segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Ressonâncias de uma utopia possível

Ler "A utopia possível”, de Robinson Cavalcanti, foi muito marcante para mim. Eu tinha entre 18 e 19 anos e estava no segundo ano do seminário. Eu já estava num processo de reconstrução, de refundação de uma série de conceitos que tinham moldado minha vida até aquele momento. O que essa leitura fez foi potencializar a mudança.

Junto com outros livros, “A Utopia possível” me fez enxergar um novo horizonte para a experiência de fé. Os textos de Cavalcanti me abriram muitas janelas para a vida e para transcendência; me ajudaram a romper com um passado religioso opressor.

Nasci e cresci numa redoma bastante fundamentalista, reacionária, sectarista, supersticiosa, de extrema direita política e avessa ao conhecimento científico. Não me dava muito bem com esse mundo, mas, devido a um temperamento amistoso, não consegui ser rebelde. Me faltou ímpeto e sobrou medo.

Eu tinha medo de tudo, mas principalmente de um Deus ágil em vingar servos que se amotinam. E olha que esse Deus metia medo mesmo! Ele tinha, a seu serviço, um grupo de comparsas que realizava parte do trabalho sujo. Bastava um pequeno escorregão para que ele autorizasse a convocação de um conselho do mal, chamado de “reunião de ministério”, para dar jeito na vida dos rebeldes.

Esse grupo de anciãos, bastante parecido com aquele que Jesus confrontou por diversas vezes, era responsável por interpretar os cânones do direito divino e estabelecer a pena necessária para corrigir (ou simplesmente punir de forma exemplar) os infratores. Todo mundo tinha medo da tal “reunião de ministério”. Ali Deus manifestava, de forma concreta, seu desejo vingança; ali a honra de um Deus ofendido era severamente reparada.

Mas o Deus aterrador que me ‘livrou’ da rebeldia ainda tinha outro expediente de coação mais potente. Ele era o mentor e executor de todos os infortúnios e tragédias. “Ai de quem cair nas mãos de Deus”, diziam os pregadores. Eu tinha muito medo das mãos desse Deus grego, inconstante, vingativo, passional e, apenas ligeiramente, amoroso.

Me lembro de uma vez que ousei desobedecê-lo. Não resisti e fui jogar bola. Minutos depois, estava eu lá no chão com o pé inchado, sentindo uma dor enorme, mas insignificante, se comparada à dor da culpa que me assombrava. Pensava comigo: “É um sinal de Deus. Ele está me dizendo pra eu não fazer mais isso. Se eu insistir, a coisa pode ficar pior”. Sai decidido a nunca mais nem me aproximar de um jogo de futebol para não ser nem tentado. Hoje desejo jogar futebol, mas sofro com a impossibilidade de fazê-lo. Não aprendi fazer coisas simples com uma bola, como por exemplo dar um passe certo. Para não envergonhar, nem aborrecer meus amigos, prefiro nem jogar.

Esse mundo, extremamente opressor, conseguiu aparar minhas asas, colocar cercas em volta de mim durante toda a infância e parte da adolescência. Simplesmente fui enredado. Opressão e o obscurantismo religioso, se mantidos e alimentados, podem deformar a vida, o caráter, a pessoa. Felizmente, o dia da liberdade estava à espreita. No final da adolescência, me vi em condições de começar uma jornada, árdua mas fundamental, de desidealização e esvaziamento dos poderes que tanto me assombravam. Fui para o seminário. Lá continuava a operar uma série de forças opressoras, mas sem o mesmo poder de antes. 

Foi no seminário que entrei em contato com o mundo dos livros. A história nos mostra o quanto eles foram fundamentais para deflagração de praticamente todas as revoluções modernas. Os livros nos libertam (eles podem nos aprisionar também, eu sei!). Li alguns livros que supostamente dariam argumentos e fundamentos mais sólidos para aquela visão de mundo que cercou a minha infância. Achei todos muito chatos, superficiais, ridículos.

Então comecei a ler outros livros, que não chegavam a ser proscritos, mas eram completamente alheios ao mundo da minha infância. Foi aí que comecei a ler alguns autores que falavam da necessidade de uma incursão social da fé. Fiquei fascinado. Entre eles estava, obviamente, Robinson Cavalcanti. Li avidamente “A utopia possível” e “Cristianismo e política”. De repente me descobri um petista entusiasta. Meu primeiro voto para presidente, em 1998, foi para Lula, com entusiasmo e militância. Poucas pessoas, do meu entorno igrejal e familiar, entendiam isso; afinal, eu estava no meio de assembleianos. Não é novidade para ninguém que os assembleianos só vieram a votar em Lula a partir da campanha de 2002, e com muita suspeita. Um assembleiano de verdade, da gema, só votava em Fernando Collor e Fernando Henrique.

São muitas as marcas de Robinson Cavalcanti em mim. Voltei a ler alguns artigos de “A utopia possível” hoje. Me surpreendi com a semelhança de nossas ideias. Me apropriei de tal modo de algumas teses de Cavalcanti que já não me lembro mais da fonte.

Penso que influenciar é exatamente isso. É fazer com que o outro seja tão envolvido por uma ideia alheia ao ponto de não mais se lembrar de que a ideia é alheia. Ser influenciado é ser surpreendido por uma amnesia; é se esquecer da origem do saber; é permitir que as vozes alheias se fundem de modo tão entranhado com a minha, ao ponto de faz nascer uma nova voz mestiça, mas com identidade própria. Devo muito a Robinson Cavalcanti. Já sinto saudades, mesmo sem tê-lo conhecido pessoalmente. Em mim, seu desejo de uma utopia possível ressoou com muito ímpeto.

O conhecimento cientifico, a fé madura e a teologia relevante


 Em homenagem a Robinson Cavalcanti.

"A reflexão teológica não se dá no vazio. Para realizar adequadamente a sua tarefa, o teólogo deverá conhecer, primeiramente, o contexto onde se deu a revelação: contexto geográfico, histórico e cultural, com seus aspectos políticos, econômicos e sociais, o idioma usado e o perfil psicológico do escritor e de seus leitores. Conhecer, enfim, o mundo onde e quando a Bíblia foi sendo escrita. O compromisso com a verdade nos leva à busca do real sentido do texto e de sua mensagem, procurando superar as barreiras das traduções e das tradições.

