segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Deus gosta de sangue?


Estou farto de holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados, e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes.
[Isaías 1.11]

A cruz não representa um sacrifício necessário a uma divindade sanguinária; ela revela, sim, o retrato final do poder ameaçador do amor presente na vida dessa vítima. 
John Shelby Spong [1]

A morte de Jesus foi expiatória, vicária? Ele morreu para pagar uma dívida? Deus requer sacrifício para aceitar o ser humano? Jesus é um cordeiro (animal cujo sangue era apresentado diante de Deus) que foi imolado pelos pecados da humanidade? A cruz é o ápice da trajetória do nazareno?

Essas perguntas, se respondidas fora do convencional, colocam sob suspeita um dos pontos mais importantes da teologia cristã clássica. A morte sacrificial de Jesus é uma daquelas questões teológicas que ninguém ousa mexer, de tão estabelecida e consensual. Para quase todos os cristãos, os últimos pingos de sangue que escorreram sobre aquela estaca fincada sobre o monte Gólgota são as últimas moedas entregues a Deus como pagamento da enorme dívida humana.

De acordo com a cristologia tradicional, a morte de cruz foi uma oferenda para aplacar a ira de um deus que precisa de sangue para perdoar. "Sem sangue não há remissão de pecados", diz o escritor da Carta aos Hebreus, o texto neotestamentário mais bem sucedido na tarefa de colar em Jesus toda a parafernália conceitual e ritual do culto judaico.

A compreensão da cruz como um evento litúrgico está entranhavelmente arraigada no imaginário de praticamente todos os cristãos. E há diversas razões para isso.

Há uma ampla quantidade de textos bíblicos que mostra Jesus como o último cordeiro a ser morto. Seu sangue é eficaz e suficiente para redimir, de uma vez por todas, os pecados de todos os seres humanos. Há ainda diversos credos, tratados, documentos, confissões teológicas que ratificam essa interpretação. E, por último, todo o trabalho de catequese/discipulado é feito a partir dessa interpretação. Desde cedo nossos filhos aprendem, em salas de escola dominical, que Jesus morreu na cruz para nos salvar.

A morte é, portanto, colocada como centro de toda a trajetória de Jesus. A vida que antecede a cruz é desprezada. E a vida que vem depois é esquecida.

A cruz se transformou, assim, no grande fetiche ritual dos cristãos. Contudo, é importante alertar que, entre os primeiros cristãos, a cruz não foi um símbolo de fé ou devoção. Pouco se falava dela. Só mais tarde é que se tornou símbolo e marca do cristianismo.

É verdade que a teologia da morte sacrificial e vicária tem amplo respaldo no Novo Testamento, especialmente nos escritos de Paulo e na Carta aos Hebreus. Talvez por isso seja bastante difícil repensá-la, instabilizá-la, questioná-la.

Mas é preciso pensar em outras interpretações. Alguém talvez dirá: “E há outras interpretações?”. Há sim! E não são interpretações que desfazem da divindade de Jesus.

José María Mardones, no provocativo livro “Matar nossos deuses”, chama a atenção para a necessidade de se fazer uma leitura alternativa da cruz:

Não podemos ver na vida de Jesus nenhuma aceitação da cruz como algo desejado por Deus, mas como expressão e consequência de sua luta contra tudo o que causa sofrimento arbitrário nos seres humanos. O que se percebe claramente em Jesus é o amor que se manifesta por intermédio desse sofrimento; o amor desconcertante de Deus, não a vítima da justiça divina. Não há Deus sádico, não há vítima sacrificial, não há pagamento de nenhuma dívida. Há uma fidelidade livremente eleita em prol de um mundo e de uma vida humana fraterna e justa. E há um Deus criador e amoroso que não pode desejar mais que nosso bem e cujo ofício é amar. Esse Deus só pode ser antimal por “essência e excelência”, como muito bem diz Andres Torres Queiruga [2].

Mardones nos ajuda a ver o evento ignominioso do Gólgota como resultado/consequência do modelo/estilo de vida que Jesus realizou e propôs, não como um rito cósmico em que um deus, irado pelo pecado, colhe violentamente o sangue do próprio filho para, então, ficar em paz com a humanidade. Jesus, em função de sua ética fundamentada exclusivamente no amor, passou a viver de um modo bastante provocativo. Sua situação só se agravava à media que ofendia, denunciava, desmascarava o status quo religioso, político e social de uma parcela da população judaica. Seu apego radical à ética do amor não deixava margem para outro fim que não a cruz.

Portanto, me parece bastante interessante compreender o nascimento e a vida de Jesus como o centro do projeto de Deus, não a cruz. Ela veio como um contragolpe que o ser humano, livre e capaz de resistir ao amor, deu em Deus. Leonardo Boff foi certeiro ao afirmar: “o Cristianismo não anuncia a morte de Deus. E, sim, a humanidade, a benevolência, a jovialidade e o amor incondicional de Deus. Um Deus vivo, criança que chora e ri e que nos revela a eterna juventude da vida humana perpassada pela divina[3].

O Reino de Deus entrou definitivamente na história por meio do que Jesus anunciou e realizou, não por meio daquela morte horrenda arranjada pela elite religiosa judaica, em conluio com a espada e a cruz romana. Para Deus, os últimos pingos de sangue que caíram sobre o monte Caveira não são guloseimas. Ele não se alimenta e nem se deleita com sangue. Toda aquela cena de horror resulta da opção que Jesus fez em amar radicalmente, não de uma suposta exigência de Deus para que sua justiça e honra fossem reparadas. O que Deus fez foi dar a vida por amor e não cobrar a vida por justiça. 





[1]  Spong, John ShelbyUm novo cristianismo para um novo mundo: A fé além dos dogmas. Campinas: Verus, p. 150.
[2] Mardones, José María. Matar nossos deuses: Em que Deus acreditar? São Paulo: Ave-Maria, p. 97-98.
[3] Boff, Leonardo. Um Deus anônimo. Disponível em: http://leonardoboff.wordpress.com/2012/12/26/um-deus-anonimo/. Acesso em: 26 dez. 2012.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Abraão e Isaque



Por Luis Fernando Verissimo[1]

Deus mandou Abraão imolar seu único filho, Isaac, e oferecê-lo em holocausto a Ele sobre uma das montanhas de Moriá. E tomou Abraão a lenha do holocausto e um cutelo e levou seu filho ao lugar que Deus lhe dissera. E edificou Abraão ali um altar e amarrou Isaac e deitou-o em cima da lenha. E estendeu Abraão sua mão com o cutelo para imolar seu único filho.

Mas um anjo do Senhor lhe bradou desde os céus: “Abraão, Abraão, não estendas tua mão sobre Isaac e não lhe faças mal. Agora sei que temes a Deus, pois não lhe negaste teu único filho em holocausto.” E Abraão levantou os olhos e viu um cordeiro que Deus provera para oferecer em holocausto em lugar do seu filho, e assim fez. E o anjo do Senhor bradou que a semente de Abraão se multiplicaria como as estrelas do céu, e subiria à porta dos seus inimigos, e abençoaria todas as nações da Terra, porque Abraão obedecera à voz de Deus.

Muitos anos depois:

- Eu ainda sonho com aquele dia e acordo tremendo.

- Você era um menino...

- Vejo o cutelo na sua mão, vejo o seu rosto contorcido pela dor, vejo os seus olhos cheios de água...

- Você era um menino...

- Lembro de tudo. Lembro dos trovões.

- Era a voz do anjo me falando dos céus.

