segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Por uma fé ecologicamente engajada


A preocupação com a questão ecológica vem rompendo fronteiras. De um movimento pequeno, formado principalmente por ativistas (ecologistas) independentes e por ONGs nas décadas de 80 e 90, a defesa do meio ambiente passou na atual década a ser um assunto urgente nas agendas dos mais variados setores da sociedade (Estado, Educação, Pesquisa Acadêmica, Comunidade Internacional, Mídia, Religião etc.). Há em nossa sociedade um discurso bastante audível, embora ainda não transformado em plena conscientização, a respeito da necessidade urgente de se racionalizar a intervenção do homem no meio ambiente natural. Toda essa mobilização social (embora ainda um pouco restrita ao discurso) demonstra a pertinência e a necessidade da abordagem e discussão acerca da questão ecológica. Como bem demonstram as teorias do discurso, uma mudança social é resultado de uma mudança discursiva. O discurso interfere decisivamente na configuração de uma sociedade.

A preocupação ecológica chegou tardiamente ao reduto da fé cristã e da reflexão teológica. Embora a ecologia (criação natural) seja um tema patente e central na Bíblia (afinal o Gênesis e o Apocalipse são uma descrição teológica da ação de Deus na história natural, criando e redimindo a natureza), isso não foi suficiente para que a Igreja (por meio da pregação e do profetismo) e a teologia (por meio da reflexão acadêmica) iniciassem esse movimento de defesa da criação de Deus. Mas, apesar de tardia, devemos estar satisfeitos por essa discussão ter chegado à igreja e à teologia, de tal modo que não é mais possível hoje pensar na missão da igreja (existência prática e contextualizada) e na reflexão missiológica, sem um mínimo de preocupação com a administração do que Deus criou e entregou à mordomia (co-participação responsável) humana.

A Igreja e a reflexão teológica latino-americanas têm levantado uma voz bastante audível a respeito da necessidade da construção de uma teologia, que pense a missão da igreja numa perspectiva integral. Encontros (Lausanne, CLADE I, II, III, IV – Congresso Latino-Americano de Evangelização, CBE I, II, III – Congresso Brasileiro de Evangelização), instituições (FTL – Fraternidade Teológica Latino-Americana) e missiólogos (Orlando Costas, René Padilha, Samuel Escobar, Valdir Steuernagel etc.) têm nos apresentado uma nova forma de fazer teologia, partindo tese de que todas as questões que perturbam o homem são pertinentes à ação e proclamação da igreja. Dessa forma, temas como urbanização e ecologia jamais podem faltar à agenda da igreja, já que são questões eminentemente cruciais para o homem de hoje. Segundo a teologia da missão integral é responsabilidade da igreja ocupar-se (tanto na proclamação quanto na ação) de todas as questões que afetam a vida de todo homem e do homem todo.

A questão ecológica constitui um dos mais maiores desafios do homem atual. A igreja jamais poderia se tornar silenciosa diante da ameaça de autodestruição e de destruição da criação de Deus. Poderia a igreja e a reflexão teológica ficarem apáticas frente a uma questão tão importante para a humanidade? Certamente que não! Só o fato de a igreja ser uma instituição sócio-histórica já é suficiente para exigir que ela entre no debate. Porém, existe um motivo ainda mais forte. Mais do que uma exigência social, há um chamado teológico. Deus exige que a igreja se comprometa com todas as questões que afetam a vida humana, incluindo aí a questão ecológica. Mais do que um fundamento sociológico, há um fundamento bíblico-teológico que impõe a necessidade de que a fé cristã seja ecologicamente engajada.

Sostenes Lima
@Limasostenes

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