acadêmicos, as escolas e os cursinhos acabam ensinando apenas os conteúdos disponíveis nas gramáticas tradicionais. Nem é preciso dizer que isso prejudica o aluno. Ele acredita que, se estudar e aprender o que está sendo ensinado, sairá bem nas provas de língua portuguesa. Mas não é bem isso que acontece. Quando um candidato, que teve acesso apenas ao ensino de língua portuguesa tradicional, se depara com uma prova que exige outros conhecimentos, ele mal consegue entender o que item avaliativo está pedindo. Como não tem consciência de que o problema está na defasagem teórica da escola ou do cursinho, o candidato acaba se culpando por achar que saiu mal porque estudou pouco. Tem convicção de que deveria ter estudo um pouco mais a gramática. Mal sabe ele que o problema não foi ter estudado pouco a gramática, mas sim ter estudado apenas a gramática tradicional.

A minha primeira sugestão para quem é concurseiro: estude a gramática, mas não fique só nela. Saber apenas o que os compêndios de gramática ensinam não mais garante sucesso nas provas de português. Volto a frisar o motivo: os atuais itens avaliativos (questões discursivas ou de múltipla escolha) partem do pressuposto de que o candidato já domina saberes como classes de palavra, termos da oração (sujeito, objeto), tipos de oração etc. Portanto, os itens avaliativos não têm mais o objetivo de medir o conhecimento que o candidato tem dessas questões. O que se avalia agora é a capacidade que o candidato tem de mobilizar o saber sobre classes de palavra e outros objetos gramaticais, tendo em vista a construção de uma leitura mais profunda e crítica, e a elaboração de um texto denso e formalmente bem escrito.

Veja-se o item avaliativo a seguir como exemplo:


Marque a sequência que completa corretamente as lacunas para que o trecho a seguir seja coerente.

A visão sistêmica exclui o diálogo, de resto necessário numa sociedade ________ forma de codificação das relações sociais encontrou no dinheiro uma linguagem universal. A validade dessa linguagem não precisa ser questionada, ________ o sistema funciona na base de imperativos automáticos que jamais foram objeto de discussão dos interessados. (FREITAG, Barbara. A teoria crítica ontem e hoje. p. 61. Com adaptações)

a) na qual – todavia
b) cuja – já que
c) onde – em que
d) em que – posto que
e) já que – porque



Um aluno, cuja formação em língua portuguesa está circunscrita ao que é ensinado nos compêndios de gramática, teria muita dificuldade em saber qual parte da gramática deveria estudar para responder corretamente a questão. Seria a seção de classes de palavra? O aluno deveria estudar a classe dos pronomes até chegar aos pronomes relativos? Deveria estudar a classe das conjunções? Ou deveria estudar período composto por coordenação e subordinação? Na verdade, tudo isso! Para ser mais preciso, o aluno já deveria saber tudo isso, para ser capaz de avançar ao próximo nível: o da construção e reconstrução do sentido, saber exigido nas atividades de leitura e produção de texto.

O item avaliativo citado logo acima não tem o mínimo interesse em verificar se o candidato sabe ou não que o primeiro espaço deve ser preenchido por um pronome relativo e o segundo por uma conjunção subordinativa. O que se pretende avaliar é se o aluno consegue mobilizar os conhecimentos que tem sobre os conectivos para aplicá-los na elaboração de um período coerente e coeso.

Realmente, o cenário para quem está se preparando para concurso não é muito fácil. Parece haver mesmo uma discrepância enorme entre o que é ensinado nas escolas e cursinhos e o que é efetivamente cobrado nas provas. Esse distanciamento revela a diferença que há entre o lugar teórico de onde partem os elaboradores da prova e o lugar teórico de onde partem os professores. Os elaboradores de itens avaliativos de língua portuguesa para os grandes concursos normalmente são professores-pesquisadores que tem formação acadêmica em nível de mestrado e/ou doutorado, nas áreas de Letras ou Linguística. Eles partem de teorias e abordagens de ensino-aprendizagem de língua mais recentes, desenvolvidas no interior da ciência Linguística. Do outro lado do processo estão professores aulistas, especializados em transformar conhecimentos complexos em fórmulas simples, a fim de facilitar a apreensão via memorização. A maioria desses professores tem apenas graduação e, para piorar a situação, em alguns casos, a graduação é em Direito e não em Letras. É muito comum ver, nas escolas e cursinhos, aulas de língua portuguesa enfocando conteúdos baseados em teorias e abordagens linguísticas tradicionais (da gramática) já superadas no campo da Linguística Teórica e Aplicada.

