terça-feira, 23 de maio de 2017

Os perigos de um Estado policialesco comandado por um judiciário sem noção


A divulgação da conversa de Reinaldo de Azevedo com Andrea Neves (http://bzfd.it/2rRx7IP), por parte da PRG, é um flagrante abuso de poder. Perece retaliação.

Eu sei... Reinaldo Azevedo é um jornalista controverso, oportunista; uma pessoa que não inspira qualquer empatia. Inclusive, fez amplo uso político do grampo irregular de Lula e Dilma realizado por Moro em março de 2016.  (http://bit.ly/2qTZzui; http://abr.ai/2reQdwi).

Portanto, segundo a maioria das pessoas que conheço, Azevedo não merece uma linha em sua defesa, em matéria de grampo abusivo. Mas eu não embarco nessa. Sua privacidade pessoal e sua atividade jornalística não podem, em hipótese alguma, ser violadas.

Se não há evidência de crime no diálogo com Andrea Neves, por que interessa à PRG divulgar o áudio e anexá-lo ao inquérito? A situação parece retaliação pelas críticas que Azevedo vem fazendo à operação Lava Jato.

Não custa lembrar que Azevedo se transformou, recentemente, num crítico feroz  do juiz Sérgio Moro (http://abr.ai/2pH7PQ3). A virada aconteceu especialmente depois que os queridinhos da direita (Aécio Neves, Geraldo Alckmin, José Serra) começaram a cair na vala que cavaram para enterrar os petistas.

É uma coisa óbvia, mas precisamos repetir: os direitos individuais precisam ser garantidos independentemente das ideias que as pessoas defendem.

Não gosto de Azevedo, não compartilho suas ideias, mas estou pronto a defender seu direito. A violação de sua privacidade afeta a mim, a você, a todos nós. Estamos começando a perceber os perigos de viver num Estado policialesco, comandado por um judiciário que perdeu a noção de seu papel institucional.

Esse judiciário - viciado em poder e em espetáculo midiático - está assumindo vorazmente prerrogativas que não são suas. E isso é absurdamente perigoso.

Se queremos uma reforma social ampla, não é no judiciário que devemos depositar nossas esperanças e ações. O judiciário não é um poder de gestão e planejamento social. É uma instituição com outro papel sociopolítico.

A instituição responsável por conduzir os rumos de uma sociedade é a política, não o judiciário. Se a política está sendo incapaz de fazer as reformas sociais que desejamos, o que devemos fazer é reformar a própria política, em vez de dar carta branca a procuradores, promotores e juízes.

Devemos nos organizar socialmente e ocupar os espaços da política para de lá procedermos às reformas que queremos. Reformemos a política para, então, reformarmos nossa sociedade!

Não caiamos no engodo de uma proposta de reforma social via judiciário. Isso não vai dar certo! Não transformemos procuradores, promotores e juízes em salvadores da pátria. Eles não são! Se algum deles se vê assim, está errado. A salvação nacional só é possível via ação política.

quarta-feira, 22 de março de 2017

O lobo e a ovelha


Certo dia um lobo, depois de muitas investidas, conseguiu capturar uma ovelha. Com sua presa cravada nos dentes, seguiu alegre sua caminhada, feliz com o tanto de comida que tinha acabado de arranjar. Ao passar por uma linda pastagem, depois de uma longa jornada, o lobo propôs à ovelha:

_ Acho que nós dois podemos nos dar bem. Eu estou com fome, e você também está! Vamos fazer assim: eu deixo você encher a barriga nesse lindo pasto hoje, e logo depois faço a minha refeição. Vou comer apenas uma de suas quatro pernas.

A ovelha, sem ter o que fazer, concordou. Pastou até se fartar, sob a vigilância cuidadosa do lobo. Quando já estava visivelmente saciada, o lobo se aproximou e disse:

_ Agora é a minha vez de comer.

Ele avançou sobre a ovelha e lhe arrancou um quarto dianteiro. Comeu com gosto. Ficou satisfeito. Depois estarem saciados, lobo e ovelha adormeceram.

No dia seguinte, o lobo voltou a falar para a ovelha:

_ Pode pastar à vontade. À noite faço a minha refeição.

A troca de favor entre o lobo e a ovelha se seguiu por alguns dias, até que, no nono dia, o lobo devorou a cabeça da ovelha. Enquanto se preparava para dormir, o lobo se encheu de orgulho de sua generosidade para com a ovelha. Sentiu-se profundamente humanizado por permitir que a ovelha pastasse por todos aqueles dias. Pensou no quanto os outros lobos, que devoram as ovelhas imediatamente após capturá-las, são maus. Em êxtase, por sua profunda bondade, logo adormeceu.