Em segundo lugar, o teólogo deverá conhecer o contexto em que ele mesmo vive, o seu tempo e o seu lugar, em seus variados aspectos.  Um conhecimento de observador participante, por sua inserção nesse tempo-lugar, o acompanhamento da conjuntura, com a ajuda das informações veiculadas pelos meios de comunicação social, e um conhecimento mais acurado, analítico. Esse procedimento é imprescindível quando se quer torna a mensagem atual e relevante, inteligível e aplicável"

[Robinson Cavalcanti. A utopia possível. Viçosa: Ultimato, 1997]

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Tributo a Fernando Pessoa

Escrever é preciso; viver não é preciso.
Vivo enquanto escrevo, mas não vivo enquanto vivo.
O meu texto se fortalece enquanto escrevo
O meu texto se definha enquanto apenas vivo.
Escrever é viver; viver não é viver sem escrever.

Sostenes Lima
@Limasostenes

O nonsense do texto

Estou querendo muito pensar e escrever sobre o texto, mas não estou encontrando âncoras verbais para isso. Eu simplesmente não estou conseguindo pensar em nenhuma definição ou especulação para o sentido do texto. Será que o texto tem de ter sentido? Talvez esse seja um caminho interessante a ser explorado: o no sense do texto. Texto é algo vazio de sentido. Cheguei a uma definição e estou contente com ela. Achei interessante essa formulação. O texto não tem de ter sentido. O texto é uma construção complexa, cheia de junções e nós, sem uma trajetória definida, precisa. O texto é um conjunto, uma aglomeração de experiências que vão se formando, sem que haja um propósito definido, pré-existente, planejado ou calculado. O texto simplesmente se escreve a si mesmo enquanto se torna texto. Não há um texto anterior dirigindo a construção do texto. O texto não tem controle sobre si. O texto também não se entrega o controle externo. Ele simplesmente se escreve num aparente caos. Digo aparente caos porque parece que o texto está todo desordenado, sem nexo, sem a menor organização. Mas isso não é verdade. O texto se compreende a si mesmo enquanto se escreve. Há harmonia no caos. Há um ponto de equilíbrio no caos. É isso que permite que os textos sejam diferentes uns dos outros. Se não houvesse nenhum um tipo de organização, mesmo que na estrutura mais profunda, não haveria possibilidade de diferenciação. Também não haveria possibilidade de identificação. É por isso que digo que cada texto, embora construído sob e sobre o caos, é harmônico em si e para si mesmo.


A agenda de Jesus se opõe à agenda dos cristãos


Gosto do seu Cristo, mas não gosto dos seus cristãos. Eles são bem diferentes do seu Cristo
[Mahatma Gandhi]


Está na moda falar de agenda.  Essa palavra já começa a fazer parte do cotidiano das pessoas por causa de temas como: agenda da sustentabilidade, agenda econômica, agenda da reforma política, agenda da educação, agenda da gestão eficiente etc. Quero, neste artigo, introduzir a discussão sobre mais duas agendas, a de Jesus em contraposição à da religião dos cristãos. Mas antes de partir para o enfrentamento do tema, deixe-me dizer o que entendo ser uma agenda: é um conjunto de princípios, valores e compromissos que norteiam o que uma pessoa ou instituição é (identidade) e o que ela faz no mundo (prática, atividade). Noutras palavras, o que se é e o que se faz no mundo resulta de uma agenda que se tem diante da vida.

Uma pesquisa informal[1] feita no campus da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, mostra alguns resultados curiosos sobre a representação que as pessoas têm de Jesus e dos seus seguidores. A pesquisa se valeu do seguinte método: foram feitas duas perguntas a cada pessoa, a saber: 1) O que vem a sua mente quando você ouve o nome Jesus? 2) O que vem à sua mente quando você ouve a palavra “cristão”? As respostas dadas pelos entrevistados indicam o quanto a agenda de Jesus é inspiradora e a dos cristãos, às vezes, repugnante.

A reação à primeira pergunta era sempre animadora. Quando perguntadas sobre Jesus, as pessoas, em geral, reagiam com um sorriso iluminado no rosto, dando respostas positivas, como:
“Jesus era lindo”.
“Eu quero ser como Jesus”.
“Jesus era libertador das mulheres”.
“Eu sou a favor de Jesus”.
“Eu quero ser seguidor de Jesus”.
“Jesus era iluminado e possuía uma verdade superior”.

Respostas como essas indicam que ainda encontramos muitas pessoas dispostas a falar sobre Jesus de modo afirmativo e receptivo, mesmo num ambiente pós-cristão, como um campus de universidade. Os jovens entrevistados, embora não conhecessem bem os ensinos de Jesus, reconheciam-no como um personagem que merece ser seguido, estudado, imitado etc.

Já a segunda pergunta (O que vem à sua mente quando você ouve falar a palavra “cristão”?)  provocou  nos entrevistados uma reação extremamente defensiva.  Com semblante fechado, cabeça baixa e expressões de ódio, os jovens deram respostas como:

“Os cristãos pegaram os ensinos de Jesus e fizeram uma bagunça com eles”.
“Gostaria de ser cristão, mas nunca encontrei nenhum”.
“Os cristãos são dogmáticos e retrógrados”.
“Os cristãos devem ser amorosos, mas nunca encontrei nenhum assim”.
“Os cristãos deveriam ser levados para fora e fuzilados”.

Sabemos que os cristãos sempre se meteram em grandes confusões históricas, verdadeiras narrativas de sangue: cruzadas, inquisição, massacre de São Bartolomeu, “inquisição” de Genebra, apoio ao regime nazista, apoio a ditaduras latinoamericanas, apoio à invasão do Iraque etc. etc. A lista é enorme; não dá para esgotar aqui. Todas essas incursões têm causado um enorme estrago na reputação dos cristãos e contribuído para a resistência. Eu realmente não me surpreendi com os resultados da pesquisa. Penso que se fosse refeita no campus de alguma universidade brasileira, os resultados seriam muito parecidos. Devo confessar que, mesmo sendo cristão, sou solidário à maioria das opiniões dos entrevistados.

Porém nem tudo está perdido. As respostas dadas à primeira pergunta me deixam animado: o líder dos cristãos é estimado. Esse dado só aumenta o meu entusiasmo com o evangelho. Os cristãos não são o meu modelo; não sigo os cristãos. O que os cristãos têm é uma religião, e por vezes um negócio religioso que lhes permite entremear em antros econômicos e políticos. Estou profundamente interessado na agenda de Jesus, mas, a exemplo dos jovens entrevistados, também tenho muita resistência à agenda dos cristãos.

Jesus não tinha estola sacerdotal, nem era líder de uma sinagoga. Jesus não participou de conchavos políticos; não fez alianças espúrias para manter o carisma. Jesus não quis o poder. A vida de Jesus revela uma série de compromissos abertamente opostos à pauta da agenda de muita gente que age em seu nome. A agenda de Jesus me fascina, me convida à ação, ao envolvimento. Gosto de falar sobre sua agenda, de me sentir envolvido nela.