- Não ouvi a voz do anjo. Ouvi os trovões. Só você ouviu a voz do anjo.

- Meu filho...

- Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Mas não consigo esquecer. Sonho com aquele dia todas as noites e acordo tremendo.

- Você era um menino...

- Me lembro das nuvens escuras. De uma revoada de pássaros negros. Pássaros atônitos  chocando-se no ar. O céu parecendo recuar com o horror da cena: um pai imolando um filho!

- Um sacrifício. Um ritual necessário de sangue. A cerimônia inaugural da nossa tribo, com os favores do céu.

- Um horror.

- Uma história muito maior do que a nossa. Muito maior do que a de um filho imolado. Hoje sou o pai de nações, o patriarca do mundo, porque obedeci ao Senhor e minha semente foi abençoada.

- Você ficou com o poder, eu fiquei com os pesadelos.

- Nossa tribo foi abençoada. Da minha semente nasceu a nossa glória.

- Você ficou com a glória, eu fiquei com as marcas das cordas.

- Você viu o meu rosto contorcido de dor, filho. Viu os meus olhos cheios de água. Viu que eu estava sofrendo por ter que matá-lo.

- O fio do cutelo encostou na minha garganta.

- Mas eu não o matei!

- Porque Deus não deixou. Porque Deus mudou de ideia.

- Meu filho...

- Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Vou conseguir sobreviver às minhas memórias e aos meus pesadelos. Como você sobreviveu ao que sabe.

- O que é que eu sei?

- Que deve tudo o que tem, seu poder e sua glória, a um Deus volúvel. A um Deus incerto do que faz. A um Deus que volta atrás. A um Deus inconfiável.

- Ele estava me testando.

- Então é pior. Um Deus frívolo e cruel.

- Você era apenas um menino...

- Me lembro das nuvens escuras e dos pássaros atônitos  E do céu recuando diante daquela abominação: um pai matando um filho. E me lembro dos trovões.

- Era o anjo do Senhor falando comigo.

- Eram trovões.

- Obedeci à voz dos céus porque temo a Deus.

- Mais razão para temê-lo tenho eu, pai, que senti o fio do cutelo na garganta.

- Na origem de todos os povos há uma cerimônia de sangue.

- Então na origem de todos os povos há uma abominação.

- Esta conversa se repete, filho. Por quanto tempo ainda a teremos?

- Por todos os tempos, pai.
  




[1] Texto extraído de: Verissimo, Luis Fernando. Diálogos impossíveis. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. p. 53-55.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Ter razão ou ser feliz?



“Nunca se justifique; os amigos não precisam e os inimigos não acreditam”.
Autor desconhecido


Outro dia li uma historinha interessante, que mostra com clareza como a obsessão por estar certo, por ter razão e/ou por ter a opinião que encerra o diálogo pode ser um obstáculo para a felicidade. Vejamos a história:


Oito da noite, numa avenida movimentada. O casal já está atrasado para jantar na casa de uns amigos. O endereço é novo e ela consultou no mapa antes de sair. Ele conduz o carro. Ela orienta e pede para que vire, na próxima rua, à esquerda. Ele tem certeza de que é à direita. Discutem.

Percebendo que, além de atrasados, poderiam ficar mal-humorados, ela deixa que ele decida. Ele vira à direita e percebe, então, que estava errado. Embora com dificuldade, admite que insistiu no caminho errado, enquanto faz o retorno. Ela sorri e diz que não há problema algum se chegarem um pouquinho atrasados.

Aí ele quis saber:

- Você tinha certeza de que eu estava indo pelo caminho errado. Por que você não insistiu um pouco mais?

E ela diz:

- Entre ter razão e ser feliz, prefiro ser feliz. Estávamos à beira de uma discussão, se eu insistisse mais, teríamos estragado a noite!


Optar por ser feliz é bem menos complicado, mas muito menos frequente. Nos deixamos enredar pela necessidade de poder. Acabamos gastando tempo e esforço (físico e intelectual) absurdos para provar que estamos certos. E no final das contas, não há resultado algum a se comemorar; há apenas cacos emocionais a se juntar. Nenhuma discussão para se provar quem está certo termina com as pessoas inteiras. Alguém sairá machucado. Vale a pena?

Há muitas situações em que, mesmo estando com a razão, não é certo brigar. Conquistar a razão à força torna-a completamente vazia. De que adianta garantir que estamos certos se no decorrer da discussão as pessoas foram embora ou foram machucadas?

Há sempre mais...


Há sempre mais do que se pode dizer

Há sempre mais no que se pode dizer e não se diz
Há sempre mais no que se diz

Há sempre mais...

Sostenes Lima

@Limasostenes

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Só a poesia pode salvar o mundo[*]




Tem dias que acordo com a beleza tentando escapulir de dentro do meu peito. Não encontro meios de permitir que ela vaze. Um universo de boas palavras se revolve nas minhas entranhas. Tento poetar me fazendo amigo dos sonetos. Sei que a cadência das frases feitas em verso pode me socorrer. A beleza da poesia alivia como uma aragem fresca. A asfixia convulsiva da angústia não resiste a graça avassaladora de um poema.

Mas sou incompetente para o verso metrificado. Resta-me deixar os dedos à vontade. E eles bailam na prosa. Bordo pensamentos numa sintaxe pouco alinhada. Redijo como o menino que precisa mostrar-se na redação. É jeito de desabafar.

Sento-me à mesa para distribuir uma eucaristia. Minha sede de viver vira o pão sem fermento. Não reflito sobre os escombros da morte, mas, na esperança da aurora.

Na primeira linha, parto com o anseio de ver-me livre de algemas. Grilhões que apertam os pulsos me estimulam. Encarno na tarefa. Não importo se sou artesão atrapalhado; talvez pensador transversal; quem sabe amante repreensível. Minha escrita sou eu se trago dos porões da alma a força que energizou a minha inspiração. Escrevo para me construir livre se faço das palavras o libelo da delicadeza. No final, minha canhota me enreda. Ladeio os que dão a cara a bater contra a intolerância, o preconceito, a discriminação. Como diz Sostenes Lima: “Escrever é dançar com a angústia para distraí-la; é conversar em silêncio com as vozes que nos ensinaram a falar”.

Escrevo em busca da beleza trágica do saltério bíblico: na contradição de esperar e odiar, amar e desdenhar. Quero, diante do absurdo da vida, celebrar prados verdejantes e constelações coriscantes. Quero, no vale da sombra da morte, dizer: eu creio. Quero, na angústia de sentir o pé inimigo no pescoço, ter os olhos serenos.

Escrevo em busca da beleza apaixonada dos boêmios: na celebração do amor essencial. Quero cantar à musa anônima, que encanta os amantes. Quero nunca perder um olhar de terno. Quero não deixar a sensibilidade escoar no ralo da eficiência. Quero emocionar-me com o amor romântico, e tantas vezes inconsequente, dos jovens. Quero ambientes intimistas, pouco iluminados, plenos de insinuações. Quero o imaginário sem aspereza.

Escrevo em busca da beleza persuasiva dos pensadores: na difícil tarefa de repensar, tensionar ideias, provocar reflexão. Quero mergulhar nos compêndios que desalojam o obscurantismo. Quero debulhar, com lentidão, as espigas que nascem do trigal filosófico. Que belo sonho: sentar em tertúlias.
Escrevo em busca da beleza criadora dos romancistas: na feliz aventura de viajar a mundos fantásticos. Quero ver-me na pele de protagonistas que ousam desafiar demônios, encarar exércitos, sonhar com cidades submersas e, sofrer, sobretudo sofrer. Só eles conseguem ensinar o que é viver e morrer por mãos alheias.