Na manhã seguinte, sentiu que deveria ensinar os outros lobos a serem mais gentis com as ovelhas. Sentiu-se vocacionado a salvar os outros lobos da barbárie. Passou, então, a mostrar para os seus amigos que as ovelhas, antes de serem devoradas por completo, têm direito à alimentação.

domingo, 19 de março de 2017

O sofrimento de pensar


"O ainda não pensado faz-nos mal, pois sentimo-nos bem entre o já pensado".
Jean-François Lyotard [1]


Estamos cercados por uma infinidade de tecnologias que tornam nossa vida cada vez mais confortável. Diariamente aparecem novos dispositivos tecnológicos com o objetivo de dispensar o nosso corpo de realizar alguma atividade ou de, pelo menos, reduzir significativamente o esforço dos nossos músculos.

Até pouco tempo atrás tínhamos que girar uma manivela para fechar os vidros dos nossos carros; agora fazemos isso apenas pressionando um botão. Em breve teremos a opção de fazer isso com um simples comando de voz ou com algum outro comando sonoro, eliminando quase por completo o esforço físico.

A expansão das tecnologias não está atuando apenas no domínio das ações corporais mais concretas. Estamos vendo o surgimento de inúmeros dispositivos que visam também reduzir ou eliminar o esforço da mente. Temos ouvido, com muita frequência, pessoas se queixando de que até algum tempo atrás tinham uma memória melhor. Eram capazes de memorizar uma série de números relacionados a documentos pessoais, telefone, endereços etc. e agora não conseguem mais.

O que aconteceu? Com os dispositivos de memória eletrônica portáteis, passamos a não ter mais necessidade de estimular a memória a registrar certas informações. Sem estímulo (ou sem necessidade) a memória foi ficando preguiçosa. O acesso constante e ilimitado à informação em dispositivos digitais passa à nossa memória o recado de que é um desperdício de esforço memorizar. Por exemplo, não precisamos nos esforçar muito para reter na memória um endereço. Basta dizer ao smartphone Android: “Ok Google... endereço do cinema tal”. Imediatamente teremos acesso ao endereço e ao trajeto.

O exemplo dado acima é, obviamente, bastante prosaico; uma simplificação das coisas. De fato, a expansão das tecnologias digitais de informação e comunicação tem impactos muito mais complexos sobre nós. Elas estão associadas a um novo modo de (não)pensar, isto é, atuam, de forma bastante acentuada, na construção de novos modelos mentais, novas formas de cognição e novas configurações da memória.

Sabemos que a construção de novos conhecimentos implica, necessariamente, algum tipo de desequilíbrio, desconforto, sofrimento intelectual. O já conhecido é o terreno da segurança, do equilíbrio. A familiaridade de um conhecimento nos traz a sensação de estar em casa. Sentimos uma espécie de aconchego cognitivo quando tudo à nossa volta já foi visto e pensado antes.

Já o saber ainda desconhecido gera insegurança, desconforto, desequilíbrio. E, para ser aprendido, requer muito esforço. Em última instância, causa sofrimento. Precisamos primeiramente, superar a desconfiança de falsidade em relação a tudo que é novo. Para se preservar, o que já é conhecido sempre nos diz que o desconhecido tende a ser falso, e até danoso. Precisamos, num primeiro momento, reunir dados para atestar que o conhecimento novo não é necessariamente falso e nem potencialmente prejudicial. Depois de realizada essa primeira tarefa, precisamos exercer um enorme esforço intelectual para moldar um novo esquema de cognição, um novo jeito de pensar.

Embora nem sempre tenhamos consciência disso, o fato é que pensar o novo é, quase sempre, um processo doloroso. Aprender algo novo dói.

Num contexto histórico em que a circulação de informação é precária, os novos conhecimentos tendem a ser mais escassos e valiosos. Em situações assim, tendemos a impor à nossa mente, apesar da dor, a obrigação de adquirir todos os novos conhecimentos aos quais podemos ter acesso. Isso significa que, quando estamos diante de um conhecimento escasso – por conseguinte bastante valioso –, não poupamos esforços para adquiri-lo.

Pensemos agora num contexto inverso, em que as informações circulam abundantemente, com pouquíssimas restrições de acesso. Nesse contexto, os novos conhecimentos, dada a abundância de acesso, tendem a ser menos valiosos. O esforço para adquiri-los passa a ser desproporcional em relação ao valor. Dito de modo mais simples: não vale a pena sofrer tanto para aprender algo que está disponível na tela de qualquer smartphone.

O primeiro contexto descrito acima retrata a cultura do papel, do impresso, do analógico. As informações circulavam de forma limitada. Estavam atreladas à fixidez do tempo e do espaço. O segundo contexto retrata a atual cultura da tela, do virtual, do digital. As informações são onipresentes. Estão ao alcance de todos, em quaisquer tempos e espaços.

