segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Igrejas moralmente problemáticas e experiência da graça - Parte II

O problema ético do ser humano me chama a atenção para uma igreja do Novo Testamento, a igreja de Corinto, conhecida por ser moralmente problemática. Localizada num ambiente urbano cosmopolita, a cidade de Corinto atraía todo tipo de pessoas, com tradições culturais e morais diversificadas.

Se há algo que não se pode disfarçar em grandes centros urbanos é a diversidade e a pluralidade. Não há homogeneidade em quase nada. Há todos os tipos de preferência, das mais conservadoras às mais vanguardistas, em todas as áreas culturais: alimentação, vestuário, religião, artes, arquitetura etc. Não é nenhuma novidade o fato de que os grandes centros urbanos são mais moralmente tolerantes, exatamente por agregar tantas diferenças. Corinto era sem dúvida uma cidade diversificada e isso afetou a igreja que ali se estabeleceu. Realmente, nenhuma igreja, em nenhum lugar do mundo, pode ser edificada num vácuo sociocultural, tornando-se imune aos padrões culturais subjacentes: inevitavelmente as matrizes culturais que servem de referência vão estar presentes na vida das pessoas que constituirão a igreja.

A série de problemas morais enfrentados pela igreja de Corinto mostra como essa igreja, em vez de se ausentar da cidade, ou negar a cultura da cidade, passou a agregar as pessoas da cidade com seus problemas e características. Penso que plantar uma igreja num contexto urbano plural constitui um grande desafio para as lideranças, exatamente porque tal igreja deverá estar aberta à diversidade, o que poderá gerar problemas de relacionamentos e problemas morais, os mais diversos, tal como aconteceu na igreja de Corinto.

O apóstolo Paulo, fundador daquela igreja e o seu principal pastor por um longo tempo, escreveu pelo menos duas cartas para apaziguar problemas de relacionamento e resolver dificuldades morais da igreja. Quais foram os principais problemas que desafiaram ação pastoral de Paulo? Eis alguns exemplos: a) grupos rivais que seguiam figuras carismáticas diferentes: Paulo, Apolo, Pedro e Jesus; b) divisão de classe e humilhação imposta aos pobres; c) bagunça e desordem durante as reuniões de culto, d) resistência à liderança da igreja, especialmente a de Paulo, e) relações sexuais ilícitas etc.

O que uma lista de problemas eclesiásticos como essa deixa bem claro é que as igrejas, embora sejam a agência de Deus no mundo, são formadas por seres humanos, o que as torna instituições iguais a quaisquer outras, cheias de problemas, cheias de vícios. Mas há um fato bastante importante sobre a igreja de Corinto que deve ser destacado. Embora fosse uma igreja problemática, não encontramos nas duas cartas de Paulo aos coríntios nenhuma afirmação de que, por causa da abundância e recorrência dos problemas morais, tal comunidade tinha deixado de ser igreja. Também não encontramos nenhuma recomendação de Paulo para que os irmãos da igreja se tornem criteriosos quanto à seleção das pessoas que seriam admitidas à igreja. É verdade que no capítulo 5 da primeira carta há uma situação em que Paulo recomenda a exclusão de alguém, mas dado o tanto de problema que havia na igreja, a recomendação de apenas uma exclusão até que não é tanta coisa assim. Já pensou se Paulo tivesse operando com o conceito de que a igreja devia expulsar todos os pecadores, certamente as exclusões se igualariam ao número de membros.

Não resta dúvida de que a igreja de Corinto era extremamente problemática. Confesso que sou tremendamente atraído pela igreja de Corinto exatamente por essa característica. Parece-me que a maioria das pessoas prefere igrejas mais santas e menos conturbadas. Não é por acaso que, de todas as igrejas do Novo Testamento, a mais prestigiada seja uma igreja mencionada no Apocalipse, à qual se atribui fervor espiritual e pureza moral, a igreja de Filadélfia. Mas mesmo assim continuo tendo uma predileção irresistível pela igreja de Corinto.

A igreja de Corinto me atrai porque nela está presente a diversidade, nela está presente a tolerância, nela está presente a necessidade do amor. Não é aleatório o fato de que o texto mais didático e mais extraordinário sobre o amor, que há na Bíblia, seja endereçado a essa igreja. A igreja de Corinto me fascina porque nela está presente o ser humano, tal como ele é, sem a maquiagem da religiosidade e da hipocrisia moral. Sou tentado a pensar que igrejas que não enfrentam problemas de relacionamento ou problemas morais são igrejas que não atraem pecadores, pessoas reais com problemas reais. Às vezes penso que igrejas formadas por pessoas moralmente imaculadas e arrogantes são igrejas de pessoas artificiais, cuja imagem foi cuidadosamente construída para impressionar Deus (quanta pretensão e trabalho inútil, hein?!). São igrejas que atraem apenas fariseus que, por conseguirem camuflar suas mazelas interiores e dissimular suas pai¬xões e pecados mais secretos, acabam conseguindo criar igrejas estáveis e bem reputadas, embora irrelevantes e detestáveis aos que mais precisam de Deus: nós, os pecadores.

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