Escrevo em busca da beleza solidária dos santos: no desprendimento de amar sem considerar o galardão. Quero celebrar a vida dos Franciscos de Assis, dos Nelsons Mandela. Na direção do próximo, eles andaram as milhas que jamais tive coragem de encarar. Quero aprender o segredo de não ter a vida por preciosa, como Oscar Romero, mártir de uma morte anunciada. Quero chegar ao fim da existência sem o bolor que noto na pele de quem se acovarda diante do mal.

Dou razão a Vinicius de Moraes: “Só a poesia pode salvar o mundo de amanhã”. Os poetas são vigias. Eles guardam as muralhas da cidade; são arautos do divino. De seu alarido frágil vem uma certeza: o mal ainda não se mostrou forte o suficiente para arrancar a Imago Dei do coração de homens e mulheres. Do alto da torre, tirania e opressão tomam conhecimento: o brado da vida pertence aos que amam o Bem. A beleza que tenta sair do meu peito é compromisso transubstanciado em palavras.

Soli Deo Gloria

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Tuítes sobre a natureza da poesia














quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O silêncio é a alma da palavra


O silêncio antecede e forma a palavra.
Quando o silêncio é longo demais, a palavra nasce envelhecida ou morta;
Quando é curto demais, a palavra nasce prematura, informe e disforme.
O silêncio tem que ser do tamanho certo.

Palavras nascidas depois de uma boa gestação no silêncio são
fortes, mas não brutas
espontâneas, mas não canhestras
suaves, mas não passivas
simples, mas não simplórias

Mesmo depois de nascidas,
as palavras ainda devem continuar amigas do silêncio.
Palavra enunciada continuamente é palavra vazia.

Toda palavra, depois de enunciada,
precisa ser relançada ao exílio do silêncio.
Lá as palavras morrem e renascem em outras.
Esse é o ciclo de vida da palavra.

A palavra a que se nega o silêncio deixará ser palavra: 
Se degenerará em ruído.
O silêncio é a alma da palavra.

domingo, 25 de novembro de 2012

(2012/816) Comentários en passant sobre a "in-serventia de Deus" [1]




[1] Resenha do texto "Deus não serve para nada. E agora?" escrita por Osvaldo Luiz Ribeiro e publicada no blog Peroratio

1. Sóstenes Lima tem um blog homônimo na Internet. Nunca havia lido, não conhecia. Alguém ou alguéns de meus contatos do facebook deve(m) ter encontrado, porque hoje é a segunda vez que um texto de Sóstenes aparece postado.


3. Vou tecer alguns comentários en passant. Não será um comentário geral, moverei apenas os peões do tabuleiro...

4. Primeiro: "a religião nasceu com o ser humano". Esse "com" é ambíguo - o que se está a dizer? Que, nascido o homem, junto com ele nasce a religião? "homo sapiens não apenas conseguiu autoconsciência, mas também auterconsciência, das quais nasce a religião" - novamente, pode-se interpretar que se continue a falar da condição concomitante do nascimento do homem e da religião no homem, ou pode estar implícita a ideia de que estamos diante de um processo histórico longo - o texto, até aqui, passa por cima disso. "homo sapiens percebeu que para fora de si existe um mundo desconhecido, contingente, ameaçador; numinoso, por assim dizer" - outra vez, e mais grave: o texto agora insinua que a percepção do mundo como "numinoso" equivale à sua percepção como algo externo - passagem rápida demais, eu acredito, entre a hominização e a "teologização" humana. "Diante de tanto temor, imediatamente o homo sapiens se torna homo religiosus. Busca explicações para aquilo que desconhece e que o ameaça": bingo? Parece que eu estava certo: o texto torna todo o longo processo de hominização e de posterior "religiosização" um fenômeno praticamente único - veja-se o "imediatamente"...

5. Não sei. Acho que não foi assim: para mim, e creio que para a paleontologia, há um abismo de milênios entre a hominização e a posterior e muito, muito recente "teologização humana". Fiquemos no Homo sapiens - 250.000 anos? E a religião? Arqueologicamente comprovada, dependendo da flexibilização do trato material, 100.000 ou 40.000 anos. Não é possível unir os dois momentos, principalmente se tivermos em mente que o Homo sapiens não é o marco "inaugural" da espécie: dependendo do recuo no tempo, pode-se chegar a 6 ou 7 milhões de anos.

6. Não estou me detendo em detalhes. A ideia de que a teologização humana se dá concomitantemente à hominização embute um princípio teológico - ser homem é ser religioso, a religião é "natural", co-natural, co-humana, de sorte que só se pode pensar o homem enquanto ser religioso... Tenho minhas severas dúvidas... De qualquer forma, prepara-se o argumento final do artigo: pode-se fugir da "magia", mas não da "fé"...

7. O núcleo desenvolvido do texto une Fenomenologia da Religião e Feuerbach, e eu não faria maiores comentários. Estamos, aí, diante de certa compreensão do fenômeno religioso, com a qual tenho laços afetivos e ideológicos. O problema, todavia, é que o texto já separou o "nascimento" da "fé" do desenvolvimento cultural e histórico da religião - ele poderá, agora, pôr no chão o "desenvolvimento", guardando em relicário sagrado seu parto co-natural... É o que fará? Pode apostar...

8. A certa altura, uma declaração que, a meu ver, merece duas observações: "portanto, não tenho a intenção de defender aqui que é possível ser cristão sem estar imerso numa experiência religiosa. Isso seria um contrassenso". Primeira observação: a) não é o que pensava Bonhoeffer, que, enquanto esteve preso, pretendia desenvolver uma Teologia expressa na seguinte fórmula - "um Cristianismo não-religioso para um homem em estado adulto". Polares, as duas declarações. Pena que Bonhoeffer não tenha podido levar a cabo seu projeto. A segunda observação é que, como eu percebera, a entrada do texto prepara a sua saída - está-se a propor uma expressão religiosa "crítica" que se pudesse separar do mar de cultura e de sincretismo mágico por que o Cristianismo se teria deixado marcar...

9. A tese é: o Cristianismo é a religião da experiência última e sublime, diante da qual a religião histórica é espuma e sincretismo mágico. Eis o citado que acredito justificar minha leitura:
Não é meu propósito demonizar a religião em si. O que pretendo é mostrar que a fé cristã, embora ancorado no sentimento religioso, exige um passo à frente, sobretudo, em direção a um Deus inútil. Do contrário, estaremos navegando apenas na superfície da experiência religiosa, algo mais ou menos igual em praticamente todas as religiões, com diferenças rituais irrelevantes.

10. A religião histórica, tanto faz qual e tanto faz o nome do deus, é "um ritual de magia". O Cristianismo modelar, todavia, deveria ir além disso: "Não se trata de negar o caráter religioso de Deus, ou da natureza da religião como uma experiência de atenuação da vida, mas de buscar uma experiência que vai além disso". Por que haveria - para o autor, "há", ele afirma - um modo correto de ser corretamente cristão:
Ser cristão de verdade implica transcender o sentimento de desamparo diante do mundo e da vida (algo que incessantemente nos compele a buscar um Deus amparador, protetor, controlador). Significa rumar em direção a um Deus que provoca em nós um sentimento de contemplação e uma sede incontrolável de relacionamento. Significa buscar uma fusão com Deus, tendo o Cristo encarnado como referência. Ser cristão é desejar Deus, não precisar de Deus. Quem precisa de Deus para ajeitar questões contingentes (e mal administradas) da vida cotidiana, ainda está vivendo uma experiência religiosa pré-cristã, imatura, um pouco mágica.