Vivemos, portanto, num contexto em que os dispositivos digitais portáteis nos fornecem, conforme as necessidades de momento, o acesso a qualquer tipo de saber.

Uma questão importante a ser assinalada é que nesse cenário, o conhecimento novo é tratado, dado a ampla possibilidade de acesso, como conhecimento velho. Se está disponível a todos, então não é novo. Temos aqui uma situação curiosa. O acesso ao conhecimento novo passa a assumir o lugar da aquisição. Ou seja, num cenário de ampla circulação de informação, não precisamos mais aprender; precisamos apenas ter possibilidade de acesso.

Como se nota, a onipresença das informações está afetando drasticamente o nosso modo de lidar com o pensamento novo. Não temos mais necessidade de pensar o que ainda não foi pensado. Não precisamos mais nos submeter ao sofrimento implicado no ato de conhecer. Se eventualmente tivermos necessidade de algo novo, podemos acessar os nossos smartphones e pedir que eles pensem por nós, que falem por nós. Enfim, estamos livres da dor de pensar, do sofrimento de aprender. Como diz Lyotard, em tom provocador, “o sofrimento não tem boa reputação na megalópole tecnologista. Sobretudo o sofrimento de pensar” [2].

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[1] LYOTARD, Jean-François. O inumano: considerações sobre o tempo. 2. ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1997, p. 28.
[2] LYOTARD, Jean-François. O inumano: considerações sobre o tempo. 2. ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1997, p. 28.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Fazer amor com as palavras


Sou aficionado pelas palavras. Para mim, elas encerram toda a beleza do universo. Elas são a memória do mundo; são responsáveis por nos fazer humanos; são a nossa matéria estética mais formidável.

As palavras me interessam não apenas porque são matéria da poesia. Elas também me interessam porque são objetos da vida cotidiana, meios que usamos para significar e para representar o mundo. Me interesso em observar o modo como elas constroem o nosso dia a dia, a nossa política, o nosso mundo acadêmico etc.

Gasto grande parte do meu tempo estudando o modo como as palavras se organizam para formar textos, especialmente os textos escritos. E, dentro do universo da escrita, há uma questão que me traz um fascínio particular. Trata-se do estilo textual.

Adoro estudar os estilos de escrita; adoro ler textos de qualidade. Me esforço ao extremo para produzir textos que ofereçam ao leitor uma experiência de prazer com as palavras. Sei que esse é um objetivo difícil de ser alcançado. Mas já me dou por satisfeito quando o leitor chega às últimas linhas de um artigo sem se aborrecer com a minha escrita.

Neste texto, quero fazer um breve comentário sobre estilo textual na escrita acadêmica.

Parto do pressuposto de que a preocupação com o estilo de um texto deve vir depois da preocupação com o conteúdo. Só textos de qualidade (com conteúdo relevante) podem ser bem ou mal escritos. Textos fracos são necessariamente mal escritos. Não há estilo que compense a falta de ideias.

No ambiente acadêmico, encontramos uma infinidade de textos de qualidade (com conteúdo relevante) mal escritos. Há textos acadêmicos que leio porque preciso. O estilo me aborrece, mas acabo tendo que ler até o final porque o conteúdo é importante para mim.

Sei que muitas pessoas não dão a mínima importância para a forma do texto. Leem o que têm que ler e pronto; escrevem o que têm que escrever e pronto. Eu não sou assim. Encaro a escrita e a leitura como atividades funcionais e estéticas. Um texto pode ser tanto um objeto funcional (que atende a uma necessidade) quanto um objeto estético (que dá prazer).

Ao ler um texto acadêmico, busco suprir a necessidade de um conhecimento específico. Mas busco também ter uma experiência de prazer com as palavras. Se o texto, mesmo sendo útil, não me dá prazer, chego ao fim da leitura com certo aborrecimento e tédio.

Recentemente me deparei com um livro que pode ser qualificado como um texto meramente funcional. Ironicamente o livro trata do ensino de escrita. Durante a leitura, não pude evitar alguns momentos de tédio e aborrecimento. As palavras são simplesmente jogadas no texto:

Cabe também aqui citar Ilari, que em seu texto “Algumas opções do professor de português no segundo grau”, tratando da questão de que, “frequentemente, as perplexidades do professor tomam a forma de alternativas sobre o que ensinar”, por exemplo, língua escrita ou língua falada (entre outras coisas, como língua ou literatura, gramática ou prática de expressão, etc.), lembra que, na realidade, o aluno não domina completamente a língua falada ao ingressar no segundo grau. Em outras palavras, o problema de se ensinar a língua escrita é muito mais complicado do que simplesmente passar para os alunos técnicas que lhes permitam registrar por escrito as mesmas produções verbais de que se mostram capazes de falar[1].