Escrevi este artigo no intuito de tornar público essa polarização teórica e, com isso, conscientizar o concurseiro da necessidade de buscar uma formação em língua portuguesa que esteja em consonância com as teorias da Linguística Teórica e Aplicada. Ressalto o conselho que dei acima e acrescento mais um: 1) Procure estudar algo além da gramática tradicional; 2) Fuja do professor que só sabe gramática.

Aproveitando a deixa, aqui vai uma dica para você que quer testar se seu professor de língua portuguesa sabe apenas gramática. Faça a seguinte pergunta para ele: “O que você achou de toda aquela polêmica criada pela mídia em torno do livro didático “Por uma vida melhor”, da professora Heloísa Ramos?” Se o professor se posicionar do lado da mídia (que demonizou o livro, dizendo que a professora estava ensinando o brasileiro a falar errado), isso é um forte indício de que ele sabe muito pouco (ou quase nada mesmo) sobre Linguística Teórica e Aplicada. Fuja desse professor.

Graduado em Letras e Teologia, Mestre e Doutorando em Linguística pela UnB
Docente de Língua Portuguesa e Linguística na Universidade Estadual de Goiás (UEG) e Centro Universitário de Anápolis (UniEvangélica)


[1] Este artigo está completamente fora da temática desenvolvida no meu blog e não tenho intenção de continuar falando sobre o tema. Resolvi escrevê-lo e publicá-lo depois que um amigo concurseiro me pediu uma opinião sobre o que ele deveria estudar para sair bem nas provas de língua portuguesa. Na verdade, não foi só um amigo. Várias pessoas vêm me fazendo perguntas sobre quais conteúdos de língua portuguesa devem estudar para sair bem em concursos. Aqui está uma resposta um pouco mais elaborada, com algumas explicações técnicas. Espero que este texto ajude meus amigos concurseiros em alguma coisa. Um abraço a tod@s e boa sorte.

terça-feira, 20 de março de 2012

Névoa: gotículas ou versos diminutos

A chuva também faz poesia serena.
Ela dispersa versos diminutos no ar,
Fazendo deslizar sobre a terra
Uma névoa que lhe acaricia as envergaduras convexas.


Névoa serena

O que sinto?
Uma brisa de névoa me atravessa agora.
Ela se valeu de uma pequena fresta na janela
Para entrar casa adentro e se dispersar suavemente,
Espalhando no ar um cicio terno e molhado.

A bruma não é renitente
Ela se deixa desmanchar com serenidade.
Ao tocar minha pele, 
Que bravamente tenta se manter cálida,
Esse vento frio e molhado candidamente se aquieta.

Uma noite de névoa

Uma luz dourada corta a névoa
A noite está vazada.
A escuridão recua,
Diante de uma neblina diáfana e uma luz imponderável.
Elas trazem à noite uma beleza igual à da lua e das estrelas
Que hoje podem e merecem descansar.

Uma noite sem estrelas e sem luar.
Que beleza há?
A neblina se casa com a luz
Eis a poética de uma noite de névoa dispersa pelo ar.

sábado, 17 de março de 2012

Ambiguidades da memória


Revisitar o passado é uma atividade cheia de ambiguidades. A memória nos coloca diante de alegrias, lugares, pessoas, cheiros, sabores e formas encantadas. Mas também nos leva a encarar outra vez abismos, monstros e dores que, com o passar do tempo, se tornaram cada vez mais danados e medonhos. De vez em quando temos de revisitar a memória, não apenas para degustar o que se encantou, mas também para experimentar o sabor amargo e indigesto daquilo que se deteriorou. Só mesmo uma jornada com desejo de mudança pode nos garantir a reinvenção do passado, harmonizando e aconchegando os desprazeres e prazeres da memória.