11. É curioso. Um Deus que acaba de se fazer inútil, mas que não se joga fora. Mas ele acabou de ser declarado como não tendo nada a ver com a vida!... A magia é mesmo uma coisa desagradável! Que ele, esse Deus, cuide das "contingências" da vida - as contingências da vida, meus senhores, eis a única coisa que a vida é! - é um pensamento aviltante da condição máxima dessa divindade, sublime - platônica... Vejo-me diante da idealização radical da subjetivação filosófica da fé: assisto ao encontro explícito entre a Teologia e a Filosofia do século XX - pouca Filosofia e quase nenhuma Teologia "crítica" (?) do século XX foi além disso, deixou de ser isso e expressou-se fora desse ponto axial. Descorporização da fé, platonização da fé, sublimação da fé, filosofização da fé.

12. No último parágrafo, um tanto quanto constrangido de ter levantado alto demais a cabeça e ter corrido o risco de esquecer o que é a vida, Sóstenes confessa: "sou contraditório, eu sei". Felizmente, ele mesmo o declara. Eu o declararia, mas meus leitores se constrangeriam. Todavia, o próprio autor o confessa. E vai mais longe: "não sei como resolver esse dilema", isto é, fugir da vida, em direção a um Deus que não põe a mão na matéria, coisa imunda, e no carbono, coisa do demiurgo - Platão é o verdadeiro fundador da Teologia cristã! -, e, ao mesmo tempo, reconhecer que a vida é dor e sofrimento: "já orei por todos esses motivos".

13. O mais engraçado é que a solução me parece diante dele: "tenho convicção de que, em minha experiência de fé, devo avançar em direção a um Deus amigo, companheiro, diante do qual tudo que posso fazer é contemplar, estar perto, dialogar, abraçar, amar, estar nele e ele em mim". Tem mesmo? Tem consciência, mesmo, de que se trata de uma experiência de fé? De ? Ora, se você levar a sério que se trata de uma experiência de fé, e se compreender fenomenologicamente, psicologicamente, antropologicamente, epistemologicamente o que isso significa, verá que se trata de racionalização envolvida por sentimentos de subjetivação e desejo... Não há nada de concreto aí. Nada. É o princípio do desejo a recusar-se a encarar o princípio de realidade - para citar o teórico com que Sóstenes abre seu texto.

14. Se querem tratar da inutilidade de Deus - aceito. Aceito qualquer coisa no campo da pesquisa, se com isso sou convidado a pensar sobre mim, sobre minha existência. Mas, por favor, se Deus é inútil, Deus é inútil. A retórica da manutenção do Deus inútil a despeito de sua inutilidade é o efeito teológico e religioso, místico e mágico - ironia! - do encontro violento entre a fé e a razão - e tudo isso não passa do efeito desesperado da alma que quer acreditar contra toda a racionalidade e, para tentar um pouco de paz interior - porque, afinal, a fé ainda está lá - precisa oferecer alguns farrapos que seja com que a razão, que começa a ganhar espaço, se contente em vestir...

15. Faça de Deus um inútil. Mas não tente esconder a nudez com farrapos.

16. A coragem de vir a público e denunciar a inutilidade de Deus pede a coragem de assumir que com a utilidade se vai também o que e quem se pensava útil: não apenas o que ele fazia, mas ele mesmo.

17. Sim, a fé se esconde na Filosofia. A Teologia se disfarça em crítica.

18. Nudez, senhores - a serpente era a mais nua de todas as espécies que Yahweh criara...

Diálogo com Osvaldo Luiz Ribeiro



Osvaldo Luiz Ribeiro
Sóstenes, seu texto [“Deus não é genocida”] foi divulgado no Facebook e o li. Acho que não o conhecia. Uma texto provocativo e público. Logo, provocado, comento-o.

Sostenes Lima
Caro Osvaldo Luiz Ribeiro, visito o blog Peroratio com certa frequência. Gosto dos seus posts. Antes mesmo de você me honrar com sua presença aqui, eu já tinha colocado o Peroratio como um dos blogs da minha lista de "Pontos de contato". Obrigado por sua visita.

Aproveitei o seu comentário para dar continuidade à interlocução. Gostei de cada uma das suas colocações. Não vou rebatê-las, de modo algum. Razão: me falta profundidade e sobra retórica (rs). Quero apenas comentar cada um dos seus itens (a, b, c, d).

Osvaldo Luiz Ribeiro
a) Marcião fez o mesmo que você, no século II. Foi mais longe, ele, eu acho – em todo caso, vi os mesmos arrazoados. Separar um deus bom de um deus ruim.

Sostenes Lima
a) Penso que as razões que levaram Marcião a propor uma divisão entre o Deus do A.T. (um demiurgo mau) e o Deus no N.T. são um pouco diferentes das que me levaram a escrever o texto “Deus não é genocida”. Embora suas propostas estivessem, em grande parte, ligadas a questões éticas, Marcião, até onde sei, não as elaborou para contestar o apoio dos cristãos a uma guerra específica. Me parece que a maior preocupação dele era criar uma conciliação ética entre o Deus do A.T. e o Deus do N.T., sem que isso estivesse ligado a uma questão crucial de sua época. De qualquer modo, não estudei Marcião. Tenho pouco a dizer sobre suas postulações teológicas.

Osvaldo Luiz Ribeiro
b) Você trata Yahweh, deus judeus, talvez israelita, como deus pagão. Foi exatamente o que Marcião fez. Não vejo sentido – se você tirar Yahweh, o deus ocidental desaparece. Não há monoteísmo sem Yahweh – e estou falando estritamente em termos históricos, porque não acredito em acesso metafísico.

Sostenes Lima
b) Minha discussão (e contestação) gira em torno de Yahweh Sabaoth (Deus dos Exércitos), não de Yahweh em si. Vejo problema no Deus invocado pelos judeus para lhes garantir vitória nas empreitadas militares, não no Deus de Israel em si. Ao criar especificidades para Yahweh, os judeus acabaram seguindo os mitos e religiões de sua época e de seu entorno geográfico-cultural. Todos os povos, com os quais Israel interagia, tinham deuses para praticamente todas as atividades (sociais, econômicas e culturais) e esferas da vida, tais como agricultura, guerra, justiça, saúde. O que distinguia os judeus dos outros povos é que eles congregavam essas potencialidades divinas num só ser. Daí o monoteísmo. Contudo, penso que o Yahweh da guerra, o Yaweh da agricultura (se houver), o Yahweh da saúde etc. são imitações pagãs. Esses deuses pagãos, embora chamados de Yahweh, não são propriamente o Yahweh pai do messias, o pai do Cristo dos cristãos.

Vejo que a construção de um Deus com paixões, pretensões e incursões militares decorre da necessidade dos judeus. Os registros das ações desse Deus não podem ser aprioristicamente tratados como revelação. Só tenho de aceitar como revelação todos os registros dos atos de Yahweh – com todas as especificidades dadas pelos judeus – se eu seguir rigorosamente o dogma da inerrância e da inspiração verbal plena. Caso contrário, posso conceber boa parte do A.T. como uma narrativa de autocompreensão religiosa do povo judeu, incluindo aí a criação/projeção de um Deus que lhes atendesse certas (ou quase todas) demandas da vida cotidiana. Muito do que há no A.T. é, para mim, então, resultado do modo como o povo judeu (dentro dos contextos social, cultural, econômico etc. que o cercavam) concebia Deus. Portanto, as ações atribuídas a Deus podem não ser necessariamente de Deus.

