segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O caminho da fraqueza

“A fraqueza de Deus é mais forte que todos os homens”.
I Cor 1.25

O poder é fascinante. Ele está no centro do projeto de vida da maior parte de nós. É difícil encontrar alguém que, não tendo poder, não o deseja ou que, tendo poder, o renuncia espontânea e desprendidamente. É muito difícil encontrarmos alguém que se desiludiu com próprio poder, a não ser quando se sentiu ameaçado. Por outro lado, é muito comum encontrarmos pessoas que se decepcionaram e se desiludiram com o poder alheio. E por que isso acontece? Porque o poder alheio raramente rende o benefício esperado. Só o autopoder nos satisfaz a contento.

A posse do poder expande nossa capacidade de controle sobre as pessoas e sobre as coisas. Por isso ele é tão desejado e tão buscado. Uma vez que adquirimos controle sobre pessoas e coisas, o caminho para autossatisfação fica bastante desembaraçado. A lógica é a seguinte: se o poder está com o outro, a autogratificação é amplamente dificultada e restringida, mas se ele estiver conosco, sempre há concessões. Daí o motivo por que o poder alheio quase sempre nos incomoda, nos decepciona e o nosso nos apraz. A questão parece bem simples; é só nos perguntarmos: quem está no centro da pessoa que detém o poder? Portanto se o poder não está comigo, certamente não sou o seu principal beneficiário. Por outro lado, se poder está comigo, certamente o outro também não é o seu principal beneficiário.

Não tenho dúvidas de que uma das maiores ilusões e ciladas a que o ser humano está sujeito é acreditar no altruísmo do poder. O poder não é altruísta, não busca o bem do outro. Pelo contrário, o poder corrói o altruísmo. Não duvido da pureza de algumas pessoas quando dizem que precisam ascender ao poder para que tenham condições de expandir o bem que fazem a outras pessoas. Também não duvido da integridade de algumas pessoas que estabelecem um plano de conquista do poder como meio para expandir seu projeto de solidariedade e de autoentrega à causa do próximo. Enquanto o poder é apenas desejado, seu potencial de maldade é limitado. Acho até que a maior parte das pessoas é realmente íntegra enquanto deseja o poder. O grande problema é quando o poder se estabelece e finca raízes. A primeira coisa que ele faz é apontar para quem está no centro, e, ao fazer isso, de imediato apazigua, arrefece o ideal de altruísmo. O próximo passo é fazer com que o eu se esqueça do outro, o que não demora muito a acontecer.

Honestamente, eu também desejo o poder, mas preciso fugir tanto do desejo como do direito e da posse do poder e seguir a trilha da fraqueza. Sou constantemente advertido pelo evangelho a respeito dos males que o poder carrega. Preciso sempre suspeitar do poder, mesmo quando ele me oferece condições e recursos extraordinários para o exercício da solidariedade. Recusar o poder quando ele bate a porta é uma das disciplinas espirituais mais complexas e custosas, porque significa dizer não ao objeto que está na base de quase todos os nossos desejos. Contudo, devemos fazer isso, mesmo com grande dor. O evangelho nos diz para seguir o caminho daquele que, tendo todo o poder, abandonou-o para viver uma vida de fraqueza. E que fraqueza! Afinal, “a fraqueza de Deus é mais forte que todos os homens”.

Um comentário:

  1. experimentei estas situações algumas vezes nestes meus joviais 53 anos e descobrí, de forma bem empírica, que vale mais a legitimidade, porque esta lhe aproxima das pessoas, faze-o ve-las, assisti-las, conquanto o poder cega, nos leva à soberba, ao centralismo. Nem sempre quem tem o poder tem legitimidade diante das pessoas. Quem está no poder nem percebe que está blindado numa redoma de vidro, construida por aqueles que querem se deliciarem nele (o poder)e bloqueiam o acesso dos verdadeiros necessitados, que sentem a dificuldade de "tocar na orla", ao ponto de se contentarem com "as sobras que caem da mesa dos convidados para a festa". Saulo Sartre

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