Uma leitura, menos religiosa e mais radical, dos Evangelhos nos mostra alguns componentes da agenda de Jesus, prontamente contraditórios a certas pautas da agenda dos cristãos. A seguir apresento algumas proposições que refletem alguns fundamentos da agenda encarnada por Jesus:

1 Na agenda de Jesus há um Deus que considera todos, sem distinção de qualquer espécie, carentes do seu amor.

2 Na agenda de Jesus há um Deus que convida amorosamente todos e  respeita a decisão das pessoas; esse Deus não recorre a qualquer tipo de coação ou retaliação.

4 Na agenda de Jesus há um Deus que não interrompe o discipulado com uma exclusão, por mais errante que seja o discípulo.

5 De acordo com a agenda de Jesus, a chuva (ou falta dela) alcança a lavoura de todos, sem qualquer privilégio ao agricultor evangélico dizimista.

6 Na agenda de Jesus pessoas são sempre prioridade, e não certas determinações e rotinas institucionais.

7 A agenda de Jesus  prevê a implantação de um novo modelo de culto, baseado na simplicidade do relacionamento com o pai, em vez de um complexo sistema de liturgia sacrifical e templista.

8 De acordo com a agenda de Jesus, os discípulos (apóstolos) foram formados por meio de um intenso convívio relacional e não por meio de uma medida institucional rabínica ou sacerdotal formal.

9 Segundo a agenda de Jesus, o evangelho deve ser anunciado por pessoas e não por instituições.

10 Na agenda de Jesus, o reino de Deus é disseminado e praticado no mundo através de comunidades (ambientes de relacionamentos) e não através de instituições investidas de poder político, econômico, midiático etc.

Essa lista está longe de esgotar a grandeza da agenda de Jesus. Ela apenas introduz alguns fundamentos, com o fim de nos levar a uma inquietação. Precisamos nos incomodar com o fato de tantas pessoas estarem resistentes aos cristãos. Estou certo de que boa parte dos motivos tem a ver com a agenda religiosa que os cristãos empunham, bastante estranha aos princípios, valores e compromissos defendidos por Jesus.



[1] KIMBALL, D. A igreja emergente: cristianismo clássico para as novas gerações. São Paulo: Vida, 2008. p. 101-2.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A fé como centro unificador da pessoa


 "A preocupação incondicional empresta a todos os outros interesses a sua profundidade, direção e unidade, fundamentando assim o homem como pessoa. Uma vida de caráter realmente personal é íntegra e unida em si; o poder que cria essa integridade da pessoa é a fé. Semelhante afirmação seria absurda, se fé fosse o dar crédito a coisas que não se podem demonstrar. Mas essa afirmação não é absurda, e sim evidentemente verdadeira, se fé é o ser atingido por aquilo que nos toca incondicionalmente.

Uma preocupação incondicional se manifesta em todas as áreas de realidade e em todas as expressões de vida da pessoa. Isso porque o incondicional não é um objeto entre outros, e sim a base e origem de todo ser, e como tal, o centro unificador da vida como pessoa. Estar sem uma preocupação incondicional significa estar sem um centro. Desse estado o homem só pode se aproximar, mas nunca lhe estrará completamente entregue; pois um ser humano sem centro algum deixaria de ser humano. Por esse motivo não se pode conceber que haja alguém sem uma preocupação incondicional e portanto sem fé".


[Paul Tillich. A dinâmica da fé. 6. ed. São Leopoldo: Sinodal: 2001].

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A oração como expressão estética


“Chegamos agora a algumas orações que podem ser vistas como um apelo dramático por sensibilidade. Nessas orações, os estudantes pedem para estar em contato com o que é real, para experimentar em profundidade o mundo que nos cerca e para sentir-se ligados às fontes vitais da vida. Procuram uma unidade e uma libertação da dolorosa sensação de alienação. Querem tocar, provar, cheirar, ouvir e ver o que está além de sua própria solidão e render-se à inefável beleza do divino. São orações para o Deus belo, belo de uma maneira extática, transformando Deus em uma experiência corpórea. A alienação a partir da qual essas orações nascem é expressa de forma dramática pelo estudante que escreve:

Sozinho dentro da classe
Sozinho com meus amigos
Sozinho numa multidão insistente
Onde procurar abrigo nessa concha tão envolvente?
O mundo é sem vida – não mais um amigo
As folhas viscosas das árvores, as crianças;
Tudo parece – apenas irreal.
Elas estão lá fora. Eu estou separado delas”.

[Henry J. Nouwen. Intimidade: ensaios de psicologia pastoral. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004].

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Deus renuncia o poder para se relacionar


O ser absoluto é pleno, acabado, não tem fronteiras, não comporta restrições, não admite condições e nem contradições; não tem qualquer tipo de carências; depende senão de si mesmo para ser o que é; é essencialmente uma potência absoluta, já que não há outro ser que lhe possa perturbar, desafiar, condicionar o poder; tem todo o poder; é todo-poderoso.

Não conhecemos, em nosso mundo natural e social, nada que seja absoluto. Todos os seres e objetos que estão no horizonte humano esbarram na falta de plenitude, na limitação, nas contradições intrínsecas etc. Todos eles são relativos; e o são simplesmente porque existem. Para existir é preciso relacionar; e para relacionar é preciso partilhar. Quando há partilha, qualquer que seja, não há mais espaço para o absoluto, porque o absoluto é único.

Tudo que foi dito até aqui, pode ser resumido em três proposições básicas: 1) O ser absoluto, Deus, é único e todo-poderoso, logo não pode estabelecer relação com nada; 2) Existem seres e objetos no mundo natural e social que foram criados pelo ser absoluto; 3) Esses seres e objetos não podem ser absolutos, por serem criados e por partilharem existência entre si. Essas três proposições são bastante aceitas no campo da teologia clássica e dogmática. Uma grande questão teológica, que divide deístas e teístas, vem logo em seguida, não permitindo que o debate se encerre na simples afirmação de que Deus é o ser absoluto, todo-poderoso, que criou o universo no qual vivemos.  Temos de enfrentar a seguinte indagação: Esse ser absoluto mantém relação com esse universo criado?

Para os deístas a resposta é não. Logo, não há problema em reconhecer em Deus uma soberania absoluta, já que ele não estabelece qualquer relação com o universo. Deus é absolutamente soberano em si e para si mesmo. E quanto ao universo? Deus o criou com leis de autogestão. Deus não se mete e nem se interessa por nada que por aqui acontece. Tudo é por conta do próprio universo. Ele mesmo se mantém, se expande, se recria... O ser humano faz parte desse movimento, sendo uma de suas maiores forças.