O discurso religioso é, talvez de todos os discursos, o que tem mais poder de construção e manutenção, porque invoca uma autoridade supra-humana, inquestionável. Dogmas são criações discursivas poderosas porque estão assentados em discursos sagrados, que reivindicam para si mesmos um poder legítimo, inerrante e não suscetível à crítica e à suspeita.

Osvaldo Luiz Ribeiro
c) Não entendo como você pode se dizer um cristão convicto e, por isso, negar Yahweh, um deus pagão e assassino, quando o Cristianismo é muitíssimo mais assassino do que Yahweh - se somarmos todas as mortes atribuídas a Yahweh a gente pode dar um século de matança cristã que fica zero a zero, com 19 séculos de sangue ainda para a gente negociar com algum outro deus pagão...

Sostenes Lima
c) Nesse ponto, penso ser necessário distinguir Yahweh e judaísmo, do mesmo modo que é necessário distinguir Cristo e cristianismo. Cristo não fez e não faz tudo que os cristãos lhe atribuem. Houve na história do cristianismo diversas incursões de massacre e outros desastres éticos, já denunciados por mim no artigo “A agenda de Jesus se opõe à agenda dos cristãos”. Quem fez isso, embora em nome de Deus, foram os cristãos, não o próprio Deus. Portanto, os 19 séculos de violência do cristianismo devem ser interpretados à luz das necessidades e contexto histórico dos cristãos, não à luz da revelação.

Minha interpretação do A.T. vai nessa mesma direção. Yahweh não é sinônimo de Israel ou de judaísmo. Nem tudo que Israel e/ou judaísmo atribuem a Yahweh foi realmente praticado por Yahweh. Como disse acima, o problema não está com Yahweh, mas com o Deus que entra na guerra para exterminar violentamente os inimigos de Israel. É o sanguinário Yahweh Sabaoth que é pagão, não o Yahweh.

Osvaldo Luiz Ribeiro
d) o final do seu texto, aí, sim, me interessa – mas, cá entre nós, ele pode funcionar bastante bem sem essa retórica de "sou cristão" mas o AT que vá pro inferno: se é para mandar às favas, mande tudo, e fiquemos com a ética humanista e secular moderna que tá de bom tamanho...

Sostenes Lima
d) Gosto da ética humanista secular. Penso que ela dá conta de todas as demandas éticas da comunidade humana global, sem qualquer apelo às bases éticas das diversas religiões. Não há que se recorrer à ética cristã (ou qualquer ética religiosa) para se chegar a um padrão ético satisfatório para a continuidade e desenvolvimento da família humana (que envolve o ser humano e todos os outros organismos e elementos naturais de seu entorno). Na verdade, a ética religiosa tende mesmo a atrapalhar mais que ajudar. Temos visto que a religião, embora grandemente assentada em questões éticas, tende a fossilizar a ética e transformá-la em moralismo. Penso que uma das bases do embate de Jesus com as instituições de sua época se deu, em grande parte, por causa do desvirtuamento da ética da lei em moralismo e tradição.

Coloquei a figura do cristão no meu artigo exatamente para dizer que, mesmo olhando sob a ótica religiosa – seja cristã ou judaica – o genocídio jamais é sancionado. Só mesmo uma degeneração da ética cristã, judaica (ou de qualquer outra ética religiosa) pode dar legitimidade ao genocídio; só quando se coloca algum dogma acima da ética (é bom lembrar que disso decorre a maior parte dos movimentos fundamentalistas) é que se pode respaldar ou apoiar qualquer forma de genocídio.

Osvaldo Luiz Ribeiro
e) Para mim, é impossível separar a tradição cristã de seu passado judeu - IMPOSSÍVEL: tudo, absolutamente tudo, no cristianismo está assentado de modo sine qua non em assentamentos veterotestamentários. Penso que devíamos é fazer a crítica cristã a partir dessa relação, e não tratar o cristianismo e o fato de sermos cristãos como algo "acima" ou "melhor" do que foi o judaísmo veterotestamentário. Foi não: foi pior, mil vezes pior.

Sostenes Lima
e) Também acho que todo o nosso fundamento teológico é dependente do monoteísmo judaico. Somos todos filhos de Yahweh, por assim dizer. A questão central para mim não é pesar qual religião foi/é mais cruel: judaísmo ou cristianismo. Essa questão não me interessa. Também não me interessa saber qual Deus fez mais besteiras e barbaridades na história: o Deus dos judeus ou Deus dos Cristãos. Meu objetivo, ao escrever o artigo, não foi comparar a representação que os judeus e os cristãos constroem para o seu Deus, e a partir daí dar o veredito sobre qual Deus é mais bárbaro. De modo algum. Em se tratando de representação, todos os deuses tendem a se tornar bárbaros. Não tenho a menor dúvida de que há muitos deuses bárbaros e pagãos tanto no judaísmo e quanto cristianismo.

Meu objetivo central foi denunciar a representação que judeus e cristãos têm de Deus, especialmente a representação que atribui a ele uma identidade belicosa, sanguinária. Eu quis dizer que algumas representações de Deus, construídas em diversas manifestações do discurso sagrado (livros sagrados, profetismo, prédica etc.), não devem ser levadas a sério, não devem ser tratadas com a reverência que reivindicam. Há que se colocar certos pressupostos éticos antes.


Osvaldo Luiz Ribeiro
"Meu voto", para brincar com a declaração da moda...
Meus respeitos,

Sostenes Lima
Um grande abraço, meu amigo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Deus não é genocida



Uma boa parte dos cristãos, ancorada numa interpretação ideologizada e equivocada da bíblia, sempre foi simpática, conivente e, em alguns casos, cooperadora com as ações genocidas de Israel, como a que está em curso no momento.

São muitos os cristãos que, sem ativar o menor senso ético, concebem as batalhas de guerra dos hebreus, registradas no Antigo Testamento, em especial nos livros de Josué, Juízes, I e II Samuel, I e II Reis e I e II Crônicas, como sendo ordenadas e sancionadas por Deus. Algumas dessas batalhas, massacres para ser mais preciso, são comumente citadas em sermões como exemplos do cuidado e provisão de Deus para com aqueles que lhe são fiéis.  É muito comum ver pregadores citando as ações militares de Josué (algumas delas com conteúdo claramente impróprio para crianças) sem sentir o menor constrangimento ético.

Invasões e expedições de horror, abertamente genocidas, como as de Josué[1], são normalmente interpretadas, por correntes fundamentalistas, como demonstração do cumprimento da vontade de Deus. Aliás, a ocupação de Canaã como um todo, com a consequente destruição dos povos locais, é vista como o ponto culminante do plano de Deus em instituir para si uma nação: Israel.

Vitórias esmagadoras, com a dizimação de prisioneiros de guerra e civis (em sua maioria mulheres e crianças), são alardeadas por pregadores fundamentalistas como um prêmio que Deus concedia aos hebreus por eles serem o povo escolhido. Triunfos, quando em desvantagem militar, são frequentemente apresentados como exemplos máximos de situações em que Deus pode intervir em favor dos seus escolhidos, providenciando vitórias onde há pouquíssima ou nenhuma possibilidade de acontecer.