Como é bom lembrar de certos cheiros que, embora tenham se desmanchado como nuvens, se encontram cristalizados como pedaços de pedra na memória. Esses cheiros são irrepetíveis; a memória os condensou numa fórmula irreplicável.

Como é bom lembrar de lugares que, embora tenham sido reconstruídos a cada ano transcorrido, estão  intactamente conservados na memória: uma casa, um quarto, um curral, um trieiro, uma ribanceira, uma rua sem pavimentação, uma rua calçada com blocos de concreto na forma hexagonal, uma igreja, um quintal. São tantos lugares... Eles foram todos suplantados pela história, mas a memória tratou de conservá-los para eu poder revisitá-los sempre que a saudade bate à porta.

Quando, depois de adultos, voltamos a algum lugar de nossa infância, frequentemente somos tomados por um sentimento de estranheza, de perda, de traição, de vazio. Não sei descrever com clareza esse sentimento. É difícil captar algumas nuances de sua estrutura. Penso que ele é um grito de resistência da memória. Quando confrontada por um não-lugar, um lugar que não é seu lugar, a memória me diz: “Não permita que eu seja desfeita, corrompida ou substituída; não troque o lugar encantado que está em mim por este lugar frio, retalhado e artificial que que está diante dos seus olhos”.

Lembrar também pode ser uma dança desengonçada com a dor. A memória também tem seus lugares, pessoas e experiências medonhas.  Como dói lembrar... Neste momento, não estou querendo me lembrar daquilo que dói lembrar.


terça-feira, 13 de março de 2012

A invenção de um modo [por Adélia Prado]


Entre paciência e fama quero as duas,
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: "Ora, isso é pras mulheres de São Paulo"
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque que tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.
Em busca de um conceito de relação.

Adélia Prado

Theopoiesis de Adélia Prado


"Minha experiência de fé carrega e inclui esta marca. Qual a importância da religião? Dá sentido à minha vida, costura minha experiência, me dá horizonte. Acredito que personagens são álter egos, está neles a digital do autor. Mas, enquanto literatura, devem ser todos melhores que o criador para que o livro se justifique a ponto de ser lido pelo seu autor como um livro de outro. Autobiografias das boas são excelentes ficções."

Adélia Prado

segunda-feira, 12 de março de 2012

Por uma teologia cristã aberta


Vivemos num mundo aberto, com janelas e portas para todos os lados. O século XX nos garantiu uma série de conquistas - algumas boas e outras nem tanto - que abriram o mundo em definitivo. A instauração de um universo aberto e sem fronteiras constitui sem dúvida uma das grandes sagas da humanidade. Perseguida há séculos, essa abertura só foi definitivamente alcançada nos últimos trinta anos, depois de duas grandes revoluções: a da informação e a epistemológica.

As duas décadas de transição de século (anos 1991 a 2010) marcaram o estágio final da implantação de um novo paradigma de sociedade. Esse paradigma, denominado de sociedade da informação, veio na esteira de outros que coloriram (ou acinzentaram) a tela da história: sociedade industrial, sociedade mercantil, sociedade feudal etc.

Não sou propriamente um entusiasta das novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), mas é inegável que a revolução que se instaurou a partir delas foi fundamental para se consolidar a abertura do mundo. Devo alertar que não tenho intenção de analisar aqui as implicações dessa abertura, mas apenas constatá-la, e com o simplismo que o espaço deste artigo requer.

Desde a emergência da grande rede (world wide web) passamos a viver cotidianamente uma experiência social e cultural global. Desde então, não apenas teorizamos uma comunidade global, com fronteiras locais fluidas; nós a experimentamos. Nossos domínios socioculturais locais se encontram amplamente abertos a uma interlocução humana global, que se imiscuiu em nossa interlocução nacional. Um novo senso de agrupamento humano, global e supranacional, está sendo forjado nas novas gerações.

A implantação de um mundo aberto contou com outra frente de ação, além da que se processou no âmbito das tecnologias de informação e comunicação. O discurso científico também mudou sua concepção do mundo. Até o começo do século XX, o universo era lido e entendido majoritariamente sob a ótica da física clássica newtoniana. Era concebido, portanto, como uma grande máquina com engrenagens meticulosa e teleologicamente encaixadas, funcionando sob o comando de leis estáveis e universais. O mundo newtoniano era fechado. Essa concepção foi vigorosamente desafiada pela teoria da relatividade proposta por Henri Poincaré e desenvolvida por Albert Einstein.