Para os teístas a resposta é: Deus criou o universo e mantém uma relação profunda com ele, ao ponto de ter decidido viver por aqui. Se Deus se relaciona com o universo, logo temos de enfrentar o conflito entre o conceito soberania absoluta, que atribui a Deus todo-poder, e o de relação com o universo, que atribui a Deus um interesse pelo universo e pelo ser humano, compartilhando com eles partes de si.

Há duas maneiras de pensar a relação de poder de Deus com o universo, aqui denominadas de teísmo determinista e o teísmo aberto. Vejamos primeiro como o teísmo determinista elabora a noção de soberania.  Nessa corrente, Deus é visto como criador, controlador e mantenedor do universo, dirigindo todas as ações que por aqui se realizam. Deus é absolutamente soberano e fechado. Embora os seres humanos se julguem livres, há na verdade um conjunto de providências e decretos, cujo teor – em sua maior parte – é desconhecido dos homens, que estabelece de antemão todos os passos do universo. O ser humano julga ter condições de decidir, escolher e autodeterminar, mas na verdade já está tudo decidido, provido e decretado. O ser humano também é fechado, bem como a história e o futuro.


Há no teísmo determinista um claro conflito entre a noção de todo-poder e a noção de relação. A afirmação de que todo o universo está sob o controle Deus e a reivindicação de que Ele se relaciona com esse universo são incompatíveis entre si. Relação pressupõe abertura; todo-poder pressupõe fechamento. Por um lado, não há relação sem concessão de poder, e por outro não há poder absoluto se houver concessão de poder. Relacionar não é outra coisa senão estabelecer fronteiras de identidade dentro de uma zona de interesse comum e de poderes partilhados. Quando há relação, tudo se torna relativo, isto é, tudo estará relacionado com duas ou mais instâncias de poder. Se há apenas uma instância de poder, então não há relação. Nesse sentido, a noção de soberania do teísmo determinista parece insustentável.

No teísmo aberto o conflito entre as noções de soberania e relação parece menos problemática. Segundo a visão do teísmo aberto, Deus criou o universo com leis de autogestão, colocou nele um ser com capacidade de autoderminação (o homem) e estabeleceu com ambos uma relação de profundo interesse. Isso quer dizer que há três instâncias de poder em equilíbrio: Deus, universo e homem.


Como essas três instâncias interagem sem que nenhuma seja anulada? A chave para essa questão está no conceito de relação, vista aqui como o estabelecimento de um pacto inviolável de compartilhamento de poder dentro de uma zona de interesse comum, o que pressupõe um Deus, um universo e um homem abertos.  Deus estabeleceu com o universo e com o homem um pacto de relação, distribuindo-lhes parte de seu próprio poder, a fim de que pudessem se relacionar com Ele. A concessão de poder é o que garante a relação. Logo, as três partes envolvidas detém, cada uma, uma cota de poder. É claro que Deus não se desfez de todo o seu poder, tornando-se completamente refém do poder que concedeu ao universo e ao homem. Deus continua tendo poder sobre o universo e sobre o homem, mas não todo o poder. A relação só é possível na medida em que Deus, Universo e Homem têm poder, e agem dentro dos limites que o poder de cada um permite.

Portanto, o teísmo aberto afirma que Deus é relativamente soberano, não absolutamente soberano. Deus tem poder sobre o universo e sobre o ser humano, mas limitado. Isso quer dizer que Deus se autolimita diante das ações engendradas pelo poder que foi concedido ao ser humano e à natureza. Essa concepção explica melhor o problema do mal no universo. Nessa perspectiva, a maldade não é outra coisa senão os resultados das ações de poder do homem agindo sobre si mesmo e sobre o universo. Diante dessas ações, Deus tem de restringir suas próprias ações, a fim de não quebrar o pacto de relação.

Para mim, o teísmo aberto é a corrente que permite uma melhor conciliação entre as noções de soberania e relação. Suas teses podem ser resumidas nas seguintes proposições: (1) Deus, em si mesmo e para si mesmo, é absolutamente soberano; (2) Deus criou o universo e o ser humano, dotando este com capacidade de autodeterminação; (3) Deus quis se relacionar com sua criação; (4) Para isso, abriu mão de sua condição de poder absoluto, concedendo ao universo e ao ser humano parcelas de poder, condição fundamental para que houvesse essa relação.



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A oração é um ato político


“A oração é ato político, energia social, bem público. Ela molda a vida da nação muito mais do que a legislação. O fato de não termos sido  ainda dominados pela anarquia deve-se muito mais à oração do que à polícia. É um ato permanente e intricado de patriotismo no sentido mais amplo da palavra -  muito mais preciso, amorosa e protetor do que qualquer patriotismo declarado em slogans. A possibilidade de viver na sociedade e o renascimento da esperança se devem à oração e não à prosperidade empresarial ou ao florescimento das artes. O ato mais importante para despertar toda saúde e força que há em nossa terra é a oração”.


[Eugene Peterson. Onde está o seu tesouro. Niterói: Textus, 2005]

Resta saber que tipo de oração é um ato político. Certamente não é a oração congregacional e alienante que tanto vemos em algumas igrejas evangélicas e nas neopentecostais. Aqueles recitais de magias disfarçadas de oração são muito mais uma forma de escoamento de neuroses e artefatos discursivos que garantem fidelização de uma clientela religiosa. A oração como ato político não é ensimesmada, não busca prioritariamente o bem-estar individual, não comunga com os valores de uma sociedade de consumo. A oração como um ato político é o sermão do monte efervescendo na alma. Recortes de promessas triunfalistas, contidas em alguma parte da bíblia e repetidas como mantras, não podem ser de forma alguma um ato político. Essas pseudo-orações não passam de fórmulas mágicas, que apenas potencializam o desejo individual de sucesso e poder, sem qualquer ressonância nos aspectos ético-políticos da vida social.





O prazer mora no corpo; a alegria, na alma

Não, eu não quero prazer! Eu quero alegria! Era isso o que dizia uma das amantes de Tomás, o médico de A Insustentável Leveza do Ser. E Tomás ficava perdido porque prazer ele sabia dar, é coisa de receita fácil, mora no corpo. Mas alegria é coisa mais sutil, mora na alma, no lugar das fantasias e da saudade.
Há um jeito fácil de saber se o que se sente é prazer ou alegria. Basta prestar atenção no corpo. Se ele for ficando cada vez mais pesado, é prazer. Se for ficando cada vez mais leve, é alegria”.

