domingo, 26 de fevereiro de 2012

A agenda de Jesus se opõe à agenda dos cristãos


Gosto do seu Cristo, mas não gosto dos seus cristãos. Eles são bem diferentes do seu Cristo
[Mahatma Gandhi]


Está na moda falar de agenda.  Essa palavra já começa a fazer parte do cotidiano das pessoas por causa de temas como: agenda da sustentabilidade, agenda econômica, agenda da reforma política, agenda da educação, agenda da gestão eficiente etc. Quero, neste artigo, introduzir a discussão sobre mais duas agendas, a de Jesus em contraposição à da religião dos cristãos. Mas antes de partir para o enfrentamento do tema, deixe-me dizer o que entendo ser uma agenda: é um conjunto de princípios, valores e compromissos que norteiam o que uma pessoa ou instituição é (identidade) e o que ela faz no mundo (prática, atividade). Noutras palavras, o que se é e o que se faz no mundo resulta de uma agenda que se tem diante da vida.

Uma pesquisa informal[1] feita no campus da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, mostra alguns resultados curiosos sobre a representação que as pessoas têm de Jesus e dos seus seguidores. A pesquisa se valeu do seguinte método: foram feitas duas perguntas a cada pessoa, a saber: 1) O que vem a sua mente quando você ouve o nome Jesus? 2) O que vem à sua mente quando você ouve a palavra “cristão”? As respostas dadas pelos entrevistados indicam o quanto a agenda de Jesus é inspiradora e a dos cristãos, às vezes, repugnante.

A reação à primeira pergunta era sempre animadora. Quando perguntadas sobre Jesus, as pessoas, em geral, reagiam com um sorriso iluminado no rosto, dando respostas positivas, como:
“Jesus era lindo”.
“Eu quero ser como Jesus”.
“Jesus era libertador das mulheres”.
“Eu sou a favor de Jesus”.
“Eu quero ser seguidor de Jesus”.
“Jesus era iluminado e possuía uma verdade superior”.

Respostas como essas indicam que ainda encontramos muitas pessoas dispostas a falar sobre Jesus de modo afirmativo e receptivo, mesmo num ambiente pós-cristão, como um campus de universidade. Os jovens entrevistados, embora não conhecessem bem os ensinos de Jesus, reconheciam-no como um personagem que merece ser seguido, estudado, imitado etc.

Já a segunda pergunta (O que vem à sua mente quando você ouve falar a palavra “cristão”?)  provocou  nos entrevistados uma reação extremamente defensiva.  Com semblante fechado, cabeça baixa e expressões de ódio, os jovens deram respostas como:

“Os cristãos pegaram os ensinos de Jesus e fizeram uma bagunça com eles”.
“Gostaria de ser cristão, mas nunca encontrei nenhum”.
“Os cristãos são dogmáticos e retrógrados”.
“Os cristãos devem ser amorosos, mas nunca encontrei nenhum assim”.
“Os cristãos deveriam ser levados para fora e fuzilados”.

Sabemos que os cristãos sempre se meteram em grandes confusões históricas, verdadeiras narrativas de sangue: cruzadas, inquisição, massacre de São Bartolomeu, “inquisição” de Genebra, apoio ao regime nazista, apoio a ditaduras latinoamericanas, apoio à invasão do Iraque etc. etc. A lista é enorme; não dá para esgotar aqui. Todas essas incursões têm causado um enorme estrago na reputação dos cristãos e contribuído para a resistência. Eu realmente não me surpreendi com os resultados da pesquisa. Penso que se fosse refeita no campus de alguma universidade brasileira, os resultados seriam muito parecidos. Devo confessar que, mesmo sendo cristão, sou solidário à maioria das opiniões dos entrevistados.

Porém nem tudo está perdido. As respostas dadas à primeira pergunta me deixam animado: o líder dos cristãos é estimado. Esse dado só aumenta o meu entusiasmo com o evangelho. Os cristãos não são o meu modelo; não sigo os cristãos. O que os cristãos têm é uma religião, e por vezes um negócio religioso que lhes permite entremear em antros econômicos e políticos. Estou profundamente interessado na agenda de Jesus, mas, a exemplo dos jovens entrevistados, também tenho muita resistência à agenda dos cristãos.

Jesus não tinha estola sacerdotal, nem era líder de uma sinagoga. Jesus não participou de conchavos políticos; não fez alianças espúrias para manter o carisma. Jesus não quis o poder. A vida de Jesus revela uma série de compromissos abertamente opostos à pauta da agenda de muita gente que age em seu nome. A agenda de Jesus me fascina, me convida à ação, ao envolvimento. Gosto de falar sobre sua agenda, de me sentir envolvido nela.