Nesse trecho, as palavras são usadas com utilitarismo e frieza. São tratadas como meros objetos que dizem alguma coisa. Não há afeto, não há carinho.

O interessante é que o/a próprio/a autor/a tem certa consciência de que as palavras estão sendo fustigadas. Depois de amontoar 74 palavras num período sofrível, o/a autor/a começa o período seguinte com a fórmula “Em outras palavras”. Essa fórmula denota um mea-culpa. É como se o/a autor/a estivesse dizendo: “O período anterior está bastante hostil, mas posso torná-lo mais amigável”.

“Ler é fazer amor com as palavras”, nos ensina Rubem Alves. Mas só podemos fazer amor com as palavras enquanto lemos, se o texto tiver sido gerado num grande encontro de amor. É preciso que o escritor faça amor com as palavras antes do leitor. Quando o texto é produzido sem afeto, o leitor é impedido de ter uma experiência de prazer com as palavras.

@Limasostenes 
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[1] Por uma questão de ética e elegância, resolvi omitir a referência do texto.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Outros Eus continuam nascendo da carne




Hoje perdemos Ferreira Gullar.

Ele era o nosso último grande poeta vivo. Para mim, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar e João Cabral de Melo Neto são, nesta ordem, os maiores poetas brasileiros.

Há, entre os poemas de Gullar, um que me toca mais profundamente. É “O Duplo”.

O DUPLO
Foi-se formando
a meu lado
um outro

que é mais Gullar do que eu
que se apossou do que vi
do que fiz
do que era meu

e pelo país
flutua
livre da morte
e do morto
pelas ruas da cidade
vejo-o passar
com meu rosto

mas sem o peso
do corpo
que sou eu
culpado e pouco

[Ferreira Gullar. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010. p. 38]

Esse poema desnuda a relação tensa do Eu com a memória, com a história e com o corpo. O Eu se mantém, mas não pode se manter idêntico a si mesmo. Há que se dividir.

A história, a memória e o corpo, inevitavelmente, clivam e multiplicam o Eu. Em desespero, o Eu se põe a buscar no corpo fragmentos remanescentes de si, que lhe garantam a autenticidade e a unidade. Aos poucos, o Eu percebe, em profunda angústia, que até mesmo o corpo de lhe trai. Outros Eus continuam nascendo da carne.

Em “O duplo”, vemos o Eu Gullar espreitando, de forma enciumada e ressentida, seu duplo que segue livremente a vida que a história lhe concede.

Hoje o Gullar que espreita se foi. Mas não ficamos sem ninguém.

Livre da morte e da vigilância, o outro Gullar se apresenta a nós sem reservas. Nos dedica, em poemas, uma vida e uma memória imortal. Suas palavras nos oferecem, indistintamente, a companhia arrebatadora de Gullar e de seu duplo.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Não há pensamento progressista em matéria de língua

Me impressiona o fato de que o pensamento progressista simplesmente morre quando o assunto é língua. 

Em matéria de variação e mudança linguística, o pensamento de esquerda se comporta de modo tão conservador quanto o pensamento de direita. Ainda tratamos esse tema com o ranço da colonialidade, do elitismo e da tradição, independentemente de nossa filiação ideológica. 


Antônio Luiz M. C. Costa apresenta a imagem de um suposto mapa dialetal do Brasil e faz o seguinte comentário:

“Mapeando os dialetos do Brasil. No fim das contas, sulistas falam mais "errado" e nordestinos têm a fala mais próxima do português padrão”.

O pensamento expresso no tuíte vem do senso comum. Esse tipo de avaliação (ideológica) não tem amparo na Linguística. As pesquisas sociolinguísticas e dialetológicas jamais colocam a “língua padrão” como uma medida de julgamento. Nenhum linguista adotaria “português padrão” como um instrumento aferidor da legitimidade de outra forma linguística.

Dizer que o português do Nordeste é mais próximo do português padrão serve exatamente a um fim contrário. Constitui uma operação ideológica que, em vez de empoderar a periferia, faz é fortalecer e legitimar ainda mais o centro.

O que é uma “língua padrão” senão um recorte hegemônico da língua, um conjunto de formas usadas e difundidas pelas elites? Que absurdo! Para contestar a representação de periferia de um grupo social utilizamos como medida exatamente à língua do centro.

Não podemos resolver um problema de preconceito invocando outro preconceito. Não podemos combater nossa “xenofobia” interna, especialmente aquela dirigida ao povo do Nordeste, usando um instrumento ideológico.

Seguindo o raciocínio de Antonio Luiz M.C. Costa chegaríamos à seguinte proposição:

O preconceito à fala nordestina é infundado, já que o português do Nordeste é o que mais se aproxima do português padrão, a língua da elite.