Não sou físico, portanto, não tenho condições e nem a pretensão de mostrar como se operou essa mudança epistemológica. Contento-me em dizer que os dois elementos (tempo e espaço), que sustentavam a concepção do universo como uma entidade mecânica e fechada, sofreram um golpe drástico. Simplificando ao máximo, podemos dizer que a teoria da relatividade nos convenceu de que não há medições universais e absolutas para tempo e espaço: tudo depende do ponto de referência. Eureca: o universo começou a se abrir para descrições e interpretações locais.

A mudança epistemológica que começou no âmbito da física se espalhou, vindo a se tornar plena e radical nos estudos epistêmicos.  Foram as epistemologias pós-modernas que, de fato, abriram as fronteiras do mundo cognoscível. Até então havia certo consenso em torno da pretensão de objetividade propalada pelo paradigma epistemológico positivista, oriundo das ciências naturais e imitado nas ciências sociais. Conferia-se cientificidade apenas à investigação que fosse capaz de construir um saber objetivo, supostamente isento de intervenção e participação subjetiva e/ou histórico-social.

A partir dos anos de 1960, um grupo de intelectuais (não homogêneo, é claro) liderados por Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Michel Foucault entre outros, sob forte influência de Nietzsche e Heidegger, começou a questionar a validade de certos postulados epistêmicos,  tidos até então como absolutos. Desse movimento emerge um novo paradigma, cuja principal base epistêmica consiste na afirmação de que todo conhecimento científico, seja ele natural ou social, é sócio-historicamente construído. Logo, não há mais clima, no campo da filosofia da ciência, para a defesa de uma ciência alheia ao contexto em que opera. Não se pode mais acreditar que a ciência seja capaz de isolar objetos da realidade e analisá-los sem afetá-los, sem modificar o mundo e sem contar com a participação subjetiva do cientista. Sujeito e objeto são partes constituintes de um mesmo do mundo. Qualquer ação de um sobre o outro afeta ambos. Nas epistemologias pós-modernas, a separação radical entre sujeito cognoscente e objeto cognoscível é amenizada, senão diluída.

O paradigma epistemológico emergente, termo utilizado e analisado por Boaventura de Sousa Santos,  consolidou no âmbito da(s) ciência(s) a visão de que o mundo está aberto. Qualquer manipulação científica da realidade lhe altera a estrutura. Toda vez que um cientista descreve um objeto, tanto o objeto quanto o cientista são alterados. Assim, toda pesquisa apresenta os resultados da análise de um estado natural e/ou social já superado. Portanto, qualquer afirmação científica sobre a realidade natural e social, com contornos fechados e com pretensão à conclusibilidade e objetividade, não passa de um mito, facilmente desmantelado por análises epistêmicas e discursivas.

A concepção de que o mundo é aberto tem implicações dramáticas para a teologia. Não é fácil admitir no campo teológico a fluidez e efemeridade da realidade, especialmente a realidade ulterior. Isso porque a teologia, especialmente a dogmática, é construída sobre fundamentos absolutos. A teologia precisa se reinventar para dar conta da abertura do mundo. 

Nem é preciso repetir que toda ruptura paradigmática só é alcançada depois de certo período de conflito. Thomas Kuhn nos mostrou isso com muita lucidez em  Estrutura das revoluções científicas. E a teologia começa a ver esse conflito estourar em  vários domínios e com diversas faces. Embora bastante resistente, a teologia cristã não tem conseguido exorcizar a influência do paradigma emergente em suas paragens. A visão de que tudo está fechado (Deus, homem, universo, futuro etc.) começa a sofrer duros golpes. Já há diversas formulações teológicas apontando para um Deus aberto, um universo aberto, um ser humano aberto, uma bíblia aberta, um futuro aberto, uma comunidade do reino de Deus aberta etc.