Para quem interpreta literalmente a bíblia, a aliança de Deus garantia aos hebreus, caso estivessem em dia com as leis cerimoniais, civis e morais editadas pelo próprio Deus no deserto, sucesso em quaisquer incursões de guerra. Mesmo planos imperialistas eram abonados por Deus.

Falta a muitos cristãos a coragem de fazer uma leitura ética mais radical do Antigo Testamento, levando em conta os princípios defendidos no sermão do monte. Isso implica, certamente, a coragem de instabilizar e, por vezes, devastar algum dogma. Levar o sermão do monte e a mensagem de Jesus às últimas consequências tem efeitos perigosos.

Eu sei que ler as narrativas de guerra do Antigo Testamento a partir de outros pressupostos éticos, isto é, fora da caixa de conserva da ortodoxia, é opção bastante provocadora. Contudo, penso que, quando amparados por um valor ético superior, não devemos ter medo de enfrentar os dogmas. O princípio ético segundo o qual todo ser humano tem direito à vida sobrepõe qualquer dogma. Então, não me preocupo em tocar no dogma da inerrância e inspiração verbal plena da bíblia. Afinal, busco seguir Jesus, não a bíblia. Ela é para mim o mapa que aponta para o destino, não o destino em si. E, se vista como mapa, a bíblia necessariamente precisa de leitura e interpretação.

É preciso, ao ler o Antigo Testamento, especialmente as passagens que narram eventos de guerra, separar o que é interesse de Deus (quase nada) e o que é interesse militar e nacional dos hebreus. Quem precisava de um território e um Estado eram os hebreus, não Deus. Então, as medidas militares (especialmente aquelas que desrespeitavam certos princípios de guerra universais, como garantir a vida de prisioneiros e proteger civis) executadas por Israel para conquistar território eram ações motivadas por suas necessidades e ambições, não pelo desejo de Deus.

Sei que uma proposta de interpretação como essa, que questiona o status da bíblia como a narrativa dos atos de Deus, custa muito caro. Interpretações críticas e não dogmáticas são severamente combatidas; são comumente tachadas de heresia.

Não me importo em ser herege. O que não posso fazer é permitir que um dogma me leve a passar por cima de um pressuposto ético universal tão basilar como o que o garante a todos o direito de viver. Não posso, por exigência de um dogma, aceitar que Deus seja genocida. Quem é genocida é o ser humano e o seu maior aparelho de poder, o Estado, não Deus. Quem invade territórios alheios, dizima exércitos oponentes, mata friamente prisioneiros de guerra e massacra cruelmente mulheres e crianças são os exércitos de um Estado, sob o comando de um monarca e/ou de um general genocida, não Deus.

O homem é o senhor da guerra. Não há um Deus da guerra. Yaweh Sabaoth (Deus dos exércitos) é uma invenção pagã dos hebreus para legitimar suas ações militares, o qual não cabe em hipótese alguma na espiritualidade cristã.

Se as batalhas do general Josué, tal como narradas no livro de Josué, acontecessem hoje, Josué seria certamente encarado pela comunidade internacional como um genocida. Não tenho dúvida de que, havendo oportunidade de enfraquecer seu poderio militar, ele seria julgado e condenado por um tribunal internacional por violação dos direitos humanos e por crime de guerra, genocídio.

Dizer isso a respeito de Josué, uma grande herói da fé e um exemplo impecável de confiança em Deus, é para muitos cristãos um sacrilégio, uma profanação, um sinal claro de apostasia. Não me importo com isso.

Não me considero um apóstata. Pelo menos aos meus olhos, parece bastante compatível com a fé cristã a ideia de que, em Jesus, recebemos uma revelação explícita de que Deus não tem planos de ocupar palácios, montar secretariado, financiar a indústria da violência, comandar exércitos. Jesus nos mostrou com precisão que a agenda de Deus está na contramão do poder. Então, não vejo incoerência ou heresia no que estou dizendo.

Sou um cristão convicto. Leio e respeito a bíblia. Mas busco não ser fundamentalista. Talvez meu problema seja que, na busca por não ser fundamentalista, acabe me tornando um heterodoxo (um sinônimo bonito para herege). Realmente não consigo ser ortodoxo. Não consigo crer em certos postulados à revelia da ética.

Não creio num Deus que tem seus próprios princípios éticos, completamente alheios aos princípios éticos humanos. Não consigo crer num Deus que segue regras éticas arbitrárias, sem levar em conta aquilo que, para a maior parte dos humanos, é horrendo, medonho, hediondo. Simplesmente não consigo crer num Deus que manda matar todos os homens, idosos, mulheres e crianças de um território invadido. Sequer creio num Deus que manda invadir.

Se fé ortodoxa significa crer em Yaweh Sabaoth (um deus pagão), posso ser tachado de herege. Prefiro crer num Deus que não se mete em guerra, a não ser para acolher o paulistano e o palestino que estão atualmente sendo massacrados pelo crime e pela barbárie da guerra, a idolatrar um monstro sanguinário.

Um Deus que tem prazer no sangue simplesmente não entra em mim. Não consigo me ancorar em qualquer teologia que faz vista grossa à ética. Prefiro ser herege, mantendo-me coerente com princípios éticos que julgo invioláveis, a ser ortodoxo e bater de frente com princípios éticos universais, como os que estão expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, Direito Internacional Humanitário, entre outros tratados internacionais.





[1] A seguinte narrativa ilustra muito bem uma situação em que os direitos de prisioneiros de guerra são violados. Mais que isso. Há aí a violação de direitos humanos, um genocídio cruel, bárbaro:

“[23]. Os cinco reis foram tirados da caverna. Eram os reis de Jerusalém, de Hebrom, de Jarmute, de Láquis e de Eglom. [24]. Quando os levaram a Josué, ele convocou todos os homens de Israel e disse aos comandantes do exército que o tinham acompanhado: "Venham aqui e ponham o pé no pescoço destes reis". E eles obedeceram.
[25]. Disse-lhes Josué: "Não tenham medo! Não se desanimem! Sejam fortes e corajosos! É isso que o Senhor fará com todos os inimigos que vocês tiverem que combater". [26]. Depois Josué matou os reis e mandou pendurá-los em cinco árvores, onde ficaram até à tarde.
[27]. Ao pôr-do-sol, sob as ordens de Josué, eles foram tirados das árvores e jogados na caverna onde haviam se escondido. Na entrada da caverna colocaram grandes pedras, que lá estão até hoje.
[28]. Naquele dia Josué tomou Maquedá. Atacou a cidade e matou o seu rei à espada e exterminou todos os que nela viviam, sem deixar sobreviventes. E fez com o rei de Maquedá o que tinha feito com o rei de Jericó” [Josué 10.23-28 NVI].

Meu Deus, se isso não é uma barbárie, o que será? Se práticas como essas são eticamente consentidas, porque são feitas em nome de Deus, o que realmente podemos esperar de dele? Tenho medo.

sábado, 17 de novembro de 2012

Sou professor, não um coitado



Sou professor, não um coitado. Peço que a mídia e sociedade me tratem com dignidade profissional. Não preciso que tenham pena de mim. Não preciso de condolências. Na verdade, a sociedade, como um todo, deveria ter pena de si mesma, não de mim. Se a mídia e a sociedade acham mesmo que estou na miséria, então é bom que comecem a preparar o próprio funeral.

Sou professor, não um missionário da educação. Não trabalho apenas por amor a profissão. Como qualquer outro profissional, trabalho para ser dignamente remunerado. Não vou completar a baixa remuneração com filantropia, trabalho voluntário. Não sou amigo ou voluntário da escola. Sou um profissional que desempenha aí suas atividades, devendo, para isso, ser adequadamente pago.