[Rubem Alves. Teologia do cotidiano. São Paulo: Olho D’agua, 1994]

Deus se retrai, se autorrestringe por causa do amor


 “Deus se segura; se esconde; chora. Por quê? Porque deseja o que o poder jamais consegue conquistar. Ele é um rei que não deseja a sujeição, mas o amor. Ao invés de esmagar Jerusalém, Roma e todas as outras potência mundiais, ele optou pelo caminho lento e difícil da Encarnação, amor e morte” 


[Philip Yancey. Decepcionado com Deus. 4. ed. São Mundo Cristão, 1997].

“Em vez de esmigalhar o poder do mal com a força divina; em vez de impor a justiça e destruir os ímpios; em vez de pacificar a Terra mediante o governo de um príncipe perfeito; em vez de reunir as crianças de Jerusalém sob suas asas, quer elas quisessem ou não, e de salvá-las dos horrores que angustiavam sua alma profética – Ele deixou que o mal agisse à vontade enquanto existisse; Ele se satisfez com as formas lentas e desencorajadoras de ajudar apenas no essencial; tornando bons os homens; expulsando, e não simplesmente controlando, Satanás... Amar a justiça é fazê-la crescer, não é vingá-la”.


[George MacDonald. Life essential: the hope of the gospel. Wheaton: Harold Shaw, 1978. p. 24 citado por Philip Yancey. Decepcionado com Deus. 4. ed. São Mundo Cristão, 1997]

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Igreja versus Reino de Deus em aforismos


Série de aforismos sobre igreja versus reino de Deus, em ressonância às provocações de Alfred Lousy e John D. Caputo. #IgrejaxReino

“Os apóstolos esperavam que o Reino de Deus viria; o que veio foi a Igreja”  (Alfred Lousy). #IgrejaxReino

"A igreja não é o Plano A" (John D. Caputo). #IgrejaxReino

A igreja não é o Plano A; o reino é o Plano A. A igreja deve sempre ser desconstruída, para que o ideal do reino não se perca. #IgrejaxReino

A igreja é apenas um ponto de passagem; o reino é destino. #IgrejaxReino

Vivamos para o reino, suportando a igreja; façamos tudo pelo reino, apesar da igreja. #IgrejaxReino

A igreja só pode existir onde há “cristãos”; o reino de Deus não tem limitações, nem condicionamentos religiosos. #IgrejaxReino

Jesus se ocupou apenas do reino de Deus; a igreja descobriu que ocupar-se de si mesma seria necessário para manter-se a si mesma. #IgrejaxReino

O reino de Deus é orgânico, relacional; a igreja é mecânica e institucional. #IgrejaxReino

O reino de Deus está plenamente identificado com Jesus de Nazaré; uma identificação plena da igreja com Jesus instabilizaria suas estruturas de poder. #IgrejaxReino

No discurso do reino, pessoas são pessoas, coisas são coisas; no da igreja eventualmente pessoas são peças de uma estrutura. #IgrejaxReino

No discurso do reino, pessoas são sempre fins; no da igreja eventualmente pessoas podem ser usadas como meio. #IgrejaxReino

O reino fomenta a espiritualidade; a igreja, se levada a sério em exagero, recrudesce a religiosidade. #IgrejaxReino

Pelo reino eu me ofereço ao outro; pela igreja eu exijo que o outro se ofereça a mim. #IgrejaxReino

Pelo reino o outro é o fim; pela igreja o outro é meio para a manutenção do eu. #IgrejaxReino

Pelo reino se morre; pela igreja se mata. #IgrejaxReino

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Levo Deus a sério, mas não a teologia


“Quem come caqui tem que aceitar ser criança. E, como não existe salvação a menos que nos tornemos crianças (coisa que ninguém acredita...), tratei de fazer um ensaio de teologia comestível com o título “Sobre Deuses e caquis.”. Alguns comeram e gostaram. Outros comeram e não gostaram. Disseram que caqui não combina com a gravidade do Ser divino. Alegaram que eu não levava Deus a sério. Levo Deus muito a sério. Mas não levo a sério este caqui delicioso que se chama teologia. Se eu tivesse falado sobre as chagas de Cristo, tudo estaria bem. Feridas são respeitáveis; combinam com o Ser divino. Penso diferente. Quem é grave é o diabo”.


[Rubem Alves. Se eu pudesse viver minha vida novamente... 21. ed. Campinas: Verus, 2010]

Epistemologia(s) científica(s) e a experiência de fé


A palavra epistemologia é usada aqui num sentido lato, sem muitos aprofundamentos teóricos, significando um modo de conhecer e investigar o mundo que se fundamenta em certas categorias conceituais e métodos, reunidos sob o nome de ciência. Essa epistemologia se fortaleceu a partir do iluminismo, dando origem a praticamente todas as disciplinas e modos de investigação sistemática que conhecemos hoje: biologia, física, matemática, sociologia, antropologia, linguística, psicologia etc.

A epistemologia científica tem sido alvo de diversas teorizações. Uma das primeiras partiu de Augusto Comte, no século XIX. Em linhas gerais, Comte afirma que o modo de conhecer da ciência (para ele restrita ao método positivo), se opõe a duas outras epistemologias precedentes, superando-as: a teológica e a metafísica. Não vou me estender nessa questão, por não constituir o escopo deste artigo. Basta dizer, que para Comte “todas as concepções humanas passam por três estágios sucessivos – teológico, metafísico e positivo”, sendo este último o mais maduro, aquele que promove o único saber realmente válido e confiável sobre o mundo. Portanto, o que chamo aqui de epistemologia (no singular) da ciência é uma generalização para nomear um modo de conhecer o mundo natural e social, amplamente cultivado nos espaços acadêmicos e laboratoriais, que remontam à formulação positiva de Comte.

Mas ainda tenho mais a dizer sobre Comte e sua escola. No começo do século XX, o Positivismo comtiano alardeou a morte das epistemologias teológica e metafísica, anunciando a instalação iminente do monopólio da epistemologia positivista. Felizmente, os profetas do positivismo estavam errados. O que se viu nas décadas subsequentes, especialmente partir dos anos de 1950 e 1960, com a virada linguística e o desconstrucionismo, foi a desconstrução radical do método positivo como um modo coerente, imparcial e único de falar sobre o mundo. Também não ficou imune ao arraso, a pretensão do cientista de se ver como alguém que apenas descreve a realidade. Desde então, a palavra de ordem é: não há conhecimento que não seja situado, motivado, indissociavelmente ligado uma instância de enunciação.

A crítica radical à pretensão de pureza, originalidade, incorruptibilidade e imparcialidade reivindicada por qualquer método abriu caminho para o reflorescimento das epistemologias teológica e metafísica, bem para a construção de uma base plural para as investigações científicas, de modo que hoje não se pode mais falar de uma epistemologia científica, no singular, mas de epistemologias científicas.