Eu diria que é impossível continuar a pensar num mundo fechado quando há um apelo, quase irresistível, de experiências cotidianas sinalizando um mundo aberto. A teologia só se mostrará relevante num universo aberto se for capaz de dialogar com essa abertura; entendê-la e não negá-la. Os fechamentos teológicos (fundamentalismos) são cada vez mais resistidos; e a resistência não se dá mais apenas no nível da recusa intelectual. Têm surgido diversos movimentos político-sociais organizados para combater as manifestações e produções teológicas que se fundamentam em esquemas teológicos fechados. Parece não haver outra saída: ou abrimos a teologia cristã ou ela se tornará completamente irrelevante, além de severamente combatida. É preciso abrir caminho para uma teologia aberta.

domingo, 11 de março de 2012

O carisma enreda, o caráter constrói


“Não procurem atalhos para Deus. O mercado está transbordando de fórmulas fáceis e infalíveis para uma vida bem-sucedida que podem ser aplicadas em seu tempo livre. Não caiam nesse golpe, ainda que multidões o recomendem. O caminho para a vida – para Deus! – é difícil e requer dedicação total.

Tomem cuidado com os pregadores muito sorridentes: a sinceridade deles é fabricada. Eles não perderão nenhuma oportunidade para depenar vocês. Não fiquem impressionados com o carisma. Procurem o caráter. Importa o que os pregadores são, não o que dizem. Um líder de verdade jamais irá explorar as emoções ou as economias do povo. As árvores doentes com seus frutos podres serão cortadas e queimadas”.

[Eugene Peterson. A mensagem: a bíblia em linguagem contemporânea. São Paulo: Vida, 2011. p. 1386. Mateus 6.13-20]

quinta-feira, 8 de março de 2012

A poesia não reside no poema; está na alma.


“Não, a poesia não é uma coisa, não é o poema [...]. A poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer.

Esse tremor pode ser tristeza, riso, beleza, silêncio. Emily Dickinson, a solitária poeta norte-americana, escrevendo a um amigo, revelou-lhe o que era, para ela, a marca da poesia: ‘Quando leio um texto e me sinto tão fria que nenhum fogo pode me aquecer, sei que aquilo é poesia. Se leio um texto e sinto como se o topo da minha cabeça me tivesse sido arrancado, sei que aquilo é poesia’. Ela não mencionou nenhuma propriedade formal como ritmo ou rima como o essencial da poesia. Ela mencionou algo que acontece com o corpo quando tocado pela palavra poética.

Poesia é música. Por isso é preciso lê-la em voz alta. Ouve-se sempre uma música nos interstícios das palavras do poeta. ‘(...) e a melodia/ que não havia/ se agora a lembro/ faz-me chorar’. Era assim que Fernando Pessoa sentia”.


[Rubem Alves. Desfiz 75 anos. Campinas: Papirus, 2009. p. 27-28].

Síntese da paz: palavras sob medida

Vivemos melhor depois que apaziguamos
Nossa relação com as palavras.
Estar em conflito com elas faz a alma adoecer.
Retê-las faz o espírito definhar.
Soltá-las a esmo faz
Nossas relações socioafetivas estremecerem.
Síntese da paz: palavras sob medida.

Sostenes Lima

domingo, 4 de março de 2012

Dança profética é a do Afroreggae


Há alguns anos começou no Brasil um “movimento profético”. Não sei bem de onde veio. Pra falar a verdade, não estou interessado em saber. Só estou escrevendo sobre esse tal movimento porque não aguento mais ver a palavra profético ser conspurcada pelo mercado religioso. Já notaram que tudo hoje em dia é profético: da adoração à riqueza. Fiz uma pequena busca no Google e, para minha certeza, encontrei uma lista enorme de práticas religiosas e litúrgicas grosseiramente associadas à palavra que dá nome a um agente social, cuja memória exige respeito: o profeta. Vejam as pérolas que achei:

Adoração profética
Louvor profético
Louvorzão profético
Música profética
Dança profética
Culto profético
Bandeira profética
Sacerdócio profético
Ministração profética
Unção profética
Campanha profética
Transe profético
Mover profético
Êxtase profético
Teatro profético
Coral profético
Entrega profética
Oração profética
Jejum profético
Línguas proféticas
Batismo profético
Ceia profética
Oferta profética
Prosperidade profética
Riqueza profética

Obviamente a lista está incompleta. Não dá pra esgotá-la. Esse pessoal é muito criativo e muito esperto.