Tenho certeza de que nenhuma pessoa realmente progressista concordaria com essa proposição. Portanto, penso ser necessário difundir no pensamento de esquerda e no pensamento progressista uma nova concepção de língua.

Quem coloca a “língua padrão” como referência acaba legitimando a divisão de classe operada na/pela língua. O padrão de medida de uma língua é própria língua em uso, isto é, a língua efetivamente falada pelo povo.

É essa língua que é a referência de uso, não "língua" prescrita em gramáticas normativas e outros instrumentos de poder. É bom lembrar que as elites sempre usaram a prescrição de uma língua ideal como instrumento de dominação e exclusão. Disso resultam vários mitos linguísticos, reproduzidos por quase todos falantes maternos do português brasileiro, entre os quais destaco: "Eu não sei falar português" e "Português é muito difícil". Marcos Bagno faz, em "O preconceito linguístico", uma análise instigante dos mitos linguísticos que estão presentes no imaginário brasileiro. Sugiro muito a leitura do livro.

Embora disponha de muito poder simbólico, as elites quase sempre perdem a batalha linguística. Essa é a notícia boa. No final das contas, quase sempre as formas linguísticas valorizadas pelas elites cedem lugar à língua do povo.

Ou seja, falamos português porque as forças sociais (das elites) que prescreviam o latim não conseguiram vencer a língua do povo.

Falamos português brasileiro, não português de Portugal. E só falamos português brasileiro porque o pensamento colonizado e colonizador (típico de nossa elite vira-lata) não conseguiu vencer a língua do povo.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Seremos resgatados da distopia política?


Desde o dia 1º de janeiro de 2015, boa parte d@s cidadã@s brasileir@s já estava ciente de que a atual composição do Congresso Nacional é, de longe, a pior legislatura que o Brasil já elegeu. Não esperávamos grandes coisas de um parlamento liderado por Eduardo Cunha (Câmara Federal) e Renan Calheiros (Senado Federal).

Contudo, mesmo cientes de que a 55ª legislatura brasileira havia reunido uma plêiade respeitável de canalhas, ainda nos iludíamos com a ideia de que havia ali algum lampejo de civilidade e responsabilidade política. Mantínhamos a crença de que os partidos eram sim diferentes (tanto em termos ideológicos quanto éticos).

Por convicção política e por uma relutante utopia, rechaçávamos veementemente a possibilidade de embarcar na onda do “é tudo farinha do mesmo saco”. Recusávamos admitir que a classe política não passa de uma mistura homogênea de resíduos sociais.

De repente, nossas esperanças e utopias feneceram. Em agonia, sentimos morrer os últimos suspiros de confiança que tínhamos na política e na classe política.

Em 2016, nós, @s eleitor@s esperançosos, tivemos que encarar um calvário de desilusões. Diante de tanto flagelo, não conseguimos prolongar nossa via crucis. Chegamos ao limite. Aquela corja de escroques que dá expediente (esporádico) no Congresso Nacional roubou nossas últimas gotas de esperanças. Agora, não conseguimos acreditar em mais nada. As evidências de canalhice corporativa mataram nossas utopias.

Neste ano de 2016, o Congresso Nacional nos expôs incessantemente ao horror. Aquela encenação apavorante do dia 17 de abril de 2016, que abriu as portas para o golpe, nos mostrou o quanto as vísceras do nosso parlamento são feias e fedorentas.

O ano prosseguiu e os sucessivos flagelos continuaram.

Agora, quase no fechamento do ano de 2016, fomos finalmente levados ao abate. Relutamos muito. Mas não deu. O escárnio venceu a utopia. A canalhice dos parlamentares espezinhou todas as nossas esperanças, das mais fortes às mais frágeis.

Ingenuamente, mantínhamos viva a crença (só por fé isso permanecia possível!) de que partidos como PP (um dos sucedâneos da Arena) e o PCdoB são diferentes. A última votação na câmara (que aprovou o texto-base do projeto de lei que incorpora o suposto pacote de medidas “anticorrupção”) escancarou o óbvio. “Todos são farinha do mesmo saco”.

Esse ano serviu para destroçar o conceito de democracia representativa. Num show midiático incessante, fomos levados a visitar diariamente nossa maior casa legislativa, a suposta casa do povo. Não gostamos do que vimos.

Não tivemos mais força para sustentar a fé política. Não conseguimos manter a crença no Congresso Nacional como a casa do povo, como uma casa legislativa que teria sua razão de ser e de agir centrada nos interesses públicos. 

Vimos que o Congresso Nacional é, na verdade, uma casa legislativa privativa, um clube de negócios de 594 (513 deputad@s e 81 senadores) aproveitador@s da pior estirpe, um bando de canalhas que submete o Estado aos próprios caprichos.