Uma leitura, menos religiosa e mais radical, dos Evangelhos nos mostra alguns componentes da agenda de Jesus, prontamente contraditórios a certas pautas da agenda dos cristãos. A seguir apresento algumas proposições que refletem alguns fundamentos da agenda encarnada por Jesus:

1 Na agenda de Jesus há um Deus que considera todos, sem distinção de qualquer espécie, carentes do seu amor.

2 Na agenda de Jesus há um Deus que convida amorosamente todos e  respeita a decisão das pessoas; esse Deus não recorre a qualquer tipo de coação ou retaliação.

4 Na agenda de Jesus há um Deus que não interrompe o discipulado com uma exclusão, por mais errante que seja o discípulo.

5 De acordo com a agenda de Jesus, a chuva (ou falta dela) alcança a lavoura de todos, sem qualquer privilégio ao agricultor evangélico dizimista.

6 Na agenda de Jesus pessoas são sempre prioridade, e não certas determinações e rotinas institucionais.

7 A agenda de Jesus  prevê a implantação de um novo modelo de culto, baseado na simplicidade do relacionamento com o pai, em vez de um complexo sistema de liturgia sacrifical e templista.

8 De acordo com a agenda de Jesus, os discípulos (apóstolos) foram formados por meio de um intenso convívio relacional e não por meio de uma medida institucional rabínica ou sacerdotal formal.

9 Segundo a agenda de Jesus, o evangelho deve ser anunciado por pessoas e não por instituições.

10 Na agenda de Jesus, o reino de Deus é disseminado e praticado no mundo através de comunidades (ambientes de relacionamentos) e não através de instituições investidas de poder político, econômico, midiático etc.

Essa lista está longe de esgotar a grandeza da agenda de Jesus. Ela apenas introduz alguns fundamentos, com o fim de nos levar a uma inquietação. Precisamos nos incomodar com o fato de tantas pessoas estarem resistentes aos cristãos. Estou certo de que boa parte dos motivos tem a ver com a agenda religiosa que os cristãos empunham, bastante estranha aos princípios, valores e compromissos defendidos por Jesus.



[1] KIMBALL, D. A igreja emergente: cristianismo clássico para as novas gerações. São Paulo: Vida, 2008. p. 101-2.

7 comentários:

  1. Parabéns!!!!

    É isto!!! Simples assim.
    A proposta de Jesus é o amor, a proposta do Cristão é...shows, turnês, mídia, dinheiro, expocristã, empresa etc... E usam tudo isto dando a desculpa que é estratégia para alcançar pessoas. Infelizmente os cristãos se afastaram muito do evangelho simples de Jesus.
    Novamente parabéns!!!

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  2. Na agenda de Jesus existe um só Deus para toda a pluralidade da humanidade... na agenda de Jesus não existe um deus para um só povo exclusivo e separatista!

    Parabéns pelo texto!

    Anja

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  3. Bravo! Bravíssimo!! É isso mesmo. Nietzsche em O Anticristo parece que também já havia notado esse distanciamento entre as agendas do Cristo e dos Cristãos,pois declarou:"...no fundo só existiu um cristão, e ele morreu na cruz [...] De fato, não existem cristãos. O “cristão” – aquele que por dois mil anos passou-se por cristão – é simplesmente uma auto-ilusão psicológica." Aforismo 39

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  4. Sostenes, esta descrição atualizada do cristianismo reflete exatamente a minha frustação com as instituições que se chamam de igrejas. Me enoja o poder pelo poder, me enfastia a repetição de pregações repetitivas e sem suor, sem lágrimas nem dor, que mais parece vinda de uma fonte única, o google. Congregar é bom demais, ver, rever e cumprimentar as pessoas, chorar e se alegrar com elas e ver a gente nos filhos, e ver os filhos nos netos, quanto maior o agrupamento melhor, quanto maior a diversidade mais chances de sobrevivencia neste mundo que continua cruel.

    Saulo Sartre

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  5. Excelente texto Sóstenes. A cada dia fica mais aparente o afastamento das igrejas com o verdadeiro evangelho. Nunca vi o homem ser tão engrandecido como ultimamente, até os templos agora são com o reverendo "tal" ou apóstolo "tal". Eles se afastam do evangelho arrastando o rebanho com eles.

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