Esse movimento todo em torno da palavra profético, infelizmente, não tem nada a ver com o resgate de um movimento social que surgiu na sociedade judaica monarquista há aproximadamente 2800 anos. O uso abundante da palavra profético nos nossos dias não passa de uma grande jogada de marketing. O discurso publicitário é estratégico por excelência. Age estrategicamente visando a propósitos específicos. Nos termos da distinção proposta por Habermas (1984), a publicidade está situada no campo da linguagem estratégica, muito mais que no campo da linguagem comunicativa[1].

“Novos negócios precisam de novas palavras. E quando o negócio é velho, mais ainda!”, diz pragmaticamente a publicidade.  Não há como continuar explorando indefinidamente um negócio sem renovar sua cara. É por isso que surgiram a “Nova Skin”, o “Novo Civic”, o “New Fiesta” etc. A publicidade tem como objetivo nos convencer de que tudo é novo. Porque, se é novo, precisamos comprar. As coisas que temos são velhas; já não servem mais. Somos enredados pela a ilusão de que é possível refrear o envelhecimento comprando coisas novas. O que ninguém diz é que o novo é apenas uma maquiagem verbal. A retórica publicitária faz com que coisas velhas sejam instantaneamente transformadas em novas, bastando renovar palavras ou inventar palavras novas. Sem os dotes retóricos, o que vemos é uma realidade bem diferente: tudo envelhece, até mesmo a palavra novo. Fico pensando sobre qual será o recurso publicitário que vai ser usado para vender o “Novo Civic” depois que o novo que há em seu nome envelhecer? Será que haverá um “Novo Novo Civic”? Bom, deixemos isso de lado e concentremos no que é da conta deste artigo.

Resumindo toda essa divagação sobre o discurso publicitário em uma única frase, teremos: não há como fazer um produto explodir no mercado sem colar nele uma buzzword. É preciso associar ao nome do produto uma palavra que vai dar cara ao negócio, que vai vendê-lo, que vai fixá-lo na mente do consumidor, que vai mobilizar revendedores e vendedores, que vai fortalecer as franquias, que vai ser inserida na missão e visão de empresas associadas etc. Sobretudo, é preciso criar uma identidade própria para o produto, capaz de torná-lo diferente de todos que estão disponíveis no mercado. Fairclough (2001) nos diz que  “as condições de mercado contemporâneas requerem  que séries de empresas comercializem produtos bem semelhantes; para estabelecer seus produtos como diferentes, sua identidade tem de ser construída”[2].

Pois é, o mercado gospel, sabendo disso, fez um investimento de peso na palavra profético. E logo percebeu que essa seria uma jogada de muito sucesso. O pessoal do mercado religioso evangélico notou que colar em seus produtos o adjetivo profético agrada o consumidor. Daí a invenção de coisas como “adoração profética”, “ministração profética”, “dança profética”, “louvor profético” e até  “riqueza profética. A palavra tem alcançado uma circulação quase viral no meio gospel brasileiro.

Estudos em análise do discurso nos mostram que a publicidade consegue êxito na tarefa de projetar comercialmente uma palavra através de três estratégias semântico-discursivas. A primeira consiste em inventar tanto a palavra (matéria sonora e gráfica) como o significado desejado. Lança-se então uma nova palavra no mercado linguístico. Podemos dizer, adotando os termos de Saussure, que são criados tanto o significante quanto o significado. A segunda consiste em inventar significados novos para uma palavra velha, mas sem desconstruir ou apagar os significados antigos. Constroem-se, assim, metáforas com a palavra. A terceira, muito mais audaciosa, consiste em esvaziar todo o significado de uma palavra já existente, deixando-a completamente líquida e plástica, sob o ponto de vista semântico, para que possa se adaptar a qualquer contexto, tanto textual e quanto discursivo. Essa terceira estratégia é mais ousada porque é muito difícil destituir os significados fundantes de uma palavra; é muito difícil fazer o interlocutor bloquear o histórico semântico de qualquer palavra que seja. Isso é quase uma proeza. Só mesmo a publicidade para conseguir tamanha façanha.