Também não tenho a missão de salvar a educação. Na verdade, não quero e não tenho a menor condição de fazer isso. Professor não é redentor. Se a educação está perdida, quem tem a responsabilidade de apontar o caminho da redenção é o Estado, não eu.

Também não tenho a missão de salvar nenhum aluno que, porventura, se encontre em alguma situação de risco social. Na verdade, não quero salvar ninguém. É o Estado que deve criar, promover e manter políticas públicas que diminuam as situações de risco social.

Sou professor, não tio. Não trabalho para suprir demandas afetivas (de natureza familiar) dos alunos. Minha responsabilidade profissional é, sobretudo, social, não afetiva. Não sou a extensão do pai ou da mãe de ninguém. Isso não quer dizer que minha atuação não seja carregada de afetividade. É sim. Mas não posso incorporar ao meu trabalho o papel de pai ou mãe; não posso me julgar capaz de satisfazer demandas afetivas dos alunos. Se eu fizer isso, vou comprometer a qualidade técnica de meu trabalho.

Este pequeno texto é uma espécie de protesto, um desabafo. Não é um artigo. Não me preocupei em apresentar base teórica ou dados  de pesquisa que sustem (ou não) o que disse. Eu apenas quis expressar uma indignação que volta e meia sinto. Estou mesmo cansado de ser tratado com estereótipos e caricaturas.  Quero respeito. Quero que meu país me veja como um profissional importante para qualquer projeto que se queira para esta nação, não como um coitado ou um redentor.

Encerro com um mantra (surrado, mas verdadeiro) muito frequente em livros (de autoajuda) da área de educação:

Sonho com o dia em que se reconhecerá que uma nação forte se constrói em sala de aula.   Sem um projeto educacional amplo, que inclua a reestruturação da carreira docente, não há projeto de nação que se sustente.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O livro é um objeto sensual


Por André Green[1]

O desejo de ver está presente na leitura. A capa, a encadernação de um livro são sua roupa. Indicam um nome, um título, um pertencer (a casa editora) que se propõem ao olhar e o atraem.

Quando o livro está na estante de uma biblioteca, seu acesso é fácil para o olhar em busca de prazer; quando está posto na vitrine de uma livraria, esta barreira transparente aumenta nossa curiosidade. Entramos na livraria pra ‘dar uma olhada’. Exceto no caso em que já sabemos o que queremos e pedimos ao livreiro, não gostamos de ser perturbados em nossa inspeção. Fuçamos até que, atraídos por um vago indício, seguramos um livro. Aí começa o prazer, quando o abrimos, tocamos, folheamos, sondamos aqui e ali. Se o livro não está com as páginas cortadas, às vezes somos obrigados a fazer uma pequena acrobacia ocular para ler uma página pregada por cima ou pelo lado, pois é justamente aquela passagem que nos interessa.

Enfim, é preciso escolher. Se a promessa de prazer nos parece que vai poder ser mantida, pagamos o preço do livro e partimos abraçados com ele. Dependendo de se não nos desagrada mostrá-lo em nossa posse ou se algum pudor nos leva a esconder a sua identidade, o mostraremos nu ou embrulhado. Para ler, precisamos nos isolar com o livro – em público ou em particular – e às vezes em lugares bem estranho e a priori pouco propícios a este tipo de exercício.

O que nos leva a ler? A busca de um prazer pela introjeção visual que satisfaz uma curiosidade.




[1] Texto extraído de: André Green. Literatura e psicanálise: a desligação. In: Luiz Costa Lima (Org.). Teoria da literatura em suas fontes. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. p. 233-234 [Adaptado na distribuição dos parágrafos. O título “O livro é um objeto sensual” não consta no original].

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

As memórias são o que a alma acumula



Por Rubem Alves[1]

Acumular é um dos mais profundos instintos da alma. Por que a alma ama. O amor deseja possuir. Se amo a casinha de paredes brancas e janelas azuis, por que não possuí-la, se posso? Se ela for minha, eu cuidarei dela, plantarei um jardim. [...]. Se amo a música que ouço, por que não possuir o CD? Eu o levarei para casa e poderei gozá-lo quantas vezes quiser. O amor é onívoro – quer comer tudo. Comer é a forma mais radical de possuir. Comendo, o que estava fora e era outro passa a ser parte de meu próprio corpo. ‘Sou onívoro de sentimentos, de seres, de livros, de acontecimentos e lutas. Comeria toda a terra. Beberia todo o mar’, dizia Neruda.

Eu ajuntei muitas coisas e estou sendo perturbado pela pergunta da parábola; Para quem ficará tudo o que acumulaste? [...].

Parece estranho, mas o fato é que memórias são também objetos que acumulamos. Estão guardados no nosso tesouro. Há umas memórias das quais me livraria com prazer. Seria preciso inventar uma técnica de faxina de memórias: uma vez por ano, limpeza das memórias que fazem sofrer. Mas há as memórias que amo. Curioso: nenhuma delas é sobre acontecimentos importantes. São memórias-brinquedo: fico brincando com elas. E isso me faz feliz. Bobagens: a cena de um menino andando a cavalo de madrugada no meio do campo coberto com capim-gordura, o barulho da água caindo no monjolo [...]. Quando eu morrer vão se perder. Mas não quero que se percam. Tenho de dá-las para alguém que tome conta delas. Aí me vem a aflição por escrever. Quando escrevo, estou lutando contra a morte. A morte das coisas que o meu amor ajuntou e vão se perder quanto eu morrer.


_________________________________

[1] Texto extraído de: Rubem Alves. Se eu pudesse viver minha vida novamente... 21. ed. Campinas: Verus, 2010. p. 46-47. [O título "As memórias são o que a alma acumula" não consta no original].

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Deus não serve para nada. E agora?



“Se queremos ser autenticamente cristãos, é preciso chegar a crer que Deus é perfeitamente inútil” [François Varillon].
 
Para que serve Deus? Essa pergunta está na base do sentimento religioso humano. Diante de nossa inalienável condição de desamparo – potencializada, segundo Freud,  a) pela  contingência da natureza,  b) pela finitude e decadência do corpo e c) pelas crises que relações sociais desencadeiam[1] – resta-nos recorrer a Deus, mesmo que ele dê pouco  (ou nenhum) sinal de resposta. O homo religiosus fundamenta sua existência na confiança (ou apenas esperança) de que Deus serve para explicar o desconhecido, atenuar ou reverter a ameaça da natureza, e dar amparo e proteção. Nisso se funda a religião, uma estrutura social[2], cultural, econômica, discursiva universal, tanto no tempo quanto no espaço.

A religião nasceu com o ser humano. O homo sapiens não apenas conseguiu autoconsciência, mas também auterconsciência, das quais nasce a religião. O homo sapiens percebeu que para fora de si existe um mundo desconhecido, contingente, ameaçador; numinoso, por assim dizer. Diante de tanto temor, imediatamente o homo sapiens se torna homo religiosus. Busca explicações para aquilo que desconhece e que o ameaça.

O homo religiosus constrói, então, via discurso e representação social, um ser magnifico, obsconditus, em quem pode depositar seu sentimento de desamparo e temor diante da vida e do mundo. Esse ser que controla tudo pode ser acionado. Restava ao homo religiosus descobrir como fazer isso. Logo desenvolveu os meios para tal. Construiu rituais, os mais diversos. Percebeu que, por meio deles, Deus poderia ser agradado, adulado. Notou que isso faria com que ele se tornasse favorável a quem oficiava os ritos. O adorador garantiria, então, proteção contra os infortúnios e imprevisibilidade da vida.