Realmente o ano de 2016 foi medonho, muito além do que poderíamos suportar. Resta-nos, neste último mês de um ano que insiste em não acabar, remoer a morte de nossas utopias e lamber nossas feridas.

O que virá depois? Seremos resgatados desse mundo distópico? Voltaremos a ter fé na política? Voltaremos a acreditar no Congresso Nacional? Voltaremos a ver aquela instituição como a casa do povo? Voltaremos a crer que há diferença entre os partidos? Voltaremos a ter utopias?

Não sei! São tantas perguntas...

Só a história poderá dizer como sairemos desse período de trevas (se é que sairemos!).

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O que é o curso de Letras?



Frequentemente, algumas pessoas me perguntam sobre a natureza do curso de Letras. Em razão disso, resolvi escrever uma série de textos sobre o assunto. Pretendo, assim, apresentar algumas informações que poderão ajudar as pessoas interessadas em conhecer melhor o nosso curso.  Começo essa série respondendo duas perguntas muito comuns.

a) O curso de Letras é um curso de gramática?

Não. Muita gente pensa que estudar Letras é equivalente a estudar gramática. Não é! Estudamos gramática sim, mas isso não compreende a totalidade do curso. Estudamos muitas outras coisas.

Para ser mais exato, o estudo de normas gramaticais nem é o foco do curso. Em termos de estudo linguístico, o nosso foco é o estudo da língua enquanto atividade social carregada de heterogeneidade, inovação, luta, ideologia etc. como qualquer outra prática social. E fazemos esse estudo a partir do método científico. Isso significa dizer que tratamos a língua como ela se manifesta socialmente sem qualquer julgamento.

Não estudamos a língua a partir de fundamentos morais e ideológicos, do tipo certo e errado. Um linguista não é um estilista da língua. Nosso papel não consiste em classificar as formas da língua em certas e erradas; consiste, prioritariamente, em investigar a língua como um fato social, observando-a em todas as suas dimensões e manifestações.  

b) O curso de Letras ensina a “escrever bem”?

Essa é uma pergunta que não dá pra responder com apenas “sim” ou “não”. Primeiramente porque não é fácil definir o que é “escrever bem”. Para uma boa parte das pessoas “escrever bem” é simplesmente “produzir um texto de forma clara, coesa e coerente”. Se tomarmos essa definição como referência, temos de reconhecer que a atribuição de ensinar a “escrever bem” é da Educação Básica, não de qualquer curso do Ensino Superior.

Nessa perspectiva, partimos da tese de que todas as pessoas que concluíram a Educação Básica, depois de 12 anos de aula de português, “escrevem bem”. Se isso não acontece é porque nossa Educação Básica deve estar com algum problema (e, de fato, está!), e as aulas de Língua Portuguesa não estão funcionando como deveriam.

Bom, voltando o nosso foco para o curso de Letras, o que posso dizer sobre o tema “escrever bem”, dentro dessa primeira acepção, é que o curso de licenciatura em Letras tem como principal objetivo a formação de professores/as de língua. Portanto, tem a responsabilidade de formar um/a professor/a que maneja bem a escrita para que este tenha plenas condições de ensinar a “boa escrita” às/aos alunas/os da Educação Básica. Nesse sentido, ao ingressar no curso de Letras, a/o estudante, na condição de professor/a em formação, assume a responsabilidade moral de aprender a “escrever bem” para ter condições de ensinar a “escrever bem”.

Mas a definição apresentada acima não é a única para “escrever bem”. Devemos pensar numa definição mais abrangente, segundo a qual “escrever bem” vai além da atividade elementar de produzir um texto meramente pragmático.  Seguindo essa proposta, podemos definir “escrever bem” como a arte de explorar, com leveza e precisão, as potencialidades das palavras. Assim, “escrever bem” é construir um texto sublime, que cause no leitor uma experiência arrebatadora e memorável. Nesse sentido, quem “escreve bem” escreve com a alma do leitor, pensando no conforto e prazer que quer lhe causar. E esse “escrever bem” não se aplica apenas à produção da arte com palavras. Podemos (e devemos) escrever um relatório técnico com arte e estilo.

Como dito, trabalhamos com a linguagem em suas múltiplas dimensões, incluindo aí, obviamente, a dimensão estética (não a dimensão moral, que classifica o certo e o errado). Portanto, podemos dizer que o curso de Letras contribui sim para a formação de um bom “escritor”.

Aguardo pergunta dos/as leitores/as para a produção de novos textos da série.

sábado, 28 de maio de 2016

Que parte do horror mundo me causa horror?


Toda pessoa vive em função de determinadas causas, agendas, fins, objetivos. Constrói sua identidade em torno disso.

Nossa vida social, política e cultural se desenvolve num mundo ambíguo. Por um lado, nos deparamos com um mundo familiar, um cenário aprazível de viver. Por outro, damos de cara com um mundo igualmente medonho, feio, estarrecedor, contra o qual nos sentimos impelidos a lutar.