Pois foi essa última estratégia que o mercado gospel usou com a palavra profético. Arrancou dela sua história semântica, deixando-a esvaziada de todos os traços que a inserem no campo da militância social e política. O significado fundante desse vocábulo remete a uma prática sociopolítica desenvolvida em Israel, na época da monarquia. O profeta era um agente social que denunciava os desmandos praticados pelos poderosos do meio político, jurídico e religioso. Frequentemente reis, juízes e sacerdotes, empunhados da força que o poder lhes garantia, se embrenhavam na corrupção, explorando e oprimindo o povo. Quando a coisa se tornava insuportável, irrompia o profeta com a boca no trombone. Ele denunciava tudo e todos; desmascarava a corrupção e reclamava o direito dos oprimidos. O discurso profético era um manifesto recoberto de denúncia e exigência de libertação. Não é de surpreender que os profetas fossem alvo de terríveis perseguições.  Naquela época, tudo que era profético era frontalmente oposto à coroa, ao judiciário e ao clero. Para ser profeta era necessário haver disposição e coragem para desconstruir o discurso dessas três esferas públicas.

No profetismo de hoje, tudo essa memória sociopolítica construída um torno da palavra profeta é esvaziada. Para o mercado gospel, ser profético não significa nada. Não há intensão de manter ou agregar significado algum à palavra profético em si mesma. O que se quer é atribuir ao termo um valor comercial, tornando-o adaptável a qualquer produto religioso, especialmente àqueles já envelhecidos e com pouco apelo de consumo. Dizer que uma música é profética constitui uma estratégia muito eficiente para convencer o consumidor de que está diante de um produto religioso novíssimo, do qual tem extrema necessidade. Portanto, todo esse frisson em torno da palavra profético nada mais é do que uma jogada retórico-publicitária que visa impulsionar o consumo religioso. Colocar o termo profético ao lado de produtos religiosos como adoração, culto, música, dança, oração, campanha, unção etc. dá-lhes uma roupagem de novo, criando um apelo de consumo quase irresistível.

Não digo que não haja dança profética. Mas se existir não tem nada a ver com essas coreografias de mau gosto que a gente tanto vê nas igrejas evangélicas por aí. Dança profética, para ser profética de verdade, tem de ser uma prática sociopolítica. Nesse sentido, eu estou muito mais disposto a encarar a apresentação de um grupo de jovens ligado ao Afroreggae como um evento de dança profética (em virtude do projeto de transformação sociopolítica aí incorporado), do que a apresentação de um grupo de dança evangélico, que só pensa em liturgia e nada faz por mudança e transformação social.



Sostenes Lima
@Limasostenes
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[1] Jürgen Habermas. Theory of communicative action. London: Heinemann, 1984. v. 1.
[2] Norman Fairclough. Discurso e mudança social. Brasília: Editora UNB, 2001. p. 259.

sábado, 3 de março de 2012

Belém - A cidade do céu molhado

As nuvens percorrem os céus.
Quando estão fartas rumam pra Belém;
É hora de fazer nascer a chuva das duas.
De repente o céu da cidade fica pardo.
Um vento, ora suave, ora impetuoso, traz
Respingos que anunciam a chegada
De uma cascata que se dispersa por toda a abóboda da cidade
Para que ninguém fique de fora.

A chuva chega e torna a cidade plúmbea.
Filetes de água prateados escorrem céu abaixo,
Fazendo os barulhos da cidade silenciar.
Ouvem-se apenas o bramido e o estalo pujante dos pingos
Se encontrando com as coisas dos homens e da cidade.
A chuva estende as mãos à cidade e beija-a,
Fazendo juras de amor eterno
E selando uma aliança de retorno diário, às duas da tarde.

A chuva compõe a subjetividade da cidade;
Está ancorada em sua estrutura fundante.
A chuva está vividamente presente na cidade.
Por isso as pessoas não se incomodam com ela;
Caminham nela sem medo do molhado.
Muitos resistem ao uso do guarda-chuva para não
Perder a textura e o sabor dos pingos a rolar pela face até os lábios.
 A chuva faz pessoas se encontrarem, se tocarem e se abraçarem.
Há encontros de vida que só são possíveis por causa dela.

