quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Epistemologia(s) científica(s) e a experiência de fé


A palavra epistemologia é usada aqui num sentido lato, sem muitos aprofundamentos teóricos, significando um modo de conhecer e investigar o mundo que se fundamenta em certas categorias conceituais e métodos, reunidos sob o nome de ciência. Essa epistemologia se fortaleceu a partir do iluminismo, dando origem a praticamente todas as disciplinas e modos de investigação sistemática que conhecemos hoje: biologia, física, matemática, sociologia, antropologia, linguística, psicologia etc.

A epistemologia científica tem sido alvo de diversas teorizações. Uma das primeiras partiu de Augusto Comte, no século XIX. Em linhas gerais, Comte afirma que o modo de conhecer da ciência (para ele restrita ao método positivo), se opõe a duas outras epistemologias precedentes, superando-as: a teológica e a metafísica. Não vou me estender nessa questão, por não constituir o escopo deste artigo. Basta dizer, que para Comte “todas as concepções humanas passam por três estágios sucessivos – teológico, metafísico e positivo”, sendo este último o mais maduro, aquele que promove o único saber realmente válido e confiável sobre o mundo. Portanto, o que chamo aqui de epistemologia (no singular) da ciência é uma generalização para nomear um modo de conhecer o mundo natural e social, amplamente cultivado nos espaços acadêmicos e laboratoriais, que remontam à formulação positiva de Comte.

Mas ainda tenho mais a dizer sobre Comte e sua escola. No começo do século XX, o Positivismo comtiano alardeou a morte das epistemologias teológica e metafísica, anunciando a instalação iminente do monopólio da epistemologia positivista. Felizmente, os profetas do positivismo estavam errados. O que se viu nas décadas subsequentes, especialmente partir dos anos de 1950 e 1960, com a virada linguística e o desconstrucionismo, foi a desconstrução radical do método positivo como um modo coerente, imparcial e único de falar sobre o mundo. Também não ficou imune ao arraso, a pretensão do cientista de se ver como alguém que apenas descreve a realidade. Desde então, a palavra de ordem é: não há conhecimento que não seja situado, motivado, indissociavelmente ligado uma instância de enunciação.

A crítica radical à pretensão de pureza, originalidade, incorruptibilidade e imparcialidade reivindicada por qualquer método abriu caminho para o reflorescimento das epistemologias teológica e metafísica, bem para a construção de uma base plural para as investigações científicas, de modo que hoje não se pode mais falar de uma epistemologia científica, no singular, mas de epistemologias científicas.

Boaventura Santos e Gayatri Spivak tem nos mostrado que qualquer investigação científica é afetada pela geografia (epistemologias do sul) e pela condição histórica (epistemologias de subulternidade) de anunciação do texto científico. Também Jean-François Lyotard nos ensinou que a condição pós-moderna, na qual o fazer cientifico se situa e opera, estabeleceu o plural não como uma opção, mas como uma condição de investigação e de experiência do e no mundo.

Toda essa breve divagação sobre os percursos epistemológicos serve de apoio para a afirmação de que não há mais necessidade de se renunciar a fé para se ter dignidade e respeitabilidade acadêmica e científica. Graças a esse movimento, hoje posso dizer que busco uma carreira científica e vivo uma experiência de fé envolvente, sem medo de me expor, sem medo de ser ridicularizado.

Hoje posso dizer, sem ser acossado pelo medo da censura ou suspeita acadêmica, que estou construindo minha narrativa de vida pessoal, a partir de uma busca pela compreensão científica do mundo, mas sem abrir mão da experiência de fé. Dito de outro modo e noutra ordem: vivo uma experiência de fé pessoal radical (pouco institucional, é verdade), ou no dizer de Tillich, estou existencialmente comprometido com o creio, e, ao mesmo tempo, me lanço a uma jornada de investigação científica do mundo (em especial da linguagem, já que sou um linguista). A fé não é mais relegada aos fracos e estúpidos; é uma forma de interagir com o mundo natural, social e metafísico, tão legitima como qualquer outra.

2 comentários:

  1. Passo aqui mais para te parabenizar pelo Blog que entendo ser uma iniciativa importante para o momento que estamos vivendo. Contudo dei uma lida rápida no texto e o que posso dizer é que Deus continue iluminando tua mente e aquecendo teu coração. Mesmo sabendo que a trincheira da Apologética "defesa de fé" é espinhosa, mas necessária. Pois o meio científico brasileiro não leva a sério aqueles que partem de uma premissa cristã. Deus te abençoe.

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  2. PARABENS, Sostenes, pelo Blog e pelo texto muito interessante. Arrisco a dizer, que nao vejo razão para que um cristão tema ou odeie uma boa ciência. Que Deus continue te abencoando e te dando muita sabedoria Cristã e Cientifica.
    Beijo no coracao.

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