Vivemos nossa experiência sociocultural e política numa espécie de fronteira, num ponto de interseção entre a acomodação e a inadequação. Nos sentimos em casa, acomodados em um grupo social organizado, do qual extraímos parte de nossa identidade. Mas, de forma dramática, sentimos também pertencer a um grupo que nos assusta, que nos causa repugnância.

É dessa experiência de estranhamento e horror que deriva a maior parte das nossas causas de vida, questões pelas quais estamos dispostos a lutar (morrer não!). Recorrentemente entramos em contanto com um mundo horroroso que precisa mudar. Sentimos que esse mundo está muito distante de nosso ideal de sociedade. Daí elegemos as trincheiras em que atuaremos.

Noutra época, as pessoas empenhavam até a vida pelas suas causas. Com o fim das utopias, a coisa ficou mais branda. Atualmente, a maior parte de nós faz apenas militância digital nas redes sociais. E, no máximo, colocamos amizades em risco.

Bom, mas o fato é que, mesmo com a morte das utopias, as pessoas continuam elegendo causas pelas quais devem lutar. Isso é parte indispensável de nossa vida política; parte indispensável da constituição de nossa identidade social e pessoal.

Diz a sabedoria popular que as causas definem as pessoas. E é verdade. As causas pelas quais lutamos é parte fundamental de nossa identidade. Somos quem somos porque nos identificamos com um ideal de mundo e lutamos por isso. Cada pessoa, em função de sua narrativa de vida, tem certas indignações com o mundo. Tem certas esperanças, utopias e desejos.

Obviamente, as causas são diversificadas. Lutamos por algumas coisas, não por todas. Só uma parte do horror do mundo nos causa tamanha revolta a ponto de arrancar de nós um post, um textão. E essa seleção de causas acontece por uma razão bem simples: as histórias de vida e as identidades pessoais são diversificadas; nos construímos na tensão entre a igualdade e a diferença.

Por isso é muito mais importante buscar a base de nossa identidade nas causas que nos atraem do que nas outras causas. Devemos ser identificados sobretudo com o mundo que estamos lutando para construir.

É verdade que há muitos mundos que precisam ser construídos. Mas, por uma questão de trajetória de vida, escolhemos um desses mundos para fazer parte da nossa agenda social e política.

Penso ser importante ressaltar uma vez mais: a identidade de cada pessoa está associada à percepção de apenas uma faceta do horror do mundo. Nenhuma pessoa tem condições de desenvolver uma percepção plena de todo horror que circunda a vida humana; muito menos ainda de se engajar em todas as lutas sociais.

Em tempos de muita militância digital e acusações constantes, precisamos aprender a conviver com a diversidade de causas, de lutas, de agendas. O fato de alguém se envolver numa determinada causa não quer dizer que outras causas sejam banais. Não, absolutamente não! Quer dizer apenas que para essa pessoa a causa pela qual luta é a sua causa.

Vivemos tempos de intolerância generalizada, incluindo a intolerância com as causas uns dos outros. Chegamos ao ponto extremo de ver duas pessoas lutarem por causas igualmente justas e relevantes considerarem uma à outra apática, alienada, conformada. Isso pela simples razão de não compartilharem a mesma luta.

Vivemos no planeta da barbárie. É bom que as causas sejam diversificadas. Assim há possibilidade de atacarmos a barbárie em várias frentes. Várias são as causas pelas quais lutar: direitos da mulher, direitos de refugiados, direitos do pobre, direitos do negro, direitos da criança, direitos à diversidade sexual, direito à liberdade, direito à diversidade religiosa, fim da cultura do estupro, fim do trabalho escravo, fim da colonização, etc. etc.

Repito: nenhuma pessoa aglutina todas as causas. 

Quando aceitamos que as nossas lutas não são as únicas lutas, criamos maiores oportunidades de cooperação. Ao complementar as lutas uns dos outros aceleramos a construção de um mundo melhor.

Para mim não faz o menor sentido a seguinte acusação: “Fica completamente indignado contra a violência da polícia. Quero ver a mesma indignação contra o trabalho escravo”.

Não podemos cair na intolerância das causas. Um grupo luta contra a violência da polícia. Outro grupo luta contra o trabalho escravo. Ambos os grupos se complementam na luta pela construção de um mundo melhor.

A exigência de que alguém se envolva com a mesma intensidade em todas as causas humanas é absurda e intolerante. O importante é que cada um se engaje em pelo menos uma luta social, que haja pelo menos uma parte do horror do mundo nos tire da inércia.