O homo sapiens não demorou a perceber que, diante de um Deus que se alimenta de rituais, é preciso tratar a agenda litúrgica com responsabilidade. Não se pode esquecer de nenhum ritual; também não se pode fazer o ritual de qualquer jeito. É preciso dedicação e diligência para manter a ordem e excelência das cerimônias. As equações são bastante simples: a) ritos em dia é igual a Deus feliz, aplacado, favorável; b) irresponsabilidade ou falha no culto é igual a Deus irado, furioso. Qualquer vacilo na liturgia pode tornar a situação muito, mas muito, complicada, imprevisível. Deus tem um humor bastante volátil. Basta um erro, e ele já se embebe de fúria e vingança. Um Deus sem adulação, bajulação vira um demônio ensandecido, de tão mal que se torna.

Por isso, os manuais de religião recomendam que, entre todas as atividades da vida, a religiosa seja a mais séria e importante. Nunca se sabe o que Deus pode fazer. Vai que, num determinado dia, ele acorde com a pá virada! Vai que, exatamente nesse dia, alguém se esqueça da porção diária de oração bajulação! Meu Deus! O que será desse sujeito? Tenho medo do que pode acontecer com essa pessoa.

Brincadeiras à parte, pode se dizer que o homo sapiens descobriu (construiu) e legou à sua posteridade um ser que incorpora com perfeição a condição de um superpai protetor e amparador. Um ser que atenua nosso temor frente a um mundo contingente, imponderável, e um ser que, de quebra, ainda se oferece para ser o nosso agente de vingança contra os inimigos.

Em linhas gerais, essa é a essência de nosso sentimento religioso. As práticas brevemente descritas acima estão presentes em toda religião: cristianismo, judaísmo, islamismo etc. O ser humano é religioso porque tem medo e temor daquilo que não conhece; é religioso porque é essencialmente carente, incompleto. Religião é meio para superação, completude, transcendência. Sem religião não há como suportar, significar, transcender a vida.

Quero deixar claro, antes de partir para a pergunta que abre este ensaio, que não pretendo dizer aqui que as práticas cristãs não fazem parte de uma estrutura religiosa. Fazem sim! Vida cristã é vida religiosa. Também não estou dizendo que a religião é irrelevante à experiência humana,  podendo ser superada por quem alcançou o nirvana do saber ou a maturidade intelectual. Absolutamente! Não faço parte do grupo dos que defendem que a religião é uma prática cultural da infância de nossa espécie, que deve ser superada por quem vive na atualidade, já que alcançamos uma suposta maturidade histórica. Defendo uma posição radicalmente oposta. Para mim, a prática religiosa é uma experiência cultural extremamente importante para a vida humana, tanto sob o ponto de vista do enfrentamento das angústias existenciais individuais, quanto sob o ponto de vista da organização social.

Portanto, não tenho a intenção de defender aqui que é possível ser cristão sem estar imerso numa experiência religiosa. Isso seria um contrassenso. Não é meu propósito demonizar a religião em si. O que pretendo é mostrar que a fé cristã, embora ancorado no sentimento religioso, exige um passo à frente, sobretudo, em direção a um Deus inútil. Do contrário, estaremos navegando apenas na superfície da experiência religiosa, algo mais ou menos igual em praticamente todas as religiões, com diferenças rituais irrelevantes.

Para mim, pouco importa se a divindade a quem se pede chuva se chama Zeus, Jeová, Dagon, Baal, Tupã, Jesus, Shiva, Brahma etc. A experiência interior é praticamente a mesma; alteram-se apenas os elementos externos - liturgia e utensílios.

Diferença no ritual não garante condição espiritual, existencial diferente. Logo, o nome do Deus usado para controlar a natureza, ou qualquer outro fenômeno contingente da vida,  pouco importa. De qualquer modo se estará diante de um ritual de magia, visto aqui como um conjunto de procedimentos litúrgicos que visam atrair o favor da divindade ou exorcizar, afastar, sua ira.

Voltemos à nossa pergunta inicial. Para que serve Deus? Qualquer resposta que se dê para essa pergunta, na qual Deus seja visto como útil, provedor, controlador etc., mostrará Deus como um produto religioso, bastante aquém do Deus que se revelou na pessoa do Cristo encarnado.

Não se trata de negar o caráter religioso de Deus, ou da natureza da religião como uma experiência de atenuação da vida, mas de buscar uma experiência que vai além disso. Deus visto como um ser útil, por meio do qual se pode dar um jeitinho na vida, é comum a todas as religiões do mundo. Se pararmos por aqui, não há qualquer razão, além da adequação cultural, para ser cristão.

Ser cristão de verdade implica transcender o sentimento de desamparo diante do mundo e da vida (algo que incessantemente nos compele a buscar um Deus amparador, protetor, controlador). Significa rumar em direção a um Deus que provoca em nós um sentimento de contemplação e uma sede incontrolável de relacionamento. Significa buscar uma fusão com Deus, tendo o Cristo encarnado como referência. Ser cristão é desejar Deus, não precisar de Deus. Quem precisa de Deus para ajeitar questões contingentes (e mal administradas) da vida cotidiana, ainda está vivendo uma experiência religiosa pré-cristã, imatura, um pouco mágica.

Uma das verdades mais complicadas e difíceis de aceitar, com a qual me deparo diariamente, é esta: o Deus da fé cristã não serve para nada. Ele é completamente inútil. Disso decorre meu maior desafio em ser cristão. Reside aí uma das maiores angústias e contradições que enfrento na vida.

Vivo constantemente em contradição. Sei que de Deus nada posso esperar senão amor, amizade, ternura, companheirismo. Sei que é o desejo que deve me mover a Deus, não a expectativa. O Deus cristão – “perfeitamente inútil”, como bem descreve Varillon – se oferece a mim como um amigo, com quem posso me tornar um, enquanto enfrento a vida. O Deus cristão não é um balcão onde posso comprar, por meio de rituais, provimentos para o dia a dia.

Contudo, se alguém do meu lado adoece, logo sou instado (por mim mesmo e pelos outros) a orar para que Deus cure. Se alguém vai fazer uma viagem que envolve algum perigo, lá estou eu orando por proteção. Se o período de estiagem de uma determinada estação se estica além da conta, mais oração para que Deus faça chover.

Não posso ser hipócrita. Confesso que já orei por todos esses motivos. Ainda oro, embora com  desconforto e culpa. Sou contraditório, eu sei. E, pelo jeito, vou continuar sendo. Realmente não sei como resolver esse dilema. Tenho convicção de que, em minha experiência de fé, devo avançar em direção a um Deus amigo, companheiro, diante do qual tudo que posso fazer é contemplar, estar perto, dialogar, abraçar, amar, estar nele e ele em mim. Mas acabo voltando ao Deus que serve para tudo, inclusive para garantir uma vaga no estacionamento enquanto dou a volta no quarteirão. Oro a Deus para que, estando mim, me ajude a enfrentar esse drama, essa contradição.


[1] Para mais detalhes, sugiro a leitura de: Sigmund Freud. O mal-estar na civilização. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Tradução de J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996[1930]. v. 21. p. 84-85.
[2] Utilizo o termo estrutura social aqui conforme desenvolvido por Anthony Giddens, em A constituição da sociedade (3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009) e Norman Fairclough, em Language and globalization (London/New York: Routledge, 2006).