O belemense está integrado com a chuva.
Quando ele está dentro de casa,
Não resiste ao impulso de estender a mão pela janela
Para colher seu toque suave, a deslizar sobre a pele.
Em Belém chuva não é defeito;
É antes um efeito e um enfeite de sentido que compõem uma tela estupenda
Graciosamente pintada por Deus e pelos homens.
Viva a chuva de Belém.

Sobre gramáticos versus poetas

Quem sabe mais sobre língua?
Talvez o gramático.
Quem experimenta vividamente nossa língua de cada dia?
Certamente o poeta.
Quem sabe mais sobre a palavra e o ser humano?
Talvez o sacerdote e o teólogo.
Quem vive intensamente a realidade da palavra e do ser humano?
Certamente o teopoeta.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Sobre gramática versus poética

A gramática intimida a alma
A poética liberta a alma.

A gramática diz como viver na e pela língua, mas não vive
A poética simples e livremente vive.

A gramática trabalha com um pedaço envelhecido da língua, um dogma
A poética trabalha com a nossa língua viva de cada dia.

A gramática recorta a língua, agradando uns e excluindo muitos
A poética distende a língua, contrariando uns e alcançando todos.

Os sacerdotes da gramática vendem a própria alma para alimentar o dogma
Os sacerdotes da poética ganham a própria alma enquanto dão vida à verve.

Gramática e poética são o mesmo que religião e espiritualidade. É só mudar os nomes.


O profeta reclama o direito do oprimido


“Muitos séculos atrás, bem antes dos tempos de Cristo, surgiu entre os hebreus uma estranha estirpe de líderes religiosos, os profetas. Quem eram eles? Em geral as pessoas pensam que profetas são videntes dotados de poderes especiais para prever o futuro, sem muito o que dizer sobre o aqui e o agora. Nada mais distante da vocação do profeta hebreu, que se dedicava, com paixão sem paralelo, a ver, compreender, anunciar e denunciar o que ocorria no seu presente. Tanto assim que suas pregações estavam mais próximas de editoriais políticos de jornais que de meditações espirituais de gurus religiosos. Eles pouco ou nada se preocupavam com aquilo que vulgarmente consideramos como propriamente pertencendo ao círculo do sagrado: o cultivo das experiências místicas, das atitudes piedosas e das celebrações cerimoniais está praticamente ausente do âmbito dos seus interesses. Na verdade, boa parte de sua pregação era tomada pelo ataque às práticas religiosas dominantes em seus dias, patrocinadas e celebradas pela classe sacerdotal. E isto porque eles entendiam que o sagrado, a que davam o nome de vontade de Deus, tinha a ver fundamentalmente com a justiça e a misericórdia. Em suas bocas tais palavras tinham um sentido político e social que todos entendiam. Para se compreender o que diziam não era necessário ser filósofo ou teólogo. Sua pregação estava colada à situação dos homens comuns. Que situação era esta?

O Estado crescia cada vez mais, tornando-se centralizado e concentrado nas mãos de uns poucos. E, como sempre acontece, quando o poder de alguns aumenta, o poder dos outros diminui. As pequenas comunidades rurais, que em outras épocas haviam sido o centro da vida do povo hebreu, se enfraqueciam em decorrência dos pesados impostos que sobre elas recaíam. A fraqueza do povo crescia na medida em que se avolumava o poder dos exércitos — porque sem eles o Estado não subsiste. Os camponeses, pobres, tinham de vender suas propriedades, que eram então transformadas em latifúndios por um pequeno grupo de capitalistas urbanos. É de tal situação que surgem os profetas como porta-vozes dos desgraçados da terra. Assim, quando pregavam a justiça, todos compreendiam que eles estavam exigindo o fim das práticas de opressão. Era necessário que a vida e a alegria fossem devolvidas aos pobres, aos sofredores, aos fracos, aos estrangeiros, aos órfãos e viúvas, enfim, a todos aqueles que se encontravam fora dos círculos da riqueza e do poder”.

[Rubem Alves. O que é religião? 8. ed. São Paulo: Loyola, 2008. p. 101-102]