Boaventura Santos e Gayatri Spivak tem nos mostrado que qualquer investigação científica é afetada pela geografia (epistemologias do sul) e pela condição histórica (epistemologias de subulternidade) de anunciação do texto científico. Também Jean-François Lyotard nos ensinou que a condição pós-moderna, na qual o fazer cientifico se situa e opera, estabeleceu o plural não como uma opção, mas como uma condição de investigação e de experiência do e no mundo.

Toda essa breve divagação sobre os percursos epistemológicos serve de apoio para a afirmação de que não há mais necessidade de se renunciar a fé para se ter dignidade e respeitabilidade acadêmica e científica. Graças a esse movimento, hoje posso dizer que busco uma carreira científica e vivo uma experiência de fé envolvente, sem medo de me expor, sem medo de ser ridicularizado.

Hoje posso dizer, sem ser acossado pelo medo da censura ou suspeita acadêmica, que estou construindo minha narrativa de vida pessoal, a partir de uma busca pela compreensão científica do mundo, mas sem abrir mão da experiência de fé. Dito de outro modo e noutra ordem: vivo uma experiência de fé pessoal radical (pouco institucional, é verdade), ou no dizer de Tillich, estou existencialmente comprometido com o creio, e, ao mesmo tempo, me lanço a uma jornada de investigação científica do mundo (em especial da linguagem, já que sou um linguista). A fé não é mais relegada aos fracos e estúpidos; é uma forma de interagir com o mundo natural, social e metafísico, tão legitima como qualquer outra.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O mercado de consumo está liquefazendo a busca por sociabilidade


“O desvanecimento das habilidades de sociabilidade é reforçado e acelerado pela tendência, inspirada no estilo de vida consumista dominante, a tratar os outros seres humanos como objetos de consumo e a julgá-los, segundo o padrão desses desejos, pelo volume de prazer que provavelmente oferecem e em termos de seu ‘valor monetário’. Na melhor das hipóteses, os outros são avaliados como companheiros na atividade essencialmente solitária do consumo, parceiros nas alegrias do consumo, cujas presença e participação ativa podem intensificar esses prazeres. Nesse processo, os valores intrínsecos dos outros como seres humanos singulares (e assim também a preocupação com eles por si mesmo, e por essa singularidade) estão quase desaparecendo de vista. A solidariedade humana é a primeira baixa causada pelo triunfo do mercado consumidor”.


[Zygmunt Bauman. Amor líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2004]

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A espiritualidade é uma jornada perigosa; a religiosidade uma estadia segura


A verdadeira vida espiritual é uma jornada e não uma estadia quieta, confortável e segura. Num sentido mais profundo, viver uma experiência espiritual é entregar-se à busca de algo que já mais pode ser encontrado em sua totalidade e no lugar em que estamos. Quando encontramos Deus, no instante seguinte ele já se foi. Aí é hora de marchar outra vez. Ficar parado significa aderir à proteção da religião estabelecida e abrir mão de Deus em favor dos ritos e de toda parafernália religiosa.


Não levamos muito o sério a identificação dos primeiros cristãos como os do Caminho. Ser um cristão é estar em marcha; é nunca se deslumbrar por uma estadia, por mais sedutora que seja. O caminho é um lugar de andar e não de ficar parado. Quando paramos, certamente saímos do Caminho. Se realmente estivermos tomados pela identidade de caminhantes, jamais seremos enfeitiçados pelos esplendores e conforto dos lugares fixos, pela suntuosidade dos grandes templos e pela fixação reconfortante dos dogmas. Vamos avante; nós somos caminhantes.

A igreja não é o Plano A; o reino de Deus é o Plano A!



"Certa vez Alfred Loisy observou, de forma celebre, que os apóstolos 'esperavam que o Reino de Deus viria', mas 'o que veio foi a Igreja'. Vamos tratar a declaração de Loisy como uma regra. A chegada da igreja é uma surpresa, ou o que Derrida chamaria de um evento, ou seja, algo que não se vê chegando. Os primeiros seguidores do Caminho estavam esperando um evento, um evento que pusesse fim a todos os eventos, mas acabaram se deparando com outra realidade, realmente decepcionante, um reducionismo do que esperavam, algo com que deveriam se ocupar até a vinda do reino, cuja chegada foi inesperadamente adiada.  O ‘abade’ Loisy, que era um ex-padre, estava sendo cínico, mas ele fez uma excelente colocação. A igreja é o Plano B. (Em matéria de desconstrução, tudo é Plano B)".


 [John D. Caputo. What would Jesus deconstruct. Grand Rapids: Baker Academic, 2007].

The church is not Plan A; the kingdom is Plan A.

"The apostles “had hoped that the Kingdom of God would come,” Alfred Loisy once famously remarked, but “what came was the Church.” (16) Let us call that statement Loisy’s law. The arrival of the church is a surprise—or what Derrida would call an event, meaning something we do not see coming. The first followers of the Way were expecting one event, an event to end all events, but they got another, which really was a disappointment, a retrenchment, a make do until the arrival of the kingdom, whose arrival has been unexpectedly delayed. "Abbe" Loisy, who was an ex-priest, was being cynical, but he makes a good point. The church is Plan B. (In deconstruction, everything is Plan B.)" 


[John D. Caputo. What would Jesus deconstruct. Grand Rapids: Baker Academic, 2007].

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Deus está morto? Ainda não, mas o dia vai chegar


Já está em curso um movimento, lento mas consistente, de implosão do conceito de deus como um ser concentrador, intervencionista, carente de bajulação e que concede poderes colossais aos bons moços da religião. Esse deus, que sabe todas as coisas (mas só fala para uns poucos que se autoproclamam iluminados), que controla o mundo, distribuindo bem e mal calculadamente, segundo um propósito maior (mas não revelado), que garante prosperidade aos que capitalizam o negócio dos “grandes homens de deus”, que salva apenas os que se submetem aos caprichos da religião, está morrendo e não há quem possa salvá-lo.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Deus ama mais viver na terra que nos céus



“Esta alegria de viver me faz encontrar Deus a passear pelo jardim ao vento fresco da tarde. Como eu, Deus prefere as delícias deste mundo material às delícias espirituais do céu. É claro que, se ele estivesse feliz nos céus, não teria criado a terra. Pois Deus, segundo os teólogos, em virtude de sua perfeição, não pode criar o pior. Faz sempre o melhor. Assim, o paraíso tem de ser melhor que os céus que já havia... E Deus gostou tanto da terra e de seus jardins que resolveu para ela se mudar em definitivo e se encarnou eternamente... Deus ama a vida sobre a terra, mesmo com a terrível possibilidade de morrer. Porque a vida é bela a despeito de tudo”. 