Devemos estar abertos à indignação. Devemos nos perguntar constantemente: “Que parte do horror do mundo me causa horror?” Cada um encontrará sua própria reposta. Não temos o direito de pautar a vida e as lutas uns dos outros. Devemos aprender a conviver com o fato de que as causas que fazem parte da nossa agenda não são as mesmas que fazem parte da agenda do outro.





quinta-feira, 21 de abril de 2016

Alfabetização política já!


Esse momento de crise na política brasileira não tem apenas um lado ruim. Existe um lado bom. Temos, finalmente, a oportunidade de sair da idade das trevas em termos de consciência política.

Hoje em dia as pessoas estão politicamente inflamadas, com desejo de dar opinião, de participar do processo. E isso é maravilhoso. Traz esperança.

Esse ímpeto de engajamento abre uma excelente oportunidade para, finalmente, começarmos a realizar nossa tão necessária alfabetização política.

Com esse desejo de participação em alta, podemos mostrar como funciona certos aspectos do nosso ordenamento político que, em geral, são completamente ignorados pel@s eleitor@s.

Por exemplo, são pouc@s @s eleitor@s que levam a sério o partido na hora de votar para cargos no legislativo. Está aí um dos nossos primeiros erros. E isso acontece, em grande parte, porque desconhecemos o papel que os partidos têm no processo político.

Atualmente, temos registrado no TSE nada menos do que 35 partidos, a maioria dos quais sem representatividade, sem base social e (o que é mais grave) sem qualquer identificação ideológica.

No dia 17 de abril, nós, povo brasileiro, tivemos o desprazer de ver nossa imagem espelhada na Câmara Federal. Todo brasileiro minimamente educado sentiu muita vergonha do que viu. A maior parte d@s noss@s deputad@s é uma infâmia, uma abjeção.

Temos um número enorme de deputad@s ligado a partidos fisiológicos, isto é, sem lastro social, sem consistência ideológica e abertos a apoiar a força política que oferece mais vantagem.

Precisamos urgentemente compreender o modo como @s polític@s se relacionam com os partidos. Penso que esse é o caminho mais interessante para começarmos a mudar esse quadro de vergonha.

Não podemos votar em candidat@s de partidos fisiológicos. Esses polític@s, quando eleit@s, se vendem para a força política (governo, oposição, bancada tal, bancada tal etc.) mais conveniente, mais rentável pra el@, tanto do ponto de vista eleitoral quanto do ponto de vista econômico. Um@ polític@ com esse perfil partidário dificilmente atua em defesa dos interesses de seus/suas eleitor@s.

Bom, levando esse raciocínio a diante, chegamos à seguinte constatação: votar em candidat@s de qualquer um dos partidos listados a seguir não é, em hipótese alguma, uma boa ação para o Brasil:

PMB (35)
PMDB (15)
PTB (14)
PTC (36)
PSC (20)
PMN (33) 
PRP (44)
PRTB (28)
PHS (31)
PP (11)
PR (22)
PSD (55)
PSDC (27)
PTN (19)
PSL (17)
PRB (10)
PPL (54)
PROS (90)
SD (77)

Digo isso porque esses partidos, em geral, não têm base social, nem bandeira ideológica. São meras legendas de aluguel. Seus parlamentares são, na grande maioria, vendáveis.

O PMDB, PTB e PP, embora sejam partidos com razoável quantidade de parlamentares no congresso, têm um logo e infame histórico de governismo, isto é, sempre fazem parte da base aliada do governo vigente, independentemente do espectro ideológico do partido que esteja governando.

Comecemos urgentemente nosso processo de alfabetização política.

Neste ano de eleições municipais, temos uma ótima oportunidade de começar a mudar a cara das nossas casas legislativas.

Nas próximas eleições, quando algum candidat@ a vereador@ vier lhe pedir voto, sugiro que você faça as seguintes perguntas:

a) Desde quando @ senhor@ está neste partido?
b) Por que @ senhor@ está neste partido?
b) Por que @ senhor@ mudou de partido novamente? (Caso @ candidat@ tenha mudando de partido da última eleição para cá).
c) Caso ganhe, @ senhor@ fará parte de qual força política (governo, oposição, bancada tal)?

Preste bem a atenção nas respostas que @ canditad@ dará. Aposto que el@ vai ficar desconcertado.

Vamos lutar por um Brasil diferente. Entendamos que a relação que um político tem com o sistema partidário é, talvez, a maneira fácil de conhecer seu caráter.

Reflita comigo.

Uma pessoa que muda de partido a cada eleição não tem outra razão para fazer isso a não ser encontrar um caminho mais fácil para chegar ao poder. Essa pessoa é confiável?

Uma pessoa que está num partido que não tem qualquer base social e/ou identificação ideológica tem exatamente a mesma cara do partido. Essa pessoa é confiável?

Comecemos já nossa longa e necessária jornada de alfabetização política.