[Rubem Alves. Se eu pudesse viver minha vida novamente... 21. ed. Campinas: Verus, 2010].

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Na solidão o falso eu é derrotado

“A solidão é a fornalha da transformação. Sem a solidão permanecemos vítimas de nossa sociedade e continuamos a nos enredar nas ilusões do falso eu. O próprio Jesus entrou nessa fornalha. Ali ele foi tentado com as três compulsões do mundo: ser capaz (“ordena que estas pedras se transformem em pães”), ser espetacular (“atira-te para baixo”) e ser poderoso (“Tudo isso te darei”. Ali, ele afirmou ser Deus a única fonte de sua identidade (“Deves adorar o Senhor teu Deus e só a ele servir”). A solidão é o lugar da grande luta e do encontro – a luta contra as compulsões do falso eu e o encontro com o Deus zeloso que se oferece como substância da noda individualidade.”

[Henry Nouwen. Espiritualidade do deserto e ministério contemporâneo. São Paulo: Loyola, 2000]

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Por que “Experimentações em theoepisteme – theopraxis – theopoiesis”?


Neste blog busco refletir sobre questões que afetam a minha experiência de fé cristã. Divido as reflexões em três categorias: theoepisteme, theopraxis e theopoesis. Penso que nossa busca por transcendência está relacionada a três dimensões da vida: o saber, a prática e a estética. Cada uma dessas dimensões é remexida em uma das categorias de reflexão. A theoepisteme resulta de uma tentativa de reflexão sobre nossa busca, sempre provisória e inacabada, pelo que pode ser conhecido, sabido, pensado sobre o fundamento e a transcendência da vida. A theopraxis constitui uma reflexão sobre o fundamento ulterior de nossa dimensão social, política, ética. A vida está sempre imersa num mundo de desafios práticos; precisamos fundamentar nossa "presença-ação" (ou simplesmente o “estar aí” de Heidegger) numa realidade que vai além das exigências e transformações sócio-histórico-materiais. Precisamos pensar sobre quais fundamentos transcendentes estão na base das respostas que damos às vindicações da práxis cotidiana. A theopoiesis é uma tentativa de voltar, por meio da estética da palavra, a um universo mágico, em que os poderes das instituições humanas são superados pela aventura da criação verbal. Somos continuamente instados a construir uma mimesis do real para podermos suportá-lo, superá-lo, ressignificá-lo; do contrário somos engolidos pela realidade, tornando nossa existência exclusivamente numa saga neurótica e fracassada de realizações notáveis e responsáveis. Carecemos da magia que se faz com palavras; uma magia capaz de fazer a contemplação insurgir. A teopoética nos liberta da tirania do que se julga sério, grandioso, perfeito, pragmático, responsável etc. Só mesmo uma subversão pode trazer à tona o gosto pelo belo e pelo radicalmente simples, mesmo quando estamos submetidos a uma vida de busca por sofisticação material e simbólica.

Sostenes Lima
@Limasostenes

Jesus revoga todas as barreiras do amor


“O amor ao próximo cresce do encontro com o amor de Deus e não pode ser separado do amor a Deus. Consequentemente, um tal amor ao próximo também é ilimitado. Jesus revoga explicitamente todas as barreiras do amor, tanto cultuais, como nacionais. Ao apontar para a analogia do amor próprio e para o exemplo do amor de Deus, Jesus pretende mostrar que amor, como resposta à promessa e à salvação de Deus, é ilimitado”.

[Werner Georg Kümmel. Síntese teológica do Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003]

Carpe diem [por Mario Quintana]

Um dia... pronto!... me acabo.
Pois seja o que tem de ser.
Morrer: que me importa?
O diabo é deixar de viver


[Mario Quintana]

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O céu pode ser bom, mas quero ficar aqui mais um pouco

“Nunca fui atraído pelas propaladas delícias do céu. Para dizer a verdade, não conheço nem uma pessoa que esteja ansiosa por deixar as pequenas alegrias desta vida para gozar eternamente a felicidade celestial perfeita. As pessoas religiosas que conheço cuidam bem da saúde, caminham, fazem hidroginástica, controlam o colesterol, a pressão, glicemia... Elas querem continuar por aqui”. 


[Rubem Alves. Se eu pudesse viver minha vida novamente... 21. ed. Campinas: Verus, 2010. p. 19]

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A fé se fundamenta na dúvida

"Fé é certeza na medida em que ela se baseia na experiência do sagrado. Mas ao mesmo tempo a fé é cheia de incerteza, uma vez que o infinito, para o qual ela está orientada, é experimentado por um ser finito. Esse elemento de insegurança na fé não pode ser anulado; nós precisamos aceitá-lo. E esta aceitação é um ato de coragem".


[Paul Tillich. Dinâmica da fé. 6. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2001. p. 15]

Como se morre antes de morrer [por Mario Quintana]

"Morrer é simplesmente esquecer as palavras"
[Mario Quintana]

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O caminho da fraqueza

“A fraqueza de Deus é mais forte que todos os homens”.
I Cor 1.25

O poder é fascinante. Ele está no centro do projeto de vida da maior parte de nós. É difícil encontrar alguém que, não tendo poder, não o deseja ou que, tendo poder, o renuncia espontânea e desprendidamente. É muito difícil encontrarmos alguém que se desiludiu com próprio poder, a não ser quando se sentiu ameaçado. Por outro lado, é muito comum encontrarmos pessoas que se decepcionaram e se desiludiram com o poder alheio. E por que isso acontece? Porque o poder alheio raramente rende o benefício esperado. Só o autopoder nos satisfaz a contento.

A posse do poder expande nossa capacidade de controle sobre as pessoas e sobre as coisas. Por isso ele é tão desejado e tão buscado. Uma vez que adquirimos controle sobre pessoas e coisas, o caminho para autossatisfação fica bastante desembaraçado. A lógica é a seguinte: se o poder está com o outro, a autogratificação é amplamente dificultada e restringida, mas se ele estiver conosco, sempre há concessões. Daí o motivo por que o poder alheio quase sempre nos incomoda, nos decepciona e o nosso nos apraz. A questão parece bem simples; é só nos perguntarmos: quem está no centro da pessoa que detém o poder? Portanto se o poder não está comigo, certamente não sou o seu principal beneficiário. Por outro lado, se poder está comigo, certamente o outro também não é o seu principal beneficiário.

Não tenho dúvidas de que uma das maiores ilusões e ciladas a que o ser humano está sujeito é acreditar no altruísmo do poder. O poder não é altruísta, não busca o bem do outro. Pelo contrário, o poder corrói o altruísmo. Não duvido da pureza de algumas pessoas quando dizem que precisam ascender ao poder para que tenham condições de expandir o bem que fazem a outras pessoas. Também não duvido da integridade de algumas pessoas que estabelecem um plano de conquista do poder como meio para expandir seu projeto de solidariedade e de autoentrega à causa do próximo. Enquanto o poder é apenas desejado, seu potencial de maldade é limitado. Acho até que a maior parte das pessoas é realmente íntegra enquanto deseja o poder. O grande problema é quando o poder se estabelece e finca raízes. A primeira coisa que ele faz é apontar para quem está no centro, e, ao fazer isso, de imediato apazigua, arrefece o ideal de altruísmo. O próximo passo é fazer com que o eu se esqueça do outro, o que não demora muito a acontecer.

Honestamente, eu também desejo o poder, mas preciso fugir tanto do desejo como do direito e da posse do poder e seguir a trilha da fraqueza. Sou constantemente advertido pelo evangelho a respeito dos males que o poder carrega. Preciso sempre suspeitar do poder, mesmo quando ele me oferece condições e recursos extraordinários para o exercício da solidariedade. Recusar o poder quando ele bate a porta é uma das disciplinas espirituais mais complexas e custosas, porque significa dizer não ao objeto que está na base de quase todos os nossos desejos. Contudo, devemos fazer isso, mesmo com grande dor. O evangelho nos diz para seguir o caminho daquele que, tendo todo o poder, abandonou-o para viver uma vida de fraqueza. E que fraqueza! Afinal, “a fraqueza de Deus é mais forte que todos os homens”.

Igrejas moralmente problemáticas e experiência da graça - Parte II

O problema ético do ser humano me chama a atenção para uma igreja do Novo Testamento, a igreja de Corinto, conhecida por ser moralmente problemática. Localizada num ambiente urbano cosmopolita, a cidade de Corinto atraía todo tipo de pessoas, com tradições culturais e morais diversificadas.

Se há algo que não se pode disfarçar em grandes centros urbanos é a diversidade e a pluralidade. Não há homogeneidade em quase nada. Há todos os tipos de preferência, das mais conservadoras às mais vanguardistas, em todas as áreas culturais: alimentação, vestuário, religião, artes, arquitetura etc. Não é nenhuma novidade o fato de que os grandes centros urbanos são mais moralmente tolerantes, exatamente por agregar tantas diferenças. Corinto era sem dúvida uma cidade diversificada e isso afetou a igreja que ali se estabeleceu. Realmente, nenhuma igreja, em nenhum lugar do mundo, pode ser edificada num vácuo sociocultural, tornando-se imune aos padrões culturais subjacentes: inevitavelmente as matrizes culturais que servem de referência vão estar presentes na vida das pessoas que constituirão a igreja.

A série de problemas morais enfrentados pela igreja de Corinto mostra como essa igreja, em vez de se ausentar da cidade, ou negar a cultura da cidade, passou a agregar as pessoas da cidade com seus problemas e características. Penso que plantar uma igreja num contexto urbano plural constitui um grande desafio para as lideranças, exatamente porque tal igreja deverá estar aberta à diversidade, o que poderá gerar problemas de relacionamentos e problemas morais, os mais diversos, tal como aconteceu na igreja de Corinto.

O apóstolo Paulo, fundador daquela igreja e o seu principal pastor por um longo tempo, escreveu pelo menos duas cartas para apaziguar problemas de relacionamento e resolver dificuldades morais da igreja. Quais foram os principais problemas que desafiaram ação pastoral de Paulo? Eis alguns exemplos: a) grupos rivais que seguiam figuras carismáticas diferentes: Paulo, Apolo, Pedro e Jesus; b) divisão de classe e humilhação imposta aos pobres; c) bagunça e desordem durante as reuniões de culto, d) resistência à liderança da igreja, especialmente a de Paulo, e) relações sexuais ilícitas etc.

O que uma lista de problemas eclesiásticos como essa deixa bem claro é que as igrejas, embora sejam a agência de Deus no mundo, são formadas por seres humanos, o que as torna instituições iguais a quaisquer outras, cheias de problemas, cheias de vícios. Mas há um fato bastante importante sobre a igreja de Corinto que deve ser destacado. Embora fosse uma igreja problemática, não encontramos nas duas cartas de Paulo aos coríntios nenhuma afirmação de que, por causa da abundância e recorrência dos problemas morais, tal comunidade tinha deixado de ser igreja. Também não encontramos nenhuma recomendação de Paulo para que os irmãos da igreja se tornem criteriosos quanto à seleção das pessoas que seriam admitidas à igreja. É verdade que no capítulo 5 da primeira carta há uma situação em que Paulo recomenda a exclusão de alguém, mas dado o tanto de problema que havia na igreja, a recomendação de apenas uma exclusão até que não é tanta coisa assim. Já pensou se Paulo tivesse operando com o conceito de que a igreja devia expulsar todos os pecadores, certamente as exclusões se igualariam ao número de membros.

Não resta dúvida de que a igreja de Corinto era extremamente problemática. Confesso que sou tremendamente atraído pela igreja de Corinto exatamente por essa característica. Parece-me que a maioria das pessoas prefere igrejas mais santas e menos conturbadas. Não é por acaso que, de todas as igrejas do Novo Testamento, a mais prestigiada seja uma igreja mencionada no Apocalipse, à qual se atribui fervor espiritual e pureza moral, a igreja de Filadélfia. Mas mesmo assim continuo tendo uma predileção irresistível pela igreja de Corinto.

A igreja de Corinto me atrai porque nela está presente a diversidade, nela está presente a tolerância, nela está presente a necessidade do amor. Não é aleatório o fato de que o texto mais didático e mais extraordinário sobre o amor, que há na Bíblia, seja endereçado a essa igreja. A igreja de Corinto me fascina porque nela está presente o ser humano, tal como ele é, sem a maquiagem da religiosidade e da hipocrisia moral. Sou tentado a pensar que igrejas que não enfrentam problemas de relacionamento ou problemas morais são igrejas que não atraem pecadores, pessoas reais com problemas reais. Às vezes penso que igrejas formadas por pessoas moralmente imaculadas e arrogantes são igrejas de pessoas artificiais, cuja imagem foi cuidadosamente construída para impressionar Deus (quanta pretensão e trabalho inútil, hein?!). São igrejas que atraem apenas fariseus que, por conseguirem camuflar suas mazelas interiores e dissimular suas pai¬xões e pecados mais secretos, acabam conseguindo criar igrejas estáveis e bem reputadas, embora irrelevantes e detestáveis aos que mais precisam de Deus: nós, os pecadores.